Sheikah
7 Sobre a curiosidade mórbida de soberanos
POV Impa
— Por que o seu cabelo é branco? — Zelda me olha com curiosidade.
Se eu ganhasse uma rupee para cada vez que a princesa me pergunta o porquê de alguma coisa, minha fortuna já estaria garantida. Já se passaram alguns meses desde que comecei a trabalhar como babá da garotinha. Todos os dias — com exceção dos finais de semana — eu fico com Zelda das duas às cinco da tarde. Durante este período, tento auxiliá-la a acessar seus poderes — e aproveito para treinar os meus também.
O que ela realmente gosta, no entanto, são as perguntas. A curiosidade de Zelda é infindável, assim como seu fascínio por entender o funcionamento de tudo ao seu redor. Passados os primeiros dias de estranheza e timidez, ela lentamente começou a se permitir fazer perguntas. Devagar, a princípio, com dúvidas do tipo “quem é você?” e “por que você está me fazendo companhia?”; mas, aparentemente, agora chegamos no nível de questionar até mesmo minha aparência.
— Porque eu sou uma Sheikah, majestade — respondo, paciente.
— Eu já pedi pra você me chamar de Zelda — ela faz um beicinho frustrado e cruza os braços. — E eu sei que os Sheikah tem cabelo branco. Eu quero saber por quê.
Por Hylia, que diferença isso faz em alguma coisa?
— Não sei, Zelda.
— Alguma mutação genética, talvez? — ela pondera. Como uma criança de 12 anos pode saber sobre — e se interessar por — genética é algo que foge à minha compreensão. — Será que está relacionado às suas habilidades mais apuradas que a do Hylian comum?
— Não sei, Zelda.
— Talvez consigamos encontrar alguma coisa nas bibliotecas do Castelo. Podemos ir à biblioteca da ala leste, Impa? Por favor? É a minha preferida, tem vários livros técnicos lá!
— A gente deveria focar no seu treino, Zelda.
— Já fizemos isso hoje, Impa — ela faz um muxoxo. — Eu tentei, não consegui, estou triste. Sabe o que vai me animar? Ir à biblioteca. E você prometeu que ia me ensinar a ler o alfabeto Sheikah, lembra?
Suspiro, cansada.
— Você não vai desistir, né? — resmungo.
— Acho que você já sabe a resposta — ela responde com um sorrisinho travesso.
Basicamente, nossos dias se resumem a isso: eu tentando convencer Zelda a treinar enquanto ela tenta me convencer a fazer qualquer outra coisa — ir às bibliotecas, aos laboratórios onde Purah trabalha, aos jardins para coletar plantas ou caçar sapos…
O rei não aprova todos esses desvios. Ele sempre enfatiza a importância de a princesa focar em despertar seus poderes — afinal, de nada valerão todos os esforços do exército e a descoberta das tecnologias ancestrais se, ao final de tudo, Zelda não conseguir selar Ganon. Mas… ela é uma criança. Me sinto mal ao exigir tanto dela. Então… às vezes eu cedo e fazemos o que ela está pedindo — principalmente nos dias em que sei que o rei está ocupado em reuniões e não correremos risco de encontrar com ele pelos corredores.
E, bem, ele pediu para aumentarmos nossa sinergia, não? Nada une duas pessoas como burlar as regras.
No entanto, nossos planos são frustrados por uma visita inesperada. Algumas batidas soam na porta do quarto de Zelda e eu me adianto para atendê-la. Faço uma careta ao identificar quem está do outro lado.
— Deen? O que você está fazendo aqui? — minha voz soa ríspida enquanto saio do quarto, fechando a porta atrás de mim.
Durante os últimos meses, Deen provou, repetidamente, que sua reputação não era infundada. Exatamente como Purah me alertara, todo fim de semana ele estava acompanhado de diferentes mulheres — na maioria das vezes, turistas que vinham conhecer Hyrule e logo iam embora.
Isso não o impedia de continuar lançando olhares indecentes em minha direção em todas as oportunidades possíveis. Ou então, de se aproximar demais durante as sessões de treino, encostando em meus braços ou mãos com a desculpa de “corrigir a minha postura” ou “mostrar como segurar a arma corretamente”. Meus dentes se trincavam com tanta força nessas ocasiões que meu maxilar quase estourava, tamanha a pressão. Mas ainda não sei identificar quanto da minha fúria deriva de sua ousadia... e quanto vem do fato de que meu estúpido coração dispara quando ele está perto.
No entanto, seus atos em direção a mim nunca passaram de flertes ou provocações. Provavelmente ele só se diverte em observar minhas reações. E eu o odeio por isso.
— Ordens do rei. Ele solicitou que eu organizasse uma pequena comitiva para partir em uma missão amanhã, e ressaltou que gostaria que você estivesse incluída na lista — ele dá de ombros, indiferente.
— Que tipo de missão? Não seria melhor selecionar soldados mais experientes?
— É apenas uma missão de escolta, nada muito complexo. O rei cismou que o jovem Hylian prodígio — que está fazendo soldados veteranos passarem vergonha, inclusive — provavelmente é o Herói desta geração. Então ordenou que o garoto tente resgatar a Master Sword de seu pedestal na Floresta Perdida, e demandou que o escoltemos até lá.
— Mas… Linus não é apenas um pré-adolescente? As lendas dizem que se a pessoa que tentar reivindicar a espada não tiver vitalidade o suficiente, ela… morre.
— Primeiro, o nome da criança é Link — Deen não consegue conter a risada. — E sim, ele só tem 13 anos. Mas o rei é ansioso e quer testar sua teoria o quanto antes.
— E se Link for o tal herói mas não tiver a capacidade de portar a espada ainda?! O rei vai mesmo arriscar sua vida e o futuro de Hyrule só para saciar sua curiosidade? — fecho meus punhos, indignada.
— Isso não me soa como um problema meu, Impa. Nem seu.
— Mas é um absurdo!
— Absurdo ou não, partiremos ao amanhecer. Prepare suas malas para uma viagem de pelo menos uma semana — o tom de Deen é incisivo, e ele se retira sem olhar pra trás.
Entro novamente no quarto e encontro Zelda com o cenho franzido, parecendo preocupada.
— Vamos à biblioteca?
— Não… acho melhor eu voltar a tentar despertar meus poderes — Zelda suspira, resignada, suas costas levemente curvadas em desistência.
. . .
Assim que o céu começa a clarear, nos reunimos nos portões da Cidade do Castelo. A comitiva é pequena: eu, Deen, dois soldados Hylians e Link. Sua armadura parece estar folgada: claramente feita para soldados mais velhos, ela é ligeiramente grande demais para sua pequena figura. Intrigada, me questiono quão excepcionais suas habilidades são — geralmente os jovens Hylians não iniciam seu treinamento antes dos 15 anos; pelo o que ouvi, no entanto, parece que Link iniciou sua formação há alguns anos.
Seu rosto, em um primeiro momento, parece estar sem expressão alguma. Olhando com atenção, porém, é possível notar que seus olhos estão sutilmente abertos demais, e suas mãos passeiam por seus cabelos a cada poucos minutos — como se ele estivesse tentando se acalmar.
— Ei — me aproximo dele. — Fique tranquilo. Vai dar tudo certo.
Ele me encara e aquiesce silenciosamente.
— Sou Impa, prazer. Vamos cuidar para que nada de ruim aconteça.
Novamente, Link apenas assente sem dizer nada.
— Ih, nem tenta falar com esse aí — um dos soldados, Bo, ri. — Ele não abre a boca pra nada.
— Ele até costumava falar antes — completa Nik, o outro Hylian. — Mas agora ele só treina, treina, treina... e depois humilha a gente nos combates de prática.
Apesar das palavras, seu tom é carinhoso e zombeteiro. Mesmo assim, noto que Link fica levemente ruborizado com o comentário.
— As senhoras já terminaram de fofocar? — Deen nos interrompe. — Estamos em missão, caso não se lembrem. Vamos, precisamos partir logo.
Montamos em nossos cavalos e iniciamos a jornada rumo à floresta perdida. O percurso não é tão longo; no entanto, não existem cidades ou vilarejos entre o castelo e nosso destino — de maneira que precisamos acampar ao longo da rota. Bo e Nik conversam animadamente durante todo o caminho. Deen se pronuncia apenas para fazer comentários impróprios ou de duplo sentido — geralmente, olhando pra mim. Link não diz uma única palavra, em momento algum.
Meu instinto me compele a proteger essa criança, que teve uma carga demasiado pesada depositada em seus ombros em tão tenra idade. Mesmo sabendo que ele não responderia, decido tentar animá-lo contando histórias leves a respeito dos anos que vivi em Kakariko. Falo sobre a beleza do vilarejo, escondido entre montanhas e cachoeiras; sobre seu cheiro tão específico de terra molhada, maçãs e madeira queimada; sobre as galinhas, que constantemente fugiam de seu viveiro e éramos obrigados a passar horas procurando-as.
Link ouve minhas palavras com atenção, e chega até mesmo a deixar uma risada escapar quando conto do dia em que tentei usar as magias de levitação para transportar abóboras recém-colhidas mas, por falta de experiência, não consegui manter a concentração e deixei tudo cair e rolar colina abaixo — por pouco não arruinando metade da safra.
Ao final do segundo dia, finalizando a travessia pela Floresta Minshi — e, portanto, quase na entrada da Floresta Perdida —, paramos para descansar. Bo e Nik montaram guarda ontem, então hoje o turno é meu e de Deen. Link tenta se voluntariar, mas todos protestamos — ele precisa estar com o máximo de disposição o possível amanhã ao tentar reivindicar a Master Sword.
Compartilhamos uma refeição simples, e logo os três Hylians se acomodam ao redor da fogueira. Em poucos minutos, os jovens estão roncando levemente. A luz das chamas dança sobre seus rostos, que, na tranquilidade da inconsciência, parecem anos mais novos. Meu coração se aperta ao observar Link, tão pequeno e corajoso. Mesmo frente ao que lhe aguarda, ele não demonstrou fraqueza em nenhum momento da jornada.
— Vai ser um grande desperdício se ele morrer amanhã — Deen diz baixinho, também observando a criança. Ele está sentado a poucos metros de mim, recostado em uma árvore larga.
Franzo o cenho, irritada com sua falta de tato e preocupada que Link tenha ouvido suas palavras — mas ele apenas continua dormindo tranquilamente. Deen se levanta e se aproxima, acomodando-se aos pés da mesma árvore onde estou. Todavia, ele ainda está um pouco distante. E, agora, por estar meio de lado para mim, só vejo seu rosto de perfil.
— Ouvi dizer que tiveram que trancar a irmã mais nova dele em casa essa manhã. Ela surtou ao ouvir o propósito da viagem — Deen confidencia, ainda mais baixo, de maneira que mais ninguém consiga ouvir caso acorde.
— Os pais dele concordaram com isso? — Não consigo deixar de perguntar apesar de costumeiramente evitar me engajar em suas conversas.
— Faria alguma diferença, considerando que foi uma ordem do rei? — Deen bufa.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Assisto as chamas dançando e o único som entre nós é dos pequenos insetos da floresta e da madeira estalando ao queimar. Deen continua, então, amargo:
— A mãe dele morreu no parto de sua irmã. E o pai dele também faz parte do exército. As más-línguas dizem que foi dele a ideia para essa missão. E sabemos bem que a curiosidade do rei não precisa de muita persuasão.
Minha respiração fica pesada conforme a ira me invade. E, pior que ela, a sensação de impotência frente às decisões dos nossos superiores. Da maneira que brincam com nossas vidas, agindo como se fôssemos meras peças de um jogo, para depois exigir lealdade e gratidão.
— Não podemos fazer alguma coisa? — pergunto, furiosa e desamparada. — Mentir pro rei. Dizer que ele tentou tirar a espada e não conseguiu?
— E como você explica ele retornar vivo nesse cenário?
— Que a espada não foi encontrada então! — rebato, entredentes.
— Isso seria fácil demais de verificar, Impa. Você sabe que não temos o que fazer — a menos que não se incomode de ser condenada por traição.
— É uma criança, Deen! Estamos sendo cúmplices do assassinato de uma criança — minha voz mingua e falha.
Meus olhos ardem e não consigo evitar as lágrimas que ameaçam se formar. Respiro fundo, tentando me acalmar. Deen vira o rosto para me observar, sua expressão distorcida entre curiosidade e empatia.
— Sua preocupação com ele… e a maneira como seus olhos brilham ao falar de Zelda… você é mesmo a Impa, não?
Reviro os olhos, exausta. Mais um, não. Depois o encaro, confusa.
— Como você sabe das lendas? E você acredita nelas? Achei que você era mais sensato.
Deen dá um meio sorriso, travesso.
— Você esperava sensatez de mim?
— Ceticismo, perdão — bufo. — Terminologia errada. Sou do exército, não da equipe de literatura.
Ele deixa escapar uma risada baixinha.
— Eu sou um Sheikah, é claro que eu conheço as lendas.
— Eu também sou uma Sheikah, e não sabia dessa história de reencarnações de “sábias Impas” — resmungo, pesando a voz com sarcasmo ao título.
— Tudo bem, deixe-me corrigir: eu sou um Sheikah que está no castelo há muito mais tempo. Vi os registros muitos anos atrás. E sim, você está certa, eu sou cético… mas… que outra explicação você daria para essa conexão que você teve com os dois — mesmo com tão pouco tempo e interação?
Dou de ombros, sem querer pensar muito sobre a questão.
— Você está no castelo há muitos anos? — mudo de assunto, curiosa. — Quantos anos você tem?
— Vinte e um.
— Três anos de prática e já te colocaram como instrutor?
— Cinco anos, na verdade. E minha técnica de combate é excelente, é claro que me ofereceram o cargo. Mas não preciso te dizer isso; você sabe o quão bom eu sou — ele pisca um olho pra mim, imoral.
Os últimos meses me treinaram bem em como camuflar os efeitos que suas cantadas e flertes causam em mim. Ignorando meu coração ligeiramente acelerado e as palmas das mãos subitamente suadas, foco na discrepância de sua história:
— Cinco anos? Como você se alistou com 16 anos? O acordo só permite a entrada no exército ao atingir a maioridade.
Deen dá um sorrisinho torto e ergue as sombrancelhas.
— Você adoraria saber, não? Quem sabe um dia eu te conto.
— Eu posso perguntar por aí e descobrir.
Ele ri, como se a ideia fosse absurda. Então se levanta e volta para a árvore em que estava originalmente — aumentando o perímetro vigiado —, mas não sem antes dizer em tom zombeteiro:
— Boa sorte com isso.
. . .
A travessia pela Floresta Perdida é desconfortável. O ambiente é muito úmido, com uma névoa densa e perolada que permeia cada centímetro do caminho. Seu cheiro é estranhamente doce e claramente não-natural, deixando-me enjoada em poucos minutos. Deen nos guia, usando uma tocha acesa para iluminar o caminho.
— Fiquem bem atrás de mim — ele instrui. — Se algum de vocês se perder na névoa, será transportado pela magia da Floresta de volta para a entrada da trilha. Caso isso aconteça, não tentem entrar de novo ou ficarão perdidos.
Redobramos a cautela e o seguimos em fila indiana. A jornada é curta, mas o desconforto faz parecer que andamos durante horas naquela sauna gelada. Quando finalmente o ambiente muda e a névoa se dissipa — revelando uma bela clareira verde iluminada pela luz do sol —, grossas gotas de suor estão escorrendo pelo meu rosto.
Apesar de ser uma floresta… ela é estranhamente silenciosa, sem aquele tradicional barulho de insetos trabalhando, pequenos animais correndo ou o farfalhar de folhas voando. Curiosa, noto que Link está olhando para vários pontos no chão ao seu redor, como se estivesse vendo coisas ali. No entanto… não há nada. Ele acena, como se concordasse com algo, e então caminha em frente.
No centro da clareira existe uma plataforma triangular, onde está o pedestal. A Master Sword está guardada ali, conforme o esperado. Link sobe os degraus, hesitante, e para a alguns passos de distância da espada.
— Ora, ora. Já se passaram alguns milhares de anos desde a última vez que recebi visitas — uma voz grave e etérea ecoa pela floresta, de algum ponto muito acima de nós.
Aterrorizada, levanto meu olhar — apenas para entender o som deriva da gigantesca árvore em frente ao pedestal. Imediatamente, me ajoelho em reverência, com medo de ter ofendido essa entidade ao invadir sua floresta.
— Ho, ho, ho. Não precisa disso, podem se levantar. Fico feliz em vê-los. Link… Impa… há quanto tempo.
Arregalo os olhos, as palavras travadas em minha garganta.
— Suponho que não se lembram de mim. Não seria a primeira vez, ho, ho, ho — a árvore… gargalha? — Não tem problema, eu me apresento novamente. Sou a grande árvore Deku, guardiã da Master Sword. Eu vigio esta arma sagrada durante os períodos de paz, ou enquanto o Escolhido da geração não vem reivindicá-la. Mas, Link… você ainda está muito jovem nessa encanação, criança. Por que não espera mais alguns anos?
Link encara a árvore em silêncio, também completamente aturdido. Então, dá de ombros. Por alguma razão, ela acha isso extremamente engraçado e explode em gargalhadas de novo.
— Ho, ho, ho. Mais um Link silencioso… me pergunto se eventualmente um de vocês será falastrão…
Percebendo que Link não vai falar nada, me adianto para ajudar.
— Viemos por ordens do rei, árvore Deku. Ele exigiu que Link tentasse reivindicar a espada… apesar de sua pouca idade.
A atmosfera muda sutilmente, parecendo se densificar. O ar parece um pouco mais rarefeito e minha respiração fica mais curta e acelerada. A árvore está… irritada?
— Entendo — sua voz soa ríspida. — Imagino que todos estejam cientes de que o ato de reivindicar a Master Sword pode causar a morte se o portador não for o correto ou se não estiver preparado, certo?
Incapazes de responder em voz alta, tamanha a repulsa da entidade em suas palavras, todos apenas aquiescemos. Link permanece firme após ouvir a declaração da árvore — mas noto que suas mãos estão tremendo levemente agora, e ele as abre e fecha repetidas vezes. Meu coração se aperta ao presenciar a cena e meus olhos queimam novamente com o surgimento das lágrimas.
— Pois bem. Pode tentar, jovem Link. Segure a empunhadura com ambas as mãos e puxe a lâmina em direção aos céus. Boa sorte.
Link respira fundo, passando as mãos pelos cabelos. Logo, sem mais hesitar, ele segue as instruções. No segundo em que ele segura o cabo e começa a puxá-lo para cima, seus braços começam a tremer violentamente. Seus olhos se fecham, seu rosto contorcido em uma expressão de dor intensa. Ele continua fazendo força, e um grito de agonia escapa de seus lábios entreabertos — a agudez de sua voz jovem intensificando o volume.
Algum instinto insano invade todas as células de meu corpo e eu me lanço para frente — desesperada para quebrar o contato de Link com a espada. Antes que eu consiga me aproximar, no entanto, Deen me intercepta e me segura, prendendo meus braços atrás das costas. Ele é muito mais alto e forte que eu e não consigo mais me mover.
— ELE VAI MORRER — grito, me debatendo, desesperada para fazer alguma coisa. As lágrimas finalmente vencem a batalha e escorrem pelo meu rosto, e eu sequer posso limpá-las pois Deen não me solta. Eu me sinto furiosa, impotente, humilhada.
— Se acalme — o tom de Deen é firme e conciliatório. — Você está em missão, não pode se portar dessa maneira.
— Me solta — peço, sem esperanças, meu rosto encharcado. O grito de Link perdura e perdura, e eu não consigo focar em nada além do sofrimento dessa criança.
— Olha pra ele, Impa — Deen diz, seu tom é calmo. — Ele ainda está em pé. Ele vai conseguir.
Balanço a cabeça, tentando espantar os sons de agonia que ecoam pela floresta. Olho para frente, minha visão turva por conta das lágrimas que não param de escorrer… mas vejo que Deen está certo. Link permanece em pé, apesar de tudo. E a espada já saiu quase completamente.
Na hora que o último centímetro da lâmina se solta do pedestal, um silêncio mortal cai sobre o ambiente. Todos estamos prendendo a respiração, hipnotizados pelo desenrolar a nossa frente, e Deen me solta.
Link está recomposto novamente, como se nada tivesse acontecido; segurando a empunhadura da espada com a mão direita e observando a lâmina com reverência. Ele a move com graça e fluidez, como se já houvesse feito isso milhares de vezes. Vê-la nas mãos dele parece… certo. Como se ela pertencesse ali.
Ele ergue a lâmina em direção aos céus, e um raio de sol se infiltra por entre as copas das árvores, iluminando-os, garoto e espada. A visão é surreal, quase mítica — como uma lenda materializada.
Um ímpeto faz com que eu me ajoelhe em reverência. E eu não sou a única: Bo, Nik e Deen imitam meu gesto imediatamente.
— Ho, ho, ho — a risada calorosa da árvore Deku ecoa pela floresta mais uma vez. — Vejam só, ele conseguiu. Bem vindo de volta, Link. Agora vá… cumpra seu destino mais uma vez. Nos encontraremos novamente em breve.
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