Shiver

25 Capítulo 25


Notas iniciais
Se encontrarem erros, reclamem com a beta. E, falando nela: Ciça, esse é múltiplo de cinco e todo seu (Adam ausente, mas o nome dele aparece aqui e ali). Te amo como o Gabriel ama a Isabella e também como ele ama doces, somado. Boa leitura, meus amores!!

Selena acordou se sentindo ainda muito cansada. O céu visível pelas janelas estava tingido de tons de rosa e lilás, e ela notava poucas estrelas. Estava amanhecendo, pensou, antes de perceber que não; a noite caía sobre Belatona.

Se sentou na cama, seus movimentos lhe parecendo muito lentos. Usava apenas sua túnica de seda fina, embora tivesse certeza que adormecera completamente vestida, e havia sobre a mesa de cabeceira uma bandeja com pães, queijo, e frutas. O quarto estava deserto, no entanto, e Morzan não estava em nenhum lugar à vista.

Provou da comida antes de se levantar, grata por ela ser tão leve.Seu coração ainda batia forte, num ritmo desagradável, seus sentimentos mais presentes no físico do que em seus pensamentos. Se serviu também de um cálice de vinho – Morzan lhe deixara a bebida de propósito, ela sabia – e vestiu o robe vermelho que encontrou pendurado ao lado da cama.

Selena tentou o estúdio antes de abrir a porta do quarto e espiar o corredor, e era Neil parado ao lado da porta. O guarda de cabelos ruivos tinha olhos castanhos quase do mesmo tom dos de seu pai, Selena percebeu, mas seu sorriso era doce.

(Se é que qualquer um que trabalhava para Morzan pudesse realmente ser doce.)

“Boa noite,” ela cumprimentou, sem saber muito bem como se portar. Nunca havia conversado com ele, mas sentia como se os guardas agora conhecessem uma parte muito íntima dela apenas pelo pouco que haviam visto de seu estado na noite anterior.

“Boa noite,” ele respondeu, e tinha covinhas nas bochechas.

Selena cruzou os braços, mudando o peso de uma perna para a outra.“Onde Morzan está?”

“Lorde Morzan foi com Jaime aos mercados.” Talvez vendo algo em seu rosto, Neil adicionou, “Eles devem voltar logo.”

“Ah.” Ela se recostou contra a porta. “E Adam?”

“Foi com eles.”

Selena conteve um comentário sobre eles a deixarem sozinha; não estava só, supunha, se Neil estava ali, e seria inconsiderado dizer algo do tipo para ele. Desviou os olhos, sem querer voltar ao quarto e também sem saber o que mais dizer.

“Precisa de algo mais, minha senhora?”

Selena entreabriu os lábios ao ouvir o termo, e não pôde responder de imediato. “Não,” conseguiu dizer. “Obrigada, Neil.”

O deixou, fechando a porta atrás de si, e percorreu com os olhos o quarto vazio. Sabia bem onde estavam suas coisas, e não sentia real interesse em qualquer uma delas – não serviriam tão bem como distração, por mais que talvez ler o livro que Eron lhe dera talvez fosse uma boa ideia.Em vez disso, se aproximou do baú onde Morzan guardava suas roupas e se ajoelhou diante dele.

Selena correu as mãos sobre a madeira escura, sentindo os detalhes do entalhe, e parou sobre o fecho de prata. O baú não estava trancado, e ela o abriu em um movimento cuidadoso, com medo de estragar ou ver algo que não devesse.

Puxou para fora primeiro uma camisa vermelha, sentindo nos dedos a textura macia, e se conteve para não levar o tecido ao rosto para cheirar. O bordado era de linhas e padrões finos e prateados, possuídos de uma elegância que ela considerava apenas apropriada. Das roupas de Morzan, era das mais simples, e ainda assim ela podia ver na peça algo que era próprio dele.

Devolveu a camisa ao baú, escolhendo agora examinar uma pequena caixa de madeira. A abriu para encontrar uma coleção de anéis – muito embora só houvesse visto Morzan usando um, de rubi e prata – alguns deles surpreendentemente simples.

Achou também um odre negro, decorado em prata com o mesmo símbolo da espada de Morzan e das túnicas de seus guardas. Destampou-o para cheirar, e concluiu que não era vinho, embora com certeza alcoólico – o aroma era muito doce e a lembrava de frutas e verão. Selena considerou provar um gole, mas decidiu que seria melhor não.

Outro odre, este marrom e mais simples, com talvez hidromel. Uma coleção de cintos, apenas alguns pontilhados por pedras preciosas. Uma fita negra, larga e muito macia cujo propósito Selena não conseguiu descobrir. Um pequeno frasco de prata que continha alguma substância com cheiro forte, e outro que não emanava odor algum.

Nenhum livro, no entanto, ou mesmo carta ou pergaminho. Talvez Morzan não fosse o tipo de pessoa que lia para passar o tempo, mas aquilo não lhe parecia certo. Sabia que ele teria algo assim guardado no estúdio, e estava considerando ir explorá-lo também quando a porta do quarto se abriu.

Morzan parou, surpreso, quando a viu ajoelhada no chão. Selena supunha que não estivesse muito digna, vestindo apenas a túnica e o robe, mas tudo o que via em seus olhos díspares era leve divertimento.

“O que está fazendo?” ele perguntou.

Selena encolheu os ombros. “Tentando desenterrar algum de seus segredos,” respondeu. “Não tive muita sorte, mas também não esperava encontrar nada de valor em um baú trancado por menos que chaves e feitiços.”

“Muito inteligente,” Morzan disse, se abaixando para se sentar ao seu lado. “E o que esperava encontrar de fato?”

“Uma distração,” ela admitiu, a voz muito baixa. E então estendeu a mão para os fracos de prata e os ergueu para ele, “O que são esses?”

Ele os tirou de sua mão. “Esse,” e mostrou um dos fracos para ela, “contém um óleo que queima a pele e é fatal se ingerido, então tome cuidado.” Morzan girou o frasco entre os dedos. “Você o abriu?”

“Para cheirar,” Selena respondeu, agora quase assustada. “Tem problema?”

“Não, tudo bem. Você o fechou bem?” Ele testou a tampa. “Não gostaria que vazasse nas minhas roupas.”

“Se é tão perigoso,” ela começou, “por que guardá-lo aqui?”

“Porque é valioso o bastante para eu não querer perdê-lo, e não seria bom se caísse nas mãos de outras pessoas.” Morzan sorriu. “Não era para mais ninguém mexer neste baú, você sabe.”

Ela corou um pouco. Desculpe, quis dizer, mas não se permitiu. “E o outro frasco?”

Morzan o destampou e virou um pouco do conteúdo sobre um dedo. Era um creme quase líquido, transparente, mas um pouco esbranquiçado.Ele o passou sobre as costas da mão de Selena, o espalhando em um pequeno círculo, e não estava gelado como ela esperara. “A loção foi inventada por elfos – eles são bons em inventar coisas, se não em mais nada – e serve apenas para fins sexuais.”

Selena ergueu as sobrancelhas, sem se preocupar em esconder seu interesse.“Como assim?”

“Para quando não podemos sempre contar com o corpo para se umedecer sozinho,” Morzan explicou. “Não é necessário com você, é claro, mas sexo seria desconfortável e até doloroso se não acontecesse.”

“Eu sei bem,” Selena comentou, seca.

“Sua primeira vez?” Morzan perguntou, pendendo a cabeça para o lado. “Nunca chegamos a conversar sobre isso.”

“Foi memorável exatamente por ser desagradável, e uma experiência totalmente insatisfatória.” Ela encolheu os ombros. “Eu teria desistido de sexo se não soubesse que poderia ser bom – era o que minha mãe dizia – mas não me senti tentada a tentar de novo até conhecer você.”

“E eu atendi as suas expectativas?”

“Foi melhor, inclusive. Mas eu fui até você um pouco insegura sobre isso tudo.” Selena hesitou. “Não te incomoda que eu já tenha estado com outro homem?”

“Não faz diferença, Sel. Sei que aprendemos que sim, e eu não nego que sentiria certa satisfação em saber que fui o único a te conhecer dessa maneira, mas sexo é só sexo. Não é tão importante.”

“Eu me incomodo um pouco,” Selena admitiu, “quando penso em com quantas mulheres você já deve ter dormido. E gostaria também de ter esperado, acho. Gostaria que você tivesse sido meu primeiro.”

Ele sorriu. “Fico lisonjeado, Sel, mas realmente não é algo assim tão importante.” Os olhos díspares de Morzan brilhavam. “Corro o risco de prejudicar esse momento, mas preciso perguntar: como você está?”

“Bem,” ela respondeu. “Ou melhor. Mas não acho que estou pronta para conversar sobre isso ainda. Tudo bem?”

“Sim, claro que sim. Mas sabe que pode me contar qualquer coisa, não?”

“Eu sei,” Selena disse rapidamente. “Não vou me esquecer.”

“Isso é bom.”

“Fiquei um pouco preocupada quando acordei e você não estava aqui,” confessou. “De todos os dias que você poderia escolher para me deixar, hoje foi...”

“O pior, eu sei.” Morzan suspirou. “Tentei voltar o mais cedo possível, mas havia coisas que precisava fazer. Mas te trouxe um presente.”

Ela ergueu os olhos para ele. “Um presente?”

“Se você aceitar,” Morzan respondeu, tirando um pequeno saco de veludo da bolsa que trazia ao cinto.

“Não vai me pedir em casamento, vai?” ela brincou.

Ele riu. “Não.” Lhe entregou o saquinho. “Aqui.”

Selena o abriu com cuidado, não sem antes admirar o veludo vermelho escuro, e deixou que o conteúdo caísse sobre a palma de sua mão. O que caiu foi um colar discreto e muito delicado – um rubi em formato de gota, e, menor e acima dele, o que ela acreditava ser um diamante, ambos presos a um suporte de ouro branco. Ela correu as pontas dos dedos pelas pedras, maravilhada, e disse em um sussurro, “É lindo.”

Morzan sorriu. “Eu o enfeiticei, e é sobre essa parte que não tinha certeza se você concordaria, para que o colar estabeleça uma ligação entre eu e quem o usa. Dessa forma eu poderei sempre saber se você está bem – fisicamente, quero dizer – e onde você está, e você só precisará segurá-lo e dizer a frase certa para que eu saiba que precisa de ajuda.” Ele hesitou, como se procurasse pelas palavras certas. “Assim você terá a certeza de que sempre estará segura, não importa onde esteja.”

Selena o ouvia com os lábios entreabertos. “Nós estaríamos conectados o tempo inteiro,” disse.

“Se você estiver usando o colar, sim.”

Ela considerou suas palavras por um instante, e sorriu. “Gostei da ideia,” admitiu, e levou as mãos ao pescoço para tirar o colar em formato de rosa antes de se virar de costas para ele. “Põe para mim?”

Morzan puxou o novo colar de suas mãos e afastou seu cabelo de seu pescoço, se demorando ao tocar os fios castanhos. Enquanto ele prendia a corrente, Selena comentou, “Neil me chamou de ‘minha senhora’ hoje.”

“É?”

“Sim. Me surpreendeu.”

“Logo todos eles usarão o termo,” Morzan disse. “Mas na verdade ainda não dei a ordem. Até chegarmos a Urû’baen, meus guardas podem te chamar do que quiserem.” Ele riu baixo. “Neil sempre foi muito educado.”

“Eu nunca realmente conversei com ele,” Selena admitiu, se voltando para ele. “Fiquei sem saber como reagir. Precisava mesmo deixar justo Neil comigo hoje?”

“Neil também é um tanto tímido,” Morzan explicou. “E sim, eu precisava. Não é sempre que você terá Adam para te apoiar, Sel.”

“Jaime teria sido suficiente.”

“Fico feliz por vocês estarem mais próximos, mas Jaime queria algo do mercado também; eu não poderia tê-lo deixado para trás. Foi assim tão ruim, quando você acordou e eu não estava aqui?”

“Não,” ela respondeu. E então, “Mas poderia ter sido.”

Morzan assentiu lentamente, os olhos de cores diferentes sérios, e ela soube que ele entendia. Pendeu a cabeça para o lado ao observá-lo, se demorando em seus cabelos negros e em sua camisa vermelha, em sua respiração calma e em sua postura confiante. Desejava que tivessem mais momentos como esse, sentados no chão e conversando baixo, do que missões importantes e deveres para com o rei – sabia que Morzan não seria quem era de outra forma, mas Selena percebia que as coisas seriam mais simples se ele fosse só um pouco menos importante.

Ele era um Cavaleiro, no entanto. O primeiro dos Renegados e o servo preferido do rei.

“Há uma coisa que você poderia fazer,” ela disse, seu tom leve, “para se redimir.”

Morzan ergueu uma sobrancelha muito escura. “E o que é?”

Ela hesitou apenas um instante. “Poderia me ensinar magia?”

“Magia,” ele repetiu devagar, como se experimentasse a palavra, a ideia. “Eu não posso prometer que funcionará, Selena, porque não são todos que possuem a habilidade. Mas sim, posso tentar te ensinar.”

Ela se aproximou mais dele, quase involuntariamente, incapaz de conter seu sorriso. “Mesmo?”

“Mesmo,” Morzan confirmou. “Mas não hoje. Não acho que você esteja forte o bastante para isso no momento.”

Selena franziu as sobrancelhas. “Você não acha que eu conseguiria?”

“Não no momento,” ele frisou. “Você teve um dia difícil ontem, e eu sei que ainda não se recuperou.”

Era verdade, ela sabia, e não queria nem ao menos pensar sobre aquilo. Mordeu o lábio inferior, contendo um suspiro, e ergueu os olhos para ele. “O que podemos fazer, então?”

“Simples,” ele respondeu, e estendeu uma mão para ela. “O que sempre fazemos.”

Selena sorriu mais uma vez. Aceitou que Morzan a ajudasse a se levantar, e seu riso saiu em um sopro quando ele a puxou contra si. Enquanto provava do gosto de seus lábios, refletiu que, no fim, aquilo tudo valia a pena.

Notas finais
Espero que tenham gostado!!!