Shiroi Yami

1 A Escuridão Se Aproxima


A viela estava vazia, não tinha qualquer lugar naquela maldita cidade que ele pudesse mijar. Então, ocorreu de entrar na viela entre dois prédios comerciais que projetavam ambas suas sombras sobre o pequeno beco deserto deixando-o negro, sem luz, sem vida. Ninguém usava aqueles becos porque eles não davam em lugar algum. Eram sempre fechados ou vezes enganadores, a pessoa que se achasse esperta demais para cortar caminho por uma viela sempre acabava de frente aos muros.

A tarde começava a se retirar, o céu cinzento e sujo da cidade começa a ficar de uma cor roxa doentia devido ao grande numero de prédios altos que escondiam o céu e por causa da poluição dos veículos e das luzes em todos os lugares. O céu quase não existia ali naquela cidade.

Ao virar a esquerda da rua e entrar na viela foi caminhando com sua pasta na mão até atrás de uma das latas de lixos grandes que ficam cobertas a maior parte do tempo. As pessoas usam isso? , pensou. Ele se esgueirou para o lado oposto da lixeira no qual as pessoas que passassem pela rua e olhassem pelo beco não o veriam em pé enquanto esvaziava a bexiga. Apoiou sua pasta no chão, e abriu o botão da calça, esvaziou a bexiga. Enquanto mijava percebeu que estava pensando no seu dia de trabalho: O seu chefe gordo e suado que andava de um lado para o outro no escritório com papéis de pedidos, trocar e devoluções, a secretária do chefe, magra e feia com aquele cabelo ridículo amarrado em coque, o funcionário chato que se achava chefe da empresa e de alguns outros que não fazia questão de conhecer, pensou também em sua vida pessoal e no fracasso quando achou que poderia morar com uma mulher que conheceu em um bar enquanto bebia com alguns amigos. Tudo isso fora perdido, agora morava sozinho novamente, seu trabalho era tedioso com milhares de telefonemas de pessoas pedindo cosméticos que não fazia diferença alguma na vida das pessoas.

Richard ponderou todos esses assuntos em minutos enquanto mijava, mas pareciam que haviam se passado horas e quando voltou a si viu que estava com o pau na mão e nem tinha percebido que tinha algo atrás de si. Fechou o a calça e agachou para pegar sua pasta e então se virou. Quando escureceu tanto? Forçou a vista para enxergar o que estava atrás dele, percebeu que tinha forma humana. Por que não teria? Aparentava ser homem, pela silhueta ele repararia se tivesse cabelos longos e olhando bem, enxergava as orelhas e isso só queria dizer que o cabelo era curto demais para ser uma menina. Idiota, garotas podem ter cabelo curto.

–Quem é você? – Perguntou Richard com a voz baixa.

Não houve nenhuma resposta. Olhou para o lado de aonde viera e achou que estivesse louco, a rua no qual ele andava há alguns minutos atrás não existia mais, estava tudo negro. Suas pernas pareciam pedras, ele tentou andar, mas nada aconteceu.

–Quem é você? – Perguntou novamente.

–Sou você e sou eu. – A voz era masculina, monótona e sem vida. – Sou todas as pessoas no mundo e não sou ninguém. Sou os rios, os lagos, os peixes e os pássaros. Sou a lua e o sol, a chuva e o calor, somos o que sobrou no mundo.

Que conversa era aquela? Que tipo de garoto fica atrás de você enquanto se está mijando durante a cansável rotina do seu emprego e começa a falar coisas sem sentidos? As palavras eram confusas e o garoto parecia querer se divertir dizendo aquilo ou dizer aquilo para se divertir antes de matá-lo e levar suas coisas, mas algo em que ele disse pareceu verdadeiro.

–Você é Deus? – Perguntou Richard.

–Não – Respondeu o menino. – Tampouco o Diabo. Somos um só e ninguém, não vê o que está acontecendo?

E ele percebeu tudo, iria ser morto.

–Por favor, não me mate, sou um homem honesto e nunca fiz nada de errado e nem fora dos padrões da lei, você é um menino... – Estava com as mãos tremulas e soava frio enquanto falava. — Tenho dinheiro, pode levá-lo.

–Sim, o dinheiro era tão bom quanto um beijo de uma menina. – Zombou o menino.

Por que Richard estava com tanto medo daquela situação? Era só um menino e ele um homem adulto, podia muito bem dar um empurrão no rapaz e sair correndo, mas, onde estava a rua? Ele olhou de novo pro lado da rua e tudo continuava negro como se ele estivesse de olhos fechados, não tinha luz alguma. Olhou para cima, o céu deveria estar lá ele pensou assim. As estrelas estavam lá, assim como formas cinza que se moviam rápido demais para serem nuvens, fumaça. Abaixou a cabeça e olhou fixamente para o menino e reparou que ele estava de mochila e segurava algo na mão. Como não reparei nisso antes? É uma faca, ele vai me esfaquear e vou morrer aqui nesse beco imundo.

–O que é isso na sua... – Richard perguntou enquanto algo entrou se contorcendo pelo beco e o calou.

o garoto disparou na direção da coisa que se debatia no chão, a mochila foi para cima e para baixo enquanto o garoto corria em uma adrenalina mortífera, a coisa que estava caída no chão não o viu se aproximar e o garoto a apunhalou na cabeça e logo ela parou de se debater. O menino virou as costas e começava a voltar para perto do homem quando mais duas entraram o beco e se jogaram no chão começando a rasgar a carne da que tinha caído no chão, o garoto parou. O barulho da carne sendo rasgada e mastigada era tudo que se ouvia naquele lugar. As criaturas desformes respiravam com dificuldade, o peito parecia inchar a cada mordida que davam e eles emitiam um som grave, um tipo gutural incessante e horrível de se ouvir. O garoto estava de costa para os comedores e olhou fixamente na direção de Richard. A menção que o garoto fez deixou tudo claro, apenas o leve mexer de cabeça que ele fez dizendo 'não' foi suficiente. Richard virou estátua e o garoto pedra, ele não ousava respirar muito alto, seu coração parecia um tambor, ele temia que aquilo estivesse ecoando pelo beco. As mãos dele estavam tremendo e suadas e ainda estava segurando a pasta, não foi o som do coração que estragou tudo e muito menos o seu esforço para não respirar, foi tudo rápido demais até pra ele raciocinar. A pasta escorregou dos seus dedos e caiu no chão. Tunc. O som ecoou pelo beco... As criaturas levantaram a cabeça do corpo destroçado que estavam comendo e olharam na direção da lixeira, o som gutural que emitiam parecia estar aumentando até se tornar quase um grito de dor. A última coisa de que Richard virá foi as criaturas disparando na direção dele, o menino abaixando e tirando algo de dentro da mochila. As pernas dele cederam e ele desabou no chão, o garoto gritava algumas coisas do outra lado mas Richard só entendeu uma palavra.

Fogo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.