Shiver
21 Capítulo 21
Notas iniciais

As portas dos aposentos de Morzan eram de uma madeira escura, entalhadas com desenhos de vinhas e espirais; Selena hesitou, uma mão sobre a maçaneta de prata, e entrou tão silenciosamente quanto podia. Com as velas apagadas e as pesadas cortinas fechadas, o quarto estava perdido na penumbra, mas foi fácil para ela identificar Morzan sentado contra os travesseiros, as pernas esticadas cruzadas na altura dos tornozelos e um cálice de vinho nas mãos.
Ele a via também, e observou em silêncio enquanto ela pendurava a capa ao lado da porta e andava até ele. Selena se sentou ao seu lado na cama, brincando com seu colar com uma mão, e disse baixinho, “Desculpe por fugir daquele jeito.”
“Não se preocupe, Sel.” Morzan sacudiu a cabeça. “Foi perfeitamente compreensível.”
Ela assentiu, muda, antes de erguer o queixo na direção do cálice de prata em sua mão. “Posso?” Ele lhe estendeu a bebida, e Selena tomou um gole generoso antes de admitir, “Pensei que talvez fosse me seguir.”
“E eu pensei que quisesse ficar sozinha.”
“Eu queria.” Selena lhe devolveu o cálice e escorregou para deitar na cama, encarando o teto de pedra clara. “Encontrei Jaime no corredor.”
“Jaime?” Morzan repetiu, a nota de alarme em sua voz quase imperceptível.
“Sim.” Selena voltou os olhos para ele. “Isso era algo que ele não podia saber?”
“Se você voltar comigo a Urû’baen, ele precisa saber, na verdade; não lhe contar seria prejudicar seus deveres como capitão da guarda.” Ele pareceu hesitar. “Jaime não ficou sabendo sua decisão antes de mim, ficou?”
Selena suspirou. “Quem disse que já me decidi?”
“E não se decidiu?”
“Decidi, sim.” Ela lhe ofereceu um sorriso mínimo. “Suponho que não haja uma forma de eu te seguir e te alcançar na corte em Urû’baen sem realmente ir com você, certo?”
“A não ser que consiga que um dragão nasça para você, não, não há.”
Seu tom fora divertido, mas Selena franziu um pouco as sobrancelhas. “Isso seria possível?”
Morzan riu baixinho. “Isso é algo que não posso te contar a não ser que jure lealdade a mim.”
Ela fechou a cara para ele. “Você está me distraindo,” acusou.
“Estou?” Ele perguntou, e sorriu. “Peço desculpas.”
“Morzan...” Selena sacudiu um pouco a cabeça. “Escute, se esse é mesmo o único – ou o melhor – jeito de eu ir com você para a corte, então é claro que aceito. Tenho algumas condições, no entanto.”
Por um momento ele pareceu surpreso, mas, quando falou, sua voz estava calma como sempre. “E quais são elas?”
“Se eu for me tornar uma espécie de espiã para você, não quero me envolver em missão alguma em que seja necessário que eu me deite com outra pessoa. Enquanto estivermos juntos, você é o único com quem quero dormir, e se em algum ponto deixarmos de estar, então o farei apenas com quem eu quiser e pelos motivos que eu quiser. Você não pode interferir nisso.”
“Sem problemas,” Morzan concordou de imediato. “Algo mais?”
“Quero aprender a lutar,” Selena continuou. “Preciso saber me defender, e acho que isso é um ponto onde concordamos, e quero aprender a usar uma espada e a atirar com um arco.”
“Algo assim acabaria por se tornar necessário de qualquer forma, acredito,” ele respondeu. “Até agora estamos de acordo, Sel.”
Selena se ajeitou na cama, se deitando de lado para poder olhar melhor para ele. Os cabelos de Morzan estavam um tanto desarrumados, sem dúvidas um resquício da noite anterior, e ele vestia uma camisa vermelha com detalhes dourados que parecia muito escura no quarto mal iluminado.
“E você disse que eu não estaria abaixo de você,” ela comentou, oferecendo uma mão a ele.
Morzan entrelaçou os dedos nos dela. “Disse.”
“Jaime pareceu entender que isso significa que eu estaria acima dele, que ele precisaria me chamar de ‘minha senhora’, que você me levaria no braço pela corte.”
“Jaime...” Morzan suspirou. “Ele está certo, é claro. Você terá uma posição tão boa quanto a de qualquer outro nobre – exceto do resto dos Treze – e, por mais que eu não possa prometer que te enxergarão como uma igual, não ousarão reclamar abertamente.”
“Isso significa que posso continuar te chamando pelo nome?”
“Pode me chamar do que quiser, Sel.” Ele tomou um gole de vinho, sorrindo um pouco. “Essa é uma de suas condições?”
Selena encolheu os ombros. “Pode ser. Mais importante é que, mesmo que as decisões finais sobre o que eu precise fazer sejam suas, quero sempre ter o espaço para te dizer como me sinto sobre elas, e quero ter a certeza de que vai me ouvir.”
“Você tem a minha palavra,” ele respondeu, sério. “Mais alguma coisa?”
Ela hesitou. “Se você se deparar com algum pensamento contrário ao Império quando estiver examinando minha mente, promete que não vai ficar bravo?”
“Você tem o direito de pensar o que quiser, Selena, e de gostar ou desgostar do que quiser. Acho que é seguro dizer que não me odeia, não é?”
“Bastante,” Selena concordou, e se aproximou para apoiar a cabeça em seu colo, sentindo com as pontas dos dedos a superfície de sua calça de couro. “Podemos fazer isso aos poucos?”
“Aos poucos?” Morzan repetiu.
“Eu sei que você já deve ter aceitado juramentos de lealdade de dezenas, centenas de pessoas, mas é algo muito novo para mim.” Ela engoliu em seco. “Podemos conversar um pouco antes?”
Ele tocou sua cabeça com uma mão, acariciando seu cabelo. “É claro que sim. Sobre o que quer conversar?”
“Qualquer coisa,” Selena disse. E então, “Gostaria de ficar aqui para sempre. Só eu e você.”
“É?” Morzan corria os dedos pelos fios castanhos.
“Sim. Gostaria que ficássemos nesse quarto, nessa cama, e que nunca mais precisássemos nos preocupar com nada. Que esse momento nunca acabasse.” Não olhou para ele. “Gostaria de ter uma parte sua só para mim, como você me tem inteira.”
Pensou tê-lo ouvido suspirar. “E você tem,” Morzan disse. “Não sei dizer exatamente o que é, mas tem.”
“Isso,” ela replicou, e arriscou olhar para ele, “parece ser um jeito bastante desleixado de tentar me enganar.”
“O que prova que não é o caso, não é?” Morzan sorriu. “Eu nunca seria desleixado.”
Selena negou com a cabeça. “Vai precisar ser mais específico se quiser que eu acredite.”
“É isso aqui,” ele respondeu, traçando as linhas de seu rosto com o indicador. “Esses momentos quietos, só eu e você. Os toques mais sutis, e os mais intensos também. O modo como você está respirando tão silenciosamente agora, como se qualquer movimento fosse me fazer parar de falar, estragar a mágica. Você não pode temer perder algo que não existe, Selena, e isso,” ele correu o polegar sobre uma sobrancelha, “é muito real. O modo como seus lábios se entreabrem, o gosto que você sente quando me beija. Tudo isso é parte de mim, e tudo pertence a você. E, enquanto forem suas, essas coisas serão apenas suas. Posso te prometer isso, além das condições que você já estipulou.”
Ela queria o puxar para perto, tão perto que passassem a ser um, em vez de dois. Mas perguntou somente, “E quando elas não forem mais minhas?”
“Você terá as memórias,” Morzan disse. “E tudo que elas trazem consigo. Uma vez que entregamos a alguém uma parte de nós mesmos, Sel, não podemos realmente a pegar de volta.”
“Quando você descobrir meu nome verdadeiro,” ela disse baixinho, “eu serei sua para sempre.”
“Você será minha de qualquer jeito.” Ele bateu de leve em seu nariz com um dedo, sorrindo um pouco. “Mas o nome verdadeiro é diferente. Não é fácil acreditar, mas há algum conforto em saber que existe alguém que nos conhece por inteiro, total e completamente, e que mesmo assim nos quer.”
“E você tem certeza de que ainda vai me querer?”
“Ah, sim. Seria preciso muito para me chocar, você sabe.” Aquilo era verdade, ela supunha.
“Me assusta um pouco,” Selena admitiu. “A perspectiva de conhecer a mim mesma assim. Não me permitiria mais nenhuma ilusão, e acho que algumas ilusões sobre quem somos fazem as coisas mais fáceis.”
Morzan assentiu lentamente. “Você preferiria mantê-las?” perguntou.
“Essa é uma opção?”
“Eu preciso descobrir seu nome verdadeiro,” ele respondeu. “Mas não preciso te contar.”
Selena hesitou. “E então você me conheceria melhor do que eu me conheço,” ponderou. “É quase poético, não acha?”
Ele sorriu um pouco. “Se a vida fosse poesia,” disse, “isso talvez valesse para alguma coisa.”
Ela sorriu de volta, mas a contragosto. “E existe alguém que conheça o seu nome verdadeiro?”
Morzan não se perturbou com a pergunta. “Galbatorix conhece.”
“E você conhece o dele?”
Ele riu. “Não mesmo.”
“É assim que funciona então? Nós nos entregamos completamente, e ganhamos tão pouco de volta?”
“Pouco?” Morzan repetiu. “Não acho que seja pouco. Pense em tudo o que tenho, tudo o que eu sou. Eu diria que o rei me dá muito em troca de meu serviço.”
“Mas ele ainda tem mais.”
“É como as coisas são, e isso não é inteiramente verdade, é? Mais ou menos, melhor ou pior, tudo depende do que tem mais valor para você. Eu estou satisfeito com a realidade de meu acordo com o rei, e acho que você poderia se satisfazer com o que nós dois combinamos, Sel. Não vou me restringir sobre o que posso te dar, tampouco; você vai ter tudo o que precisar, e mais.”
“Você não precisa me convencer,” ela disse em voz baixa. “Eu já concordei.”
“Concordou, sim, mas ainda está tentando aceitar.”
Selena lhe ofereceu um sorriso mínimo. “Você já me conhece muito bem, aparentemente.” Ela se sentou, se afastando um pouco dele. “Pode cruzar as pernas? Quero apoiar a cabeça no seu colo direito.”
Morzan aquiesceu sem dizer uma palavra, e ela ajeitou um travesseiro sobre ele antes de voltar a se deitar, as costas contra o colchão e as mãos juntas sobre a barriga. Ergueu o olhar parte ele, se perdendo as cores diferentes de seus olhos apenas por um momento.
“Pode tocar minha mente,” disse.
A consciência de Morzan roçou contra a dela, seu toque tão leve que quase imperceptível. Muito devagar, ele permitiu que suas mentes de entrelaçassem, mais e mais, até que ela não soubesse bem onde ela acabava e ele começava. Estar em contato com seus pensamentos era de uma intimidade inimaginável, e estranhamente reconfortante.
“Diga de novo,” ela pediu, tanto com sua voz quando mentalmente. “Que existe uma parte sua que é só minha.”
“Há uma parte de mim inteiramente, exclusivamente, sua.”
Selena fechou os olhos. “Se eu pedir para parar, você para.”
“É claro.” Ele levou as mãos a sua testa, seus dedos longos e habilidosos massageando gentilmente as têmporas de Selena. Ficou assim por algum tempo, e estar em contato com sua mente tão calma fez com que ela se acalmasse também. Finalmente, Morzan perguntou, “Está pronta?”
Sim, ela respondeu, e se entregou a ele.
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