She Had The World
1 One-Shot
Notas iniciais
O vento batia em seu rosto, açoitando sua pele de uma forma cruel. Mas era algo bom de sentir, pelo menos daquela forma ele sentia algo. As ruas estavam desertas, escuras, abandonadas. As arvores que ainda persistiam em ficar de pé, mesmo que fossem velhas, maltratadas, e constantemente tivessem que lutar contra o asfalto que secava suas raízes arrancando suas vidas pouco a pouco, deixava o lugar parecido com o cenário de um velho filme de terror. As ruas por si só pareciam fantasmas, repletas de sonhos despedaçados. Não havia nenhuma luz que significasse esperança. E aquelas ruas representavam com maestria a forma como Frank se sentia.
Algumas semanas atrás, a essa hora, ele estaria em casa, mais precisamente em sua cama, quente e confortável, e obviamente, envolto nos braços dele. O cara esquisito de pele pálida e cabelos vermelhos. É poderia soar engraçado descrevê-lo dessa forma, uma descrição um pouco excêntrica, mas ele era excêntrico. Ele era único, em todas as formas, de todos os jeitos. Sua voz extremamente doce, suas mãos delicadas como as mãos de um artista devem ser. Os seus trejeitos tão únicos e sensuais. Nada poderia se comparar a ele e seu cheiro doce. Frank sabia que o rapaz de cabelos vermelhos era insubstituível, que nada nem ninguém jamais tomaria seu lugar. E era por isso que Frank estava ali, sentado naquele banco do parque deserto, apenas o vento enregelante fazendo-lhe companhia. Ele havia perdido a única pessoa capaz de fazer com que ele sentisse seu sangue pulsando em suas veias, fazendo seu coração bater desesperadamente; a pessoa que o motivava a se manter respirando, a acordar todos os dias com um enorme sorriso no rosto apenas pela perspectiva de tê-lo ao seu lado.
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Frank abria seus olhos de um jeito preguiçoso, seu corpo hesitando em voltar à realidade após algumas horas de sono. Acariciou os lençóis com seus dedos de forma delicada, procurando pelo corpo quente de Gerard, mas não havia ninguém ali. Virou-se na cama e se deparou com olhos verdes da pessoa que deveria o estar abraçando naquele momento.
- O que você está fazendo? – Frank sorria enquanto olhava pra Gerard sentado na poltrona ao lado da cama.
- Nada, só olhando pra você. Você é lindo.
Frank sentia seu corpo quente e suas bochechas coradas enquanto sorria desviando o olhar para algum ponto no quarto.
- E você fica ainda mais lindo assim, corado e com vergonha.
- Para com isso, vai... Vem cá, deita aqui comigo um pouquinho.
Gerard se levantou, indo até cama com um enorme sorriso radiando em seu rosto. Seus olhos verdes brilhando como esmeraldas em meio à escuridão do quarto. Deitou-se ao lado de Frank na cama, envolvendo com seus braços a cintura do menor e olhando intensamente em seus olhos.
- Sabe Frank, eu gostaria de poder te olhar assim, todos os dias. Ver você dormir, ver você acordar... Eu gostaria de ter você em todos os momentos, pra sempre.
- Ge... Eu... – Frank falava de modo fraco, gaguejava um pouco. Sempre se sentia assim ao lado de Gerard. Seu corpo ficava quente e tremulo. Era mágico, era perfeito. E ele sempre se via sem palavras mediante as doces palavras ditas pelo outro.
Gerard não tinha lhe dado tempo pra responder, apenas selou seus lábios com um beijo suave, quente e doce. Eles estavam entregues um ao outro. Suas bocas coladas fazendo uma declaração muda do quanto se amavam. O encaixe perfeito de seus corpos, os unindo como se fossem um só. Corações acelerados como se aquele fosse o primeiro beijo que trocavam; era sempre assim, como se estivessem se descobrindo, um tentando achar no outro novos lugares pra desejar, amar. Nunca tinham o suficiente um do outro, quanto mais perto estavam, mais perto queriam ficar. Suas respirações se confundiam; a saliva do beijo trocado passando de um pro outro, longe de ser algo superficial, era uma parte da outra pessoa dentro de si mesmo, provando que eles poderiam sim estar juntos, sempre, que seus corpos, corações e almas eram um só.
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Frank se lembrava das tantas vezes que estivera com Gerard ali. Como poderia aquele lugar tão especial para os dois ser tão trivial para tantas pessoas, que elas simplesmente passassem por ali sem dar importância? Fora ali que eles se conheceram. Foi ali que viu pela primeira vez aqueles olhos verdes, e ouviu aquela voz suave. Também ali que, depois de certo tempo, aconteceu o primeiro beijo, o primeiro toque tanto de seus corpos quanto de seus corações. E fora bem ali, sentados naquele banco, que eles tinham passado tantas horas apenas se olhando e se encontrando nos olhos um do outro.
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Estava um dia lindo. O céu azul e ensolarado. Era manhã, o parque praticamente vazio por culpa da segunda feira. Frank não tinha ido trabalhar aquele dia. Gerard tinha o “seqüestrado”. Dissera que não valia a pena desperdiçar um dia como aquele dentro de um escritório cinzento e feio. Eles tinham que viver. Transformar aquele dia em inspiração para arte.
- Sabe, se você continuar me arrancando do trabalho eu vou acabar perdendo meu emprego.
- Quem se importa? Você não nasceu praquilo.
- Ah, é mesmo? E pro que foi que eu nasci, então?
- Você é um artista, um músico.
- Música não vai pagar minhas contas, Gerard.
- Isso foi o que as pessoas te disseram quando queriam destruir seus sonhos. Esquece isso. Você pode ser qualquer coisa que você quiser.
Frank apenas olhou pra Gerard e sorriu, parando de caminhar e lhe dando um abraço apertado. Eles permaneceram imersos naquele abraço por longos minutos, e teriam permanecido pra sempre se pudessem. Frank se sentia extremamente feliz por ter Gerard. Era como se ele estivesse o salvando de um mundo cinza e sem graça e acrescentando cores a sua vida. Fazendo-o enxergar que ele poderia ser feliz, que poderia sonhar. E era sua felicidade que estava bem ali nos seus braços, ele podia sentir seu cheiro e sua voz doce sussurrar em seu ouvido que o amava.
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E de repente, tudo estava desfeito, tudo havia desmoronado. Frank sabia que não mais se sentaria naquele lugar e compartilharia de momentos mágicos junto ao seu bem mais precioso.
Frank encarava as próprias mãos enquanto sentia as lagrimas escorrendo por seus olhos copiosamente. Lembrava-se perfeitamente de quando Gerard havia desenhado suas mãos, bem ali, naquele local, enquanto ele tocava seu violão. Eles faziam isso juntos, arte de todas as formas, Frank o encantava com sua música, Gerard o encantava com suas pinturas. Eles se completavam.
Mais lagrimas escorriam por seu rosto apenas pela lembrança. Aquele dia fora o dia que Gerard disse que nunca queria sentir outro toque que não fosse o suave toque das pequenas e tatuadas mãos de Frank. Gerard havia dito que Frank era sua obra de arte. Para Frank não havia um modo digno de responder àquela declaração, se lembrava apenas de suas lagrimas de amor e felicidade derramadas entre beijos apaixonados, sussurros e promessas de amor eterno.
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Eles estavam sentados naquele banco há horas, Gerard tinha algumas folhas em branco em seu colo e lápis em sua mão. Fazia desenhos das pessoas ali perto, enquanto Frank apenas o observava em completo fascínio. Sentia-se o homem mais sortudo do mundo por ter Gerard. Seu coração batia rapidamente apenas por olhar pra ele, o artista daquele jeito, inspirado e com suas feições serenas e doces, era a melhor visão do mundo.
Frank tinha até mesmo esquecido do sorvete que estava em sua mão, enquanto olhava hipnotizado pro homem de olhos verdes e cabelos vermelhos ao seu lado, apenas as gotas de sorvete derretido caindo em sua roupa o lembraram disso. Frank exclamou um palavrão e levantou-se subitamente, jogando o resto do sorvete no chão e fazendo uma enorme bagunça enquanto passava as mãos pela blusa branca que usava.
Gerard olhava pra Frank, rindo de seu jeito infantil, enquanto Frank tinha a testa franzida e uma feição de raiva em seu rosto. Olhava pra Gerard de maneira incrédula como se não acreditasse que ele pudesse rir dele em uma situação tão constrangedora.
- Do que você está rindo? Não tem graça nenhuma, Gerard.
- Tem sim Frank. Deus... – Parou de falar enquanto colocava suas folhas no banco e se levantava indo pra perto de Frank. – Deus, Frank, você é a coisa mais fofa desse mundo. Você parece uma criança desse jeito.
Gerard o abraçou Frank, beijando sua bochecha.
- Isso é ridículo. – Frank falou de maneira infantil enquanto tentava afastar Gerard. – Sai, você vai ficar melado de sorvete. – Suas feições haviam mudado agora pra um quase sorriso.
- Eu não me importo, pequenininho.
- Eu não sou pequenininho.
- Frank, por favor! – Gerard o olhava agora com as sobrancelhas arqueadas.
- Ok, eu sou apenas pequeno. Não “pequenininho”.
- Você é adorável...
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Frank não era mais o homem feliz de antes, não mais sorria como quando estava com Gerard. Ele se sentia vazio. Tudo que tinha era sua própria dor, física e emocional. Suas roupas finas não o protegiam do frio, sua pele já estava anestesiada por aquele vento gélido. Levantou-se do banco onde estava antes, andando pra perto de uma grande arvore a alguns metros de distancia, e se deitou, escorando-se com dificuldade. Sentia-se tremer. Ele queria apenas ficar ali, enquanto lentamente perdia suas forças e seus sentidos. Gerard ainda ocupava seus pensamentos, Gerard sempre ocupava seus pensamentos. Ele só poderia permanecer da mesma forma, até que em algum momento, ele perdesse completamente suas forças e sua dor morresse junto com ele.
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Frank sentia raiva, estava estampado em suas feições o quanto estava irritado. Gerard nunca se atrasava quando combinavam de se encontrar. Mas agora Frank já estava praticamente decidido a ir embora. Era uma noite fria, nevava. Era inverno em New Jersey. Frank sentia seu corpo gelado, e lagrimas enchendo seus olhos, lágrimas que ele se recusava a derramar.
Era aniversário de seu namoro com Gerard, um ano. Era uma data tão importante pra ele. Ele não conseguia entender como Gerard havia se esquecido dele naquele dia. Não fazia sentido. Aquele não era o Gerard que ele conhecia. Frank se sentia tão abandonado e vazio. Nunca iria esperar aquilo dele; sempre tão bom e carinhoso. Mesmo nas raras vezes que eles haviam discutido, geralmente por uma bobagem qualquer nunca nada sério, Gerard nunca ao menos alterava sua voz. Ele sempre queria ver Frank bem e feliz. Sempre pensava em seu conforto e em seu prazer. Então porque havia deixado Frank sozinho naquele dia? Tudo bem que eles haviam discutido um pouco mais cedo, porque Frank queria pedir pizza e Gerard queria comida chinesa. Mas isso não era motivo. Ou era?
Frank esperou por longos momentos, quando decidiu, depois de muito ponderar, ir pra casa e tomar um banho quente, já sabendo que com certeza iria pegar um resfriado. Mas assim que começou a caminhar, sentiu mãos agarrando firme sua cintura.
— Pensando em ir embora, pequeno? – Gerard apenas sussurrou em seu ouvido. Frank sentiu-se arrepiar com aquele toque e o jeito doce e sensual com que Gerard falou. Mas não tinha tempo pra dar atenção ao seu desejo de abraçar e beijar o maior. Apenas se virou, ficando de frente pra Gerard, fitando-o com os olhos lacrimejantes e magoados.
- Porque você me fez esperar, Gerard? Justo hoje?
- Amor...
- Não começa a falar com esse seu jeito doce. Eu não quero saber.
- Frank você acabou de perguntar, como você pode não querer saber?
- Isso, ri de mim, acha graça do anão estúpido que ficou te esperando por horas nesse maldito banco, a beira de uma hipotermia. Eu sou um idiota mesmo. Um palhaço.
- Frank, só escuta ok. Desculpa por ter me atrasado. Mas eu precisava pegar uma coisa.
- E o que pode ser mais importante que eu, no dia do nosso aniversário de um ano?
- Nada é mais importante que você meu amor. – Gerard levou as mãos ao bolso do casaco. – Olha, fecha seus olhos, é uma surpresa.
- Eu não to com tempo pra brincadeira, Gerard.
- Por favor? Eu prometo que você não vai se decepcionar.
Frank revirou os olhos. Mesmo ressentido, fez o que Gerard pediu.
Gerard tirou o que procurava em seu bolso e abriu um grande sorriso enquanto pediu a Frank que abrisse os olhos.
Frank tinha uma expressão curiosa enquanto olhava para duas passagens nas mãos de Gerard.
- O que é isso? – Frank perguntou arqueando as sobrancelhas.
- São nossas passagens pro Canadá.
-Hm? Canadá?
- É Frank. Foi isso que eu fui fazer. Comprar nossas passagens pra um país onde, se você aceitar, nós podemos nos casar.
Frank o observava incrédulo, não podia acreditar naquilo. Seu coração mais acelerado do que nunca, os olhos brilhavam em surpresa. Mas ele permanecia em choque, não conseguia se mover nem dizer nada, por mais que se esforçasse pra isso.
- Então, meu pequeno, o que você diz. Quer se casar comigo?
Frank ainda estava paralisado. Gerard tinha um sorriso no rosto enquanto esperava por uma resposta. Podia perceber o estado chocado de Frank. Estalou os dedos em frente ao rosto de Frank, tentando chamar a atenção dele. E conseguiu.
Frank que havia segurado suas lágrimas de tristeza minutos atrás, não poderia conter suas lagrimas de alegria. Ele apenas sentia o liquido quente escorrer pelo seu rosto sorridente. Jogou-se nos braços de Gerard, passando suas pernas na cintura do maior.
- Sim, Ge... É claro que eu quero me casar com você.
- Nós dois, Frank, é pra sempre.
- Promete, Ge?
- Eu prometo, meu amor. Pra sempre.
- Pra sempre...
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“Não foi pra sempre” Apenas esse pensamento ecoava na cabeça de Frank.
Ele não sabia quanto tempo havia se passado até sentir-se envolvido em um abraço. Ele sentiu seu corpo estremecer ao toque quente. Mas não pode abrir seus olhos pra ver o rosto do dono dos braços tão acolhedores, ele não tinha força pra isso, mas ele reconhecia aquele toque, ele reconhecia aquele cheiro. Sua cabeça apenas estava confusa, tudo era confuso. Mas o jeito com que aqueles braços envolviam seu corpo pequeno lhe era totalmente familiar. Frank sabia muito bem quem estava ali o abraçando daquela forma, mesmo que não pudesse vê-lo. Era única pessoa que poderia entender sua dor e seu sofrimento e que sempre o acolhera.
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Frank abriu os olhos devagar. Olhando ao redor, não reconhecendo o lugar onde estava. Mas sabia que era um quarto de hospital. Ele estava sozinho ali. É claro que não haveria ninguém com ele. Isso era habitual desde que tinha perdido Gerard. Afastou-se de todos. Estava sempre sozinho. Apenas se embebedava e às vezes pegava no sono com a ajuda de calmantes.
Frank podia perceber a agulha do soro em seu braço. Seu corpo estava dolorido. Sua pele ardia, e ele sentia falta do álcool. Mas tudo isso não era nada comparado a falta que sentia de seu outro vício, o vício que apenas lhe fazia bem. Daria absolutamente tudo que tinha se em troca pudesse tê-lo de volta. Ter seus sorrisos; poder enrolar os dedos nos seus longos cabelos vermelhos; acordar com aqueles brilhantes olhos verdes fitando-o de forma carinhosa. Ele daria tudo em troca disso.
- Frank. – Frank olhou em direção a porta pra ver quem o chamava.
- Oi, Mike.
- O que porra você pensa que estava fazendo? Droga Frank, você quer me matar de susto?
-Mike, por favor, não começa, okay?
- E se eu não tivesse aparecido lá? Você já pensou no que poderia ter acontecido? Deus, Frank, você tem que superar isso. Você precisa-
Mike continuaria falando, mas Frank o interrompeu com a voz alterada.
- Eu não vou superar isso, Mike. Seria melhor que você tivesse me deixado lá.
Lagrimas escorriam furiosamente pelos seus olhos. Ele não sentia vergonha de chorar quando estava ao lado de Mike. Ele sabia que Mike o compreendia. Eles compartilhavam de uma dor semelhante.
- Frank, você não entende não é?
Mike se aproximou da cama onde Frank estava, sentou-se na beirada, e levou uma de suas mãos aos cabelos de Frank, fazendo um carinho leve.
- Você foi a única coisa que me restou também... – Mike tinha a voz fraca, lagrimas escorriam pelo seu rosto.
- Mike, eu só não consigo...
- Eu perdi muito também Frank. Você sabe disso. O Gerard sempre foi meu melhor amigo, meu exemplo, meu herói.
- Eu sei Mike, você perdeu seu irmão. Eu perdi o amor da minha vida.
- É Frank, e agora você tem que seguir em frente.
- Eu não vou Mike.
- Você precisa. Eu não sei o que eu faria se perdesse meu irmãozinho postiço. – Um pequeno e carinhoso sorriso pairou no rosto de Mike. – E eu te amo Frank.
- Você sabe que eu também te amo Mike. É só que nada faz sentido sem ele...
- Nós vamos descobrir um jeito de te ajudar. Eu prometo.
- Não prometa Mike. Gerard me prometeu tantas coisas... E não pode cumprir... Só não prometa nada.
Frank soluçava, seu choro preenchia todo o espaço do quarto vazio. Mike o abraçou de um jeito carinhoso e amigo, afagando seus cabelos, mas não podia controlar o próprio choro. Era uma situação insuportável pros dois. Eles haviam perdido a pessoa mais importante de suas vidas.
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Frank andava nervoso de um lado pro outro, nunca se sentira tão ansioso em toda sua vida. Era o dia em que ele e Gerard iriam pro Canadá. Se casariam no dia seguinte. Seria perfeito. Frank mal podia esperar. Com certeza aquele seria o dia mais feliz de sua vida. Ele sabia disso. Mas tinha algo incomodando Frank, ele não sabia o que era. Algo que fazia sentir-se mal, enjoado. Ele associou aquela sensação ao seu nervosismo. Mas seu incomodo persistia.
Gerard havia saído logo de manhã, pra fazer alguma coisa que Frank não fazia a menor idéia do que era. Estava nervoso demais pra escutá-lo.
As horas se passavam e Frank não podia mais agüentar aquele aperto em seu peito. Ele não agüentava mais ficar sozinho envolto a tantos pensamentos. Ligou pra Mike, pedindo pra ele encontrá-lo na casa que dividia com Gerard. Mike tinha esse poder de acalmar Frank. Depois de Gerard, claro, poderia considerar Mike seu melhor amigo.
Não demorou muito até que Mike estivesse lá. E claro, não demorou nada pra que Mike começasse a zombar do jeito de Frank.
- Você nervoso desse jeito parece uma garotinha virgem ansiosa pela noite de núpcias, Frank.
- Cala a boca, idiota. Eu te chamei pra me acalmar, não pra rir de mim.
- Eu posso te comprar um Xanax.
- Eu já disse pra ficar quieto.
- Se é pra eu ficar quieto, pra que eu estou aqui?
- Meu Deus, porque você não cala essa sua boca?
- Okay, eu já estou quieto, não me mate, anão.
Frank parou de andar por um momento, sentando ao lado de Mike no sofá.
- Sabe Mike, eu to sentindo uma coisa estranha e eu não sei bem, eu sinto como se algo fosse dar errado...
- Frank isso é nervosismo por causa do casamento. Vai ficar tudo bem.
- Não é isso, é uma sensação diferente... — O telefone tocou, impedindo Frank de continuar a falar.
- Ok, eu atendo, você está nervoso demais pra isso.
Mike se levantou indo pegar o aparelho. Atendeu com um “alô” animado e um sorriso no rosto. A verdade é que estava achando graça do jeito de Frank tão ansioso. Mike ficava feliz pelo casamento do irmão e Frank, ele sempre achara que os dois eram perfeitos juntos “almas gemias” como dissera várias vezes aos dois.
Frank olhava pra Mike e para o relógio. Era pra Gerard estar ali a um bom tempo. Estava preocupado. Queria poder olhar pra ele e constatar que estava tudo bem. Queria logo que os dois estivessem casados. Sentia uma necessidade absurda de estar com Gerard. Seu coração acelerado, suas mãos tremulas, sua cabeça que latejava incessantemente, tudo isso só teria fim quando pudesse vê-lo.
Mas Frank, mesmo com todo seu nervosismo, naquele momento, quando olhou pra Mike, pode perceber como seu rosto estava pálido. Não era mais o rosto sorridente de antes, ele tinha preocupação, desespero e tristeza em seus olhos. Era indescritível a confusão no rosto do outro. Frank apenas moveu os lábios perguntando o que havia acontecido a um Mike estático. Mike, depois de alguns minutos, havia colocado o telefone no lugar onde estava antes e andou em direção a Frank. Sem dizer uma palavra sequer.
- Mike, o que houve? Pelo amor de Deus...
Não houve resposta, Mike apenas começou a chorar. Soluçava incontidamente enquanto Frank o abraçava e passava a mãos pelos seus cabelos de uma forma carinhosa e acolhedora. Mas Frank, de uma maneira estranha, também sentia uma insana vontade de chorar. Mas se conteve, precisava se controlar até saber o que aconteceu.
- Mike, por favor, eu preciso saber o que está acontecendo.
- Frank... – Mike falava entre soluços desesperados. – Eu não sei como dizer...
- Mike, fala logo! – Frank gritou em desespero. Apenas imagens de Gerard ecoavam em sua mente. Nada poderia ter acontecido com Gerard, Frank pensava, nada poderia ter acontecido, eles iam se casar, não era justo.
- Frank, eu não... Eu não pude... Eu não sei o que aconteceu. Disseram que levaram o Gerard pro hospital e... Ele sofreu um acidente. Disseram que ele está muito mal e-
- Onde ele está, Mike? Me fala, onde?!
Frank se levantou rapidamente, puxando Mike pra perto, saindo de dentro da casa, indo em direção a seu carro. Foram juntos pro hospital que Mike havia indicado. Frank nunca havia dirigido tão rápido em sua vida. Ficou surpreso de não ter sido parado por algum policial. Mas não havia tempo pra pensar em nada. Apenas precisava ver Gerard.
Quando chegou ao hospital Frank praticamente correu até a recepção perguntando onde Gerard estava. Foi bombardeado por informações que definitivamente não queria saber. Com lágrimas nos olhos pode ouvir o médico, que se seu nervosismo tivesse o deixado ouvir bem, era quem havia operado Gerard, e esse mesmo médico o estava dizendo que não poderia fazer nada pra que Gerard ficasse bem.
Frank não ouvia direito. Ele queria apenas ver Gerard e constatar que era tudo mentira. Seus órgãos não estavam sangrando. Seu corpo não estava morrendo. O amor da vida de Frank não o estava deixando.
Mas Frank sabia, ele podia sentir, ele estava enganado. Gerard estava sim o deixando e era por isso que Frank sentia o próprio corpo sangrar.
Quando Frank se aproximou do quarto ele não mais tinha pressa, andava devagar. Tinha medo do que iria encontrar ali. Não sabia o que havia acontecido a Gerard. E se fosse grave? E se Gerard o deixasse? Frank apenas foi encorajado pela mão de Mike em suas costas, um toque suave e encorajador.
Mike que estava o tempo todo ao lado de Frank, chorando e se sentindo tão desesperado quanto o menor. Seu coração estava despedaçado. Nunca sentira tanto desespero. Amava Gerard com todas as suas forças. Apenas pensar no irmão machucado, pensar no irmão morto... Nenhuma palavra poderia explicar o que Mike sentia naquele momento. Mas de um jeito ou de outro, precisava vê-lo. Mesmo que fosse uma ultima vez. Precisava estar com ele. Precisava olhar pro rosto do irmão mais velho, o irmão que sempre cuidou dele e o amou.
Mike e Frank entraram no quarto juntos, um apoiando o outro. Era tudo que eles tinham. Suas feições eram parecidas. Desespero e dor profunda. Mas eles precisavam ser fortes, por Gerard.
Gerard estava deitado com seus olhos fechados. Seu rosto, antes tão pálido e com feições calmas, agora estava machucado e com marcas roxas; cortes, e alguns curativos. Seu corpo estava em um estado ainda pior que o rosto. Algumas partes enfaixadas, pontos em sua pele. E em alguns lugares seu sangue era visível. E mesmo com a agulha em seu braço levando morfina através de suas veias, era quase palpável a dor que Gerard sentia.
Aquilo era extremamente difícil pra Frank e Mike, eles podiam sentir a dor de Gerard em seus próprios corpos. Nunca, nenhum dos dois sequer havia pensado em ver Gerard daquela forma. Gerard era sempre tão calmo, sempre mantendo seu jeito sensual. Seus olhos sempre transpareciam vida. Ele era sempre deslumbrante. Nada poderia ser pior do que vê-lo definhando daquela forma.
- Você veio, meu amor... – Frank se assustou quando ouviu a voz baixa de Gerard, que ainda permanecia com os olhos fechados.
- Eu esqueci que você sempre sabe que eu estou olhando pra você. Mesmo sem me ver ou ouvir minha voz... – Frank disse em meio a um sorriso enquanto se aproximava da cama de Gerard.
- Eu posso sentir seu cheiro, sua presença. É inconfundível. Meu coração bate mais rápido quando você chega perto.
- Gee... – Frank tentava com todas as suas forças não chorar, mas era inevitável que algumas lágrimas escorressem por seu rosto. – O que aconteceu com você, meu amor?
- Um idiota bêbado passou com seu maldito carro por cima de mim. Mas isso não importa mais. O que importa é que minha obra de arte e meu irmãozinho estão aqui.
- Olha, vejo que alguém pode me reconhecer também. – Mike, que ainda permanecia próximo a porta do quarto, disse sorrindo.
- Eu te amo, sua peste.
- Eu também te amo Ge, muito. – Mike tinha se aproximado, tocou uma das mãos de Gerard, deixando um leve beijo ali. – Você é tudo pra mim, sabe disso, não é?
Gerard apenas assentiu. Não tinha restado muita força em seu corpo. Sentia-se fraco, como se o mundo estivesse desabando em cima de sua cabeça. Mas amava seu irmão com todas as suas forças. Mesmo que pudesse sentir seu corpo falhando; sua voz estivesse praticamente um sussurro; e ele se estivesse sendo arrancado de dentro de si mesmo; ainda assim seu amor por seu irmão estava ali, e sempre estaria. Isso era algo que nunca seria arrancando dele.
- Eu vou deixar você e o Frank em paz agora. – Mike sussurrou depois de beijar a testa do irmão. – Vocês precisam um do outro.
Todos estavam sorrindo fracamente, mas a gravidade daquela situação era mais que um consenso. Era uma verdade gritante, uma realidade que não interessava o quanto quisessem negar, estava logo ali diante de seus olhos. Não importava se quisessem gritar, chorar ou fingir que tudo voltaria a ser o paraíso de sempre, aquilo era uma despedida. Gerard havia aberto seus olhos sensíveis pra olhar Mike uma ultima vez antes deste sair do quarto. E logo que este saiu, voltou sua atenção pra um Frank que chorava sem conseguir se controlar.
- Não chora, pequenininho, está tudo bem.
- Não Ge... Era pra gente se casar, amanhã, você precisa ficar bem. – Gerard levou suas mãos machucadas ao rosto de Frank, limpando algumas lagrimas.
- Frank, escuta. Mesmo que a gente não se case. Nós somos um do outro pra sempre. Você sabe disso. Nós fizemos uma promessa, se lembra?
- Mas eu preciso de você... O que eu vou fazer sem você pra cuidar de mim?
- Você pode pedir ajuda ao desastrado do Mike, vocês vão encontrar um jeito, vocês vão se virar.
Gerard se esforçava pra falar. Sua voz saia em sussurros entrecortados. Cada vez que falava, seu corpo sofria pontadas lancinantes de dor, mas não se importava, cada segundo daquela dor valeria a pena se fosse pra fazer Frank entender que precisava seguir em frente. Ele precisava fazer aquilo. Precisava ajudar Frank. Ele não poderia deixá-lo sem ao menos fazê-lo entender que teria que continuar sozinho. Ele precisaria continuar. Porque Gerard o amava, e precisava saber que quando fosse embora, seu pequeno, seu amor, sua obra de arte, conseguiria se cuidar, ficar bem e viver bem. Precisava fazer Frank entender que mesmo que não estivessem juntos, eles sempre pertenceriam um ao outro. Porque o amor que construíram, toda a arte que fizeram juntos, nada daquilo nunca poderia ser destruído.
- Por deus, Gerard, eu e o Mike somos dois desastres, a gente só tem você... A gente precisa de você.
- E eu queria poder continuar cuidando de vocês, Frank. Me perdoe, okay?
- Não! Por favor, não peça perdão, não faz isso comigo. Vai ficar tudo bem. Você já fez tudo por mim, não é? Eu prometo que um dia vou fazer você ter orgulho de mim.
- Eu já tenho orgulho de você, pequeno.
- Eu te amo tanto, Ge.
- Eu também te amo... Só prometa que vai ficar bem, você e Mikey, promete?
- Eu prometo, eu prometo tudo que você quiser.
- Eu vou estar sempre com você, pequeno, sempre, eu prometo.
Frank estava abraçando Gerard, da maneira mais suave que conseguia, tinha medo de machucá-lo ainda mais, mas precisava senti-lo, precisava tê-lo por mais aqueles momentos. Suas mãos estavam entrelaçadas, todos os sentimentos dos dois demonstrados ali, naquele toque tão sutil. Carinho, confiança, grande amizade e amor, muito amor. Um longo e doloroso tempo se passou, em meio a lágrimas, pequenos e carinhosos beijos, e por um longo tempo apenas permanecendo de olhos fechados sentindo o calor de seus corpos juntos. Frank pode sentir o coração de Gerard batendo cada vez mais lentamente, até não bater mais; se sentiu ser carregado pra fora do quarto quando o barulho irritante da maquina que monitorava os batimentos cardíacos de Gerard começou a apitar.
Gerard havia ido embora, pra sempre.
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- Mike... – Frank dizia enquanto ainda abraçava o irmão do amor de sua vida. – Eu... Eu prometi ao Ge... Eu quero ficar bem. Eu preciso ficar bem. Por ele. Eu não posso quebrar as promessas que eu fiz a ele.
- Então nós vamos cumprir isso Frank. Juntos.
- É, eu vou cuidar de você. – Dizia entre um sorriso, enquanto se afastava um pouco do abraço.
- Você, uma garotinha de menos de um metro, cuidando de mim? – Mike arqueou as sobrancelhas e logo recebeu um tapa fraco em seu braço.
- Vai se foder, okay?! Eu estou cansado de dizer que eu nem sou assim, tão pequeno.
- Não, claro que não...
Um breve momento se passou. Trocaram um olhar cheio de significados. Eles eram como irmãos. Eram melhores amigos. E sempre teriam um ao outro. Eles precisavam um do outro pra ficar bem. Eles se amavam.
-Nós vamos ficar bem, não é Mike?
- Vamos sim, anão. É claro que vamos.
Fim
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