Shadows of the past
17 Capitulo 17
Jill não viria. Rose tinha me contado por alto o que acontecia, me deixando quase em estado de insanidade. Algo terrível tinha acontecido com Jill, mas ela agora estava bem. Ela tinha ido embora com urgência para sua própria segurança. Adrian estava com ela e Eddie também. Ela ficaria bem e voltaria quando Lissa conseguisse anular a lei.
Eu sentia minhas mãos tremerem e estava me segurando para não chorar. Em algum ligar da minha mente eu sabia que essa era uma reação exagerada já que Jill estava a salvo, mas saber que eu me manteria sozinha aqui dentro era algo que eu tive medo desde o começo. Agora era real. Não seriam só duas ou três semanas. Jill não viria para a St. Vlad e nós não nos veríamos mais por um período indeterminado. Eu desliguei assim que Rose terminou de me contar e antes que ela viesse me perguntar como eu estava indo. Quando entrei no refeitório novamente, percebi que os olhares agora aumentaram. Eu peguei apenas um yogurte me sentindo sem fome e com o estomago revirando e me sentei sozinha, pois vi que até os amigos de Bea estavam me olhando estranho. Me mantive encarando o pote vazio de yogurte por um tempo até que percebi Bea se aproximar de mim com uma expressão de pena.
– Ana, eu sinto muito. As pessoas daqui estão sendo idiotas, eu sei que você não faria isso. – ela me dizia como se pedisse desculpas e me deixando sem entender.
– E então, Anastacia, pode nos contar quanto você ganhava sendo uma bloodwhore? – disse Gwen falando alto e ao lado de Jessica.
Eu a encarei e me levantei da mesa indo até ela.
– Do que você esta falando?
– Da sua encomenda que chegou ontem. Ela veio de uma cidade chamada Baia, certo? Fazendo algumas pesquisas eu descobri que esse é tipo um campo de concentração de bloodwhores, o que explica você não saber nada sobre ser guardiã. Você foi treinada para ser outra coisa, certo?
Eu fechei minha mão sem pensar e se Bea não tivesse sido mais rápida, nem Jessica bloquearia o soco que eu daria bem no nariz de Gwen. Bea se manteve me segurando enquanto eu tentava agarrar Gwen e Jessica se manteve protegendo-a. Eu gritava insultos e palavrões para as duas, mas fui arrastada para fora do refeitório. Os guardiões já estavam chegando para saber o que havia acontecido.
– Ana, pare! Você esqueceu o que eu falei sobre não poder bater em Gwen ou nenhum Moroi aqui dentro? – Bea tentava me acalmar ainda me segurando.
– Não importa! Ela não tem o direito de falar isso. Ela não sabe nada sobre mim! – eu ainda gritava.
– Vão esquecer isso, você só precisa se acalmar e ficar na sua. As fofocas passam muito rápido aqui dentro e logo você vai ser assunto antigo. Anda, por favor, se acalme! – Bea dizia aflita.
– Eu a odeio! Eu odeio todos eles!
– Eles mentem, eu sei. Mas vai ficar tudo bem, você só precisa focar em treinar e se tornar melhor do que eles. Anda, daqui a pouco ninguém vai acreditar nessa mentira.
Eu parei e olhei para Bea. É claro que ela pensava que era mentira. Ela ainda pensava que eu tinha sido criada em Moscou.
– Bea, eles não estão mentindo. Eu fui criada em Baia, mas eu não sou uma bloodwhore. – eu admiti.
Bea parecia surpresa, mas nós ouvimos o sino tocar.
– Vá para a sua aula. No final do dia você me conta sobre isso. – ela disse e saiu me deixando sozinha.
A aula do professor Lemoine foi miserável. Eu resolvi que eu focaria em me manter calma e passar por isso de cabeça erguida, mas Oliver estava pior do que os outros dias. Ele passou a aula inteira me encarando e soltando piadinhas e eu tive que aguentar tudo fingindo que não o ouvia. Quando ele saiu e eu fui entregar os exercícios de química para o professor, ele me surpreendeu com uma conversa:
– Se quiser que eu escreva um bilhete para você ficar aqui até seus horários terminarem, é só me dizer – ele me disse, me analisando.
– Não, eu estou bem. – menti.
– Eu sou de uma cidade como essa na França. Não tem pelo que se envergonhar se você decidiu se tornar uma guardiã.
– Eu não decidi me tornar uma guardiã, professor. E não tenho por que me envergonhar porque eu nunca fui como elas. – eu disse de uma maneira insensível.
– Não estou aqui para julgar, Anastacia. E você tem todo direito de se sentir ofendida. Eu sinto muito. – ele disse e voltou para os papeis de exercícios.
Eu passei pelas outras aulas como se nada tivesse acontecendo. Ouvia risadinhas e cochichos enquanto andava, mas me mantive firme o quanto eu pude. Meu plano de ser invisível agora tinha acabado por completo e até alguns guardiões me olharam com desgosto enquanto eu passava.
Quando finalmente eu cheguei em meu quarto, eu me tranquei no banheiro e me deixei chorar até conseguir uma dor de cabeça. Eu odiava me sentir tão exposta e ridicularizada. Eu odiava me sentir tão sozinha e tudo o que eu queria era ir embora dali. Esquecer todas aquelas pessoas e voltar para a Rússia. Eu considerei ligar para Abe e tentar convence-lo a me tirar da St. Vladmir, mas voltar e encontrar os olhos decepcionados dos meus pais ia fazer com que eu me sentisse pior. Então enquanto eu soluçava e minha cabeça latejava eu entrei no chuveiro.
Depois que saí do banheiro, ouvi Bea batendo na porta e pedi para que ela entrasse. Ela viu como meu rosto estava e começou a pedir desculpas mais uma vez.
– Ana, eu sinto muito. Ela é uma fofoqueira-
– Eu não me importo. Já estava cansada de mentir que eu tinha nascido em Moscou.
– Foi por isso que você mentiu? Por que você não queria que ninguém descobrisse que você veio de uma cidade de bloodwhores? – ela disse se sentando ao meu lado na cama.
– Não foi ideia minha mentir. Eu não me importo em ter sido criada em Baia. Janine me disse que seria melhor se ninguém soubesse e agora eu entendo o porquê.
– Eu pesquisei o lugar... lá parece... legal. – ela disse.
– Eu não era uma delas, Bea. Eu trabalhava para – eu me perguntei como contar – eu trabalhava as ajudando. É complicado.
Bea fez uma careta.
– Não é algo para se ter nojo, eu na verdade tenho pena. Algumas dessas mulheres realmente fazem algumas coisas horríveis, mas a maioria entrou nesse caminho por se apaixonar por um Moroi idiota. E essas cidades são mesmo legais. Você encontra muitas famílias lá. Famílias de verdade. E se você for boa com todos, todos tratarão você bem. Não importa se você é uma dhampir, guardiã, bloodwhore, humana, Moroi ou alquimista.
– Alquimista? – Bea me perguntou.
Eu mordi o lábio. Lá estava eu complicando mais uma vez.
– Bea, o que acha de passar alguns dias comigo na Baia? Conhecer o lugar? Você já saiu do país alguma vez?
Bea parecia constrangida em me responder.
– Na verdade eu quase nunca saio daqui. Exceto nas férias quando eu vou para casa e fico trancada ou para ir comprar alguma coisa, quando a turma sai em excursão ou algo assim.
Eu estranhei.
– Por que? Algum dos seus pais não vem buscar você nos feriados?
– Meu pai era o guardião da minha mãe. Ele morreu quando eu tinha uns quatro anos. Minha mãe é uma Moroi da realeza e digamos que... ela prefira me manter longe. Nas férias eu vou para casa, mas passo boa parte do mês treinando com os outros guardiões da casa ou no meu quarto. Quando eu me formar, vou me tornar a guardiã dela e talvez isso faça com que nós nos tornemos próximas. É por isso que eu tenho lutado tanto para ser a melhor. – ela disse com um sorriso esperançoso. – Literalmente.
Eu dei um sorriso curto, mas não entendia como Bea podia aceitar algo assim. Ela era a melhor guardiã em treinamento e tudo isso para que a mãe dela passasse à aceita-la. Eu não consegui entender Bea, mas me mantive quieta.
– Você parece destruída. – ela disse me olhando.
– Pode me arranjar outro analgésico? Eu realmente vou precisar de ajuda para dormir.
– Tudo bem. – ela disse se levantando. – Sei que amanhã você ainda tem aula, mas vai ter uma festa atrás do campo da igreja, próximo a cerca. Se você quiser ir...
– Bea, com tudo que estão dizendo de mim, ir a uma festa não ia ajudar muito...
– Eu entendo, mas se quer minha opinião, por isso mesmo que você deveria ir. Para mostrar que você não está nem aí. – ela assentiu e depois foi até o quarto para ir buscar um comprimido.
Eu me sentia melhor quando tomei o remédio e fui dormir. Dei sorte de Oksana não me puxar para um sonho hoje, porque falar com ela era sempre um alivio, mas hoje só me faria chorar mais ainda e me sentir pior do que eu já estava. No sábado, Oliver continuava me encarando durante toda a aula, mas eu já estava quase me acostumando com isso e consegui me manter focada na aula. Quando voltei maioria da turma estava fazendo o trabalho em dupla de Artes Eslavas no bloco dos dhampirs, o que fazia com que o ambiente estivesse lotado. Percebi que isso também servia de distração para que os guardiões ficassem apenas observando o bloco enquanto todos os outros se preparavam para a festa. Oliver estava fazendo um trabalho com uma menina dhampir e estava a tratando como o lixo que na verdade ele era. Jessica era a parceira de Gwen e Dane era o parceiro de um dhampir amigo de Bea que estudava comigo. Quando eu entrei e passei entre eles, ainda recebi alguns olhares e vi as pessoas cochichando, mas resolvi não ligar por mais que eu estivesse magoada.
– Hey, Anastacia. Você estava treinando? Achei que não tinha aulas no sábado. – disse Aimee, a garota que era minha parceira no trabalho. Ela era uma Moroi com longos cabelos castanho claro e olhos quase da mesma cor.
– É, eu tenho. Eu vou subir e pegar as pesquisas que já fiz e o material, okay? – eu disse.
Aimee, apesar das fofocas, não me tratou diferente. Já seu namorado, um idiota chamado Brett Ozera, se aproximou de nós duas para fazer suas próprias piadinhas e eu agi como se ele não existisse, o que fez com que ele fosse embora rapidamente. Nós finalizamos o trabalho falando apenas o necessário e depois disso eu lhe disse onde ficava a cozinha enquanto eu ia ao banheiro. Guardando minhas coisas, eu resolvi que iria ao banheiro debaixo por estar com preguiça de precisar subir com todo o material de trabalho para o quarto novamente. Então deixei minha mochila na mesa e saí em direção ao banheiro. Quando abri a porta, acendi a luz e para minha surpresa encontrei Gwen novamente.
O melhor foi que finalmente descobri que a pessoa que estava com ela na festa era na verdade Oliver.
– Que porr- Oliver começou a dizer enquanto Gwen se abaixava para catar suas roupas espalhadas no chão.
Sendo bastante sincera, eu confesso que nunca me vi como uma pessoa vingativa, mas não tinha um melhor momento para me vingar do que Oliver e Gwen estavam me fazendo passar desde o começo. Eu gritei como se estivesse vendo algo horrível o que atraiu a atenção dos guardiões que estavam ali e depois sorri.
– Já que você gosta de expor segredos, o que acha de eu expor um seu, piranha? – eu disse lembrando de como ela havia me xingado e saí dali atuando como se estivesse chocada e apontando para o banheiro e começava a lotar com alunos e guardiões para saber o que tinha ocorrido. Quando subi o primeiro andar e olhei para o caos que eu tinha feito, vi Gwen ser levada por duas guardiãs e Jessica atrás dela segurando uma peça de roupa dela enquanto todos riam e observavam. Quando procurei por Oliver ele estava sendo escoltado por um guardião até que Dane apareceu do nada lhe dando um belo soco. Um outro guardião segurou Dane e o levou para fora também e toda a felicidade da minha vingança desapareceu ao ver o que eu tinha feito com ele.
Dane parecia magoado e furioso quando eu o vi, mas depois de que atingiu Oliver ele não esboçou mais nenhuma reação e não havia humor algo em seu rosto. Oliver e Dane deveriam ser amigos e eu acabei de destruir isso. Bem, é claro que o que Oliver e Gwen estavam fazendo era errado, mas não cabia a mim me meter e tornar isso publico. Eu me xinguei mentalmente enquanto subia as escadas até o meu quarto.
Depois de um tempo, o bloco inteiro parecia silencioso, provavelmente porque todos estavam na festa e eu resolvi aproveitar o silencio para ir dormir mais cedo. Na manhã seguinte o bloco continuava da mesma maneira e só encontrei dois ou três guardiões enquanto tomava café da manhã, todos pelo visto tinham se divertido bastante na festa de ontem. Quando entrei na igreja, vi Dane mais uma vez com óculos escuros, mas com roupas de festa e amassadas do outro dia, e eu me sentei no mesmo lugar que domingo passado. Depois que a missa terminou, ouvi algumas Moroi passarem por mim ainda cochichando coisas como “essa bloodwhore não deveria estar aqui” e suspirei me mantendo encarando o altar. Esperei mais uma vez que todos saíssem e dessa vez, quando percebi que Dane vinha em minha direção eu me levantei e saí o mais rápido que pude. Eu sabia que devia um pedido de desculpas a ele, mas eu não gostava de como ele agia enquanto conversávamos. Talvez eu escrevesse um bilhete em uma aula para entrega-lo, mas não sabia como ele reagiria ou como a relação entre ele, Gwen e Oliver estava.
O bloco continuava na mesma situação e eu não tinha visto Bea, então sabia que ela talvez ainda estivesse dormindo, mas enquanto trocava de roupa ouvi alguém bater na porta e disse “entra” enquanto terminava de me vestir.
– Hey, Bea. A noite de ontem deve ter sido- eu parei de falar quando olhei para porta e vi Oliver totalmente bêbado, com o olho roxo que Dane havia lhe dado e com roupas amassadas.
– Pelo visto Jess estava certa, é fácil entrar em seu quarto.
– O que você está fazendo aqui?
Ele ainda estava com uma garrafa de cerveja na mão.
– Eu vim saber quanto você quer para me deixar ter alguma diversão. – ele disse enquanto trancava a porta do meu quarto e se aproximava de mim.
Tudo em mim começou a entrar em pânico e eu tentei de verdade lembrar algo do que eu já havia aprendido.
– Vá embora, Oliver. Eu vou gritar e você-
– Nada vai acontecer comigo, Anastacia. Você é apenas uma dhampir, uma ninguém aqui dentro.
Eu comecei a me preparar para atacar, mas ele partiu para cima de mim me enforcando com uma mão contra a parede.
– Mas eu tenho que te dar crédito. Para uma ninguém, você até que conseguiu me dar trabalho. Você fodeu comigo, Anastacia. – ele sorriu de maneira macabra e quebrou a garrafa na parede do meu quarto, ao lado da minha cabeça. Em seguida ele pegou a mão que havia ficado livre e segurou meus cabelos com força, aproximando o rosto do meu com um bafo de álcool horrível. – Agora é minha vez de foder com você.
Eu não sei exatamente qual foi o gatilho que despertou o meu cérebro para que eu usasse tudo o que eu havia aprendido, mas eu finalmente tinha conseguido. Oliver estava bêbado e era lento e ele até tentou lutar contra mim, mas ele era apenas um Moroi afinal. Eu consegui tirar suas mãos de mim com um chute em sua virilha e depois disso eu o espanquei até que ele fosse para o chão e ali eu continuei socando seu rosto com toda a força que eu podia. Eu sabia que minhas mãos já estavam machucadas e que meu quarto já estava parecendo uma cena de crime, mas eu não conseguia parar, também ouvia um barulho estranho seguido do que parecia ser alguns soluços. Quando vi que alguém havia arrombado minha porta, eu me preparei para lutar mais uma vez me levantando, mas ao invés disso eu encontrei Bea e Dane que pareciam chocados. Eu olhei para baixo e vi que Oliver estava desmaiado.
Dane veio até a mim, ele ainda parecia meio tonto e embriagado, mas agora estava alarmado e se aproximou de mim com cuidado.
– Anastacia. Precisa parar de chorar, precisa se acalmar e falar o que houve. – ele disse com as mãos para cima em defensiva e então eu percebi que estava chorando desesperadamente e soluçando de medo e dor pelas minhas mãos, então ele me abraçou de lado.
Bea entrou no quarto e se ajoelhou checando a pulsação e as pupilas de Oliver.
– Ele está vivo. – ela disse num suspiro.
– Ele entrou aqui. – eu tentava começar – Ele disse que ia... – eu balancei a cabeça e Dane segurou minhas mãos na sua enquanto me abraçava com o outro braço – Eu precisava me defender. Eu não deixaria que ele...
Bea ficou em silencio pensando por alguns momentos e depois se levantou fechou a porta novamente.
– Eles vão expulsar você. – ela disse.
– Não. Ela não tem culpa! – disse Dane.
– Eles não querem saber se ela tem culpa ou não. Eles vão expulsa-la por ela ter batido em um Moroi. A não ser que você faça exatamente o que eu te disser.
Minutos depois eu havia me limpado e arrumado minha mochila, Dane parecia em alerta e pronto para seguir as instruções de Bea.
– Isso é loucura, eu não posso deixar que vocês façam isso por mim...
– Vai dar tudo certo. – Dane me afirmou.
– Eles não vão expulsar Dane, você vai passar um tempo fora e quando voltar todos vão achar que você fugiu com medo de Oliver, agora saiam, antes que as pessoas comecem a acordar. Se esse infeliz acordar, eu o faço apagar novamente.
Dane e eu saímos e andamos em direção a festa novamente, que ainda tinha algumas pessoas bêbadas voltando para seus quartos. O plano era passar pela saída próximo à cerca e em seguida eu correria até a estrada e pediria carona até a cidade mais próxima. Era domingo e ninguém notaria minha ausência até a manhã seguinte. Bea poderia dizer que eu apenas não tinha aparecido para o treino. O problema era como chegar até a saída próxima à cerca em que nós estávamos, mas Dane parecia ter alguma ideia em mente.
– Fique aqui e não fale com ninguém. – ele me disse enquanto ia até um Moroi de cabelos pretos que parecia ter a mesma idade e estava sentado sozinho.
Dane parecia estar conversando com esse Moroi e em seguida ele saiu em direção aos dois guardiões enquanto Dane voltou até onde eu estava e nós fomos na mesma direção, mas andando lentamente. O Moroi que estava bêbado e andava cambaleando, foi até os guardiões e começou a vomitar incansavelmente o que fez os guardiões começarem a se agitar e um deles começou a guia-lo em direção ao local de onde tínhamos vindo. Dane esperou que o guardião e o Moroi se afastasse para se aproximar do outro guardião que tinha ficado.
– Senhor, eu acabei de passar pela cerca do lado oeste, está acontecendo uma festa com consumo de bebidas alcoólicas e outros tipos de drogas ilícitas! Alguns amigos meus estão começando a brigar entre si, está um caos naquele lugar! – ele disse parecendo inocente e alarmado.
O guardião pareceu surpreso e perguntou em que direção isso estava acontecendo, o que fez Dane apontar e por um momento o guardião pensou que estava deixando uma saída sozinha, mas então Dane falou fazendo-o olhar em seus olhos.
– Vá. Você vai se sentir culpado se acontecer algo ruim. – ele disse, mas havia algo mais em sua voz e eu notei compulsão.
O guardião simplesmente saiu correndo na direção que Dane havia apontado e eu o encarei.
– Compulsão?
– Ele não vai se lembrar, eu espero. Agora vá. Mas por favor, volte. Odiaria pensar que essa é a ultima vez que eu estou te vendo.
Eu fiquei parada enquanto o observava. Ele levaria a culpa por mim, ele faria Oliver dizer que foi ele quem o havia espancando até a inconsciência, ele e Bea estavam se arriscando por mim.
– Eu sinto muito. Por ter feito um escândalo sobre Gwen e Oliver, eu sinto muito por ter feito isso com você.
– Não importa. Acho que se eu não tivesse visto o que eu vi, nem eu acreditaria. Agora vá, antes que alguém veja você com essa mochila e aqui no portão.
– Obrigada, diga a Bea que eu também a agradeço e mais uma vez... me desculpe. – eu disse e me virei, mas Dane agarrou meu braço e me puxou de volta me dando um beijo e me surpreendendo mais uma vez. Foi rápido, mas foi intenso e me fez esquecer por um momento tudo o que havia acontecido e o que eu estava prestes a fazer.
– Desculpas aceitas. – ele me disso com um sorriso de lado quando me soltou. – Agora vá, Ana... e não esqueça de voltar.
Eu ainda estava sem reação sobre o beijo, mas saí correndo o mais rápido que podia. Correr por tanto tempo e todos os dias tanto na esteira, quanto no ginásio e ao redor dele, me fez ser boa o suficiente para alcançar uma boa distancia, e depois de vinte minutos eu parei e me encostei em uma árvore, abrindo minha mochila e buscando pelo meu celular.
Vendo no GPS eu estava a cerca de três quilômetros da estrada. Minhas mãos ardiam e em alguns lugares ainda sangravam e eu ainda estava em pânico, mas parte de mim estava sentindo novamente a agradável sensação de adrenalina e liberdade. Eu tinha saído da escola, eu estava além dos portões e ninguém além de Dane e Bea sabiam disso.
Apesar de cansada, saber que eu estava fora do radar de todos me deixou em êxtase e eu me mantive andando enquanto tentava achar a estrada. É claro que havia o perigo de eu acabar encontrando um Strigoi na floresta, mas no momento essa era uma preocupação menor. Tudo o que eu precisava agora era não ser pega, mas sem os documentos falsos, eu não poderia me hospedar em lugar algum, alugar um carro ou nada do tipo. Tudo o que eu podia era vagar como eu costumava fazer antigamente e isso foi um grande balde de água fria em minha fuga. Na mochila eu tinha algumas peças de roupas, eletrônicos e o envelope com o dinheiro que Abe havia me dado, mas eu estava começando a ter fome.
Depois de cerca de cinco minutos eu comecei a sentir como se estivesse sendo seguida e fiquei em alerta. Minhas mãos estavam doloridas e eu não era boa o suficiente para lutar com um Strigoi, mas se era isso que estava por vir, eu teria que fazer o meu melhor mesmo que fosse em vão.
Eu parei e esperei que o que quer que estivesse atrás de mim me atacasse, mas só conseguia ouvir passos como se estivessem ao meu redor.
– Quem está aí?
– Você é uma Tainted? – disse uma voz masculina, vinda de algum lugar ao redor.
– O quê? – eu disse, tentando saber de que lugar exatamente vinha a voz.
E então eu ouvi alguns barulhos estranhos e uma luz começar a aparecer na minha direita. Um dhampir alto de cabelos cor de areia tinha acabado de acender uma tocha e agora caminhava na minha direção. Eu ainda estava assustada, então me mantive de punhos fechados.
– Uma guardiã, uma prometida. – ele me disse e depois de chegar próximo eu vi que seus olhos eram azuis e que ele tinha sobrancelhas grossas. Ele era jovem, mas sua altura o fazia parecer mais adulto e ele usava roupas velhas que estavam costuradas de forma desigual.
– Não. Eu... eu fugi. – eu disse.
– Você está sozinha? – ele me perguntou e pôs a tocha para frente, como se procurasse por alguém.
Ele não parecia ameaçador, mas eu não sabia quem ele era, então resolvi ficar na defensiva.
– Sim, mas estou à procura da estrada. Existe alguém me esperando para me levar até a cidade lá.
– Você pode ser pega por um Lost se continuar andando sozinha. Venha comigo e você pode ir embora amanhã. Quando o sol nascer.
Wow, um estranho me convidando para ir para um lugar.
– Não obrigada. – eu disse e comecei a olhar no celular para onde eu deveria continuar indo.
– Você tem um telefone. – o dhampir me olhou como se o celular fosse um milagre.
– Yup. E ele está me dizendo que eu devo continuar naquela direção. Então... Adeus. – eu disse me virando e deixando o dhampir para trás.
Ele se manteve me seguindo com a tocha na mão até que eu ouvi mais alguém se aproximar.
– Josh, cadê você? – disse uma voz feminina e logo apareceu uma dhampir do meu tamanho, ruiva e de olhos azuis da mesma cor que o outro dhampir. Ela me encarou e de repente parecia pronta para atacar.
– Ela não é uma Tainted, Angeline. – o dhampir disse, mas isso não fez com que Angeline se acalmasse.
– O que ela faz aqui? – ela perguntou a ele.
– Ela... está tentando ir embora. Agora boa noite. – eu disse e voltei a caminhar enquanto olhava o celular.
– Ela tem um telefone – o dhampir comentou com Angeline com um sorriso apatetado e Angeline pareceu um tanto surpresa dessa vez.
– O que faz aqui? Você é um deles, não é? – ela me perguntou diretamente.
Eu suspirei e parei de caminhar.
– Olha, eu não sei que são “eles”. Eu não sei o que é Tainted e também não sei o que é Lost. Eu tenho um celular e ele tem GPS e ele está me dizendo que eu devo ir naquela direção. – eu disse apontando. – Eu estou cansada e com fome e quanto mais rápido eu conseguir chegar na estrada, melhor eu vou me sentir.
– E como pretende conseguir carona para ir até onde quer ir? – perguntou Angeline.
– Pedindo. – eu disse, mas precisava admitir que essa parte me incomodava um pouco. Pedir carona a estranhos era uma das coisas que eu estava com receio.
– Se você não está prometida, então o que acha de passar a noite conosco? Você vai comer, vai dormir e amanhã Joshua pode te levar a cidade se você quiser ir. Em troca você vai nos ensinar a mexer em um desses. – ela disse apontando para meu celular.
Eu encarei os dois e eles estavam me encarando ansiosamente de volta. Por um momento eu pensei ter entrado no mundo de João e Maria, mas isso era ainda mais estranho. Os dois pareciam viver naquela floresta e minha mente estava cheia de perguntas no qual uma delas era como exatamente o dhampir sabia dirigir, mas não sabia mexer em um celular.
– Okay. – eu disse sem pensar no que realmente estava topando.
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