Enquanto eu voltava para o meu quarto, pisando firme e respirando fundo, tentando vencer a raiva e a escuridão, eu pensei sobre o que havia acabado de acontecer. Não sabia quem exatamente eu havia xingado e se fosse alguém importante ou da minha escola nova, eu deveria estar muito ferrada agora. Okay, esse definitivamente não foi meu momento mais brilhante por aqui. Depois de um tempo, eu ouvi alguém caminhar atrás de mim e já estava me preparando para mais um round, quando virei e vi Jill.

– Hey, calma aí. – ela disse ao ver minha expressão.

– Hey, Jill – eu disse e suspirei – sinto muito pelo que você assistiu. Alias, quem era o Moroi ao lado de Lissa?

– Ah, era Christian Ozera. O namorado dela, eles estão juntos há muito tempo, eu acho que falei dele para você – ela disse e eu percebi que ela estava mais bem vestida do que normalmente se mantinha.

Ela estava com um vestido azul escuro com alças finas, que ia até o joelho e um casaco preto que parecia de marca – não que eu soubesse muito sobre, mas a maioria das roupas dela pareciam ter sido feitas por encomenda por algum estilista famoso. O tipo de roupas que você encontra em revistas para adolescentes.

– É, eu lembro de você ter falado sobre algum Christian – eu disse.

– Hey, ele também é legal. Na maior parte do tempo ele é na dele e quando não, ele tem um humor negro e estranho, mas... ele é legal. Quer dizer, a Lissa ama ele de verdade, então...

– Jill – eu parei e a encarei.

– O quê? – ela me encarou.

– Você precisa mesmo defender cada pessoa desse lugar? – eu disse fazendo uma careta.

Ela pausou e continuou a andar.

– Eu não defendo todo mundo. – ela disse na defensiva – Eu defendo meus amigos, pessoas que eu gosto. – ela deu de ombros.

– Para mim parece que você está sempre tentando ver o lado bom de tudo, mesmo das coisas que não tem um lado bom – eu disse cruzando os braços.

– Não faz mal nenhum olhar as coisas por um lado positivo, Ana.

Eu fiquei calada. Não sabia como argumentar ou se eu queria.

– Quer ir à festa dos Badica? Todos da escola vão estar lá, vai começar com um jantar chato e depois vai ser mais liberal. Você pode ir e conhecer algumas das pessoas lá da escola, o que acha? Convenci Eddie a ir, apesar de que ele já iria de qualquer forma, Adrian também vai, porque afinal ele não falta nenhuma festa ultimamente e eu queria que você fosse.

Eu considerei por um momento e resolvi ser sincera mais uma vez.

– Eu nunca fui a uma festa assim.

Ao olhar para Jill ela parecia querer começar um interrogatório sobre “as festas na Rússia”, mas depois ela considerou meu estado e resolveu optar por ser a Jill de sempre:

– Ótimo, essa vai ser sua primeira de muitas – ela disse sorrindo.

Eu acenei sem saber se eu iria gostar de frequentar festas assim até lembrar:

– Eu... eu não sei se eu tenho uma roupa apropriada.

Ela parecia inabalável sobre minha ida.

– E é por isso que vamos agora até o meu quarto, apesar de você ter o corpo bem melhor que o meu, tenho certeza que algo vai caber em você.

Depois de provar muitos vestidos que não passavam em minhas coxas ou que não fechavam no meu busto, conseguimos fazer com que eu entrasse uma bata branca com renda rosa que deveria ficar frouxa em Jill e ela provavelmente usava para ir tomar ir a piscina algo assim, mas ela mesma o modificou pondo um cinto em minha cintura e acessórios que ela possuía. O que era uma bata para ela, se tornou um vestido curto e de mangas médias para mim. Jill parecia estar em êxtase por eu ter deixado que ela me produzisse e ela não parou só no vestido e nos acessórios: eu pouco tempo ela também havia posto cachos em meu cabelo e me maquiado apesar da minha relutância.

Eu olhei para o meu uniforme que eu estava usando e para o vestido produzido por Jill sem saber o que pensar.

– Anda, tira essa cara. Você está perfeita e nós vamos nos divertir hoje, okay? É o ultimo fim de semana antes de entrarmos na St. Vlad! Precisa ser épico. – ela disse enquanto me levava até o espelho do seu quarto e ficava ao meu lado enquanto eu me via.

– Jill, não sabia que você era especializada em... fazer milagres – eu ri enquanto me olhava no espelho. Se anteriormente eu estava dizendo que Jill se vestia como uma modelo de revistas adolescentes, eu tinha que admitir que ela tinha conseguido me fazer parecer uma. Exceto pela altura, é claro.

– Haha, meu elemento é água e você é linda. Só precisa aprender a se vestir melhor. – ela disse, como se fosse obvio – Mas não que suas roupas sejam feias, só para deixar claro.

– Acho que você já deixou bem claro o que você acha das minhas roupas, obrigada.

Ela me deixou no espelho por um tempo e voltou com uma caixa.

– E agora os sapatos perfeitos. – ela disse quase dando pulinhos.

Eu abri a caixa e nela tinha um par de sapatos de salto alto.

– Jill... – eu comecei.

– Sem discussões.

Eu suspirei e depois do que parecia uma eternidade, Jill terminou de retocar sua maquiagem e eu agora conseguia andar sem cair ou ter a sensação de que cairia. Não precisei admitir para Jill perceber que eu nunca tinha usado salto, mas ela foi paciente em me dizer como andar e eu aprendi rápido.

Nos encontramos com Eddie e seguimos até a casa dos Badica, que eu não fazia ideia de quem eram, mas pelo o que eu sabia eram de família real. Quando chegamos, a casa era uma como uma das muitas mansões que havia na Corte e o jantar já tinha acabado. A festa começava na parte de trás da residência, num ambiente iluminado como uma boate. Jill me apresentou como Hathaway e não como Mazur e depois de um tempo eu entendi. Abe por ter seus negócios obscuros, era tão bem visto aqui como na Rússia. Ser apresentada como filha de uma guardiã respeitada devia ser melhor. Eu tentei não ficar incomodada com isso e fiquei quieta, apenas retribuindo sorrisos, abraçando algumas pessoas e estendendo a mão para outras. Jill parecia ser o centro das atenções e maioria ia até ela para falar sobre qualquer coisa. Alguns me usaram como desculpa, dizendo que queriam me conhecer e se apresentaram, mas logo focaram em Jill e em perguntar sobre ela. Quando isso acontecia eu olhava para Eddie que seguia atrás de nós em sua pose de guardião e me lançava olhares complacentes, ele também devia passar pela mesma situação.

Depois de assistir ela falar com praticamente todos da festa, entendi a base de onde eu estava: Haviam Morois das doze famílias reais que sempre pareciam metidos e esnobes, Morois comuns que tentavam se enturmar com os reais e dhampirs da minha idade ou um pouco mais velhos que estavam ali pela diversão. Por um momento eu pensei em me juntar a eles, mas por não conhece-los eu me mantive na minha.

– Você quer que eu te leve até eles? – disse Eddie.

Eu balancei a cabeça, me sentindo intimidada.

– Tudo bem, você que sabe – ele disse enquanto voltava a pose de guardião de sempre.

Uma vez na festa e com Jill distraída falando com as pessoas, eu me aproximei da mesa de aperitivos e comecei a beliscar alguns, esperando que ninguém percebesse ou se importasse. Os meninos estavam constantemente me oferecendo bebidas e cigarros, mas eu só balançava a cabeça em negação. Nunca tinha provado nada daquilo, mas não seria da mão de estranhos que eu tentaria. Depois que tive vontade de ir ao banheiro, caminhei até Jill para perguntar aonde era e não consegui acha-la ou Eddie, então resolvi procurar por portas ao longo da casa. Algumas portas estavam trancadas, mas ao encontrar uma aberta eu encontrei algo que eu realmente não queria ver.

O quarto estava escuro, mas algumas coisas você obviamente consegue perceber pela sombra. O casal percebeu que eu abri a porta e eu ouvi um gritinho estridente e a mulher que na verdade era apenas alguém mais alta que eu, veio até a porta e eu pude ver que ela tinha no máximo a minha idade. Ela tinha o cabelo loiro que iam até a cintura e olhos castanhos que me encaravam com um ódio mortal e segurando a parte de cima de um vestido verde claro, ela veio até a mim e segurou a porta.

– Aprenda a bater, piranha! – ela disse, fechando a porta na minha cara.

Piranha? Sério? Eu dei um chute na porta sem pensar e saí dali, até dar de cara com Adrian novamente.

– Hey, baby Hathaway.

Eu o encarei.

– É Anastacia. – eu disse numa careta – Sabe onde fica o banheiro?

Ele apontou e depois que eu me virei para ir até lá, vi que ele estava me seguindo e parei me virando para ele.

– Obrigada por ter me mostrado a direção. – eu disse esperando que ele fosse embora.

Ele riu e eu percebi que ele já estava bêbado.

– Só estava tentando ser cavalheiro.

– Pode ser cavalheiro indo achar Jill e dizendo que depois daqui eu provavelmente vou embora.

– Não está curtindo a festa?

– Não estou curtindo as pessoas. – eu disse, olhando ao redor.

– Mas você não conhece ninguém daqui. – ele disse, abrindo os braços e mostrando o lugar dramaticamente.

Eu revirei os olhos.

– Quer beber alguma coisa? – ele me perguntou.

Eu o encarei. Eu disse que não aceitaria anda de estranhos, mas... Jill gostava dele. Jill confiava nele e eu já havia recebido sermões demais por ser fechada.

– Eu vou ao banheiro, depois te encontro no balcão – eu afirmei.

– O que vai querer?

– Qualquer coisa leve. Eu não posso gastar meu ultimo final de liberdade condicional de ressaca. – eu brinquei me virando e indo até o banheiro.

Ao chegar aonde Adrian me indicou, um Moroi alto estava encostado na porta. Ele era loiro, de olhos azuis, tinha um sorriso confiante e como todos os outros, estava visivelmente bêbado.

– Com licença? – eu disse.

– Precisa dizer a senha, ruiva. – ele me respondeu, me analisando da cabeça aos pés.

– Saí da frente? – eu disse cruzando os braços.

Ele riu e tentou se aproximar, mas eu dei dois passos para trás.

– O seu nome. A senha é o seu nome.

– Por que? – eu perguntei sem entender.

– Porque eu não sei e eu preciso saber. – ele me disse e eu encarei por um momento sem reação.

– Se eu disser, você vai me deixar passar?

– Sim – ele disse e parecia falar serio.

– Anastacia, meu nome é Anastacia Hathaway.

Ele deu um passo para o lado dando passagem de maneira teatral. Eu sorri sem me conter e entrei logo acendendo a luz e depois de checar que estava só tranquei a porta.

Depois que encontrei Adrian conversando com uma garota no balcão, me aproximei sentando ao lado dele.

– Vocês daqui são estranhos. – eu disse para Adrian.

Ele falou algo no ouvido da Moroi de cabelos curtos e preto com uma mecha rosa na franja e ela saiu, sorrindo de lado. Eu virei o rosto tentando não rir.

– Você vai se acostumar. – ele me disse, pondo um copo pequeno na minha frente.

– Dificilmente. – eu disse e analisei o copo – Licor de menta?

– É algo leve – ele disse.

– Eu imagino o que pode ser forte para você.

Ele riu e virou o que tinha em seu copo pedindo outro ao barman. Eu comecei a tomar o meu devagar.

– Você encontrou Jill? – eu disse lembrando.

– Lá em cima – ele apontou para a escada, que continha algumas pessoas e uma espécie de camarote criado para os anfitriões e algumas outras pessoas, onde Jill estava sentada e Eddie estava encostado na parede, observando. Eddie notou que eu estava olhando e estreitou os olhos enxergando meu copo com uma cara desconfiada. Eu sorri e o ofereci, enquanto ele ria e balançava a cabeça. De longe o enxerguei dizendo “cuidado”.

A bebida era doce demais e eu gostei. Pedindo outra logo após terminar a dose que eu bebia. Eu não me sentia diferente, mas minha mente começava a ficar mais leve e a escuridão que para mim sempre estava lá, assim como a sensação de ansiedade estavam sumindo.

Finalmente eu ouvi uma musica que conhecia enquanto eu começava a terceira dose e eu pedi licença a Adrian que parecia continuar paquerando com todas as meninas ali presentes e disse que ia até Jill. Enquanto andava, eu me movia entre as pessoas dançando um pouco e cantando baixo, as pessoas já estavam tão bêbadas em sua maioria que provavelmente não percebiam que eu estava dançando, ou pelo menos eu torcia por isso.

Eu já estava chegando até a escada, quando senti duas mãos segurando minha cintura e chegando próximo a mim. Eu me virei e por segurar o copo com uma mão, tirei apenas uma das mãos que estavam e mim, encarando novamente o Moroi loiro que estava na porta do banheiro.

– Você está com o Ivashkov? – ele me perguntou se aproximando de mim, o que me fez ir para trás e entrar embaixo da escada que estava sem iluminação.

Demorei alguns segundos para lembrar que esse era o sobrenome de Adrian.

– Não. – eu disse tentando não fazer uma careta.

– Bom saber – ele disse, sorrindo e tirando a mão do meu quadril para por as duas em meu rosto e me beijar.

Eu tentei sair, mas eu estava de costas para a parede e nós estávamos embaixo da escada. Ser beijada dessa forma parecia errado, mas uma parte de mim – talvez a parte que já estava bêbada – estava gostando. Eu sentia todo o meu corpo reagir ao mesmo tempo, mesmo sem saber o que eu estava fazendo. Ele havia bebido algo de morango e meu licor de menta misturado a isso fazia todo esse momento ficar perfeito. Mas entender que mal nos conhecíamos e que ele estava fazendo isso porque estava bêbado, me fez voltar à razão e logo eu o afastei mordendo seu lábio com força.

– Hey, isso tem mais graça se for ao contrário – ele sorriu e pôs a mão no lábio que eu havia ferido.

E aí eu entendi o que ele quis dizer e o soquei com a força que eu podia, derrubando meu copo.

– Nem nos seus sonhos, seu imbecil.

Ele gemia segurando o rosto e eu saí dali o mais rápido que pude, subindo as escadas quase tropeçando. Essa festa estava definitivamente acabada para mim.

Encontrei Jill e a puxei pela mão, ela se levantou de onde estava sentada e viu como eu estava.

– Ana, o que houve? – ela disse e Eddie já estava atrás de nós duas.

– Eu preciso ir para casa, acho que fiz besteira – eu disse e olhei para baixo, do lugar de onde estava, vi o Moroi loiro sair, limpando o sangue do rosto com uma mão e me procurar ao redor.

Jill seguiu meu olhar.

– Ah, não! Ana, você bateu em Dane Zeklos? – ela me disse, parecendo chocada.

– Ele me beijou! – eu disse em defesa.

Eddie ouvindo tudo falou para mim.

– Contra sua vontade? Quer que eu vá até ele? Eu posso conversar com ele e faze-lo pedir desculpas.

Eu balancei a cabeça, Dane agora estava ao lado de um amigo. E os dois estavam olhando para mim.

– Não, eu só quero ir para casa.

Jill e Eddie se propuseram a me levar de volta ao hotel e antes passamos no quarto de Jill para pegar as coisas que eu havia deixado lá. Depois que chegamos a entrada do hotel onde eu estava hospedada, eu me despedi e insisti para que eles voltassem para a festa.

– Alguém precisa impedir que Adrian fique deitado no gramado de outras pessoas novamente – foi meu argumento final para fazer com que eles voltassem e depois que eles se foram eu entrei no elevador, tirando os sapatos de salto.

Eu me encostei na parede do elevador e ainda me sentia um pouco tonta. Fechei meus olhos e a sensação do beijo veio novamente. Ele era bonito, eu admiti para mim mesma, mas não prestava e eu não estava atrás de nada assim. Me relacionar com um Moroi era tudo o que eu não precisava e alguém como ele parecia atrair problemas, o que eu já tinha aos montes. Pensar que esse foi meu primeiro beijo depois do que Rolan fazia comigo me fez ficar triste e eu apertei o botão para o ultimo andar. Quando as portas abriram, eu subi as escadas e – como já tinha feito antes – consegui destravar a porta que dava para o terraço. O vento me surpreendeu e o ar frio fez com que eu me sentisse um pouco melhor. Eu caminhei até o pequeno muro que tinha uma espécie de bancada e me sentei ali, com as pernas para o lado de dentro por medo de ser vista por algum guardião ou segurança do hotel.

O vento lançava meus cabelos no rosto e me fazia um barulho estranho em meus ouvidos, enquanto eu olhava para baixo e para ao redor da Corte. O prédio principal onde Lissa vivia ainda estava com as luzes acessas, mas eu na verdade nunca o tinha visto com as luzes apagadas, exceto pela manhã. Minha visão era um tanto embaçada e eu me sentia meio tonta ainda pelo álcool que eu tinha bebido, mas eu me mantive sentada e me equilibrando com as duas mãos. Eu fiquei ali até preencher minha mente com coisas melhores do que pensar em qualquer Moroi idiota e então eu desci e fui de volta até o elevador, me encostando novamente na parede e me sentindo sonolenta.

Quando o elevador parou me dando um pequeno susto, eu saí me sentindo estupida por tudo o que fiz e enquanto abria a porta, vi Abe abrir a dele no fim do corredor. Ele estava me observando pelo olho magico e provavelmente tinha posto alguém na recepção para avisar quando eu chegasse.

– Devo me preocupar? – ele disse, levantando uma sobrancelha.

– Não. Foi só uma festa Abe. – eu disse enquanto entrava no quarto.