Shiver
16 Capítulo 16

Selena se sentou melhor na cama, muito confortável embaixo dos cobertores, mas ainda não tranquila o suficiente para dormir. Tomou um gole do chá que Adam a oferecera e puxou para o colo o livro que Eron lhe dera, correndo os dedos pela capa de couro. “Acha que Morzan ainda vai demorar muito?”
Adam encolheu os ombros, a túnica vermelha refletindo a luz das velas. “Ele disse que sim. Não deveria esperar acordada.”
Ela assentiu uma vez, quieta. “Tudo bem. Obrigada.”
“Irei deixá-la, então.” Adam sorria um pouco. “Se precisar de mim, estarei no corredor.”
Selena apenas concordou com a cabeça, distraída, sentindo o relevo do título. Uma História Completa dos Mais Importantes Nobres e Famílias do Reino Broddring – não tão completa, segundo Morzan, mas mais do que o suficiente para uma distração. Ouviu a porta abrir e fechar, um barulho suave anunciando a saída de Adam, e se ocupou em examinar mais uma vez o retrato de Galbatorix.
Era estranho, ela refletiu, que não mostrassem seu rosto. Por mais que quisesse distância de seus súditos, por mais que tivesse inimigos que fossem se beneficiar com a informação – que talvez já possuíssem de qualquer forma –, seu rosto perdido em sombras lhe dava um ar misterioso e quase sombrio. Perigoso, sim, mas que inspirava pouca lealdade, e o livro não seria lido pelas pessoas mais simples e mais pobres.
Talvez medo fosse o propósito.
E, mesmo depois de dias na companhia do primeiro dos Renegados, Selena não se sentia mais inclinada a acreditar no texto que vinha a seguir do que se sentira em Carvahall. Talvez – talvez – Morzan não fosse tão horrível quanto diziam que era, mas não estava prestes a crer que ele havia sido um herói por ter se erguido contra os Cavaleiros. Por mais agradável que fosse sua companhia.
Sofrimento, sangue, e dor. Selena afastou o pensamento.
O retrato de Morzan era um pouco diferente de seu rosto verdadeiro, ela reparava agora. Parecia mais jovem, de alguma forma, seus traços mais perfeitos. Eram variações quase imperceptíveis, mas impossíveis de ignorar uma vez que ela as percebera. Correndo os dedos pelas linhas de seu rosto, decidiu que preferia Morzan como ele realmente era.
Leu rapidamente o que o livro dizia sobre ele, incomodada pelas informações vagas e inconclusivas. Não era novidade que ele fora o primeiro a se juntar a Galbatorix, nem que era, de longe, o servo preferido do rei. Mas que ele tinha uma grande propriedade na região do lago Leona era interessante, assim como que assumiria controle direto do exército do rei em caso de invasão ao Império. Nada sobre sua família, além de que ele não era casado ou tinha filhos. Talvez ele lhe contasse mais se Selena perguntasse.
Havia mais. Uma iluminura detalhada de sua espada – Zar’roc, o livro dizia, algo que Morzan já lhe contara – separava o texto em duas colunas, e um dragão vermelho se deitava no fim da página. O símbolo na espada era o mesmo bordado em preto sobre a túnica de Adam, Selena reparou. Talvez o símbolo pessoal de Morzan?
Ela traçou o contorno de seus lábios com os dedos uma última vez, maravilhada com a qualidade da iluminura, e virou a página. Se deparou com um elfo de olhos cinzentos muito frios – um elfo, ela sabia, pelos olhos levemente puxados e as orelhas pontudas que partiam os fios loiros de seus cabelos compridos. Kialandí. Algo sobre sua expressão deixava Selena desconfortável, no entanto, e a espada e o dragão mostrados ao seu lado eram de um tom de roxo profundo.
Outro elfo, este de cabelos negros e olhos distraídos de um azul escuro parecido com as escamas de seu dragão. Enduriel, o livro informava. E então Formora, com orelhas pontudas e os cabelos ruivos mais bonitos que Selena já vira. Ela ainda se lembrava do que Morzan lhe dissera sobre a elfa, no entanto. Desagradável demais para a beleza contar para alguma coisa.
O próximo era humano, e Selena tinha que admitir que sentiu certo alívio ao constatar o fato. De cabelos loiros como fios de ouro que tocavam seus ombros e olhos verdes muito vivos, Aleifar talvez fosse ainda mais bonito que Morzan. Tinha lábios cheios e traços elegantes, perfeito como os príncipes das histórias. Seu dragão tinha escamas que brilhavam talvez como prata ou ouro branco, mas eram de um tom perolado não encontrado em metal algum.
Alexis era sua irmã gêmea, o livro dizia, e realmente compartilhava dos mesmos cachos dourados e lábios cheios. Selena se lembrava de como o dono de uma taverna perguntara a Morzan se ela estava “ocupando o lugar de Senhora Alexis”, e se em algum ponto ele houvesse se envolvido com alguém como ela era inacreditável que se interessasse por Selena por um único momento.
Ela estava perdida no texto, lendo aquela parte com atenção redobrada, quando a porta se abriu.
Morzan usava calças escuras e camisa vermelha com detalhes dourados, nem de longe tão elegantes quanto o gibão que ele vestira pela manhã, seus cabelos negros úmidos. Seus olhos díspares passaram pelo livro aberto antes de encontrarem os de Selena, e ele sorriu um pouco. “Não dormiu?”
Ela encolheu os ombros. “Não quis.”
Ele se sentou na cama, se abaixando para tirar as botas. “Adam disse que voltou tarde,” comentou, seu tom muito leve. “E que parecia incomodada.”
Selena franziu o nariz. “Adam te conta tudo?”
“Tudo que importa,” Morzan respondeu, e sorriu. “Tente não ficar brava; é dever dele, você sabe.”
Ao que ela assentiu em silêncio, Morzan pendeu a cabeça para o lado, pensativo, e a estudou por um instante. Se aproximou, apoiando a costas contra a cabeceira da cama, e ergueu uma mão para tocar seu rosto. “Tem certeza que está bem?”
Ela hesitou. “Sim.”
Morzan a beijou devagar, seus lábios partindo os dela apenas um pouco, mas não foi preciso mais que o contato para que Selena relaxasse. Ela deixou escapar um suspiro quando ele se afastou, correndo os dedos por seus cabelos úmidos. Brincou um pouco com uma mecha, quase curiosa.
“Tomei um banho,” Morzan explicou, muito embora não precisasse. “Estava precisando.”
Selena se perdeu observando seus olhos. Um azul, um negro, infinitos tons entre os dois, ambos atentos e penetrantes; eles a faziam se sentir um pouco vulnerável, e ela sentia que poderia observá-los por horas sem se cansar. “O que fez hoje?”
“Lidei com algumas coisas que exigiam minha atenção,” Morzan respondeu simplesmente, e ela soube que ele não iria elaborar. “E você?”
Ela encolheu os ombros, sem saber ao certo quanto lhe contar. “Fui à loja de uma herbolária,” arriscou dizer. “E comprei o que precisava, mas desde então estive pensando, e...”
“E?” Ele pressionou gentilmente, prendendo uma mecha dos cabelos castanhos de Selena atrás de sua orelha.
“Fiquei me perguntando se realmente precisava.”
Morzan suspirou, quase cansado, e ela soube que ele entendia. “Se precisava comprar mais ervas para fazer mais daquela mistura que vem bebendo todas as noites? Não.”
“Você pode impedir que eu engravide com um feitiço.”
“É o que vim fazendo,” ele admitiu, calmo.
Selena entreabriu os lábios. “Por que não me contou?” perguntou, a testa ligeiramente franzida.
“Você nunca falou comigo sobre isso, Sel, e chegou a disfarçar o que fazia. Achei que o assunto talvez te fizesse desconfortável.” Ele correu o polegar por sua bochecha numa carícia muito leve. “Como saberei que confia em se não me conta as coisas?”
“Não quis te incomodar com isso,” ela disse baixinho.
Morzan sorriu. “Seus problemas não são um incômodo, Selena, e nunca serão. Não quero que tenha receio de me falar sobre eles. Tudo bem?”
Ela assentiu uma vez. “Tudo bem.”
“E estamos bem, eu e você?”
A pergunta pesou em seu peito. “É claro que sim.”
“Bom.” Morzan se aproximou para beijar sua testa, seus dedos se emaranhando em seus cabelos, e Selena se permitiu um pequeno sorriso. Estava tudo bem, e estar próxima a ele já a fazia se sentir melhor. Ele se afastou, olhando de relance para o livro. “Esteve lendo sobre Alexis ou tive a sorte de não te encontrar na página de um dos elfos?”
“Um pouco dos dois,” Selena respondeu. “Aqui diz que ela e Aleifar são aliados seus.”
“Nem sempre, mas frequentemente. Já te disse que não deixamos que relações pessoas interfiram em nossos interesses, não?”
“Já.” Selena olhou para os olhos verdes de Alexis. “Ela é muito bonita.”
“É,” Morzan concordou facilmente. “Mas não é a única.”
Ele tirou o livro das mãos de Selena e o fechou com cuidado, correndo os dedos pelo título antes de o deixar sobre a mesa de cabeceira, e ela acompanhou seus movimentos com os lábios entreabertos.
“Já está quase amanhecendo, Selena,” e a voz de Morzan era muito gentil, “e você precisa dormir. Está bem?”
Ela assentiu, e Morzan tirou a camisa e se deitou sobre os travesseiros, estendendo um braço para que Selena se juntasse a ele, apoiando sua cabeça em seu peito nu. Se sentindo muito protegida em seus braços, não deu atenção a voz que sussurrava em sua mente – uma traição vinda daquele de quem você menos espera – e fechou os olhos.
“Boa noite,” murmurou, já sonolenta, e a resposta de Morzan foi apenas um beijo muito leve sobre o topo de sua cabeça.
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