Shadowhunters: Cidade das sombras

14 Capítulo 12: Sangue e veneno


Jordan abriu os olhos e não precisou fecha-los por causa da luz. Não havia nenhum para que o cegasse completamente, apenas um fogo baixo nas tochas pregadas nas paredes a sua frente. Grades impediam que sua mão tocasse qualquer coisa além delas.
— Onde eu...
— No inferno.
Jordan olhou para o lado e viu James encostado na parede atrás das grades. Sua aparência estava horrível e o garoto imaginou que a dele também não era das melhores.
— Ah. — Suspirou e se encostou em sua parede dura e fria. Ironia, pois o inferno não deveria ser quente?
— Vou resumir... — Jam disse apertando uma mão na outra, até que suas juntas ficaram brancas. Havia sangue em sua têmpora e a bochecha estava cortada. Nenhuma arma estava à vista do mundano. — Depois que você saiu do instituto todo irritadinho, Julie resolveu fazer o mesmo. Sorte que eu a segui, senão ela estaria morta. Um demônio te possuiu e nos atacou. Acabamos aqui e agora... — O caçador de sombras olhou para o cano de plástico fino e longo que saia de uma agulha em seu braço para um balde fora da cela que compartilhavam. — Eles querem nosso sangue. Não me pergunte. Eu não sei.
— E por que só você é uma geladeira humana? — Foi a primeira pergunta que veio na cabeça de Jordan depois do breve e traumático resumo das últimas horas. Ou dias? Meses talvez?
— Você é surdo? Eu já disse que eu não sei! — Jam respondeu e tentou mais uma vez, inutilmente, remover a agulha de seu braço. Havia magia negra ali. — Eles tiraram minhas armas, e suspeito agora, que querem o meu sangue para algo muito perverso.
— Mas, pra que eles usariam o seu sangue angelical? Quer dizer, não faz sentido se o próprio os mata. Anjos matam demônios, certo não?
— Eu não sou um anjo.
Jordan ouviu passos no corredor e ambos se entreolharam. Eram saltos altos batendo contra o chão de pedra duro e áspero. James murmurou algo e permaneceu sentado. Porém, Jordan se levantou e espiou pelas grades.
Uma voz doce e aveludada ecoou pelo corredor.
— Eu ouvi isso James! Que mau educado...
Jordan se virou para Jam e o encarou confuso. O caçador apenas bufou e respondeu:
— Mas você é.
— O que quem é? — o mundano murmurou.
— Uma vadia. — Jam respondeu no mesmo tom.
Jordan pensou por um segundo mas ignorou ao sentir um perfume nunca sentido antes. Algo como... Lavanda... Verbena... Algo doce e enjoativo, entretanto, irresistível.
— Olá rapazes!
Uma mulher com perfeitos cachos ruivos apareceu à frente da cela com dois homens atrás dela. O vestido vermelho escarlate grudado ao corpo e mostrando mais do que precisava brilhava a luz das chamas nas tochas e os olhos verdes faiscavam ao olhá-los. Jordan fixou os olhos nos lábios vermelhos dela.
— Gostou querido? — A ruiva perguntou com a sedução evidente na voz. — Adoro o gostinho do sangue dos assassinos. Além disso, fica ótimo em meus lábios.
— O que você quer Lilith? — James questionou de olhos fechados e a cabeça encostada na rocha. Depois fixou o olhar no belo rosto do demônio a sua frente e sorriu malicioso. — Já tivemos nosso encontro sangrento hoje.
Jordan piscou embasbacado. Encontrou sangrento? A pior coisa que poderia ter pensado lhe veio à mente. James não podia ser o escravo de sangue dela. A bolsa de sangue humana, bem... Angelical de Lilith.
O demônio sorriu e seus olhos ficaram pretos por inteiro. O verde encantador sumiu o branco também. Apenas trevas e escuridão.
— Sinto em te desapontar, apesar de saber que você gosta dos nossos encontros, mas hoje... — Lilith sorria para o caçador e passou a sorrir para o mundano. — Meu assunto é com ele.
Jordan se encolheu e odiou o arrepio que o percorreu. Os olhos dela pareciam lhe causar algo que o garoto não sabia como descrever. Incomodo? Dor? Agonia? Medo? Uma mistura de tudo isso?
A ruiva moveu a mão e James apagou. Seu corpo caiu no chão adormecido. Pelo menos, respirava, pensou Jordan.
Como um imã, ele foi atraído contra as grades e sentiu a dor o percorrer assim que atingiu o metal duro, enferrujado e frio. Ficando cara a cara com Lilith, sentiu o hálito dela atingindo seu rosto.
— Querido — As unhas, que mais pareciam garras, se afundaram nas bochechas do rapaz, espremendo-lhe o rosto, fazendo com que seus lábios formassem um biquinho. — Vamos conversar?

****

A tempestade caia sobre os caçadores de sombras, vestindo preto pela noite. Julieta corria tanto que suas pernas já não aguentavam mais acompanhar o ritmo de Gabriel. Melissa também estava quase desistindo da missão, principalmente por ter uma mordida quase curada de uma vampira no pulso, onde não deveria ter, e onde a marca angelical se apagava lentamente.
Charlotte parou de correr assim que o caçador parou. Observou Gabriel ir até a irmã e pegar a Estela nas mãos.
— Pronto. Vai melhorar, eu prometo. — Ele disse ao finalizar a marca de cura no pulso da irmã.
— Não faça promessas que não pode cumprir. — Melissa lamentou e olhou para a vampira. — Por que não está curando?
Lotte suspirou e tentou escolher as palavras certas para não piorar a situação. Cruzou os braços à frente do corpo e deu alguns passos à frente.
— Não sei direito.
— Como assim não sabe? — Gabriel perguntou com certo quê de irritação na voz.
— Não é o meu veneno. Ele já saiu do corpo dela há horas, não sinto mais seu cheiro...
— Mas? — Mel pressionou a pausa da vampira. — Mas?!
— Mas, sinto a magia. É mais forte que qualquer marca dos anjos.
Três pares de olhos se voltaram para Julieta.
Um silêncio tomou conta dos quatro. Todos arfando da corrida longa e cansativa. Melissa sentada no chão, Charlotte andando para lá e pra cá, Gabriel parado no mesmo lugar, digerindo o que acabou de escutar e Julieta tentando dizer algo que soasse como arrependimento. Não havia mais palavras. Ela já se desculpara de tantas formas...
— Eu sinto muito, mas, se não nos apressarmos eles vão nos alcançar. — Lotte comentou tentando se concentrar na sua super audição de vampiro.
— Demônios? — Julie perguntou e Melissa se levantou na hora com a ajuda do irmão. — Pensei que tivéssemos despistados eles há muitas horas!
— Pensou errado! — Gabriel respondeu zangado e ficou a centímetro da loira com presas e cachos loiros. — Quantos?
— Muitos deles.