O dia seguinte, amanheceu chuvoso. As nuvens negras e pesadas estavam prontas para que caísse um dilúvio. Os raios do sol não chegavam às janelas do instituto e por isso, Julieta não acordou como de costume.

Deveria ser pelo cansaço ou talvez fosse apenas por estar mais escuro do que o normal. Enfim, duas batidas na porta atrapalharam seu sono.

Revirando-se na cama macia e grande demais para ela, ignorou quem quer que fosse aquela hora — por mais que não soubesse que horas eram. Julie gostaria que fosse um pouco mais de meio dia do ano que vem. Talvez a esse ponto, as coisas estivessem se resolvido.

Algumas batidas insistentes mais tarde, a garota resolveu jogar o edredom que a mantinha aquecida do frio e caminhar até a porta cambaleando.

Seus dedos finos envolveram a maçaneta redonda e esculpida em ouro, e a girou. Gabriel Crossland encontrava-se do outro lado, com o uniforme preto de luta, o cabelo loiro bagunçado e os olhos azuis meio cansados, mas alerta para qualquer coisa que acontecesse.

— Ah... Oi. — Julieta disse com a voz preguiçosa e apoiou-se na porta, mudando seu peso para a perna direita.

— Oi. Te acordei? — O caçador de sombras perguntou e Julie poderia até ter rido, mas estava cansada demais.

— Não eu já estava acordada... Enfim o que foi? — Ela perguntou bocejando e passando os dedos pelos fios do cabelo.

Então se tocou. Sua aparência deveria estar horrível. Os nós nos cachos negros não se separavam quando seus deados deslizavam por eles, a cara estava amassada de ter dormido demais e o frio que entrava pelo corredor a deixava arrepiada nas pernas e nos braços nus. A camisola de Melissa era um pouco curta demais. E se tinha uma coisa que Julieta não gostava em si, era ter os seios um pouco grande para sua altura.

— Alguém acordou estressada? — Gabriel perguntou com um humor maroto. Mas o que a irritou foi o sorriso no canto dos lábios dele.

— Eu não estou... — Julieta começou bufando, e parou assim que percebeu o olhar dele nela. Ela abraçou o próprio corpo e abaixou a cabeça. — Estressada. — Murmurou.

— Se você diz. — Ele retrucou e desviou os olhos. — Se arruma. Charlotte está esperando.

Gabriel deu meia volta e começou a andar na direção oposta ao quarto da garota.

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Julieta se trocou com uma calça preta justa, uma blusa azul escura de alça e colada — também de Melissa para variar. Ela realmente precisava ir pegar algumas roupas em sua casa. Se ainda tivesse sobrado alguma coisa. — e as botas de salto fino, desta vez mais baixo. Julie fizera questão de trocar as botas altas por essas baixas.

Passou a escova no cabelo rapidamente, deixando a cachoeira de cacho cair pelos ombros até a cintura, escovou os dentes e saiu.

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— Uhn! — Melissa exclamou após cair de costas no tatame da sala de treinamento.

O chicote de prata estalou no chão mais uma vez e soltou o calcanhar da caçadora de sombras e voltou a se enrolar no pulso de Charlotte.

Julieta teve a impressão de ter visto ele se mover sozinho. Rastejando pelo chão e direto para o braço da vampira. Como um cobra recuando. E não estava enganada. O bracelete era uma cobra que por algum motivo — quando precisasse usá-lo — virava uma serpente elétrica e perigosa.

— Me lembre de colocar água benta no seu sangue, quando você for tomá-lo! — Melissa reclamou enquanto se levantava com as costas doloridas.

— Pode deixar, querida. — Lotte respondeu e deu um sorriso convencido. — Quem é o próximo?

James e Gabriel recuaram na mesma hora. Não havia mais para onde fugir, já haviam encostado na mesa atrás deles e ambos agradeceram por Julieta ter chegado naquele instante.

— O que eu perdi? — A garota perguntou meio confusa.

— A melhor parte. — Gabriel respondeu. — Mas não se preocupe. Mel vai cair de novo várias vezes. Você vai ter a chance de ver. — O garoto completou em um tom sarcástico.

— Já que está tão confiante assim... — Melissa se aproximou e cruzou os braços. — Por que você não vai agora?

Gabriel forçou um sorriso para a irmã. Logo, o mesmo se tornou cheio de diversão.

— Olhe e aprenda, irmãzinha! — O caçador de sombras falou e se encaminhou para o centro do tatame, onde Charlotte ainda se encontrava.

Julieta se encostou na mesa, no mesmo lugar onde Gabriel estivera e trocou um sorriso com Lotte logo à frente. Depois, se voltou para Jam.

— Oi. — Ela disse enquanto observava o garoto loiro de olhos azuis disparar vários golpes precisos contra a vampira.

— Oi. Conseguiu dormir? — Jam perguntou olhando-a e ignorando completamente a luta.

— Acho que sim. — Julie respondeu dando de ombros. — Me colocou na cama ontem à noite?

Os olhos dela encontraram com os dele em um flagra meio surpresa. A garota não esperava aqueles olhos nela naquele momento, mas os manteve.

— Coloquei. Espero que não se importe. Achei que você gostaria de acordar em sua cama. — James se explicou desviando os olhares. — E antes que pergunte, Anne trocou sua roupa.

— Não. Não... Tudo bem. Obrigada. — Julieta respondeu e deu um leve sorriso. — Se Gabriel não tivesse me acordado, acho que eu teria passado o dia todo na cama.

O garoto riu e voltou a olhar para ela, que estava sorrindo.

— Somos dois. E eu tenho certeza de que ele não te acordou esmurrando a porta e abrindo a janela do seu quarto e dizendo: Acorde ou eu vou jogar água da chuva em você e colocar corante rosa nas suas roupas! — Jam comentou e a fez rir de verdade. Por apenas alguns segundos, mas a garota realmente sorriu e riu com vontade.

— Ele é impossível! — Julie concordou e voltou a observar a luta.

Gabriel estava indo melhor que a irmã, isso todos concordavam. Se considerar a velocidade extra que Charlotte tinha e sua força sobrenatural, Gabriel era um ótimo caçador de sombras.
Charlotte lançou o chicote em sua direção e o mesmo agarrou seu pulso. A cabeça da cobra enrolada no braço do garoto enviando correntes elétricas por todo ele.

Gabriel cedeu e caiu de joelhos a força. Os músculos contraídos tentando se soltar da cobra. Quando sentiu uma parte de sua força voltar, o garoto levantou e em um segundo puxou Charlotte pelo corpo da cobra que os separava e a vampira caíra no chão levando-o junto a si.

— Se fizer esse maldito chicote se enrolar em mim novamente, eu vou ser obrigado a te matar! — Gabriel disse com uma mistura de ironia e irritação.

— É como dizem — Em um movimento rápido para um vampira, Lotte saiu debaixo do caçador de sombras o deixando a centímetro de onde estava e com uma certa dor nos ombros e sorriu para ele da parede onde estava apoiada. — Se não vai ser por bem, tem que ser por mau! Próximo!

Julieta encarou Gabriel por alguns segundos e o admirou por ter conseguido ficar mais de cinco minutos em uma batalha com Charlotte. E como Julie era ela mesma, queria conseguir mais que o garoto.

— Eu vou. — A garota disse dando um passo à frente.

— Essa vai ser boa! — Melissa comentou e riu.

James se desencostou da mesa e sentiu a tensão tomar conta de seu corpo. Lotte iria acabar com Julieta em segundos. Gabriel se colocou ao lado garoto e encarou a vampira e a menina.

— Relaxa. — Ele disse a Jam. — Ela dá conta.

— Tem certeza disso? — James retrucou quando Julieta caiu pela primeira vez no chão em apenas cinco segundos.

Julie levantou-se e encarou a vampira. Charlotte poderia ser a pessoa mais gentil e amigável que ele já conhecera, mas agora, elas eram inimigas. Estavam lutando e é matar ou morrer. Não literalmente, é claro.

Julieta avançou e disparou alguns socos para a cabeça, o estômago e o rosto da vampira. Todos acertados, mas não surtiram nenhum efeito. Lembrou-se então dos treinos do time de torcida quando ainda estava no colégio antes de tudo isso acontecer.

Um chute alongado, preciso e alto fez o queixo de Lotte ir para trás e a mesma cair. Julieta ouviu murmúrios entre os presentes ali e notou que o chicote da vampira já estava se movendo.

Com um salto, Julie pulou a cabeça da cobra e pisou encima dela. Seus dedos se enrolaram no corpo da mesma e a puxaram — do mesmo modo como Gabriel fizera — Lotte foi arrastada mais uma vez para o chão enquanto se levantava.

Gabriel olhou para James, depois para Julieta e sorriu.

— Certeza absoluta!

— Mas o que... — Melissa exclamou indignada e deu um passo à frente. — Ela está facilitando! Não é tão fácil assim! Não pode ser!

Charlotte parou. O chicote voltou a se enrolar no pulso dela e Julieta encarou a ruiva irritada.

— Se acha isso então por que vocês duas não tentam? — Charlotte sugeriu tirando o bracelete e o estendendo para Julieta.

— Não. Eu não sei como...

— Apenas pegue Julie. — Lotte ordenou e olhou para Melissa. — Ela tem as armas dela. É justo que tenha as suas também. E além disso — A vampira trocou um olhar com a garota — Ela gostou de você!

Julie voltou os olhos para a serpente que subia no pulso dela e se enrolava em seu braço. Charlotte saiu do tatame e parou a alguns metros do mesmo. Mel e Julieta ficaram frente a frente se encarnado.

— Isso vai ficar interessante! — Gabriel comentou num tom malicioso e cruzou os braços em frente ao peito.

— Pelo bem das duas — Jam começou. — Esperou que não!

— Prestem atenção! — A vampira disse e ambas a olharam. — A partir desse momento, vocês não são mais amigas. Vocês não se gostam e vocês não tem mas nenhuma ligação. Esqueçam os sentimentos e esqueçam que lutam lado a lado todos os dias. — Charlotte olhou para Julieta e depois para Melissa. — A partir de agora, vocês são inimigas. É matar ou morrer! Cada um por si e esqueçam que alguém vai vir ajudá-las por que, isso não acontece na vida real!

— As vezes pode acontecer! — Gabriel interrompeu e se calou sorrindo depois do olhar irritado de Lotte.

— Bem, você parece bem despreocupado ai, não é mesmo? Que tal se você e — Ela se voltou para Jam — Você, não fizessem a mesma coisa que elas?

— É um desafio? — Gabriel perguntou se aproximando da vampira. Ela o olhou de cabeça erguida.

— É uma aposta! — Lotte retrucou. — Quem desistir primeiro, vai ter que ganhar de mim. E se perder para mim — A garota começou a ronda-lo. — Pode se consideram um verdadeiro idiota e o pior caçador de demônios do mundo todo. O que acha Crossland? Topa?

— Mal posso esperar. — Gabriel retrucou novamente e se juntou a Jam no tatame ao lado do das garotas.

— Vocês estão sozinhos! Comecem! — A loira completou e se afastou de todos.

Julieta encarou Jam e Gabriel por alguns segundos, assim como Melissa. A garota porém, estava com tanta raiva da mundana que estava concentrando toda a sua força em uma das lâminas em sua mão.

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Melissa avançou contra a garota e no mesmo instante, Julieta abaixou-se e desviou do golpe. Com o bracelete em seu braço, e sem saber como usá-lo, tentou imaginar uma cobra. Livre e perigosa, rastejando até a sua presa para devora-lá viva.

E assim foi. A cobra ganhou vida e Julie sentiu uma pequena parte da corrente elétrica subindo por seu braço, era suportável e não doía quase nada.

Julieta lançou o chicote para frente e o enrolou no pulso da caçadora de sombras e levou-a para o chão. Porém, Mel não perdeu tempo e derrubou a garota com uma rasteira rápida e esperta.

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James apontou a lâmina para Gabriel e começaram a lutar. A conversa entre as armas era afiada e em sincronia com os golpes desferidos por ambos.

Gabriel caiu primeiro e sua arma voou direto para as mãos de Jam.

— Você estava errado, Crossland! — Charlotte disse e sorriu maliciosamente. — Isso... vai ser interessante!

Gabriel bufou irritado e levantou-se.

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Mel abaixou-se de um dos chutes de Julieta e desviou do chicote. Mais um choque daquele, acabaria com ela. Não era justo. Por mais que ela tivesse as lâminas e a experiência de uma caçadora de sombras, Julieta tinha muito mais. Além do bracelete mágico, ela tinha magia. Melissa não sabia de onde e como viera, mas sabia que aquela mundana — que não era realmente uma mundana — tinha a magia correndo em sua veias.

Um único segundo de distração e algo a atingiu na barriga, fazendo-a voar para longe.

Um dor imensa tomou conta de todo o seu ser e Mel gritou ao aterrisar de costas tão brutalmente a alguns metros de onde estivera.

O silêncio que se seguiu foi tenso. James e Gabriel pararam de lutar, Charlotte congelou os olhos na garota e Julieta se encolheu, tentando esconder-se de si mesma.

— Pelo anjo! — Jam disse e correu para a caçadora de sombras deitada e quase inconsciente. — Mel...

Gabriel também se aproximou, porém hesitou ao passar por Julie e trocou um olhar com a garota.

— Mel. Melissa. — Gabriel murmurou tentando fazê-la olhar para ele.

— Eu... Eu sinto muito... Eu... — Julieta murmurou. Queria gritar mas, sua voz não saia. Medo, angústia e ódio dela mesma agitavam-se em suas veias e a percorriam dizendo: Monstro. Feiticeira. — Mel eu... Eu não queria!

A cobra se enrolou em seu pulso novamente.

Sem vida e sem magia.

Julieta correu para a porta. Só queria sair daquele lugar. Queria esquecer que era perigosa e que não era a primeira vez que machucara Melissa. Ela era um monstro descontrolado. Perdido e confuso.

— Julieta! — Jam gritou correndo atrás dela.

Os dedos do garoto seguraram o cotovelo de Julie e ela recuou bruscamente. As lágrimas escorrendo por sua bochecha rosada.

— Não toque em mim! Jam eu não quero te machucar! — Julieta disse entre soluços e se afastou do garoto.

— Julieta por favor..! — James insistiu, mas ela recuou quando ele tentou tocá-la.

— Eu sinto muito, Jam! Eu não posso ficar aqui! Sou perigosa e não tenho controle! Não quero ferir mais ninguém!

As últimas palavras da garota foram demais pra James. Ele a observou desaparecer pelo corredor, segurando ambas as mãos à frente do corpo, como se quisesse protegê-las delas mesmas.

— James! — Charlotte gritou de dentro da sala. — Jam traga Anne!

Mas, era tarde. O caçador de sombras havia desaparecido pelo corredor, seguindo Julieta para onde quer que ela fosse.

— Por Nyx! — Charlotte esbravejou o nome da deusa dos vampiros em um gesto irritado com os braços. — Desculpe Crossland — Lotte disse para Gabriel ao retornar para a sala e abaixar-se ao lado de Melissa. — Não me odeie por isso!

A vampira cravou os dentes no pulso da caçadora de sombras e os olhos de Mel se arregalaram enquanto ela gritava da dor que o veneno causava quando percorria as veias com sangue angelical da garota.