Shiver
27 Capítulo 27
Notas iniciais

Mesmo depois de semanas viajando com Morzan, Selena não presenciara ocasião alguma tão elegante quando aquele jantar em Dras-Leona, e ainda assim sabia que ele não era muito mais do que cotidiano para os nobres a sua volta. Ela conseguira sobreviver às conversas e à etiqueta só porque tinha Morzan sussurrando instruções em sua mente, e elas não eram realmente difíceis de seguir. E agora eles estavam sentados em volta de uma mesa circular enquanto Morzan jogava cartas com Lorde Brendan, sua mulher, e seu filho mais velho. Selena se abstivera do jogo com um balançar da cabeça e um sorriso, sem a menor vontade de passar pela humilhação que seria ser descoberta sem saber jogar e ainda perder miseravelmente.
Se sentava perto de Morzan, então, tentando prestar atenção nas cartas que ele segurava na mão e nas palavras que trocava com Lorde Brendan, e não nos olhos claros de Marcus, que se voltavam na direção de seu rosto a cada poucos instantes – em parte por uma curiosidade que ele não tentava disfarçar, em parte em algo mais, algo que deixava Selena ligeiramente desconfortável. Ela se aproximou mais de Morzan, querendo que ele a puxasse contra seu peito, mas ele apenas entrelaçou os dedos nos dela, seu polegar traçando círculos em sua pele.
Você está bem?
Selena hesitou apenas um instante antes de admitir, Ele não para de me encarar. Desde o jantar...
E na frente de sua esposa, também. Falta a ele certa discrição, não acha? Morzan tinha a atenção voltada a suas cartas, mas lançou a Selena um olhar divertido e um sorriso. É uma pena que não seja mais como sua mãe.
Marcus Tábor se parecia realmente se parecia mais com seu pai do que com a Senhora Adara; herdara dela apenas os olhos verdes, que nele perdiam todo seu brilho inteligente. Ele se recostava para trás em sua cadeira, relaxado e arrogante, os cabelos castanhos muito finos e rebeldes, um sorriso preguiçoso em seu rosto. Com suas roupas ricas e vários anéis em seus dedos, ele parecia a imagem perfeita dos piores nobres das histórias, ainda aproveitando de uma beleza fácil que com certeza logo se esvairia.
Morzan..., Selena insistiu, um protesto e um pedido.
Ele a estudou por um instante antes de abrir um sorriso resignado, que se tornou surpreendentemente seco quando ele se voltou novamente para os nobres. “Marcus,” chamou, dispensando o termo que no caso era apenas uma cortesia, mas que vinha usando toda a noite. “Há algo que preciso te perguntar.”
Ele juntou suas cartas e as entregou a Selena, suas mãos se tocando por um instante a mais que o necessário, e puxou o saquinho de veludo que trazia pendurado no cinto. Estendeu a Marcus o mesmo desenho que mostrara a Selena naquela manhã tão fria e tão distante em Carvahall; o retrato de uma mulher idosa, com uma tiara na cabeça e o colar de esmeralda no pescoço.
Marcus o examinou com as sobrancelhas ligeiramente franzidas, e deu de ombros. “Eu deveria saber quem é essa?”
“Eu não exigiria tanto de você,” Morzan respondeu, a voz fria. “Mas fui informado que comprou o colar de um mercador há cerca de um ano e meio.”
Selena cruzou os braços sobre a barriga, observando a conversa atentamente e percebendo a mudança lenta no rosto do jovem nobre enquanto ele processava a informação, sua expressão mais e mais desconfortável. “Não pode esperar que eu me lembre de todos os presentes que já dei a minha mulher.”
“Não, é claro que não.” Morzan ainda sorria. “Não duvido de sua devoção; certamente você lhe dá novas joias com frequência. Não se preocupe, Marcus. Perguntarei a Senhora Alis pela manhã.”
Marcus pareceu hesitar. “Seria melhor se não perguntasse, meu senhor.”
“E por que não?”
“Eu...” Ele arriscou um olhar para os pais, mas tanto Lorde Brendan quanto a Senhora Adara apenas observavam a conversa impassíveis. “Talvez o tenha dado a outra pessoa.”
“Outra pessoa?” Morzan pendeu a cabeça para o lado, quase curioso. “Você não mentiu para mim, mentiu, Marcus?”
“Não, Lorde Morzan.” Ele parecia pálido, e Selena se permitiu um pequeno sorriso. “Só me lembro melhor agora.”
Morzan considerou suas palavras por alguns instantes, como se estivesse tomando uma decisão sobre elas. Voltou a entrelaçar os dedos nos de Selena, o movimento distraído, e finalmente assentiu. “É bom que sua memória esteja melhorando. Pode me dizer onde encontrar essa ‘outra pessoa’?”
“Eu poderia, mas ela não é importante–”
Foi Lorde Brendan quem interrompeu, sua voz dura. “Obviamente, mas o colar é, ou Lorde Morzan não estaria perguntando. Responda a pergunta, Marcus.”
Selena percebeu a mudança nos olhos claros de Marcus quando ele os voltou para seu pai; já não mais hesitantes ou receosos como quando falava com Morzan, mas repletos de ressentimento. Não foi preciso muita pressão por parte do governante de Dras-Leona para que seu filho cedesse, relaxando mais uma vez em sua cadeira antes de compartilhar a informação, sua mão tateando a procura de seu cálice de vinho.
Morzan sorriu para ele, os olhos díspares brilhando. “Eu agradeço a cooperação.” Ele se levantou, puxando Selena consigo. “Mas estou cansado depois de minhas viagens, e vou me retirar. Lorde Brendan, Senhora Adara.”
Selena o seguiu para fora do cômodo, seus passos ecoando alto nos corredores de pedra, e não demorou para perceber que não estavam sozinhos. Pararam diante de uma janela com vista para a cidade, e, mais além, o lago Leona. A sul, era possível ver também uma grande saliência de pedra que se erguia alta para o céu.
Morzan não olhou ao dizer, muito calmo, “Não espere um pedido de desculpas sobre o modo como questionei seu filho, minha senhora.”
Adara se aproximou devagar, e sacudiu a cabeça. “Marcus fez por merecer, acredito, e em mais do que tentar esconder uma de suas antigas amantes. Ele teve sorte por não ter sido pior.”
“Ele enfrentará pior, se não mudar. Marcus não está pronto para governar Dras-Leona.”
“Sim,” e Selena se surpreendeu ao ver a Senhora Adara deixar escapar um suspiro. “Imagino que isso também diga nada bom sobre mim, mas Brendan e eu fazemos o que podemos. Marcus será repreendido, eu te garanto.”
“Isso é bom.”
“E não é o motivo de eu ter procurado por você, Lorde Morzan. Há algo que pensei que talvez gostasse de saber.” A Senhora Adara se aproximou mais, e abaixou a voz ao dizer, “Kialandí esteve aqui semana passada, e só partiu de volta para Urû’baen ontem à noite.”
Morzan ergueu uma sobrancelha. “E o que ele queria?”
“Apenas nos visitar, ou foi o que nos disse. Mas Kialandí passou muito tempo conversando com todos os nobres, Lorde Morzan, e visitando diversas partes da cidade; se para fazer aliados ou em busca de algo, eu não saberia dizer.”
“Entendo.” Morzan estudou o rosto de Adara. “E se aliados forem o propósito, minha senhora, posso contar com você?”
“Comigo? Sempre.” O sorriso que ela lhe ofereceu foi enviesado. “Com Brendan, provavelmente, e principalmente se ele ganhar algo com isso. Já com nosso filho... Eu não esperaria muito de Marcus, se fosse você.”
“Ele tem direito a essa escolha,” Morzan admitiu, encolhendo os ombros, “por pior que ela seja. Agradeço a informação, Senhora Adara.”
“Fico feliz em ajudar.” Ela se voltou para Selena. “E o que você está achando de nossa cidade, Senhora Selena?”
Fora uma das poucas vezes em que lhe dirigiram a palavra naquela noite, e Selena ofereceu seu sorriso mais doce em resposta. “Pelo que vi até agora, Dras-Leona parece uma cidade fascinante, minha senhora.”
“Fico feliz.” Adara inclinou a cabeça. “E desejo uma noite maravilhosa para ambos.”
Morzan só sorriu para como ela frisou a palavra, e ergueu uma sobrancelha para Selena enquanto a mulher mais velha se afastava. Apoiou uma mão na base de sua coluna, e, assim que era possível ter certeza que não seriam ouvidos, perguntou, “O que achou?”
Selena hesitou apenas um momento antes de responder. “Lorde Brendan me pareceu severo, Marcus um tanto irresponsável. A Senhora Adara foi mais impressionante.”
“É?”
Ele a observava com atenção, mas ela descobriu que não teve dificuldades em encontrar seu olhar. “Morzan, por que Kialandí visitou Dras-Leona?”
“É uma boa pergunta,” ele admitiu, e lhe ofereceu seu braço para guiá-la para seus aposentos. “Outra seria se essa foi a única cidade que ele visitou. Teremos que descobrir, não é?”
“Agora, ou só quando chegarmos a Urû’baen?”
“Eu arriscaria dizer que isso pode esperar até estarmos de volta à capital. É onde Kialandí e Formora estão, afinal, e preciso conversar com Alexis e Aleifar antes de decidir qualquer coisa. Eles podem ter informações que não temos.” Morzan olhou para ela. “Mais alguma pergunta?”
Selena assentiu devagar. “O que você me disse mais cedo, sobre eu já ter conhecido alguém com quem você dormiu...”
“Ah, isso.” Ele sorriu. “Foi impulsivo da minha parte ter te contado, você sabe. Eu estava planejando esperar pelo menos mais alguns dias, até estarmos só nós dois em minha propriedade.”
“Mas estava planejando me contar?”
“Sim.” Morzan pareceu hesitar. “Se importa se eu não disser quem é hoje, Sel? Estamos na última cidade de nossa viagem – isto é, sem contar Urû’baen – e você vai se distrair desnecessariamente se eu te der um nome agora.”
“Acho que vou me distrair com isso de qualquer jeito.”
“Será? Você me pareceu bastante capaz de prestar atenção em outras coisas durante o jantar.”
Selena bufou. “Sim, com Marcus me encarando durante toda a refeição. Isso não te incomodou nem mesmo um pouco?”
“Ele não é digno da minha preocupação, mas sim, me incomodou que ele se sentisse tão à vontade em observar quando você é tão obviamente minha. É algo em que terei de pensar antes de chegarmos à capital; Marcus pareceu achar que sua importância é tão mínima quando a de alguma de suas amantes, e ele estava muito enganado sobre isso. Não quero mais ninguém cometendo o mesmo erro, por mais estúpido que tenha sido.”
Selena mordeu o interior da bochecha, pensativa. “Com certeza você tem experiência com esse tipo de coisa?”
Morzan sorriu ao devolver seu olhar. “Não, não tenho. Nossa situação é bastante única.”
“Mesmo?”
“Sim, Sel. Você concorda em esperar até chegarmos a minha propriedade para que eu te conte sobre as pessoas importantes com que já me deitei? Vou te dizer tudo o que quiser, eu prometo.”
Ela assentiu lentamente. “Eu provavelmente vou ficar pensando nisso de qualquer jeito. Estive relembrando as mulheres que encontramos, e não consigo identificar quem seria, mas é possível que eu adivinhe.”
“Inteiramente possível,” Morzan admitiu com facilidade. “E eu apreciara sua capacidade de observação se adivinhasse, mas a verdade é que você está procurando nos lugares errados, Sel. Aceita esperar, então?”
“Sim.”
“Bom.” Ele se aproximou um pouco para beijar o todo de sua cabeça, parando de frente às portas de madeira que levariam a seus aposentos. “Está cansada? Quero que esteja bem disposta amanhã; temos um colar para resgatar.”
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