Sharpy: A Filha Perdida de Serafim
2 Capítulo 1: Novo guerreiro
— Ellyade, um novo guerreiro chegou hoje. Encontraram-no enquanto ele lutava numa vila. Derrotou quatro lutadores experientes apenas com uma adaga. Querem que você o treine para que ele possa entrar para a Sharpy. –Um arqueiro da facção, que não tinha muito mais do que vinte anos de idade, falava animadamente.
— Quantos anos você disse que ele tem mesmo? –Ellyade perguntou, sem se importar muito, enquanto amolava sua tão amada espada de ouro.
— A mesma que a sua. Dezenove. –Ele falou e ela bufou. Ellyade odiava guerreiros novos, ainda mais quando eram tão imaturos na idade. –Eu ainda espero pelo dia em que você estará de bom humor. – O arqueiro dizia, rindo.
— Não acho que você vai viver o suficiente para isso, Kyle. – Ellyade falava enquanto guardava sua espada na bainha. –Vamos. Leve-me até o novo garoto.
Andaram por todo o acampamento até chegarem à casa principal. Ellyade bufou e resmungou durante todo o caminho.
— As pessoas pensam que eu não tenho mais o que fazer! Sempre colocam esse tipo de tarefa desnecessária para mim, eu tenho potencial maior que o de uma professora. – Falava mais para si do que para Kyle que apenas ria durante o trajeto.
— Bom dia. –Sorria Bradley, o chefe de toda a facção, enquanto saudava dois de seus melhores guerreiros. – Esse é o Luke, o mais novo integrante e seu novo aluno, Ellyade. – Ele sabia que a garota odiaria aquela tarefa e achava isso divertido.
A menina, finalmente, olhou para o garoto ao lado de Brad e seu corpo ficou paralisado. Ele era alto e muito bonito, ela não podia negar, mas era algo além da beleza dele. Não eram os cabelos pretos ondulados jogados propositalmente para trás, ou as maçãs muito vermelhas de seu rosto, eram seus olhos. Algo nos olhos verdes de Luke a deixavam intrigada.
— Legal. –Disse Ellyade sem entusiasmo após alguns segundos, que pareceram minutos em sua cabeça, encarando Luke. –Vamos logo, você tem muito que aprender. Trouxe alguma espada?
— Eeer... Não, eu não tenho uma espada. –Disse Luke um pouco abalado com a confiança e arrogância de Ellyade.
Luke ficou um pouco abobalhado pela presença da garota. Os cabelos castanhos brilhosos dela estavam com sua metade superior presa enquanto a outra parte caia deliberadamente por seus ombros chegando à altura de seus bíceps incrivelmente definidos; seus olhos eram tão cinzas e ferozes que o faziam sentir tremores por todo o corpo; seu nariz fino estava em harmonia com o formato de seu rosto e a grossura de sua sobrancelha deixava seu olhar marcante. Ela era a criatura mais linda que ele já vira na vida.
— Vai ser mais interessante do que eu pensei. –Disse irônica enquanto saia da sala da casa principal.
O garoto, agora desperto de seu momento de observação, não entendeu o que era para fazer, mas achou que deveria segui-la e assim o fez. Passaram por alguns campos de treinamento e quase foram acertados por algumas flechas. Ele ainda estava um pouco perplexo com tudo aquilo.
Antes do acontecido na vila, Luke morava numa fazenda com sua mãe, que era viúva desde que o menino era um bebê.
A relação que ele tinha com a mãe era ótima, mas a única lembrança que tinha de seu pai era uma adaga dourada, a qual nunca lhe havia sido útil até o dia do bar.
Após a morte de sua mãe, Débora, Luke sentiu-se perdido. Continuou morando e cuidando da fazenda até o dia em que um envelope contendo uma boa quantia de dinheiro chegou à sua casa. A pessoa que o havia enviado provavelmente não estava ciente da morte da mãe de Luke, pois o nome de Débora estava escrito com letras finas no papel branco.
Luke sentia que aquele não era o primeiro envelope enviado à sua casa e começou a criar teses de que era aquele dinheiro que garantia o seu sustento, visto que as terras da fazenda nunca foram muito férteis e sua mãe nunca o deixava organizar a parte administrativa.
O mistério envolvendo aquele envelope o consumiu tanto que ele decidiu sair à procura do banco que utilizava aquele selo preso ao papel. O menino havia passado por três cidades diferentes e a frustração de não conseguir encontrar o remetente o enlouqueceu fazendo com que ele descontasse em alguns bêbados num bar.
— Eu não tenho tempo pra estar gastando com você. Então, preste atenção no que digo. – Ellyade disse friamente assim que chegaram a uma oficina cheia de armamentos. – Escolha logo uma espada. – Ela disse revirando os olhos.
— Eu não sei escolher uma espada. – Luke disse enquanto observava a beleza de todos aqueles metais juntos. Os olhos dele brilhavam, eram muitas opções.
Ellyade sabia exatamente como Luke estava se sentindo, ela já esteve no lugar dele, embora fosse muito jovem na época, ela ainda lembrava de cada detalhe daquele dia. Aquele olhar perdido e animado num rosto antes sério e aflito a fez sentir algo que não sentia havia anos, compaixão.
— Você saberá qual escolher, apenas abra sua mente e coração. – Ela disse e pela primeira vez sua voz não soou arrogante. Isso surpreendeu Luke que apenas assentiu e começou a andar pela oficina.
Havia várias mesas com espadas, adagas e amoladores enquanto as paredes altas da oficina eram cobertas por diversos arcos.
Luke passava a mão por todas as espadas, todas eram incríveis, mas uma em especial o chamou a atenção. Ela era feita de prata, deveria ter uns noventa centímetros e devia pesar uns três quilos. Assim como todas as outras, sua espada tinha cinco cavidades um pouco acima do punhal.
— Pra que serve isto? –Perguntou Luke enquanto puxava sua nova espada e mostrava as cavidades para Ellyade.
— Servem para mostrar seu nível. Cada nível atingido você recebe uma pedra diferente. –Disse Ellyade quase sorrindo com a curiosidade de Luke.
— Como faz para subir o nível? –Luke não tirava os olhos de sua espada, estava apaixonado por ela.
— Depende. –Ellyade disse se aproximando mais dele que estava a três mesas de distância. –Você pode conseguir fazendo uma missão bem sucedida, ou com os testes de nivelamento, mas estes quase nunca ocorrem.
— Quantas pedras você tem? –Luke finalmente tirou os olhos da espada e encarou Ellyade.
Ellyade evitou o contato visual e retirou a espada da bainha que estava presa à sua calça jeans surrada. Mostrou a Luke quatros das cinco cavidades completas.
O garoto olhou as quatro cavidades, duas de cada lado, e se impressionou com a beleza delas.
— Todos os níveis dão pedras esmeraldas vermelhas? –Luke fez menção de tocar a espada dourada de Ellyade, mas a mesma logo a embainhou novamente.
— Não. Cada nível é uma pedra diferente, mas ao chegar ao nível cinco, todas as pedras são substituídas pelas esmeraldas. –Explicava da forma mais paciente que conseguia.
— O que você precisa fazer pra ganhar a quinta pedra?
A quinta pedra ficava no meio e era a maior das cavidades.
— Matar o Bradley e ficar no seu posto de ancião. –Ellyade disse secamente. – Todas as esmeraldas dele foram substituídas para jadeites. Isso aconteceu há dez anos quando o antigo ancião faleceu e passou seu cargo para o Brad.
— Esses níveis também valem para os arqueiros? Ou é diferente? –Perguntou Luke voltando sua atenção para os arcos pendurados nas paredes.
— Sim. Brad é um arqueiro.
Ellyade podia não demonstrar, mas Brad era sua maior inspiração. Ela o achava a pessoa mais sábia e genial do mundo e queria um dia ser como ele. Era, também, o único com quem ela se importava no mundo desde a partida de Andrew.
— Ah, sim. – Luke assentiu. Ele ainda não tinha entendido muito bem essas coisas de níveis e pedras, mas com o tempo se acostumaria com aquilo.
— Vamos logo começar com o treinamento de combate. Não temos o dia todo. – A voz arrogante de Ellyade havia voltado e Luke já estava ficando irritado.
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