Eles tinham ido embora, e ele tinha ficado ali como sempre, largado, para trás.

Marvin olhava como era grande o Tártaro. Nem aquele lugar imenso conseguia deixá-lo animado. “Humanos idiotas... Nem se lembraram de verificar se eu estava na nave” pensou ele.

Pensar... Originalmente, nenhum robô era programado para pensar. E olha que pensar é uma das piores coisas que todas as espécies do Universo fazem. Mas é bem melhor do que não pensar.

Pensar, pensar e pensar. Pensar levou praticamente todos os seres do Universo a fazerem várias perguntas, entre elas:

“Qual o sentido da vida? Por que as pessoas nascem? Por que elas morrem? Por que elas passam um longo tempo entre o nascimento e a morte usando relógios digitais?”

Cansados dessas perguntas, os cidadãos do planeta Magrathea decidiram construir um super-computador que calculasse o sentido da Vida, do Universo e tudo mais. Eles o construíram e esperaram que o mesmo calculasse a grande resposta por 7,5 milhões de anos. O Pensador Profundo – como foi chamado o computador – respondeu que a resposta para a Vida, o Universo e Tudo Mais era 42.

Os cidadãos do planeta não gostaram da resposta, e o Pensador Profundo se justificou dizendo que a pergunta que eles fizeram... Não era bem uma pergunta. E que eles precisavam saber o que a pergunta significava para entender a resposta.

Para entender a pergunta então, foi construído outro super-computador. Um computador de complexidade tão infinita, que a própria Vida fazia parte do seu sistema-operacional. Ele foi construído e chamado de Terra. Era tão grande que às vezes era confundido com um planeta, e os pequenos seres que andavam por sua superfície nem tinham ideia de que seu “planeta” era na verdade um computador.

Infelizmente, momentos antes de a Terra calcular a pergunta fundamental da Vida, do Universo e Tudo Mais, ela foi destruída pelos Vogons, para dar lugar a uma via-expressa do hiperespaço.

Mas então... “Qual seria o sentido da Vida, do Universo e Tudo Mais afinal?” Marvin se perguntou pela primeira vez, em toda a sua existência. Ele nunca tinha feito a si mesmo essas perguntas, pois já sabia a resposta.

Ora, qual o sentido da Vida, senão não saber qual é o sentido da Vida? Manter-se neste estado de pergunta fundamental, sem preocupações, metas para atingir nem nada?

O Guia do Mochileiro das Galáxias diz o seguinte sobre voar: para voar sem asas e sem equipamentos, você tem de saber como cair e errar o chão. Se enquanto você cai algo muito enxúdrulo chama a sua atenção, você desvia toda a sua atenção para a coisa e... Erra o chão.

A vida humana como conhecemos sempre cai, vai ao chão que é a morte, e tem um limite breve de tempo para atingir o chão. Se alguma coisa muito curiosa chama sua atenção, você se ilumina, quebra as barreiras do espaço-tempo e voa em direção a essa coisa. Voar não é o oposto de cair, voar é a total ausência de queda, fora do tempo! Cair é breve, mas voar é instantâneo e para sempre!

“Então, dane-se o Sentido da Vida, a única coisa boa que a espécie humana e qualquer outra espécie do Universo pode fazer é voar neste incrível mistério que é a Vida!” era o que sempre dizia algo dentro de Marvin, algo profundo e isolado dentro de sua enorme cabeça. Mas ele ignorava aquilo. Não se interessava no sentido da Vida, do Universo e Tudo Mais.

Mas, qual a coisa incrível e exuberante que seria capaz de nos chamar tanta atenção, a ponto de nos fazer voar?