Shiver

3 Capítulo 3


Selena acordou com o sol brilhando através da janela. Ela se virou embaixo dos cobertores, aproveitando o calor – por mais fraco que fosse – por alguns momentos, e então se lembrou. Sentou-se na cama, afastando os cabelos da testa com uma mão e tentando processar o que acontecera no dia anterior.

Ela franziu a testa, mordeu o lábio, e sorriu. Escolheu um vestido escuro bonito, porém antigo, que ficava justo contra sua cintura e seus seios, separou com cuidado duas mechas de seu cabelo e prendeu em uma trança atrás da cabeça, ajeitou seu colar de prata.

Quando saiu do quarto, encontrou Garrow sentado à mesa da cozinha, uma caneca de chá quente nas mãos. Ele tinha os mesmos olhos e cabelos castanhos que Selena, e ergueu as sobrancelhas ao vê-la. “Não acha que está arrumada demais para quem vai passar o dia em casa?”

“Não vou passar o dia em casa,” Selena respondeu, sorrindo.

“Vai, sim. O Pai me disse para não te deixar sair.” Garrow tomou um gole de chá. “Ele quer conversar com você. Algo sobre ter discutido com Eron em público e ele ter te deixado sozinha na taverna?”

Selena revirou os olhos. “Não pude evitar discutir com Eron.” Ela encolheu os ombros. “Posso explicar tudo ao Papai mais tarde, mas realmente preciso sair hoje.”

“Realmente não posso te deixar.”

Selena o ignorou.

“Minha trança está boa?” perguntou, se virando de costas para ele. “Pode arrumar pra mim?”

Ela abaixou a cabeça enquanto sentia a sensação familiar de seu irmão mexendo em seu penteado, e conteve um sorriso. “Mamãe iria querer que você me deixasse ir, você sabe.”

Selena não precisa olhar para saber que Garrow balançava a cabeça. “Sim, e seria irresponsável da parte dela.”

“É bom ser irresponsável às vezes.”

“Tenho que discordar,” Garrow replicou, puxando uma mecha do cabelo de Selena. “Quem você vai encontrar?”

“Está perguntando porque vai me deixar ir?”

“Não.” Garrow soltou a trança. “Pronto.”

Ela se voltou para ele.

“Um mercador,” disse, testando o irmão.

“Lena...”

“Garrow, você sabe quanto eu amo conversar com eles! Me deixe aproveitar o tempo a mais que eles passarão aqui desta vez.” Ela hesitou. “Por favor.”

Os olhos castanhos de Garrow encontraram os dela enquanto ele pensava, até que ele finalmente assentiu. “Não faça nada estúpido.”

Selena não pôde evitar sorrir. “Nunca.”

“E se o Pai perguntar, você saiu escondida.”

“Com certeza.” Ela mordeu o lábio, então puxou Garrow para um abraço. “Obrigada.”

Ele só riu. “Não me faça me arrepender.”

“Não vou,” Selena prometeu.

Ela vestiu a capa ao sair de casa, dando mais um sorriso para o irmão. O céu estava nublado e cinzento e as ruas cobertas de neve, e Selena precisou levantar o capuz e abaixar a cabeça para se proteger do vento frio. Avistou vários mercadores no caminho e, tal qual no dia anterior, muitos deles pareciam preocupados, conversando de testas franzidas em grupos pequenos de duas ou três pessoas.

Quando Selena chegou à taverna, o ar lá dentro estava ainda mais pesado que o normal com a fumaça das velas de gordura, e ela não pode evitar franzir o nariz. Ela olhou em volta e encontrou Morzan de pé junto ao balcão, conversando com o mesmo homem do dia anterior. Ele encontrou seu olhar e inclinou levemente a cabeça em sua direção, mas não interrompeu sua conversa.

Selena se aproximou, hesitante, e ele a examinou dos pés à cabeça enquanto ela andava. Ela se sentiu estranhamente vulnerável sob seu olhar, mas não era uma sensação de todo ruim, e se empenhou para estudá-lo de volta. Morzan usava botas de couro, calças pretas, uma camisa vermelha decorada com padrões dourados, e ainda tinha o anel de rubi no dedo anular da mão esquerda.

O homem com quem ele falava parecia um pouco mais velho – deveria ter uns quarenta anos – e tinha alguns fios brancos em meio aos cabelos castanhos. Ele usava roupas bastante comuns, mas era impossível ignorar a espada presa a seu cinto. Ele observou Selena com olhos verdes claros e atentos por alguns instantes antes de voltar a atenção à Morzan.

Foi só quando ela parou diante deles que Morzan sorriu.

“Você veio.”

Selena franziu a testa. “Não deveria ter vindo?”

“Estava esperando que você fosse chegar mais cedo.”

“Precisei de um tempo para convencer meu irmão a me deixar vir,” Selena explicou. “E não recebi instruções mais precisas do que ‘de manhã’ sobre o horário que deveria chegar aqui.”

Os olhos de Morzan brilharam, mas o homem ao seu lado desaprovou.

“Você deveria ter chegado antes aqui e esperado por nós, garota, não o contrário.”

“Bem, eu...” Selena ficou na dúvida sobre o quê dizer, então se voltou para Morzan. “Sinto muito.”

“Não se preocupe com isso.” Ele sorriu. “Jaime só não está acostumado a me ver esperando por alguém. Além do rei, é claro.”

“E os resto dos Treze,” Jaime acrescentou em voz baixa.

Morzan inclinou a cabeça em concordância, erguendo as sobrancelhas, resignado.

“Jaime é o capitão da minha guarda,” explicou. “Em Urû’baen.”

“Ah.” Selena hesitou. “É um prazer.”

“Tenho certeza que sim,” Jaime respondeu, embora seus olhos denunciassem a mentira.

Selena cruzou os braços, desconfortável. “Bem, estou aqui agora. Você disse que precisava de ajuda com algo?”

“Sim.” Morzan se voltou para Jaime. “Deixe-nos.”

Jaime inclinou a cabeça respeitosamente. “Senhor.”

Selena observou enquanto ele atravessava a taverna ainda vazia, a espada em sua cintura atraindo olhares desconfiados dos poucos aldeões presentes. Foi só quando Jaime saiu para a rua que ela disse a Morzan, “Ele não gostou de mim.”

Ele riu. “O ignore.”

Selena assentiu devagar, e perguntou, “Do que você precisa?”

“Um colar.” Morzan puxou de dentro do saquinho de veludo preso ao seu cinto um pequeno pedaço de pergaminho enrolado e ofereceu a Selena. “Parece familiar para você?”

Ela o desenrolou com cuidado e viu, desenhado em carvão, o retrato de uma mulher idosa. Ela usava uma tiara simples na cabeça, e o pouco que era visível de suas roupas mostrava vestimentas elaboradas. “Quem é essa?”

“Ninguém importante. Você não reconheceria o nome de qualquer jeito.” Morzan bateu com o indicador no centro do desenho. “É pelo colar que estou buscando.”

Selena franziu a testa e estudou a joia com mais atenção. O foco do retrato certamente não era o colar, mas ela achava que reconhecia a pedra grande e as correntes pesadas. “Eu acho...”

“Sim?”

“Acho que já o vi antes, sim.” Ela ergueu os olhos para Morzan. “Posso perguntar e mostrar isso a alguém?”

Morzan encostou-se ao balcão. “Sinta-se livre.”

Selena podia senti-lo a observando enquanto ela olhava em volta, procurando por alguém que pudesse responder. Finalmente chamou Morn, que servia chá quente a dois mercadores, e mostrou o desenho a ele. “Não parece o colar que Gertrude vendeu dois anos atrás?”

Morn franziu a testa ao estudar a joia. “Sim. Por quê? Acha que valia mais do que ela recebeu?”

Selena olhou de relance para Morzan. “Provavelmente. Ela vendeu para um dos mercadores, não?”

“Foi. Um dos que trabalham com joias, não sei qual.”

Eron saberia, Selena refletiu ao voltar para junto de Morzan. “Gertrude tinha um colar muito parecido com esse,” contou. “Uma pedra verde e corrente de ouro. Ele vinha sido passado pela família, mas eles nunca usavam pela falta de ocasião, e diziam que ele passava uma sensação desagradável, então ela vendeu por uma boa quantia para um mercador uns dois anos atrás.”

Morzan fechou os olhos por um momento, respirando fundo, e por um instante Selena temeu que o tivesse desapontado, mas então ele olhou para ela e perguntou, “Sabe qual mercador?”

“Não, mas não deve ser difícil descobrir. Eles estão todos aqui.”

Ele a estudou com atenção e assentiu, lhe oferecendo um braço. “Vamos, então?”

Selena hesitou antes de aceitar, e saiu da taverna de braços dados com o primeiro dos Renegados.

Notas finais
Primeiramente peço desculpas pela espera de duas semanas e pelo capítulo curtinho, mas estou no finzinho do semestre na faculdade e lotada de coisas para fazer. Semana que vem já entro de férias, e aí passarei a postar no mínimo uma vez por semana, de domingo; talvez mais. Logo vamos passar por esses primeiros capítulos em Carvahall e a história vai começar a acelerar um pouco, hahah. Capítulo escrito ao som de Melodrama da Lorde (álbum maravilhoso aaaah). Espero que tenham gostado! beijinhos