Notas iniciais
Anastacia

Eu não fazia ideia de como ser a anfitriã de alguma coisa. Nos meus aniversários só estavam presentes meus pais e eu nunca recebi amigas ou qualquer outras visitas que não fossem Yeva ou alguém da casa dos Belikov. Então eu estava um pouco nervosa. Enquanto troquei mensagens com Rose pela manhã, eu estava próxima a minha mãe para perguntar se estava tudo bem para ela. É claro que estava. Qualquer coisa que incluísse a mim e atividades sociais, ela estava disposta a topar e Rose foi a primeira amiga com que ela já me viu falar. Ela sabia sobre Sidney, mas nunca havia a conhecido, então não é como se ela contasse na mente de minha mãe.

Eu passei o dia ajudando ela na cozinha e arrumando a casa e quando a noite chegou eles disseram que sairiam para jantar na cidade logo após meus convidados chegarem, para me dar privacidade (ideia da minha mãe, é claro). E então quando eu fui me vestir resolvi finalmente usar o colar que havia ganhado de aniversário, com o pingente que estava comigo quando Oksana me achou. Eu estava usando jeans, uma blusa preta, tênis e esse pingente e resolvi fazer um rabo de cavalo por pensar que talvez eu precisasse ajeitar algo na cozinha.

Quando ouvi um carro chegar próximo à entrada, eu dei uma ultima olhada na casa, me sentindo ansiosa e me odiando por isso. “Não é como se fosse algo extraordinário” eu mantive dizendo a mim mesma.

Ouvi meu pai atendendo a porta e fiquei curiosa quando o ouvi dizer:

– Rose e... bem, você eu não esperava ver aqui.

Eu saí do quarto ao mesmo tempo em que minha mãe saiu, ainda pondo um brinco e ao chegar à sala tive a surpresa de ver Rose, uma mulher baixinha, ruiva e... Abe.

Eu mentalmente tentei entender alguma conexão ou lembrar se Abe havia me passado alguma mensagem que eu não estava lembrando, não parecia haver nenhuma.

– Entrem – meu pai disse quebrando o silencio e o constrangimento, apesar de se manter desconfiado enquanto olhava para Abe que dessa vez estava em um terno azul bebê, com abotoaduras e gravatas azul marinho.

– Hey, Rose. Achei que Dimitri também viria – disse quando notei que ele não estava.

– Ele está vindo – ela me disse com uma expressão vazia.

Rose parecia também estranha e inquieta e os três convidados sentaram-se no sofá apenas observando – me observando.

Okay, eu não fazia ideia do que acontecia em jantares casuais, mas eu tinha certeza que não deveria ser assim.

– E então... – eu disse – alguém aqui gosta de frango à Kiev? – eu disse com um sorriso amarelo e tentando quebrar a tensão.

– Ana, aonde você conseguiu esse pingente? – perguntou Rose.

Eu olhei para o meu pescoço e toquei o pingente.

– Isso? Ah, é... bem, é uma longa historia – eu não queria começar a contar sobre minha vida na frente do Abe ou da mulher que estava acompanhando eles.

E então eu olhei para Rose e vi o mesmo pingente em seu pescoço.

– Rose, pode me explicar o que está acontecendo? – eu disse, me sentindo um pouco sufocada.

– Ah, contar tudo é exatamente o que eu quero, mas primeiro eu vou deixar os meus pais falarem com os seus , okay? Se importa de irmos para o seu quarto? Eu posso falar com você e explicar algumas coisas lá – ela disse se levantando e me puxando.

Eu olhei pedindo ajuda para minha mãe ou meu pai, mas eles pareciam tão atônitos quanto eu e resolvi confiar em Rose mais uma vez e a levei para o meu quarto. Depois que fechei a porta, Rose ainda parecia nervosa, como se a espera de algo.

– Ainda quer saber aonde arranjei esse pingente? – eu perguntei.

– Não precisa. Eu acho que sei quem deu isso a você.

Não estudei o suficiente pra saber se existia uma cota de impactos que uma pessoa poderia ter durante vida, mas depois do que Rose me contou, eu acreditava que estava cada vez mais próxima de um limite da minha.

Ela realmente tentou amaciar as coisas o máximo possível, tentando me fazer enxergar pontos bons nisso tudo e eu não sei o porque ela realmente parecia ver esses pontos bons. No meu quarto, as portas do meu guarda roupa tinham espelhos e enquanto Rose me contava eu passei a observar a nós duas e me senti estupida por não ter percebido nossas semelhanças. Mesma altura, mesma cor dos olhos, mesmo tipo físico (e então eu lembrei que minhas roupas couberam perfeitamente nela quando a ajudei em Novosibirsk), além de outras coisas que só agora se tornaram obvias.

– Ana – ela me chamou, me fazendo voltar atenção para ela – Eu sei que você não é muito de falar e provavelmente puxou isso da nossa mãe, mas... sabe, essa é a hora em que você fala alguma coisa.

É, essa seria a hora perfeita para que eu falasse algo. Se eu soubesse o que falar.

– Como... quando você descobriu?

– Ah, a conexão mesmo eu só fiz ontem à noite. Inclusive eu realmente me senti muito burra depois de ter demorado isso tudo para entender. Quer dizer, você tinha me contado isso faz tempo e depois eu descobri que eu tinha uma irmã perdida e bem, nós somos bem parecidas. Aí eu liguei para o Abe e pedi a ele para trazer a mãe até aqui e ele arranjou um jato para isso, mas cara... ter que esconder isso por quase 24hrs foi uma droga.

Eu sentia como se estivesse tendo uma experiência extracorpórea.

– Rose, se importa em me dar um tempo sozinha?

Ela pareceu surpresa, mas mesmo assim começou a ir em direção a porta.

– Okay, eu vou lá fora olhar como está a situação. Quando se sentir melhor, apareça e venha conhecer seus pais biológicos.

E então eu estava sozinha no quarto e assim que ouvi o silencio eu comecei a pegar minha mochila e arrumar minhas coisas. Não sabia para onde ir ou como eu chegaria, mas era tudo no que eu pensava em fazer agora.

“Venha conhecer seus pais biológicos” essa frase ficou em minha mente enquanto eu arrumava minhas coisas. Abe Mazur e aquela mulher ali na sala eram meus pais biológicos. Rose era minha irmã. Eu não podia acreditar nisso. Eu não podia lidar com isso.

Já havia fugido algumas outras vezes pela janela do meu quarto e sabia o procedimento que precisava fazer, então depois de fechar minha mochila e pegar o envelope com o dinheiro que Abe havia me dado, eu abri a janela sem fazer barulho e passei uma perna pela janela dando uma ultima olhada no meu quarto antes de passar a outra e começar a correr com todas as minhas forças.

Quando cheguei à cidade me sentia ofegante e com a sensação de adrenalina que eu já conhecia e que era tão agradável para mim. O sangue pulsava em meus ouvidos, meu coração batendo rapidamente, meus pulmões trabalhando dobrado e ao sentir tudo isso eu consegui sorrir apesar de tudo, mas mais uma vez eu me vi sem saber o que fazer. Se eu roubasse um carro e fosse pega, pediriam meus documentos e eu teria que chamar Abe novamente. Em hipótese nenhuma eu pediria carona a algum estranho. Nenhum taxi dirigiria até a estação de trem há essa hora. Então eu estava presa à cidade e logo a sensação de adrenalina sumiu tão rápido quanto veio, substituída pelo desespero, enquanto eu caminhava pelas ruas até parar de frente a confeitaria que eu costumava ir com minha mãe aos domingos. Olhar para nossa mesa próxima a janela me fez imaginar mais momentos mãe e filha que eu tive com ela e eu senti um aperto no coração e então resolvi que entraria e ficaria lá até que eles resolvessem fechar.

Escolhi uma mesa qualquer, me sentei e pus minha mochila ao meu lado, enquanto pedia alguns doces e sorvete à garçonete, uma mulher baixinha e com cachos crespos e loiros. Depois que ela se foi, eu me mantive pensando em todo o furacão que estava acontecendo e não pude deixar de me questionar sobre o que aconteceria agora. Ao que parecia, Janine trabalhava na Corte, junto com Rose e Dimitri e o único motivo de Abe estar aqui na Rússia era que ele nunca havia perdido as esperanças de encontrar sua filha perdida – de me encontrar. Ia demorar um bom tempo até que eu me acostumasse que minha mãe era uma guardiã e meu pai um mafioso.

Eu chequei meu celular e já tinha algumas chamadas perdidas além de mensagens dos meus pais e de Rose, eu não me atrevi a ler nenhuma e esperei até que meu pedido chegou e eu comecei a tomar o sorvete, desejando que a sensação de brain freeze que eu estava tendo também congelasse o tempo ao meu redor.

– Sabia que você estaria aqui – disse uma voz que me deu um susto enorme.

Era Yeva que sabe Deus como havia descoberto que eu estava aqui e havia conseguido entrar sem que eu percebesse. Ela se sentou a minha frente e me encarou com seus olhos e fazia muito tempo desde que eu não a via tão seria.

– Você chegou a ir lá em casa? Chegou a conversar com meus pais? – eu perguntei enquanto me sentia diminuindo sob o seu olhar. Eu era novamente a criança de dez anos que adorava sumir e deixar os pais loucos a sua procura.

– Estão todos atrás de você. Suas mães acham que é culpa delas, seus pais estão vasculhando a cidade e Dimka está com aquela sua irmã – ela me disse enquanto beliscava um dos pratos que pedi.

Eu me senti mal por estar causando tanta preocupação em todos, mas eu realmente não queria ser achada no momento. Então continuei comendo em silencio até ter coragem de perguntar.

– Em suas previsões, existe algo escrito sobre isso?

Droga, eu deveria estar muito desesperada para perguntar algo assim.

– Agora acredita em minhas previsões? – ela disse estreitando os olhos enrugados – Você e sua irmã são exatamente iguais. E eu lhe disse sobre o seu futuro há muito tempo atrás. Eu lhe avisei que logo eu teria que lhe mandar partir também.

Wow! A memoria daquele dia em que nós estávamos no mercado e ela realmente havia me dito isso, veio como um tapa no meu rosto.

– Então é isso? Eu vou embora? Eu abandono meus pais e vou viver na América? – eu comecei a perguntar, me sentindo desesperada – Eles vão me por numa escola lá, Yeva. Eu vou ser obrigada a aprender a lutar e me sacrificar pelos Moroi. E se eu não me adaptar? E se eu quiser ficar aqui? Se eu quiser voltar para casa?

Achei que ela não me responderia, pois o silencio se instalou e eu só podia ouvir as conversas das outras pessoas, maioria já indo embora. Até a voz de Yeva me puxar para o assunto novamente.

– Todo esse tempo você sempre foi embora. Você sempre fugia e sempre quis sair daqui. Agora tem essa oportunidade. Saia. Vá conhecer o mundo lá fora. Tenho certeza que se quiser voltar, seus pais não vão te impedir. Se ficar aqui, não vai passar mais que uma semana e vai fugir de novo. Lá Oksana vai sentir sua falta, mas vai saber que você está segura. E você sabia que uma hora ou outra você ia ter que entrar para uma escola de verdade para conseguir seus diplomas. Estude, mas não faça nada que vá contra o que você acha ser certo. Mark e Oksana e eu criamos uma menina forte e não alguém influenciável e pronta para obedecer sem questionar. Mostre a eles que nem sempre a tradição está correta. Talvez um dia você volte e se voltar, Anastacia, quero que me diga se eu estava certa ou errada.

Eu não percebi quando comecei a chorar, mas quando Yeva parou de falar e continuou me encarando, eu limpei meu rosto nas costas das mãos enquanto fungava.

– Obrigada. Por tudo. – eu disse e voltei a comer.

Enquanto comia, enviei uma mensagem com minha localização para Abe e quando terminamos, nós éramos as ultimas ali dentro. Então depois que eu paguei a conta e peguei minha mochila, esperei Yeva se levantar e da janela vi o que me esperava. Meus pais biológicos estavam de um lado, meus pais adotivos de outro e Rose e Dimitri no meio. Dimitri parecendo ser tudo o que estava segurando Rose para que ela não viesse falar comigo e ela não parecia nenhum pingo amigável agora, mas bem... não se pode ter uma irmã sem ter algumas brigas no meio.

Abri a porta da confeitaria esperando Yeva passar primeiro e em seguida fui até meus pais adotivos.

– Mãe, acho que vou precisar viajar mais uma vez – eu disse e a abracei.