Shiruko

5 Shiruko


— Alô? – surgiu a voz hesitante. – Pode fechar a porta, por favor? – pediu fora da ligação.

— Takao – a outra voz era séria e firme. Parecia contrariado. Com razão. – Por que não atendeu?

— Ah... Acabei de atender – desculpou-se emendando uma risada sem-graça.

O silêncio pipocou entre eles.

— Então. Você disse que precisamos conversar.

— Sim.

— Sobre? – Takao incentivou.

— Shiruko.

Silêncio.

— Ahn? Shiruko? Sopa de feijão doce?

Silêncio.

— Shin-chan... você está com febre ou alguma coisa assim? Eu também estou bem mal com a ressaca, mas se você quiser eu vou-

Takao olhou para o celular por um momento.

E foi a sua vez de ligar e ter a chamada recusada. Ligou de novo. Ele atendeu pouco antes que encerrasse.

— Você desligou na minha cara! – reclamou um indignadíssimo Takao.

— Mudei de ideia. Não quero mais falar com você.

— Não desli-

Takao sentia que sua pressão arterial estava sofrendo mais naquele dia do que em qualquer outro da sua vida. Tamanho estresse não podia ser saudável.

— Shin-chan – Takao repreendeu quando ele finalmente atendeu. Mas logo suspirou e amansou a voz. – Me explique o que você quer. Direito, por favor.

— Shiruko.

— Shin-chan, não é justo! – Lamentou-se. – Você não pode fazer isso comigo... Você quer que eu saia da minha casa e leve uma bebida para você? Você não tem um estoque dessas latinhas em casa?

Ouviu Midorima suspirar do outro lado da linha.

— Espera. Tive uma ideia. Só escute — pediu.

Takao ouviu ele se movimentar, parecia estar descendo as escadas correndo, soltou um palavrão baixinho, devia ter batido o dedinho – Kazunari segurou a risada. Ouviu-o abrir a porta da geladeira.

— Preste atenção — Midorima ressurgiu mandão.

Takao assentiu concentrado como se ele pudesse lhe ver.

Ouviu o estralar alto de uma latinha sendo aberta.

— E então? – Shintaro voltou ansioso.

— Ah... você abriu uma latinha?

Silêncio.

— Shin-chan...?

— Vou desligar.

— Não! Espera! Era uma latinha de Shiruko, ne?

— Sim – respondeu hesitante. – E...

— E... E... Você queria que eu ouvisse, ne?

Novo suspiro do outro lado da linha.

— Sim, Takao. Eu queria que você ouvisse.

— Por que... – incentivou Takao.

Novo silêncio.

— Preste atenção. Feche os olhos. O que o som te lembra?

Takao se remexeu na cama. Tinha sentado com as pernas cruzadas e estava muito concentrado na conversa mais absurda que Shin-chan já lhe proporcionou em quase dois anos de sólida amizade.

Ouviu o som da latinha de metal sendo aberta. Soava bem alto em seu ouvido.

— Abra mais uma – pediu em contemplação.

— Lembrou?

— Sim... Sim... Não, Shin-chan. Não faço ideia.

— Tsc! — Midorima expressou frustrado.

Um relâmpago iluminou a obscura mente de Takao e as memórias de bêbado voltaram com força.

Tinha ouvido Midorima fazer aquele mesmo som, “Tsc!”, quando o desafiou a provar que Shiruko era bom – afinal, a bebida preferida de Shin-chan era mais popular entre gente velha do que entre pessoas de dezesseis anos.

Foi aí que ele o arrastou para o banheiro e demoraram tanto para voltar que os amigos bêbados nem fizeram questão de relembrar o desafio – já estavam em outro assunto.