Shiver
28 Capítulo 28
Notas iniciais

A casa ainda era protegida pelas muralhas de Dras-Leona, mas era próxima demais delas para contar com verdadeiro prestígio; seu jardim era pequeno, e contava apenas com um limoeiro e arbustos floridos, e a porta de madeira não possuía qualquer entalhe ou decoração. Morzan inclinou a cabeça para o lado ao examiná-la, pensativo, e perguntou, “Acha que consegue fazer isso sozinha?”
Selena olhou para ele; seus cabelos negros haviam crescido desde que ele a conhecera em Carvahall, agora quase tocando seus ombros, e se bagunçavam com o vento, e seus olhos díspares a observavam com atenção. “Sabe que não tenho tanta autoridade quanto você,” disse.
“E não vai conseguir autoridade alguma sem um pouco de esforço, não é?” Ele sorriu. “Aqui, tenho algo que pode te ajudar.”
Ele lhe ofereceu dois pedaços de pergaminhos, pequenos e retangulares, ambos carimbados com selo vermelho – embora o brasão em cada um fosse diferente. Selena passou os dedos por um, o desenho o mesmo que decorava a espada de Morzan e as túnicas de seus guardas, sentindo o relevo, e leu as palavras em voz baixa. “‘Aquele que traz consigo este documento fala com a autoridade e segue as ordens de Morzan dos Treze Servos’. Esta é sua insígnia?”
“Algo assim.”
“Não é um desenho de nada que eu reconheça,” admitiu. “Significa alguma coisa?”
“Zar’roc.” Percebendo sua confusão, ele adicionou, “Sim, é o nome da minha espada. É um símbolo que já carregava comigo, e depois da Queda passei a usá-lo como meu. Foi o que todos nós – os Treze, quero dizer – fizemos, embora os elfos se incomodem um pouco ao usar palavras da Língua Antiga como seus brasões pessoais. Elas deveriam representar uma arma, afinal, e não uma pessoa.”
O outro pergaminho era bastante similar, mas dizia respeito ao rei. Selena reparou em sua assinatura, e tentou não se demorar no fato que o próprio Galbatorix tocara o documento em suas mãos. “E o que Zar’roc significa?”
A voz de Morzan foi muito suave. “Desgraça.”
Ela ergueu uma sobrancelha. “É um nome bastante...” Sombrio. “Honesto.”
Morzan riu. “Como você tem uma opinião boa sobre mim.”
“Gosto de pensar que tenho uma opinião honesta sobre você,” Selena devolveu, impassível. “E foi você quem deu a sua espada o nome de Desgraça.”
“É um pouco dramático,” ele admitiu com facilidade.
Ela sorriu. “E não te incomoda nem um pouco que o nome seja na Língua Antiga? Sei que ele talvez tenha mais poder assim, mas a maior parte das pessoas não o entende.”
Morzan encolheu os ombros. “Não há necessidade alguma de eu ser entendido pela maior parte das pessoas.”
Selena voltou a olhar para a casa do outro lado da rua, ainda um pouco distante. “E esses documentos realmente servem para alguma coisa? Sei que são reais porque os recebi de você, mas não saberia em outra situação. Acha que ela vai acreditar?”
“Adalyn não terá como ter certeza, mas ver um desses normalmente já é suficiente para assustar, e ela não vai querer arriscar. Além disso, falsificar a assinatura e o selo do rei é um crime gravíssimo, então é difícil que ela acredite que esse seja o caso.”
Ela assentiu lentamente. “E o que ela faria se acreditasse? Denunciar um possível agente do Império por fraude com base apenas numa suspeita também é perigoso, não é?”
“Exatamente.” Morzan sorriu para ela. “E como vamos pagar pelo colar, não tem por que ela te recusar.”
“Sim.” Ela abaixou os olhos. “E o que acontece se eu perder um desses pergaminhos?”
“Não perca.”
“Certo.” Selena os prendeu no cinto, lado a lado com o saquinho de veludo repleto de moedas que Morzan lhe dera mais cedo, e mordeu o interior da bochecha ao olhar mais uma vez para a casa. “Quanto eu devo oferecer pelo colar?”
“Tudo.”
Ela riu baixo. “Às vezes eu esqueço de como você é rico,” murmurou.
“É quando ele vale, Selena.” Morzan hesitou. “Isto é, sem contar o valor histórico e o feitiço, mas duvido que Adalyn esteja ciente deles.”
“Então você não está pagando um preço justo?”
“Um preço justo seria caro demais,” ele respondeu. “E ela não precisa desse tipo de dinheiro. Agora vá.”
Ela não se moveu. “E o que eu devo fazer caso ela esteja ciente de quanto o colar realmente vale?”
“Diga que está levando o colar para o rei e que ela tem sorte que você esteja disposta a pagar tanto quanto está oferecendo.” Morzan lhe deu um empurrão leve nas costas com uma mão. “Vá.”
Selena deixou escapar um suspiro antes de atravessar a rua e andar um pouco até alcançar a casa certa, e a porta não demorou a se abrir depois que ela tocou o sino. Quem esgueirou a cabeça para fora foi um garoto de talvez nove anos, com cabelos castanhos escuros e olhos desconfiados.
“Sim?” ele perguntou, desconfiado.
“Estou procurando por Adalyn,” Selena disse, não conseguindo realmente soar gentil e imperativa ao mesmo tempo; não estivera esperando por uma criança. “Esta é a casa certa, sim?”
“Ela me disse para não deixar nenhum nobre entrar.”
Não sou nobre. “Não preciso entrar. Ela está? Pode chamá-la para mim?” Ele pareceu hesitar, e Selena adicionou, “Por favor.”
Aquela era uma escolha errada de palavras, ela tinha certeza, mas não pôde se forçar a ser mais dura com o menino. Quando ele assentiu e lhe deu as costas, voltando a entrar na casa, Selena relaxou um pouco, embora ainda usasse de todo o seu autocontrole para não olhar para Morzan e se reassegurar de que se saía bem. Ela não o teria por perto sempre, e precisava saber cumprir suas missões sozinha.
Selena juntou as mãos na frente do corpo ao esperar, e Adalyn realmente demorou a vir à porta. Ela não a abriu totalmente, impedindo a visão do interior da casa com seu corpo, e ergueu o queixo em um questionamento irritadiço. Era realmente bonita, Selena julgou, com não mais que vinte anos, cabelos castanhos muito claros e olhos cor de mel.
“Se estiver aqui a mando de Marcus,” ela disse, a voz dura, “não tenho interesse algum em qualquer coisa que ele possa me oferecer, então não perca seu tempo.”
“Estou aqui em nome do rei,” Selena replicou, mantendo a voz calma, e lhe ofereceu os pergaminhos que Morzan lhe entregara. “De acordo com as informações que recebemos,Marcus Tábor lhe deu, há cerca de um ano e meio, um colar de ouro com um grande pingente de esmeralda. Eu vim recolhê-lo.”
Adalyn pareceu hesitar. “Está mesmo a serviço do rei?” perguntou. “Esse não é um truque de Marcus para pegar de volta os presentes que me deu?”
“Estou aqui em nome do rei e de Lorde Morzan,” Selena repetiu. “E estou preparada para compensá-la pelo colar.”
“Você não se parece com um dos agentes de Galbatorix,” a moça insistiu. “Está vestida como uma nobre.”
“Estou a serviço de Lorde Morzan, como os documentos em sua mão provam.”
“E como me compensaria pela joia? Pagando por ela?”
“Sim.” Selena confirmou, e lhe informou a quantia.
Os olhos de Adalyn se arregalaram muito levemente e ela assentiu uma vez, lhe devolvendo os pergaminhos, e disse, “Vou buscar o colar.”
Não demorou muito para voltar, a joia envolta em um tecido escuro. Selena a examinou apenas por um instante, se certificando de que era a correta, antes de agradecer e fazer menção de partir.
“Espere,” Adalyn chamou. “Você diz que está a serviço de Morzan, certo?”
Ela hesitou. “Certo.”
“Peço desculpas se entendi errado então, senhora, mas recomendo tomar cuidado com esses homens nobres, e especialmente os muito poderosos. Eles nos prometem muito, nos dão um pouco, e somos nós que lhes rendemos tudo o que temos, tudo o que somos. No fim, não vale à pena.”
Selena engoliu em seco. “Eles não são todos iguais.”
“Não?” Adalyn quase sorriu. “Se parecem diferentes, acho que o cuidado a ser tomado é maior. Mas espero que você esteja certa, e que tenha mais sorte que eu. Tenha uma boa tarde.”
A moça inclinou a cabeça e fechou a porta, mas Selena não deu as costas à casa de imediato. Não estava de fato ponderando suas palavras, mas foram inesperadas a ponto de a chocar. Ela as afastou da mente ao se virar e avistar Morzan a observando de longe, recostado contra um muro, os braços cruzados e os olhos brilhando.
Ele sorriu quando ela se aproximou. “Fácil, sim?”
“Surpreendentemente.” Ela cruzou os braços sobre a barriga, ainda segurando o colar. “Não achei que suas missões fossem ser tão... leves.”
Morzan não comentou sua escolha de palavras. “As mais complicadas realmente se destacam, mas a maioria vai ser simples. E ficarão cada vez mais fáceis, acredito, conforme você ganhar reputação e autoridade.”
“Não suponho que essa reputação será fruto das missões mais fáceis.”
“Não.”
“Você ouviu o que Adalyn me disse?” Selena perguntou; ele não estivera próximo o bastante, mas talvez estivesse escutando com magia. “No fim de nossa conversa, quero dizer.”
“Sobre não confiar em nobres poderosos? Sim.” Ele riu. “Parece que Marcus a impressionou, não é mesmo?”
“Ela está errada, então?”
“Não sobre ele.” Morzan sacudiu a cabeça, quase descrente. “Mas não somos todos iguais, como você mesma disse. Precisa confiar mais em seu próprio julgamento, Sel. Agora me deixe ver o colar.”
Ela lhe passou a joia, e ele a examinou com atenção, procurando por quaisquer danos, antes de murmurar algumas palavras na Língua Antiga. Selena sorriu um pouco, sempre empolgada ao vê-lo usar magia. “Ele é mesmo enfeitiçado?”
“Sim.” Morzan voltou a embrulhá-lo no tecido, cuidadoso, e ofereceu um braço a ela. “Nada extraordinário, na verdade; ele permite que quem o usa perceba o desconforto daqueles a sua volta. Tenho certeza que já ajudou senhoras em seus jogos, mas não é preciso o bastante para ser útil para nós, e tocar a mente das pessoas costuma trazer melhores resultados.”
Ela franziu um pouco a testa ao andar a seu lado. “Se não é útil e ele tem métodos mais eficientes, porque Galbatorix o quer?”
“Porque o colar é antigo e valioso, e é perigoso demais para ser deixado nas mãos de pessoas comuns.”
“Ele passou décadas em Carvahall e ninguém nunca o usou para o mal,” Selena protestou.
“O colar esteve em Carvahall por séculos, e foi apenas sorte que preveniu que alguém entendesse seu verdadeiro propósito. Não podemos contar com isso, principalmente em uma cidade grande como Dras-Leona.”
Ela era realmente grande, Selena julgou, embora já não se impressionasse mais tanto com isso. As casas se tornavam grandes e opulentas mansões conforme eles se aproximavam do palácio, e, ao pensar nas moradias tão precárias do limiar da cidade, talvez fizesse sentido que Adam não gostasse do lugar.
“E o que mais há para se ver aqui?” Selena perguntou, curiosa. “Visitamos tantos lugares em Gil’ead, em Teirm havia o mar, e em Belatona seus mercados. O que existe de único em Dras-Leona?”
“Bem,” e Morzan pareceu hesitar apenas um instante, “ela é o centro do comércio de escravos.”
Selena parou de andar para olhar para ele, franzindo as sobrancelhas. “Mas...” Aquilo parecia tão errado. “Os Cavaleiros não aboliram a escravidão séculos atrás?”
“Sim.”
Foi algo em seu tom que fez com que ela entendesse. “Ah,” disse. “Mas, Morzan, por que o rei permitiria algo assim?”
“Porque ele não é hipócrita, Selena.” Morzan apoiou uma mão na base de sua coluna para que ela voltasse a andar. “Ele próprio tem servos que são jurados a ele na Língua Antiga e que não têm escolha além de o obedecer.”
Ela mordeu o lábio, tentando em vão afastar um pensamento desagradável. “Você é dono de algum escravo?”
“Eu não colocaria nesses termos,” Morzan respondeu. “Todos os meus servos são iguais, a medida de sua posição.”
“Mas algum deles foi comprado?”
Ele demorou um momento para responder. “Sim, alguns deles foram, mas isso não altera em nada seu tratamento quando começam a trabalhar para mim. Eles até mesmo recebem como qualquer outro servo, e podem estar em boas posições.” Morzan estudou seu rosto, atento a sua reação. “Damien era escravo, por exemplo, e hoje é o administrador de meu castelo.”
“Ah,” Selena disse mais uma vez. “Eu acho... Acho que no caso posso aceitar isso.”
“Tente. E quando você conhecer Damien, verá que ele está bem.” Morzan sorriu um pouco. “Dras-Leona é cheia de facetas não tão agradáveis, se quer saber a verdade. Incluindo a catedral,” ele apontou, “e sua fé, e Helgrind ao sul.”
Helgrind era a grande proeminência rochosa, Selena entendeu, e havia mesmo algo nela que a incomodava. “Eu gostaria de ao menos conhecer a catedral,” admitiu.
“Podemos visitá-la mais tarde,” ele garantiu. “Mas agora quero deixar o colar em segurança em meus aposentos, e talvez comer alguma coisa. Além disso, acho que a essa altura meus guardas já devem ter chegado e devem estar esperando por mim.”
Ela se surpreendeu por quão feliz ficou em ouvir aquilo; em meio a tudo que sentia por Morzan, não reparara ao se acostumar com a presença de seus guardas. Mas sentia falta do olhar atento de Jaime, do sorriso fácil de Adam, e até mesmo de Neil, que mantinha a cabeça baixa e fora o primeiro a chamá-la da ‘minha senhora’.
E, realmente, os três esperavam por eles quando chegaram ao pequeno jardim de frente aos aposentos de Morzan. Neil se recostava contra a parede ao lado da porta e Adam se sentava, sem qualquer decoro, sobre o parapeito que protegia o corredor, os olhos fechados e o rosto inclinado para trás, aproveitando o sol fraco. Jaime estava a seu lado, falando baixo, com os antebraços na pedra; seus olhos claros acompanharam os movimentos de Morzan e Selena conforme eles se aproximaram.
Ele endireitou a postura quando eles alcançaram o corredor. “Meu senhor.”
Neil inclinou a cabeça em um cumprimento respeitoso, e Adam desceu de onde se sentara, um pedido de desculpas não tão preocupado em seus olhos âmbar, e se curvou para Morzan antes de se dirigir a Selena. “O que achou de Dras-Leona, minha senhora?”
“Interessante,” ela respondeu. “O que está achando de estar de volta?”
“Maravilhoso.” O sorriso de Adam era quase amargo. “Mal posso esperar para partir.”
Jaime riu baixo ao ouvir aquelas palavras, sacudindo um pouco a cabeça, e Selena sorriu. Foi Morzan quem respondeu, no entanto, talvez dizendo o que todos estavam pensando, “E não é o único.”
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