Sheikah
1 Sobre galinhas, cenouras e glórias passadas
POV Paya
A consciência lentamente invade meu corpo, expulsando os resquícios do sono de dentro de mim. Abro os olhos rapidamente e, pela iluminação no corredor, noto que o sol deve ter acabado de nascer. Um sorriso brinca em meus lábios enquanto me espreguiço, contente.
Hoje vai ser um bom dia.
Todos são.
Me levanto da cama em um salto, sem querer desperdiçar nem mais um segundo enrolando sem fazer nada. Balanço a cabeça para terminar de dispersar os últimos vestígios da letargia e, antes de trocar o pijama e me vestir para o dia, me sento à escrivaninha ao lado da cama. Meu diário está aberto sobre ela exatamente como o deixei na noite anterior. Pego a pena que está próxima a ele, a mergulho na tinta e inicio o registro desta manhã.
Tive uma boa noite de sono hoje, sem nenhum sonho marcante. Sinto-me cheia de energia e pronta para mais um dia como líder dos Sheikah.
Depois que Zelda e Link aniquilaram Ganondorf há algumas semanas, a rotina no vilarejo ficou muito mais leve. Ainda estamos terminando de remover as ruínas que desabaram por aqui e reconstruindo o que foi destruído, mas o simples fato de não termos mais nenhum perigo iminente ou profecias a serem cumpridas deixou todos muito mais relaxados. Mesmo com os dois heróis ausentes — partindo, finalmente, para sua merecida lua-de-mel, que precisou ser adiada depois de todo o caos e do desaparecimento da princesa —, nos sentimos muito seguros agora.
Bom, eu me sinto, pelo menos.
A vovó ainda tem algumas reticências quanto à segurança no reino, já que os Yiga permanecem ativos, mesmo que não mais do que o usual. Mas isso não me preocupa. Nós, os Sheikah, somos muito bem treinados em técnicas de combate. E Link também fez um ótimo trabalho nos últimos anos ensinando qualquer Hylian interessado em aprender sobre autodefesa.
Não culpo vovó em seus temores, no entanto… dada sua história com os Yiga. Ter sido enganada pela pessoa que ela julgava ser o amor de sua vida… e grávida, ainda por cima… e depois perder sua filha para a mesma tribo… não consigo nem começar imaginar a dor que ela deve ter sofrido.
Mas isso é passado. Não vejo sentido em toda essa consternação a esta altura do campeonato. E a líder dos Sheikah agora sou eu, não ela. Por decisão dela mesma, inclusive. Quando ela veio até mim, quase um ano atrás, e disse que eu já era uma adulta e que, portanto, poderia assumir o posto, passei muitas semanas me questionando se estava pronta para isso ou não. No entanto, logo na sequência houve todo o caos com o retorno de Ganondorf, o sumiço de Zelda e a queda das ruínas das ilhas flutuantes… e simplesmente não houve mais tempo para dúvidas. E, no meio de todo o rebuliço, eu consegui me encontrar enquanto líder, e me vi gostando da função.
O povo pareceu me aceitar, e, juntos, conseguimos trabalhar muito bem durante aquele período. Ao contrário de vovó, que permanecia em sua casa, sempre em sua imensurável sabedoria e auxiliava os que vinham até ela, eu procurei agir com outra abordagem. A queda das ruínas sobre o vilarejo me pareceu exigir uma postura mais ativa e presente — portanto, desde então, eu tenho feito questão de ir até o vilarejo e interagir com os moradores todos os dias.
É um grande prazer estreitar a relação com eles. Espero que estejam tão satisfeitos com minha gestão quanto eu estou feliz de geri-los.
Encaro o diário por mais alguns segundos, pensando se quero incluir mais alguma coisa. Entretanto, sem ter mais o que dizer, apenas me levanto e inicio minha rotina matinal.
Apesar de gostar muito da minha recente função enquanto líder Sheikah, ainda não consegui aprender a apreciar o uniforme que ela acompanha. As muitas camadas de tecido, a saia longa justíssima — terrível de caminhar — e o gigantesco chapéu são muito incômodos. Quando questionei à vovó sobre talvez mudar as vestimentas para algo mais moderno e ágil, ela se irritou e reforçou a “importância de manter as tradições”.
— Mas eu mal consigo me mover nessas roupas! E se eu precisar lutar? — perguntei a ela, frustrada.
— Como líder, as chances de você estar nas linhas de frente são baixíssimas, Paya. Sua função aqui é de gerenciar o vilarejo e aconselhar os que buscarem sua ajuda, não batalhar.
Com isso, ela encerrou o assunto. Mas, ainda que ela estivesse correta quanto à necessidade de que eu me juntasse aos batalhões — mesmo com o ataque de Ganondorf, minhas obrigações foram praticamente administrativas —, eu gostaria de mais liberdade nas decisões. O sangue Sheikah que corre em minhas veias anseia pela agilidade, por movimento, adrenalina.
Bom. Eu sou a líder agora. Talvez eu simplesmente decida alterar o uniforme. O que ela vai fazer quanto a isso?
O mero pensamento faz meu coração acelerar levemente e sinto meu corpo ficando gelado por alguns segundos.
É... quem sabe em outro dia?
Termino de me vestir e desço as escadas desajeitadamente. Ao chegar no andar térreo, encontro vovó sentada em seu lugar habitual, na plataforma elevada da sala, tomando uma xícara de chá.
— Bom dia, Paya — diz, sorrindo.
— Oi, vovó, bom dia — respondo, fazendo uma leve reverência com a cabeça. — Como a senhora está?
— Excelente, obrigada. E você, querida? Quais os planos para o dia?
Vovó Impa se interessa muito pela maneira como eu estou liderando o vilarejo; ela, em geral, não expressa muito suas opiniões, mas parece estar gostando da minha postura neste cargo.
— Ah, o de sempre — respondo. — Primeiro vou fazer minha ronda matinal, para verificar se está tudo bem na vila. Depois, vou falar com os voluntários sobre o progresso da retirada das ruínas. Eu gostaria de poder ajudá-los também, vovó. Eu sou forte, seria um reforço útil para terminarmos isso logo…
— Não estamos com pressa, Paya — vovó descarta minha sugestão. — Não existem mais ameaças rondando o reino, e logo todas essas pequenas questões serão resolvidas. Então o povo vai simplesmente voltar para sua rotina normal e monótona. Deixe que eles se entretenham um pouco com a mudança.
Aceno, frustrada.
— Tudo bem… você tem razão — pego uma maçã para comer e me dirijo para a porta. — Volto antes do almoço.
O ar fresco da manhã me atinge assim que piso do lado de fora, o cheiro petricor indicando que choveu pouco tempo atrás. Algumas pessoas já se levantaram e iniciaram seus dias, então a vila está começando a ficar movimentada. A beleza do lugar onde eu moro, cercado por montanhas e cachoeiras, rapidamente limpa o leve incômodo que surgiu após a conversa com a vovó.
Desço as escadas feliz, animada para conversar com os moradores.
— Bom dia, Dorian! — cumprimento o guarda que está ao pé da escada.
— Bom dia, chefe Paya — responde Dorian, sério e focado como sempre.
— Onde está Cado? Ele está bem? — pergunto pelo outro vigia, que costuma montar guarda junto com Dorian.
— Algumas de suas galinhas fugiram novamente — diz Dorian, e, por trás de sua expressão apática, noto que ele está levemente irritado. — Como o dia está tranquilo, ele pediu que eu cobrisse seu turno para que ele pudesse procurá-las.
— Pobrezinho! Sei como ele as ama… que frustrante que elas continuem fugindo.
— Devem ter aprendido com a ex-mulher dele — Dorian resmunga baixinho, provavelmente pensando que eu não conseguiria ouvi-lo.
— Dorian! Que coisa feia — repreendo-o e ele fica levemente ruborizado. — Quando Cado retornar diga a ele que me procure se precisar de ajuda para encontrá-las, por favor.
Prossigo a caminhada fazendo minha rota tradicional, cobrindo o vilarejo em sentido anti-horário. Passo entre os campos de agricultura, onde as cenouras e as abóboras estão crescendo lindamente. O laranja dos frutos junto com o rosa das ameixeiras trás um contraste bonito com todo o verde da vila, e meus olhos chegam a lacrimejar frente a tanta beleza.
Converso com os moradores do vilarejo, perguntando sobre suas vidas, obrigações e possíveis dificuldades. Anoto mentalmente as queixas e os pedidos que alguns deles têm, para resolvê-los assim que possível.
Sigo em frente e, quando estou me aproximando da bifurcação que leva ao morro oeste, noto que o pesquisador Tauro está chegando ao vilarejo. Apesar de estar acostumada com sua usual escolha de vestimenta — ou seja, quase nenhuma, considerando que ele está sempre sem camisa e usando apenas um colete —, sinto minhas bochechas esquentarem levemente ao vê-lo.
— Bom dia, senhorita Paya — Tauro me cumprimenta, educado, fazendo uma leve reverência. — Um lindo dia hoje, não?
— Bom dia, Tauro — respondo, tímida, acenando para concordar com sua declaração. — Não sabia que o senhor estava pelas redondezas.
— Sim, sim. Purah pediu que eu viesse até aqui coletar um pouco da terra ao redor do abismo que se abriu na colina oeste. Agora que não existe mais miasma escapando da fissura, conseguimos nos aproximar e coletar materiais para estudo.
Miasma foi o nome que demos à fumaça tóxica que atormentou o reino há alguns meses. Qualquer um que entrasse em contato com ela perdia vitalidade imediatamente e ficava acamado. Houve até mesmo algumas fatalidades. No entanto, após a queda de Ganondorf, ela desapareceu completamente.
— Bom, o senhor já sabe, mas reforçarei: se precisar de qualquer assistência, não hesite em me procurar. Estou aqui para ajudar! Espero que aproveite sua estada aqui no vilarejo.
— Obrigada, senhorita Paya — Tauro abre um daqueles seus grandes sorrisos. Meu coração dispara levemente e eu franzo a testa, confusa com a reação. Ele acena e se distancia, caminhando em direção ao morro.
Balanço a cabeça e respiro fundo antes de continuar meu percurso. Chegando no último trecho, inicio a descida de volta à minha casa. No entanto, em vez de concluir a ronda como de costume, desta vez decido parar na Encantada, a loja de roupas e armaduras que fica neste pedaço da vila.
Entro hesitante no estabelecimento e cumprimento Claree, a jovem atendente. Trocamos algumas amenidades enquanto eu junto coragem para abordar o assunto que me fez entrar ali.
— Claree, foram vocês quem confeccionaram esse traje que estou vestindo, não?
— Sim, senhorita Paya. Nanna — minha avó — e eu trabalhamos bastante nessa roupa. Foi especialmente difícil, visto que não tínhamos suas medidas, já que a chefe Impa pediu segredo durante a confecção.
Mortificada por ter sido a causa deste transtorno, me desculpo imediatamente.
— Perdão, Claree… Se eu soubesse teria vindo aqui imediatamente.
Ela dispensa minhas desculpas com um gesto.
— E então… em que posso ajudá-la hoje, senhorita Paya?
— Bem…
Então, ainda mais envergonhada por estar reclamando de um traje que, aparentemente, deu tanto trabalho para ser feito, gaguejo meu pedido.
— É que… bem… esse traje é maravilhoso — digo, diplomática. — Mas muito… restrito. Gostaria de saber se, de repente, não seria possível… confeccionar uma alternativa que permitisse mais… agilidade.
Claree parece levemente aborrecida com o pedido, mas acena relutante, concordando.
— Claro, senhorita Paya. Você tem alguma ideia em mente?
Olho para a esquerda, onde estão expostas as peças do uniforme Sheikah de furtividade. Uma lembrança de Link vestindo o mesmo traje, tão justo em seus músculos, lampeja em minha mente e eu chacoalho a cabeça expulsando o pensamento.
Ele é um homem casado agora, Paya, se recomponha, penso, irritada.
Volto a analisar as roupas. Este conjunto é construído de um tecido especial que reduz ruídos e parece ser muito leve e resistente.
— Seria possível confeccionar algo similar? — pergunto. — Mas nas cores do meu uniforme atual… e talvez mais… feminino?
Claree franze a testa, estranhando o pedido, e dá de ombros como se não se importasse tanto assim.
— Claro. Posso tirar suas medidas dessa vez?
Concordo, me sentindo enrubescer novamente.
— Um último favor… não comente com ninguém sobre esse pedido, por gentileza? Nem com… nem com a minha avó, Impa. Por favor — peço, ligeiramente desesperada.
. . .
Viro de um lado para outro na cama, inquieta. Será que já está cedo o suficiente? O corredor ainda está escuro, mas não tanto assim. Acredito que o sol deve nascer em breve.
Ansiosa, me levanto e coloco uma roupão por cima do pijama. Já se passaram alguns dias desde que encomendei o novo uniforme com Claree. Quando a vi ontem durante minha ronda vespertina pelo vilarejo, ela acenou para mim como se indicasse que estava tudo pronto.
Desço as escadas para o térreo o mais silenciosamente possível, para não acordar vovó. Calço meus sapatos e saio para a madrugada gelada. O sol ainda não nasceu, mas o céu já está clareando. Satisfeita, vejo que todos ainda estão em suas casas, provavelmente dormindo. Corro escadaria abaixo e me dirijo à loja. À distância, noto que a porta da frente está entreaberta e a luz dentro do estabelecimento, acesa.
Aumento a velocidade da caminhada, mal podendo esperar para ver o resultado. Subo até a plataforma da loja e me adianto para bater na porta — apesar de ela estar alguns centímetros aberta, não quero ser invasiva. No entanto, assim que levanto o punho para anunciar minha chegada, ouço meu nome em meio a uma conversa entre Claree e sua avó.
Franzo a testa e me aproximo silenciosamente, tentando ouvir melhor. Meu decoro me repreende, dizendo que eu não deveria espiar conversas alheias, mas meu instinto me compele a investigar o que está acontecendo.
— Ela deve chegar logo para buscar a encomenda — diz Claree.
— Realmente ficou excelente, acredito ser um dos melhores trajes que já fizemos, querida — responde sua avó, Nanna. — Pena que é meramente decorativo, não?
— Vovó! — ri Claree, sua voz carregada de escárnio. — Não seja maldosa.
— Ah, Claree, não se faça de sonsa, por favor! Você sabe tão bem quanto eu que esse cargo de chefe dos Sheikah hoje é uma grande piada.
— Paya fez um trabalho decente liderando a investigação das ruínas que caíram dos céus aqui na vila.
— Hum — bufa Nanna. — Investigar pedras, grande coisa. Isso é uma grande vergonha para a história dos Sheikah, Claree. Nós costumávamos ser muito mais do que isso. Éramos os conselheiros reais, a inteligência de Hyrule — nós mudávamos o curso de guerras, fazíamos o trabalho sujo sem questionar, éramos poderosos e impiedosos. E agora, olhe para nós… criando galinhas e plantando cenouras.
— Você fala como se tivesse vivido os anos de glória, Nanna. A Calamidade não aconteceu alguns anos antes de você sequer ter nascido?
— Bem, sim — admite a idosa, tendo a decência de parecer envergonhada. — Mas ouvi as histórias de minha mãe e minha avó. E vou te dizer, querida, comparado aos Sheikah de outrora… somos uma desgraça.
— Bom, a princesa Zelda agora está casada. Acredito que é apenas uma questão de tempo até termos novos membros da família real. Quem sabe não retomaremos nossas funções originais?
— Sob a liderança de Paya? — zomba a senhora. — Ela está brincando de ser chefe, mas nunca vai ser mais do que uma mera administradora do vilarejo. Claro, ela é um doce… mas não tem o que é necessário para forjar soldados Sheikah de qualidade.
Apesar de não conseguir ouvir nem mais um segundo dessa discussão, meus pés estão colados no chão, incapazes de me tirarem dali. Um zunido alto soa em meus ouvidos e as vozes delas ficam indistintas e distantes.
As incertezas desabam sobre mim, transformando em poeira qualquer confiança que eu pudesse ter. É isso o que todos pensam? Todos me veem como uma líder incompetente? As conversas diárias, nossas interações… estiveram sempre carregadas de condescendência… e eu não percebi?
Minhas bochechas queimam com a vergonha e meus olhos ardem com as lágrimas que surgem ao pensamento. Me sinto pequena, incapaz, uma piada. No entanto, por baixo de toda a humilhação que vibra em cada célula do meu corpo, uma raiva intensa começa a latejar em meu âmago.
Forço-me a abrir um sorriso e reúno força para bater na porta, anunciando minha presença. Sem esperar por uma resposta, a abro. Claree e Nanna ficam em silêncio imediatamente. Por meio segundo vejo seus olhares congelarem, com medo de terem sido pegas em meio a seu veneno. A senhora se recupera rapidamente, enquanto a jovem leva alguns segundos a mais.
— Chefe Paya, que prazer tê-la em nosso estabelecimento! — diz Nanna, sorrindo. Meu instinto é o de avançar nela e arrancar esse risinho de sua cara no tapa, mas me forço a cumprimentá-las de volta com minha habitual animação.
— Bom dia, queridas. Espero não ter chegado cedo demais.
— Claro que não! Estava falando com Claree agora mesmo sobre como este traje ficou incrível. Seu material é leve, porém muito robusto. É impermeável e altamente silencioso. Acreditamos que você fará um ótimo uso dele — diz, enquanto pega uma caixa no balcão e, em seguida, a carrega na minha direção.
Encaro a senhora por alguns instantes, fitando o fundo de seus olhos, até perceber que ela está desconfortável. Então, digo:
— Tenho certeza de que acreditam.
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