Shiver
23 Capítulo 23
Notas iniciais

Selena se serviu de um segundo pedaço de torta de amora, tomando cuidado para não lambuzar os dedos. Daquela taverna popular em Belatona, a sobremesa fora o único prato que ela realmente conseguira apreciar – talvez por estar demasiado acostumada ao que Morzan costumava comer, a refeições feitas nas cozinhas de castelos e nas tavernas mais ricas, ou talvez porque a comida realmente não fosse assim tão boa.
Eles haviam passado o dia explorando os mercados de Belatona a procura de novas armas para Selena – ela não estivera completamente satisfeita com a espada que conseguira em Feinster, e Morzan lhe prometera uma mais apropriada. Ele lhe dera também um punhal com granadas muito vermelhas incrustadas no cabo de prata, além de permitir que Selena experimentasse uma miríade de outros produtos. E agora estavam sentados em um canto escuro e afastado de uma taverna no centro da cidade, terminando de jantar e esperando o que aconteceria a seguir.
“Não acho que Owen esteja feliz com a nossa volta,” Jaime dizia em voz baixa, sentado do outro lado de Morzan e tamborilando os dedos contra o tampo de madeira da mesa redonda. “Ele vem fazendo um bom trabalho no comando da guarda nessas últimas semanas, e não vai ficar satisfeito se toda a recompensa que receber for um agradecimento. Ele quer mais do que seu posto anterior.”
Morzan traçava círculos na mão livre de Selena com o indicador, distraído. “A única posição melhor que a dele é a sua, Jaime, e Owen não pode honestamente esperar que eu lhe dê tanto.”
“Ele sente que foi privado de algo que teria sido seu em circunstâncias mais favoráveis. Owen sabe que se fosse dez anos mais velho poderia ser sido capitão da guarda em meu lugar, e também que provavelmente já será velho demais para o cargo para ser meu sucessor,” Jaime disse. “Ele se sente prejudicado, bem... pelo tempo.”
“O tempo é algo fora do controle de qualquer um de nós,” Morzan replicou. “Ele não pode se ressentir por isso. E mesmo que Owen fosse dez anos mais velho, você ainda teria sido minha primeira escolha.”
A sombra de um sorriso passou pelo rosto de Jaime. “E eu fico feliz em ouvir isso, meu senhor,” ele disse. “Mas ainda acho que Owen estará esperando alguma recompensa pelo trabalho que fez. Ele viu as últimas semanas como uma espécie de teste, e se dedicou ao máximo.”
Morzan estava prestes a responder, Selena percebeu, mas ela não pode evitar interromper para perguntar, “Quais são as responsabilidades da guarda, se Morzan não está na capital?”
Jaime voltou os olhos verdes muito claros para ela. “O mesmo de sempre, na verdade. Nosso trabalho é proteger os aposentos e os segredos de Lorde Morzan, porque pessoalmente não há nada que possamos fazer por ele que ele não possa fazer melhor.” Ele hesitou. “De certa forma o que Owen tem tido de fazer é mais difícil, porque Lorde Morzan não está em Urû’baen para se proteger. Suas posses estão mais vulneráveis, de certa forma.”
“Parecem mais vulneráveis, mas não estão de fato,” Morzan corrigiu. “E o que Owen vem fazendo não é mais difícil. Ele deu a entender que quer alguma coisa específica, Jaime?”
“A promessa de que ele terá a chance de ter meu posto, um dia.”
Morzan bebeu um gole de vinho, e assentiu lentamente. “E você o recomendaria para o cargo?”
“Ele provavelmente entraria na lista para a sua consideração, meu senhor, mas não seria minha primeira opção,” Jaime respondeu. “Acredito que existam outros que possam te servir melhor, e isso sem considerar a idade dele.”
“A idade dele?” Selena perguntou, franzindo um pouco as sobrancelhas. Parte do motivo de Jaime e Morzan conversarem sobre aquilo na frente dela era para que ela começasse a aprender como as coisas funcionavam na capital, mas ela ainda se sentia envergonhada ao perguntar coisas que sabia serem óbvias. “Quando Morzan me apresentou a ele, Owen me pareceu jovem.”
“Ele é dez anos mais novo que eu,” Jaime explicou, “o que daria a ele por volta de dez anos como capitão da guarda antes de ficar velho demais para continuar, e ele passaria metade desse tempo treinando seu sucessor. Seria melhor escolher alguém mais novo, que pudesse dar a guarda mais estabilidade; não é bom que troquemos quem está no comando com muita frequência.”
“Ah.” Fazia sentido, ela supunha. “Quantos anos você tinha quando Morzan o escolheu como capitão?”
“Vinte, mas só assumi o posto cinco anos depois.”
Selena ergueu as sobrancelhas. “Vinte anos é bem jovem,” disse, e levou o indicador aos lábios, lambendo a calda da torta que lambuzara seu dedo.
“Jaime sempre foi promissor, e ele teve cinco anos de treinamento depois disso,” Morzan replicou, mas tinha os olhos díspares voltados na direção da porta da taverna.
Selena acompanhou seu olhar, engolindo em seco ao perceber Adam e Neil entrando e fazendo seu caminho até o balcão. Fechou o punho sobre o tampo da mesa de madeira, lembrando a si mesma de respirar fundo para se acalmar.
“Sel,” Morzan chamou, apertando sua mão em um gesto gentil e encorajador. “Essa parte não é nova para você, é? Já passou por isso antes, e hoje você só vai observar.”
“Não passei por isso sabendo que teria que ficar para o que acontece depois,” Selena protestou em um sussurro. “Morzan...”
“Olhe para mim,” ele instruiu em voz baixa, segurando o rosto de Selena entre as mãos. “Não pense muito no que está por vir. Você é forte o bastante. Você consegue fazer isso.”
Ela assentiu minimamente, tentando se convencer de que ele tinha razão. “Certo,” murmurou, e permitiu que Morzan beijasse sua testa e puxasse sua cadeira mais para perto para que ela se recostasse contra ele, seu braço sobre seus ombros. Selena podia sentir seu peito se mover com sua respiração muito calma, e tentou aproveitar disso para se acalmar também.
Jaime os observava com o rosto ilegível, e preocupação não era o único sentimento em seus olhos verdes, mas ele ofereceu um sorriso a Selena quando encontrou seu olhar. “E o que devo fazer sobre Owen, meu senhor?” perguntou.
“Se ele não é sua primeira escolha agora, com certeza não vai ser daqui a dez anos, e tampouco será a minha,” Morzan respondeu. “Dissuada-o dessa ideia, sim?”
“Ele não vai ficar feliz,” Jaime alertou.
“E, se for esperto, não vai reclamar. Faça-o desistir, Jaime.”
“Sim, meu senhor,” ele concordou. “Eu vou.”
Morzan apenas assentiu, voltando a atenção ao balcão onde Adam e Neil começavam a encenar a conversa. Selena se contentou em assistir com ele, atenta também às reações dos outros na taverna, a quem concordava e discordava do que era dito, e até a aqueles que observavam a discussão com claro receio. Era verdade que já presenciara aquela cena diversas vezes, e conseguiu tirar algum conforto do familiar.
Os ânimos começavam a esquentar, e ela sentiu a mente de Morzan tocar a sua enquanto ele a expandia para ouvir os pensamentos de todos no local. Era parte do que ele vinha fazendo, ele lhe explicara, e a discussão de Adam e Neil servia principalmente para trazer a tona pensamentos e emoções sobre os Varden e o Império de todos que ouviam.
Você está bem?, ele perguntou.
Bem o bastante, Selena respondeu. Por enquanto.
Morzan apertou seu braço em um afago gentil, se aproximando mais para pressionar os lábios contra sua cabeça, mas Selena percebia que ele ainda estava focado em todos os outros. E então ele se afastou de sua mente e trocou um olhar com Jaime, que se virou para examinar alguém do outro lado da taverna.
“O que?” Selena sussurrou, mas Morzan só sacudiu a cabeça em resposta.
Jaime afastou sua cadeira da mesa e se levantou, os deixando sem uma única palavra. Ele se dirigiu diretamente para a porta da taverna, e Selena mal podia conter o as emoções que se assomavam em seu peito ao vê-lo sair. Fechou um punho, sentindo as unhas pressionarem contra sua palma, e em um instante a mão de Morzan estava sobre a dela, gentilmente abrindo seus dedos.
Sel, ele insistiu. Está tudo bem.
Ela olhou para ele, e encontrou seus olhos de cores diferentes a observando com atenção.
“Feche os olhos,” Morzan disse baixinho, “e respire fundo. Sim, assim. E de novo.”
Selena fez o que ele instruía, e aos poucos sentiu seu coração se acalmar. Ela não queria pensar sobre o que vinha o ajudando a fazer, sobre o que presenciaria naquela noite, sobre quais seriam suas próprias responsabilidades dali para frente.
Morzan apertou sua mão. “Vamos,” e a ajudou a se levantar.
Adam e Neil também já não estavam à vista, e Morzan a levou em passos rápidos para fora da taverna, uma mão em suas costas. O ar noturno em Belatona parecia mais frio do que nunca, embora Selena soubesse que o inverno estava chegando ao fim, e o vento batia contra seu rosto sem qualquer piedade enquanto Morzan a guiava pelas ruas de pedras claras.
Ela logo percebeu que seguiam alguém, sempre mantendo uma distância calculada. Diferente do agente dos Varden que haviam encontrado em Kuasta, esse não podia ter mais de trinta anos – julgando por seus cabelos loiros cacheados, por seu corpo saudável, por sua postura perfeita. Selena se pegou reparando nos mais estranhos detalhes: que sua camisa verde parecia tão velha e tinha um furinho perto da cintura, o modo como seus dedos tamborilavam contra sua perna. Que ele traçava um caminho objetivo pela cidade, seus passos estáveis como se não tivesse bebido, decidido como se com um destino em mente.
Ele estava provavelmente voltando para casa, ela percebeu, e sentiu um aperto súbito no coração ao se lembrar de seu pai e Garrow.
E então eles entraram em uma travessa escura, e uma sombra cortou o caminho do homem que seguiam. Adam, ela sabia, pela altura e porte. O homem parou, assustado, sem dúvida o reconhecendo da taverna. Ele se virou, pronto para partir na direção oposta, e viu Morzan. E naquele instante o que havia em seus olhos claros não apenas medo, mas um pavor tão profundo que quase contagioso.
Morzan disse uma única palavra na Língua Antiga – na língua da magia – e o homem desabou ao chão, o peito ainda subindo e descendo com respirações profundas, como se adormecido. Sangue escorria de onde ele batera a cabeça contra as pedras, sujando os fios dourados de seu cabelo, e Selena não conseguia desviar o olhar.
Não viu de onde Neil surgiu, só que ele se abaixou ao lado do estranho desacordado. “Para o castelo, meu senhor?” perguntou, ajudando Adam a levantá-lo.
“Sim,” Morzan disse. E então, “Selena.”
Ela se voltou para ele, mas não conseguiu erguer a voz para responder.
“Respire fundo,” ele lembrou.
A puxou pela mão, para longe da travessa escura e em direção ao centro da cidade. Passaram por Jaime, que observava Selena com franca preocupação, e seguiram pelas mesmas ruas de pedra que cruzaram para chegar ali.
Aquela caminhada foi a mais longa e a mais curta da vida de Selena, e seus pensamentos passavam rápidos demais para que ela conseguisse se focar em qualquer coisa. Muito antes do que ela esperava, estavam de volta aos portões do castelo, descendo por uma escada de pedra, entrando nos corredores que levavam aos calabouços.
Jaime abriu a porta de uma cela e a segurou para que eles passassem, e Adam e Neil se preocuparam em prender o prisioneiro a uma pesada cadeira de pedra. Morzan saiu do lado de Selena para se debruçar sobre um braseiro e o acender um uma única palavra, e então remexeu os carvões com um dos três atiçadores de ferro cujas pontas mergulhavam fundo nas brasas.
Uma mão tocou seu braço, e Selena se virou para encontrar Jaime parado atrás dela. “Você está bem?” ele perguntou baixinho, e ela soube que podia ser honesta com ele.
Mas Selena só concordou com a cabeça. “Estou,” respondeu, e sua voz quebrou um pouco.
Desviou os olhos para não ter que encará-lo, e se deparou com o prisioneiro desacordado. Com os cabelos loiros machados de sangue e o rosto sujo, ele a lembrou de Eron, muito embora ela nunca houvesse visto – e nunca veria, tinha certeza – Eron daquela maneira. Adam e Neil checavam as amarras que prendiam o homem a cadeira mais uma vez, e então saíram da cela, fechando também a porta.
“Selena,” Morzan chamou, puxando um atiçador para fora dos carvões. A ponta do metal brilhava em um tom de laranja muito vivo, e ela não conseguia desviar o olhar. “Se isso se tornar demais para você, saia. Adam está no corredor, e pode tomar conta de você.” Ele se voltou para ela uma última vez, os olhos desiguais quase compreensivos. “Eu não ficarei bravo.”
Não, ela pensou, mas vai se decepcionar.
Selena respirou fundo pelo que parecia ser a milésima vez naquela noite, e ficou.
Fale com o autor