Não prestei atenção a uma palavra se quer dita pelo professor durante as 2 primeiras aulas. Assim que o sinal tocou juntei minhas coisas e me levantei apressada.

Já ia saindo quando senti o toque de Miguel em meu ombro.

–Pra que a pressa?

–Tenho umas coisas a fazer...

–Allyce onde você vai?

–Já disse tenho coisas a fazer.

–Sair sozinha por ai depois do que aconteceu...

–Olha não estou indo atrás de encrenca, juro, agora com licença que estou atrasada.

–Allyce.

–Miguel preciso ir ver uma pessoa.

–Quem?

–Não é da sua conta, agora solta meu braço.

–Allyce...

–Chega. Você não é meu pai. Tchau.

Puxei meu braço com força e sai apresada empurrando um grupo de garotas que estava parado perto da porta. Subi as escadas até o andar da diretoria, o sinal da terceira aula tocou, os alunos logo saíram dos corredores entrando para suas respectivas aulas.

Quando parei em frente a porta desejada respirei algumas vezes tomando coragem. Eu havia escutado algumas alunas dizendo que ela havia voltado, durante as horas seguintes tentei me forçar a criar coragem de encara-la. Voltando ao presente fechei os olhos respirei fundo e bati lentamente na porta. Katherine abriu a porta e me encarou por alguns segundos, tentei forçar um sorriso, o que mais saiu parecido com uma careta. Sua beleza me ofuscava, ela era perfeita.

Fui puxada para dentro por seus braços esguios e suas mãos macias, me aconcheguei a ela com o coração martelando, eu havia sentido sua falta, mais do que imaginara, com doçura ela afagou meu cabelo gentilmente. Quando me soltou fechou a porta, aproveitei o momento para engolir o choro. Tudo ali me lembrava ele, talvez a ideia não tivesse sido tão boa.

Kate voltou para meu lado, sua voz chegou a meus ouvidos como sinos tocando, tão doce e calma.

–Minha pequena, como senti sua falta, estive tão preocupada.

Sorri por falta de resposta. Um caroço do tamanho do mundo havia se instalado em minha garganta. Ela colocou suas gentis mãos em minhas costas me levando em direção ao sofá chenille preto (http://static.wmobjects.com.br/…/sofa-de-canto-gazin-5-luga…) no fundo da sala. Quando nos sentamos ela continuou.

–Achei que não fosse mais te ver, principalmente depois que recebi sua carta, ela me abalou tanto, então você voltou pra cá e nós...

Ela se calou, eu sabia o que vinha a seguir, depois que voltei descobri sobre Melanie quis mata-los, me sentia horrível (mesmo sem ter razão a final eu havia partido), então Jon levou toda sua família para longe evitando um conflito com Miguel e os outros Nephilins. Infelizmente Melanie havia ficado, seu maior prazer era me afrontar. Eu achava que eles não mais voltariam porem Tayler ligou para Jen e garantiu que logo estariam de volta.

–Sei como se sente Kate.

–Ainda está brava conosco?

–Não, eu nunca estive realmente brava, é complicado, descobrir o que houve me abalou muito...

–Ele não teve culpa. Sua intenção não era fazer mal ao garoto, digo seu irmão.

–Acredito em você.

Kate pegou minhas mãos e as apertou gentilmente.

–O passado não pode ser mudado, por mais que desejamos, uma vez feito não pode ser desfeito... Durante décadas Jon se martirizou pelo que houve no passado, e então você apareceu, não sabíamos sua relação com tudo que houve, embora eu devesse ter sentido, não consigo acreditar que não vi isso antes, mas sabe, me desculpe a sinceridade, não me arrependo por não ter visto, pois você é de longe a melhor coisa que aconteceu ao meu filho, você o salvou de si mesmo, de seus pecados, você mostrou a ele o que é viver, o que é amar, e eu serei eternamente grata a você por isso. Agora sei que você está sofrendo mas te garanto que ele está sofrendo muito mais, então por favor, continue sendo a luz dele, não o deixe se perder, converse com ele, como mãe te imploro.

Suas palavras me machucaram, eu nunca devia tê-la procurado, a sinceridade e o modo que ela expôs tudo me feriu, me fez ver que a hora havia chegado. Tentei manter a calma quando enfim falei.

–Eu entendo que não foi culpa dele, mas não acho que ele precise de mim. Tivemos uma história, mas o deixei livre para seguir em frente, o que acho que ele fez...

–Não ele não seguiu, isso te garanto.

Com graça ela se levantou e serviu 2 doses de algo escuro, entregou-me uma taça e ficou com a outra. Cheirei o liquido e um aroma adocicado me envolveu, licor sem dúvidas, tomei um pequeno gole e senti o calor do álcool me aquecer.

Kate voltou a falar.

–Ele está confuso, perdido, Melanie apareceu para piorar as coisas, mas confie em mim quando digo que ela não é nada na vida dele, a história entre os dois sempre foi um fracasso, por isso ele a dispensou, quando se conheceram ela foi como uma erva daninha na vida dele, o cercou, se apoderou de suas vontades, o mudou, por anos o vi cair na decadência sem nada poder fazer... Então um dia ele acordou. Hoje ela voltou e tenho medo de vê-lo se jogar outra vez no abismo, isso pode ser fatal. Você é a salvação. Se você pudesse...

Ela parou de falar mais uma vez, li em seus olhos o pedido não proferido.

–Voltei disposta a falar com ele e ele fugiu de mim, pior a escolheu ao invés de mim, o que a faz pensar que ele me escutaria agora?

–O poder de Melanie sobre ele é grande, você não entende. Ele não a escolheu, ainda não por isso te imploro fale com ele.

Pude sentir seu desespero, sua angustia, seu medo, não imaginava que uma bruxa pudesse ter tais sentimentos. Me levantei e servi mais uma dose do licor. Enchi o copo e o virei de uma só vez garganta a baixo. Com um impulso de coragem vindo do álcool falei decidido.

–OK, então me leve até ele.