She Is Leaving Home
1 Capítulo 1
Iria completar dez meses dês do acontecimento. Dez meses de tristeza, solidão e melancolia. Dez meses de dias cinza e silenciosos, de horas que não passavam, de mesmice e rotina. Pois quando o sol se põe, veio a noite infinita. O sol não voltaria, e a noite nunca iria embora.
“Willian disse que este mês será o mês. Estão de olho em todos e acho que dessa vez tenho chances... Grandes chances.”
“Maravilhoso querido, torcemos por vocês.”
O homem sentado na ponta da mesa com o semblante cansado sorriu. Era algo que ele estava desacostumado, então saiu meio sem jeito, um tanto quanto caricato.
“E se tudo der certo poderemos fazer aquela viagem que estamos esperando a tento tempo.” –Ele complementou, mastigando o ultimo pedaço de carne que havia no prato.
“Sim, será maravilhoso.” –A mulher do canto direito sorriu. Mas seu sorriso era caloroso e deslumbrante, pois ela sempre o usava. Não podia demonstrar outro sentimento se não o de gratidão e prazer por estar ali, era sua mascara. Ai dela se ousasse expressar tudo aquilo que sentia naquele pequeno corpo, naquele amargo coração.
“O que acha, Anira.” –Os dois a olharam- “Eu sei que você gosta da praia.”
Anira assentiu. Ela realmente gostava da praia. Adorava quando chegavam as férias de verão e todos viajavam para o mar. Mas depois do ocorrido, nunca mais se quer saíram da cidade.
“Coma sua comida, Anira. Estes rabanetes são importados e foram uma fortuna!”
“Eu sei mãe.” –Ela fincou o garfo na rodela avermelhada e comeu.
“Vanessa nos chamou para sua festa de primavera, Humbert, no sábado.”
“Hum.”
“Louen também estará lá. Fiquei sabendo que ela trocou de carro.”
“De novo?”
“Sim!” –Ela estreitou as sobrancelhas- “Algumas pessoas não se contentam, não é mesmo?”
“Hum.”
“Bem... Se eu for vou precisar de um novo vestido.”
Humbert a olhou.
“Vanessa já me viu com todos. Não posso repeti-los.”
“Claro.” –Ele suspirou e olhou para a filha, que comia os rabanetes.
“E você também vai.”
“Por quê? Essas festas são uma merda.”
“Humbert!” –Ela o repreendeu.
Anira o olhou e riu. Sua mãe odiava o uso de palavrões em casa, e sempre que seu pai as usavam ela não conseguia segurar seu prazer de ver a mãe sendo afrontada.
“Não posso chegar sem você. Você é meu marido, que imagem eu vou passar?”
“Tudo bem.” –Ele deu de ombros, afastando o prato- “Por que não leva Anira, ela adora festas.” –Anira o encarou seria e ele apenas sorriu e deu uma piscadela.
“Anira?” –Sua mãe a olhou- “Não brinque com isso.”
Quando todos acabaram de comer, sua recolheu todos os pratos e foi para a cozinha e seu pai foi ler jornal na sala, como era de costume. Anira ficou sentada na mesa olhando para o grande relógio de corda a sua frente. Durante a refeição quase não se ouvia seus estalos, mas depois que todos se foram, era ensurdecedor. O tempo passava lentamente. Tic... Tac... Tic... Tac...
Anira subiu para o seu quarto em silêncio. Estava sempre silêncio e ela já havia se acostumado com isso. Mas antes, podia se ouvir conversas, risos e até mesmo música. Agora, apenas o silêncio.
Seu quarto ficava no final do corredor, a última porta, passando pelo quarto dos seus pais, banheiro e o quarto da irmã, que agora era apenas uma porta fechada. Era como se todos os problemas do mundo estivessem naquele quarto, e fechar a porta era resolvê-los. Mas não.
Ela parou em frente à porta e olhou a maçaneta. Não entrava lá há meses, talvez por medo ou raiva, ela não sabia. Não sabia o motivo de tanta distância do local, porque ninguém entrava e não permitia a entrada. Sua irmã estava lá, ou o que sobrara dela, guardada numa urna dourada em cima da prateleira, ao lado de sua foto e de uma vela. Anira não entendia o motivo daquilo, do porque não ter sido enterrada e sim cremada. Talvez para sua mãe parecesse mais chique;
A porta se abriu, rompendo o silêncio do corredor. Anira olhou para o quarto escuro e abandonado sem poder ver nada. Olhou para o corredor, garantindo que ninguém estava por porto. Entrou.
Tudo estava como era: a cama no canto, os cadernos de desenho sobre a mesinha, as pelúcias do lado da cama, seu casaco preferido pendurado na cadeira (ela estava com ele no dia), os recortes de revistas colados na porta do armário, seus perfumes perto do espelho. Estava tudo igual, exceto por ela.
Anira sentou na cama que levantou uma fina nuvem de poeira formada com o tempo. Ela olhou para a fotografia da irmã, tirada no baile, ao lado da urna. Ela sorria, estava feliz, estava viva... E ela sempre exalou vida. Era estranho para não sentir mais isso. Ela se levantou e foi até a mesa do outro lado, onde sua irmã desenhava. Nunca acharam que ela poderia ser boa, e todos ficaram surpresos quando mostrou no natal o esboço que fizeram de todos reunidos na lareira.
Seus cadernos estavam intactos, sua mão nunca mexera. Anira sentou na cadeira e abriu o caderno, ótimos desenhos, era invejável seu talento. Desenhava seus amigos, uma cena no parque, o por do sol de sua janela, ela mesma, sua irmã na varanda lendo, a árvore do jardim, a praia.
A praia era sua melhor lembrança com a irmã. Quando as duas corriam pela areia e se jogavam no mar azul e infinito. O sol quente, o som das ondas...
“Tamza, você sente falta da praia?” –Ela olhou para a urna esperando uma resposta- “Eu sinto. Não tem um dia que não penso no mar.”
Ela fechou os olhos e imaginou a irmã ao seu lado.
“Lembra quando corríamos pela areia quente e parecia que não havia fim, então chegávamos no mar e a agia fria refrescava nossos pés.”
“Sim! E aquela vez que você pisou numa pedra e cortou seu pé, todo mundo achou que você ia chorar, mas continuou correndo, deixando marcas na areia.”
As duas riram.
“Saudade da praia, irmã. Era bom sentir o vento na pele.”
“Tamza, como você está?”
“Fria. Aqui não há sol.” –Ela ficou seria- “Você me colocou nesse quarto, Anira. Nunca mais vi o sol.”
Anira abriu os olhos e percebeu que estava chorando. Chorou novamente antes de dormir. E quando dormiu sonhos com sua irmã.
O relógio marcava três da manha. Anira sentou na cama e limpou os olhos dormentes. Sem pensar muito, ela pulou da cama e foi até seu guarda roupa. Tirou de lá sua mala de viajem, tirou também algumas mudas de roupa e colocou dentro da mala. Colocou o mapa que havia ganhado uma vez que foram no zoológico, a lanterna antiga do seu avô, sua carteira e uma garrafa da água que achou em baixo da cama ao lado de suas botas. Vestiu uma calça larga e seu moletom azul. Era isso.
Cuidadosamente, ela abriu aporta do seu quarto e conferiu o corredor vazio. Podia ouvir seu pai roncando no outro lado. Só faltava uma coisa.
Abriu a porta do quarto da sua irmã e foi até a urna. Suas mãos tremiam. Talvez estivesse louca, talvez fosse um sonho, se sua mão descobrisse iria mata-la, choraria uma semana sem parar, seria notícia em todos os jornais, não duraria um dia fora de casa, poderia ser morta, se perder, seria aceita de volta?
Quando se deu por si, já estava guardando a urna numa sacola de pano e fechando a mala. Desceu as escadas até a cozinha, a chave sempre ficava na porta dos fundos. Era estranho abandonar tudo, deixar sua casa para trás. Passou pela cozinha e viu o bloco de notas ao lado do telefone. Seria bom deixar um bilhete...?
Ela pegou a caneta e escreveu algumas coisas. Não assinou.
Quando saiu pela porta, sentiu o vento primaveril batendo no seu rosto, fazendo seus cabelos voarem e sua nuca de arrepiar.
Era isso. Ela estava indo.
Depois de meses presa naquela casa, ela finalmente estava indo embora.
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