Seven Sisters
3 Quinze Minutos no Inferno
Primeira Noite:
QUINZE MINUTOS NO INFERNO
1
Ela pode ver um último sonho.
E, então, foi acordada por um pesadelo.
2
Ela precisava admitir: a visão de uma estrada de interior não era assim tão deslumbrante quanto os filmes faziam parecer que seria. Não havia nenhuma beleza natural que valesse alguma nota, nenhuma grande mansão rodeada por árvores, nenhum poço de água rodeado por corvos e trepadeiras, esquecido pela memória dos homens. E aquilo doía bem mais no orgulho de Aileen Marian Dawson do que a menina gostaria de admitir, visto que fora ela própria que quisera acreditar que podia ter sido algo bom, mesmo por um segundo. No meio de todos aqueles consolos prometidos em sussurros secretos na solidão de sua cabeça, havia aquele de “tudo bem, ao menos, eu sei que vou poder guardar algumas lembranças do caminho. Afinal, o interior é o interior, não é? Belos cenários me esperam”. Bem, não. A verdade é que tudo estava sendo tão tedioso quanto tinha sido onde antes morava.
Moveu seus olhos, de forma que ela não precisasse mexer a cabeça, até focá-los no homem no banco do motorista. Henry Dawson. Seu pai. Patético e fraco.
É bem verdade que sentia-se soar como uma garotinha mimada quando pensava coisas do tipo de seu pai – alguém que tanto trabalhou para criá-la de forma exemplar e que nunca faltou para com sua família –, mas a verdade era que, quando queria pensar algo de bom dele, nada lhe vinha à cabeça. Pelo contrário, apenas parecia que ele tinha defeitos demais, defeitos que a jovem abominava com todas as forças e, como veneno na água, a contaminação alastrava-se até em direção ao que ela um dia já admirou. Há algum tempo, ela decidira parar de pensar no pai; afinal, se fosse para viver recriminando-o por coisas tão triviais quanto o fato de ele ter perdido o rumo da sua própria vida pela casualidade de outra, seria melhor sequer pensar que tais coisas existissem fora de seu mundo tão bem organizado.
Vez ou outra, é verdade que se pegava imaginando o quê poderia estar passando pela cabeça do senhor Dawson, mas eram pensamentos rápidos e sem a menor importância prática (e sempre a perturbava notar que ainda assim caía nesta armadilha de tempos em tempos) – pensamentos que desapareciam ante ao menor sinal de “pare, Aileen. Está indo por aquele caminho de novo”.
A verdade é que a garota não concordara com nada daquilo.
Mas também era verdade que não disse nada para impedir.
Ela tinha uma faca de dois gumes em mãos, uma impressão que nunca a abandonou, uma maldição e um dom ao mesmo tempo – simplesmente, às vezes, sabia ver além de si própria. O que Aileen Dawson teve diante de si, na situação na qual se encontrou quando saiu de hospital que mais se assemelhou à uma prisão, era assustadoramente óbvio: ela seria um peão. Para onde quer que aquelas duas pessoas que ficaram quisessem-na jogar, ela teria de se submeter, como uma boneca de pano. Uma marionete no sentido mais bruto da palavra.
Não ajudava o fato de que os dois que ficaram – o pai e a avó – eram idiotas e patéticos. Ela precisaria esperar e não havia outro jeito.
Sim, Marie Jane Dawson havia morrido. Sim, fora uma tragédia horrível e tão tola, quando se olhava para ela como um terceiro sem nenhuma relação, que era de se surpreender que isso ainda pudesse acontecer em pleno século XXI; a casa – uma gaiola de madeira e cortinas tão etéreas quanto nuvens, uma bomba esperando a detonação – havia pegado fogo depois de qualquer coisa relativa à uma queda de luz, e ela e Aileen haviam ficado presas lá dentro. Sim, é verdade que ainda se lembrava do calor, do medo, da sensação de estar no inferno, de sua mãe tentando tão desesperadamente salvar ao menos a única filha, mas a simpatia acabava aí. Aileen ficara viva. Não exatamente livre de cicatrizes, é verdade, mas ainda assim, escapara com vida. E Aileen ia viver. Se isso significasse ter que esquecer sua mãe no processo – sua mãe que a sobrevivência do mais apto não poupou –, pois bem, não lhe parecia algo que não ia conseguir fazer.
Frio demais? Provavelmente. Talvez por isso decidiu optar pelo silêncio quanto aos seus próprios sentimentos em relação à perda – ela não precisava de olhos adultos a julgando como um animal de zoológico. Já tinha um terapeuta para isto, uma onda na superfície da água causada pela pedra que foi aquele momento.
Como uma sobrevivente, rodeada por simpatia e pena dos adultos, ela poderia ter se aproveitado, aberto-se como uma flor ao jorro constante de adulos, comportar-se como uma garotinha cheia de vontades. Mas decidiu ser madura – a sua versão de maturidade, pelo menos – a respeito. E, assim, simplesmente esperou. Fez tudo o que, em sua visão, uma boa filha devia fazer: não pode comparecer ao velório da mãe por ainda estar no hospital, cortesia de suas queimaduras, mas mandou suas condolências (verdade que soou como se fossem condolências a um estranho, mas ela não se importou em se corrigir, não naquele momento ao menos. Se fosse sincera consigo mesma, sua mãe era apenas uma estranha agora. Ela e suas palavras bonitas não existiam mais, afinal de contas). Esteve suportando em silêncio a depressão dos parentes, guardando qualquer crítica e sensações de vazio para si, e continuou com suas notas no colégio. Frequentou terapias psiquiátricas indicadas para seu caso e aceitou os remédios que lhe deram, tanto os para suas cicatrizes quanto os outros, sem nenhum gesto de negação. E esperava. Esperava aquela fase tediosa de luto passar. Mas ela simplesmente não ia embora.
E, de repente, Henry Dawson disse “vamos nos mudar”.
Passou-lhe pela cabeça perguntar várias coisas. Para onde, por que aquilo se eles já haviam se mudado uma vez ao perderem o lugar das cortinas tremulantes, se sua vó iria junto com eles, qual a razão para tamanha infâmia, se seu pai havia enlouquecido finalmente, se sua escola seria boa como a que ela estudava ali, oh deuses, a escola, o que ela faria a respeito se já perdera tanto tempo em recuperação que nem mesmo sabia se ia conseguir passar de ano (ela passou, se isso importava a alguém. É claro que os adultos compreenderiam)...
Mas Aileen não fez uma só pergunta.
Em vez disso, apenas assentiu, lembrando-se, com um eco vazio dentro do peito, de qual era sua posição naquela hierarquia distorcida.
Era uma fase. Uma fase longa e tediosa e irritante, mas uma fase assim mesmo. O luto era só uma fase. Ou foi assim que foi-lhe dito (ela não sentia que atravessou uma fase sequer dele – um vazio que a assustou um pouco no início, mas depois lhe pareceu até bem-vindo –, então não saberia contrariar terapeutas e médicos). Ainda esperava que Henry Dawson voltasse a regular perfeitamente muito em breve e percebesse o quão idiota estava sendo. Um desejo vão.
No fundo, a garota sabia que tudo teria sido resolvido (e, se não tivesse para os outros, ao menos para ela, sim) se ela tivesse a decência de ir contra e fazer suas malas. “Adeus, eu estou indo viver minha própria vida. Não sei como, é verdade, e talvez nem até quando, mas estou. Não vou me submeter à isso. Definhe o quanto quiser, morra se preferir, mas não me leve junto”.
Ela não tinha essa força.
Uma triste e dolorosa verdade, mas preferiu anuir passivamente porque era muito mais cômodo para si.
Desde que recebera a notícia da mudança, Aileen Dawson esteve muito ocupada para prestar atenção ao seu redor consolando-se com todo o tipo de meia-verdade. “Está tudo bem, não tenho muitos amigos na escola mesmo. Não me fará falta” (só tinha uma... Nem era exatamente amiga, mas servia como alguém que fazia o tempo passar mais rápido. Pensando bem, nem mesmo se despediu da menina ou trocaram seus números de celulares ou endereços de e-mail antes de ir embora) ou “Tudo bem, terei internet. Vou ter o que fazer no interior” (sendo que passava mais tempo lendo todo o tipo de livro do que no computador. O que podia fazer se amizades virtuais pareciam-lhe apenas versões glorificadas das pessoas fora das telas?). Quis até mesmo, só por um momento, ser uma menina normal e ficar brava. Ou ficar feliz, ao menos, pela mudança.
A verdade é que não sentiu, objetivamente, nada. Fora a mesma sensação de vazio que a assaltou ao dizerem-lhe “sua mãe está morta”.
O vazio a acompanhava como uma sombra há tempos, como um velho amigo, como uma manta protetora. Ele era a única companhia que ela precisava.
— Aconteceu alguma coisa, Aileen?
Como se houvesse tomado um choque, em uma proporção relativamente menor, ela se virou abruptamente em susto. Henry Dawson e seus olhos verdes a encaravam por momentos e voltavam-se para a estrada. Repetiram o processo ao menos três vezes. Ela relaxou, mas não o suficiente a ponto de parar de fechar os punhos.
— ... A estrada, pai – ela devolveu. Sabia que ele, mais do que ninguém, devia ter noção daquilo, mas lhe pareceu o item mais amigável na turbulenta lista de respostas em sua língua.
— Oh, claro, claro – ele sorriu um pouco, um gesto que havia se tornado raro no último ano, voltando a prestar atenção na mesma. – Mas, então? Por que estava sorrindo?
— Eu estava...?
— Estava. Pensava em quê?
A jovem sentiu-se voltar a querer esticar os lábios.
— Uma piada, talvez? Não é nada importante.
— Fazia tempo que eu não a via sorrir – ele comentou.
Aileen sentiu-se enojada pelo tom calorosamente paternal usado. Aquela voz tocava alguma coisa nela, algo que não sabia definir, mas que tinha noção de que desejava deixar em paz.
— Bom... Aconteceram tantas coisas, não é? Acho que era esse ritmo puxado de ultimamente me impedindo de relaxar... – sendo sincera, ela não sabia como devia proceder em uma conversa com seu pai. Tudo parecia um campo minado; um passo em falso e ela poderia jogá-lo para aquela depressão idiota de novo.
— Espero que o clima do interior a ajude, então.
— Também espero – ela forçou um sorrisinho.
Era um pouco estranho, precisava admitir...
Antes da morte de Marie Jane Dawson, Aileen jamais achou que seu pai fosse assim tão apaixonado. Mas, se olhasse para trás, o fato deles não terem se divorciado quando aquela era uma epidemia que afetava o planeta todo devia ter sido uma pista. De qualquer forma, aquilo tudo parecia-lhe mais uma coisa saída de filmes. Irreal, por assim dizer. Era estranho, mas de uma certa forma, invejável. Fazia-a pensar na injustiça do mundo, que levava justamente aqueles que não deviam ser levados.
Lembrar-se daquele homem que ficava sentado no sofá olhando para o nada por horas e horas
(do homem no hospital, do vazio ao pensar em voz alta: “eu ficarei orfã”)
e compará-lo com aquele diante dela, que até sorria – que estava, finalmente, tendo uma perspectiva nova de vida, mesmo que fosse ela bastante errônea, afinal quem em sã consciência repete um clichê como o de se mudar para o interior achando que isso ia ajudar? Seu pai não assistia TV? – era como comparar água e vinho. A mudança, admitia, a assustava um pouco: fazia a garota pensar até onde eles eram parecidos, pai e filha, no fundo. Henry Dawson, afinal, sempre fora mais forte que a esposa.
Outra vez, sentiu-se dominada por algo semelhante a asco ao pensar nesta possibilidade.
Não se orgulhava de seus pais, era verdade. Não achava que tinha o “melhor de dois mundos”. Tinha a beleza da mãe, seus cabelos loiros e sua pele em tom mais pálido e, do pai, ganhara os olhos verdes e, admitia, uma tendência ao egocentrismo. As semelhanças, graças aos céus, acabavam aí; considerava-se muito mais racional que os dois. E esperava que fosse verdade. Tinha a impressão de que estava se comportanto de forma excelente considerando o que aconteceu, pelo menos.
Marie Jane era um exemplo de tudo o que Aileen não queria ser: uma mulher emotiva e tola. Alguém dominada por emoção e intuições e palavras cheias de doçura. Talvez, quando fosse uma criança, ser embalada por aquele carinho fosse tão necessário quanto o ar – hoje em dia, gostaria de jogar todas aquelas memórias fora, como o faria com o lixo em um incinerador. A loira achava seu pai, Henry, apenas um idiota. Em seu dicionário, bem melhor ser um idiota do que uma tola emotiva. Mas, é claro, ele precisava mostrar que, no fim, era só mais outro tolo.
Uma melodia conhecida chamou a atenção da garota, acordando-a daqueles devaneios distraídos enquanto olhava a paisagem de sua viagem.
— O que é isso, pai? Pink Floyd, mesmo?
— Não gosta? – ele perguntou, enquanto uma das mãos ajustava a estação.
— Oh não, não é isso... – hesitou. – ... Foi engraçado vê-lo escutando esses caras de novo.
Os olhos verdes, tão verdes quanto os dela, semicerraram-se quando ele apenas permitiu-se esboçar uma expressão que lembrava algo de pacífica compreensão. Como se ele visse além das palavras tão cuidadosas dela.
— Acho que a viagem fica melhor com música, não?
“Idiota”, pensou a filha. Não conseguiu evitar, era tudo o que conseguia pensar sobre ele no momento.
— Bem, isso é verdade – mas, tal qual seu pai, aceitou aquele teatro sem contestá-lo e também devolveu o sorriso.
Um silêncio instalou-se no carro após a pequena bolha de carinho, deixando a loira com um gosto amargo na boca.
Havia feito uma concessão a Henry Dawson, ao menos naquele dia, por achar que o homem merecia aquele respeito. Celular, livros, fones de ouvidos e qualquer outra fonte de lazer estavam guardados na mochila que carregava consigo como uma âncora para a sua sanidade. Prometera a si própria que não iria isolar-se; como um soldado, aguentaria a missão de suportar seu pai patético por todo o trajeto daquela viagem.
Mas, bem, estava sendo difícil agora.
Aileen Dawson sabia o porquê de Pink Floyd estar tocando, o porquê dos sorrisos: o idiota estava apenas mascarando. Um pecador sempre reconhece o outro. Pela rainha, se fosse para agir como um completo idiota (vai ver era simplesmente da natureza de seu pai, ser um tolo...), então ao menos fosse um idiota sincero e voltasse a ser como antes.
Era mais fácil – mais confortável— conviver com o Henry de antes, ao menos.
“Você não pode falar nada sobre honestidade”, a garota bufou para si mesma, reconhecendo ao menos a hipocrisia de seu desejo.
— O que foi?
Ouvir a voz do pai quase a fez fechar a expressão.
— Ah... Não, nada.
— Você pareceu desanimada por um momento, Aileen – ele continuou, alheio à expressão de asco incontido da loira. Claro, ela havia tomado o cuidado de estar encarando a janela, distraidamente, enquanto falava com ele.
— É? Acho que é a viagem, né? Esse lugar é mais distante do que pensei.
— Teria sido mais rápido vir de trem, realmente – concedeu. – Quer parar em algum lugar?
— Não, não. Não precisa mesmo. Eu acho que...
— Acha que...?
Aileen Dawson viu as amarras de seu autocontrole afrouxando, e pela primeira vez desde que o dia começou, sentiu alguma coisa que não frustração: medo. Alguma coisa estava entre eles, os dois sabiam que estava, mas ela não tinha em si aquilo que precisava para dar o primeiro passo e colocar o passado de volta em seu lugar.
Houve uma miríade de pensamentos em sua cabeça – desde os mais agressivos até os mais amenos e casuais. Todos nascidos daquele medo. Todos com um tema em comum: Henry Dawson. Um homem de meia-idade e adoráveis olhos verdes, os quais tão gentilmente ele emprestou para sua filha, metaforicamente falando. Um pacato médico que fazia o possível para ter tempo para sua família em uma profissão tão ingrata no que dizia respeito àquele detalhe. O nojo por Henry Dawson. A vontade que a loira tinha de que Henry Dawson calasse a boca. O desgosto por Henry Dawson a estar arrastando contra sua vontade para lugar nenhum, para um destino que ela não desejou. E, principalmente, mais do que tudo, vontade que tinha de gritar para aquela pessoa tudo isso.
Ela entreabriu os lábios, e as palavras estavam ali, dançando. Estavam em sua cabeça, estavam em suas mãos trêmulas, estavam sinceramente ali. Aileen nunca soube o que a impediu de explodir naquele momento – provavelmente, uma parte de sua razão, talvez aquela sensação de que se falasse algo, estragaria tudo o que construiu até aquele dia, deixaria a segurança do vazio para se aventurar outra vez na terra dos humanos normais—, mas agradeceu aquele impulso muito mais construtivo do que o de falar a verdade.
Recostou-se no banco do motorista, revirando os olhos para a janela de novo. Sentiu-se como uma marionete cujas cordas são abandonadas.
— Definitivamente, acho que viagem está longa... Mas é só isso. Não se preocupe.
O homem suspirou. Pink Floyd já não tocava mais entre eles.
— Eu sei que foi difícil para você deixar a cidade, mas...
Ela não pode evitar o gesto; revirou os olhos de novo. Em momentos como aquele, era como se outra pessoa assumisse o controle de seu corpo – como numa espécie de piloto automático – e falasse por ela.
— Tudo bem, pai. Não diga como se fosse se desculpar... Tá tudo bem.
“Acho que você teria ficado triste se eu tivesse escolhido ficar com a vovó, não?”, ela quase arriscou a emendar, mas aquela posição era perigosa. Aquela frase era um cruzamento, uma saída de seu território seguramente neutro. Isso ela não podia permitir: ter uma posição naquilo tudo.
Mas talvez o homem soubesse disso no fundo, pois o que ele disse a seguir a surpreendeu mais do que devia:
— Você podia ter ficado com sua vó, se quisesse. Nós teríamos dado um...
Ela recompôs-se, dando de ombros, não lhe permitindo acabar a frase. Era uma afronta.
— Não, não. Tudo bem. Eu não tinha nada lá que me fizesse falta mesmo. Nunca disse que não ia com você, né? – uma verdade, ao menos, mesmo que concedida de má vontade. – Um recomeço não é assim tão ruim... Até o terapeuta pareceu muito satisfeito em saber que eu parecia estar “retomando o controle”, nas palavras dele.
Houve um grande e quase palpável silêncio entre eles.
Aileen mantinha o rosto apoiado na mão, o olhar fixo nas árvores que pareciam gotas borradas de tinta pela velocidade. Sentiu a distância – um abismo – entre ela e seu pai, uma distância que ela mesma havia criado para a sua segurança, aumentar ainda mais. Lembrou-se de quanto as palavras eram traiçoeiras – já que qualquer coisa que tenha nascido do homem é traiçoeira por natureza.
— Quem sou eu para ir contra ele? – deu de ombros, alguma coisa auto-depreciativa em seu humor, um eco de um Henry do passado que permanecera morto por mais de um ano. – Tomara que faça amigos novos em Seven Sisters, então.
— É verdade... Tomara mesmo, né?
— Numa cidade pequena como aquela, imagino até que você encontre alguns dos seus colegas amanhã mesmo, não?
Ela estreitou os olhos.
— Não é? Tomara que sim. Seria bom já ter algum conhecido no primeiro dia... – por fim, suspirou. – Escuta, pai... Eu vou dormir, tá? Me acorde quando chegarmos.
Um silêncio.
Ela prometera que suportaria a viagem até o fim, é verdade. Mas aquilo era só uma pequena pausa. Não estava desistindo (ou, ao menos, era o que sua mente lhe dizia).
Mas Henry Dawson não pareceu ofendido quando lhe respondeu:
— Pode deixar.
3
Seven Sisters.
Seu novo inferno particular.
Uma cidadezinha comum a algumas boas horas de Londres, que dividia seu nome com uma estação de trem.
Assim como uma mulher não consegue esconder sua feiura com joias, o nome bonito daquela cidade também não podia esconder que, no fim, Seven Sisters era aquilo: só um lugarzinho pacato. Esquecido. Nojento. Um pedaço de qualquer coisa que imitava “civilização”.
Aileen Dawson detestou aquele lugar desde o primeiro momento em que ouviu falar dele. Detestou-o sem sequer conhecê-lo. Não precisava conhecer o que sabia que odiaria.
Aquele ódio a alimentou durante todos os preparativos, durante o “nos vemos de novo no Natal” para sua avó (ou no “apareçam quando quiserem para me visitar” que recebera em resposta. O tom dela lembrava o de uma criança sendo deixada na creche pela primeira vez por seus pais, algo não muito diferente, visto que ela passaria a viver em um retiro), durante a despedida de toda a familiaridade que conhecia. Talvez, o ódio por Seven Sisters só rivalizava com o ódio por Marie Jane Dawson, cuja morte foi a causadora de todo aquele pandemônio.
Mantendo-se na segura fronteira entre o sonho e a realidade, ainda de olhos fechados, ela sentia o carro quase que flutuar em meio ao seu torpor. A noite já havia caído ao redor deles como uma mortalha e isso a fazia perguntar-se se ainda faltava muito para chegarem. Desejava apenas chegar na sua nova casa – já devidamente mobiliada, já que Henry Dawson ao menos fora metódico quanto àquilo – e, principalmente, em seu novo quarto e descansar.
Amanhã poderia pensar em bibliotecas (soubera que a biblioteca de Seven Sisters tinha um acervo muito bom, obrigada. Queria dar uma olhada nele o mais breve possível – era sua prioridade), em escolas, em adolescentes que teria que aturar pelo resto do ano letivo naquele lugarzinho, por sabe-se Deus quantos anos... Mas tudo isso, amanhã. Naquela noite, estava exausta demais daquele teatro idiota para tal.
— Aileen?
Ela grunhiu alguma coisa ininteligível até para si própria antes de responder:
— O que, pai?
— Veja isso. Chegamos, finalmente.
As palavras mágicas que tanto esperou foram pronunciadas. Saindo daquele estado de sono preguiçoso, a loira acomodou-se no banco de novo, ajeitando sua blusa.
— Oh.
Haviam acabado de passar por uma placa com o nome da cidade em letras brancas e poéticas. Ela sentiu-se em um filme (um bastante péssimo, diga-se de passagem). Outra vez, a sensação de que aquele lugarzinho era só um outro nome para “Inferno” passou por sua cabeça, mas desapareceu imediatamente ante a visão que a esperava quando entraram nos domínios do lugar.
As janelas do carro estavam fechadas, mas ela tinha certeza de que, se abrisse, sentiria o frio das noites britânicas. Afinal, as mesmas já começavam a embaçar. O céu era uma mistura de piche e cor-de-índigo, algo bastante incomum na capital coberta de nuvens, e recortado de estrelas; aquela sensação de frescor, de algo natural, dava um ar reverentemente Vitoriano àquela pequena cidade às escuras.
— Que estranho... – Henry comentou.
— O que é estranho? – a loira virou-se para o pai.
— ... Está tudo tão escuro.
— Ora, e não é natural? – ela deu de ombros, a vontade de não encontrar nada a ser elogiado naquele lugar falando mais alto. – Aposto que esta cidade é tão deprimente que deve ter até “toque de recolher”. Devem estar todos dormindo.
Aileen não pôde conter um soslaio de desprezo que não passou despercebido por Henry Dawson.
— Aileen, não seja assim – ele meneou a cabeça com as palavras. – Você ainda nem conheceu a cidade para sair falando dela.
— Não preciso conhecê-la para saber que se trata de uma...
— … Tem cafés muito bonitos por aqui, sabia? Ou foi o que ouvi falar.
A jovem sentiu-se comprimir os lábios em uma linha reta.
— Certamente, eu vou descobrir isso.
Erguendo uma sobrancelha, o homem preferiu ignorar o sarcasmo que escorria das palavras de sua filha agora.
— Você devia aproveitar... – ele tentou, mais uma vez, atravessar aquela bairreira que se erguia ao redor da filha única. Algo nela morrera naquele dia e ele não conseguia nem mesmo definir o que era. Que espécie de pai estava sendo? Acima da frustração, ele só conseguia sentir tristeza. – Afinal, vamos passar algum tempo morando aqui. Sei que, se tentar, conseguirá se acostumar com essa cidade... Mas precisa dar uma chance a ela.
Sentindo o sorrisinho aumentar contra sua vontade – bem como aquela raiva que insistia em aparecer nos piores momentos desde que aceitara se mudar para aquele lugar –, Aileen voltou-se para a janela. Para seu território seguro.
— Me acostumar? Com... Isso?— resmungou. – Farei meu melhor, pai.
Aileen não contava com o silêncio que se seguiu.
Uma parte de si sentiu-se mal por ter ido longe demais daquele jeito. Esteve se portando de forma tão neutra até então, por que estragar todo seu disfarce por causa de uma simples conversa entre pai e filha? Não fazia sentido. E, mesmo assim, a outra parte de si sentia-se livre... Liberta, mesmo que só por aquelas pequenas palavras. Um efeito deveras agradável. Sentia até como se pudesse continuar aquela discussãozinha indefinidamente, por quanto tempo precisasse.
O suspiro de Henry Dawson a fez retesar-se.
— ... Você nunca falou que achava isso ruim.
— Ah, mas o que eu ganharia dizendo o que sentia? – ela devolveu, amarga. – Acaso, você ia parar o que estava fazendo? O que eu sentia era irrelevante.
— Mas...
— Não tem problema. Eu não ligo pra isso – e, claro, era uma mentira.
— Mas se você tivesse me dito que não estava de acordo, eu...
— … Pai.
O olhar de Aileen Dawson não era mais baço e entediado, mas estava fixo e atento. Ela havia percebido alguma coisa.
Ele ficou parado entre a vontade de continuar a procurar através de suas palavras por aquela coisa que ela parecia querer mostrar – aquele eco da filha que perdeu –, e a sensação de que devia se preocupar com o tom de voz que ela estava empregando agora.
— O que foi?
— ... Esqueça isso. Não acha que isso está mesmo estranho demais?
— ... O que quer dizer?
— Não vejo nenhuma luz ligada. Nenhuma mesmo – a loira sussurrou. – Uma cidade, mesmo uma idiota como essa, não devia estar assim.
Voltando sua atenção inteiramente para o cenário que os rodeava, Henry Dawson buscou primeiramente limpar seu vidro. Pareciam estar atravessando uma forte cortina de neblina e gelo; o vidro já estava completamente embaçado apenas por alguns segundos de descuido. Quando ele finalmente pôde enxergar de fato, viu que sua filha tinha razão.
As casas e pequenos prédios que lhes rodeavam estavam todos com as luzes completamente apagadas. Excetuando os próprios faróis de seu carro, o homem não havia visto o menor sinal de vida. Não havia visto ninguém nas ruas. Nenhum grupo adolescente desfrutando os prazeres da noite, nenhum guarda noturno, nenhum trabalhador em seu carro, pronto para voltar para casa, absolutamente ninguém. Era quase como estar dando uma volta em uma cidade fantasma tirada de algum pesadelo de escritor, de algum sonho profundo e sem sentido.
Ele recostou as costas no banco do motorista, ao mesmo tempo abismado e curioso. As luzes douradas das lanternas de seu carro batiam na rua, naquela neblina, transformando tudo em sombras imensas e tremeluzentes.
— Que lugar macabro... – Aileen sussurrou.
Algo primitivo e até irracional, algo que parecia-se com medo, impediu seu pai de falar, mas ele viu-se assentindo.
— Bom, aposto que isso não estava nos folh...
A verdade é que nem toda a racionalidade a preparou para o que veio a seguir.
(E quando ela pudesse pensar com calma, em outro tempo – com a sensação de que já era uma outra vida – ela teria visto que droga alguma a teria preparado. Não há como se estar preparado para aquilo)
Subitamente estava sendo jogada para frente, enquanto o som dos freios ecoava naquele vazio mórbido de uma cidade em silêncio. Segurou-se irracionalmente ao seu cinto como se aquele ato pudesse a salvar, e os olhos verdes fixaram-se em Henry Dawson, firme ao volante. Em nenhum momento passou-lhe pela cabeça simplesmente virar a mesma para a direção oposta e ver o que estava acontecendo: estava paralisada de susto.
Sobreveio, assim, o que pareceu ser o som mais detestável que Aileen Dawson jamais ouvira, muito mais do que o de talheres raspando no prato ou o de um giz riscando o quadro-negro de um jeito errado: um baque. Algo surdo, abafado, como se alguém tivesse jogado ao chão um tecido molhado e retorcido. Junto a ele, um borrão negro e disforme, algo que ela mal pode observar antes de ver-se abafando um grito assustado e, tão rápido quando apareceu, o mesmo sumiu, deixando para trás vidro trincado. O carro deu um último solavanco e parou no meio da rua vazia.
O coração da garota batia desordenadamente, enquanto aquela imagem de segundos atrás queimava em suas órbitas. Aquela coisa estranha sendo iluminada, sendo jogada para trás, sendo...
— N... N-nós... Nós atropelamos... Alguma coisa...?
Ela pôs a mão sobre o peito. Sentia que iria morrer de estresse cardíaco se seu coração continuasse descompassado daquele jeito.
— Eu não... Sei...
Se possível, Henry Dawson estava mais pálido que ela.
Aileen desejou acordar, se aquilo fosse um sonho. (Um velho amigo, aquela sensação. Em meio ao inferno de uma casa queimando até a sua fundação, ela também se lembrava de ter pensado o mesmo.) Esperou. Esperou até mais um pouquinho – uma concessão magnânima, como se estivesse batendo o pé no chão, exasperada por ter de estar esperando mais do que queria. Nada aconteceu; nenhum estalar de dedos, nada de despertar abrupto.
Atropelaram alguém.
O vidro era prova disso.
Um som arrastado na parte de trás do carro a fez estremecer violentamente.
— E-está vivo...?
Um longo momento de silêncio temeroso seguiu-se antes da loira ver seu pai abrir a porta do carro e saltar dali tão rápido que ela quase o considerou sobre-humano por ter uma reação tão clara após aquele choque.
— P-pai...!
— Precisamos ajudar, se ele está vivo!
— E-espera, pai...
Aileen respirou fundo – e a respiração estremeceu longamente com ela no processo –, massageando sua fronte. A luz do carro iluminava os arredores sem um sinal de vida, e também as fendas que aquele corpo (uma vida) havia deixado no vidro com a batida, fazendo tudo parecer ainda mais surreal do que já dava a impressão de ser. Pequenas gotículas vermelhas maculavam as extremidades dos fragmentos – e apesar de saber o que elas eram, a loira preferiu acreditar por ora que era só uma ilusão de ótica.
Simplesmente... Não podia conceber.
Não parecia real.
Não podia ser real.
Longe, como se aquele pensamento pertencesse à outra pessoa, sua alma dissociando-se aos poucos daquele lugar como um dia se afastou de uma mulher morta e um passado enterrado com ela, Aileen Dawson lembrou-se de sua casa nova, de seu quarto e do quanto estava cansada. Todo aquele cansaço desaparecera em uma onda de adrenalina assustada; a parte racional de si, aquela que deveria ficar orgulhosa pelo exemplo de civilidade de seu pai, estava momentaneamente sem palavras. Ela só queria que... Só queria que ele voltasse para o carro, para perto dela, e eles fossem embora dali.
Não precisava sequer ser para a nova casa deles. Só... Fossem embora.
— ... Meu Deus!
Ela ouviu a voz do pai lá atrás e estremeceu, sentindo o estômago formigar; dar uma, duas, três voltas, quase como um animal confuso, enquanto todo o resto de seu corpo continuava parado.
Subitamente, ela olhou para Seven Sisters, para seus prédios embebidos de escuridão, para o silêncio sem forma, mas que ainda sim era tão palpável quanto o próprio frio da Inglaterra, e percebeu que ninguém viria ajudá-los. Não houve nenhuma reação, nenhum acender de luzes, nenhuma movimentação ou comoção humana. Era realmente como estar em uma cidade fantasma, em um pesadelo ilógico. Ninguém viria ajudar aquela pobre pessoa atropelada... E nem ajudar a eles.
O pensamento a fez ter a sensação de estar sendo pregada contra o banco do carro, uma impressão que nada tinha a ver com o cinto, agora mais apertado ao redor de seu corpo após aquele impacto horrível, após ter certamente se divertido marcando seu corpo com a força com a qual pressionou-a contra o couro.
— A-Aileen... Fique no carro... – ela ouviu o pai de novo. – Meu Deus...
Virou o rosto automaticamente para trás, mesmo não conseguindo ver nada. O corpo tremia, cheio de adrenalina, mas estava flácido, como se ele não soubesse exatamente o que fazer com tudo aquilo.
— O-o que houve...?
Henry Dawson não respondeu.
Ao invés disso, ela o ouviu correr. Seus passos eram ofegantes – sim, eles ofegavam – e precisos. Cada um deles reverberava dentro dela própria. E, de repente, ele estava de novo dentro do carro, sem sequer pôr o cinto, e pisando no acelerador.
Girando violentamente o volante, subitamente estavam dando meia volta. Estavam seguindo rumo à saída de Seven Sisters numa velocidade que Aileen jamais achou que seu pai ou um veículo dirigido por ele pudesse alcançar. Ela mal percebera a paisagem lá fora ou o medo de perguntar o que aconteceu – um medo irracional –, pois, honestamente, haviam tantas coisas tentando serem processadas que ela duvidava que ia conseguir.
— E-ei...
— Não fale nada.
— Pe-peraí, pai... O homem lá atrás...
Os nós dos dedos de Henry Dawson estavam, se possível, mais brancos que seu próprio rosto. A filha não percebera aquilo – como ia perceber, tendo tantas coisas mais importantes em mente?
— Não aconteceu nada com ele.
— P-pai, espera. Espera... – ela respirou fundo. Uma vez. E outra vez. O fluxo desenfreado de seus pensamentos a deixava incapaz até de falar. – V-vamos... V-você vai ser ligado ao crime da mesma forma... Afinal, olhe pro carro... Sangue nos pneus e no vidro... N-não podemos sair daqui. Vão perceber isso de longe, vão nos fazer perguntas. Vamos... Vamos ser presos...
— Aileen? – o tom de voz usado pelo pai foi sério.
Sério, solene e escuro.
A loira parou de falar instantaneamente tão logo percebera que nunca o ouvira falar daquele jeito com ela.
— Sim?
— Só cale a boca agora, certo?
— Por...
— Certo?— ele repetiu, aumentando o tom de voz.
A concessão que ela fez foi mais do que pretendia; mais do que jamais havia feito. Mais forte do que a de vir à Seven Sisters sem uma palavra de reclamação.
— ... Sim.
Talvez – ela pensaria algum dia – tivesse sido até bom que ela não pudesse ter tido nenhum tempo de absorver aquela ordem ou a frustração decorrente dela. Talvez tenha sido bom ela não ter jamais desvendado a cabeça de Henry Dawson nos poucos momentos antes de sua morte; desse jeito, ele ficou eternizado em sua mente – ao contrário de Marie Jane, ele conseguiu tornar-se um ponto de interrogação.
Tão logo sussurrara aquela palavra simples, sempre mantendo os olhos no rosto de seu pai, buscando uma compreensão do que estava acontecendo
(Uma busca vã. Henry Dawson morrera como um ponto de interrogação)
sentiu o carro a jogando para frente de novo antes mesmo de perceber que o rosto dele havia se contorcido em terror e que isso era um sinal. O som dos pneus deslizando pela estrada enquanto o freio fora subitamente acionado pareceu tão alto quanto uma tortura.
Seus orbes verdes ergueram-se fragilmente para enxergar o que quer que fosse que estivesse lá fora. À sua frente, então, ela viu – e ao mesmo tempo não viu, uma vez que sentira que o choque fora tamanho que ela apagou aquela visão imediatamente após identificá-la – o que achou que jamais pudesse ser possível sair do terreno dos sonhos.
Aileen Dawson, pelo vidro cheio de rachaduras, pôde prever que aquela... Coisa, a frente do carro de seu pai e a parede de um prédio comercial logo à sua frente iriam colidir inevitavelmente, e entendeu que não teria jeito.
Como se estivesse acontecendo com outra pessoa
(Não com ela. Não com seu mundo tão bem organizado)
fechou os olhos e esperou pelo pior.
O impacto contra o prédio veio antes mesmo de ela conseguir respirar. Não foi apenas um acidente, foi como a destruição de todas as crenças da loira, uma a uma.
Outra vez, aquele estranho som curioso de gravetos e tecido molhado sobreveio ao de metal contorcendo-se – e no momento em que ouviu e entendeu do que se tratava, ela jurava ter sentido o estômago contorcer-se bem mais que o metal do carro.
Conseguia ouvir a voz em sua cabeça gritar “erga a cabeça, você precisa fazer alguma coisa e encolher-se assim não é uma delas”, mas os músculos simplesmente não se moviam. A mente enevoada também não conseguia se mover. De olhos fechados, a garota sequer sabia se seu pai, sem cinto, havia sobrevivido àquele acidente.
Um gemido abafado a fez estremecer.
Não era a voz de seu pai.
Indo contra todos seus melhores instintos, ela abriu, temerosa, os olhos. O corpo dolorido reclamou quando ela virou a cabeça para ver se seu pai ainda estava vivo.
Sua visão periférica capturou uma figura movendo-se na direção deles, iluminada parcialmente pelo único farol ainda funcionando, e a garganta foi muito mais rápida que o cérebro insistindo no silêncio – um grito rouco escapou de si, como se numa última tentativa o corpo houvesse tentado parar aquela reação tão instintiva. Ela não estava pensando em nada e, ao mesmo tempo, a mente estava cheia.
Qualquer reserva que Aileen Dawson ainda pudesse ter – seja por medo, por confusão ou por simples ceticismo – desapareceu com aquela mão que adentrou com violência o vidro trincado da janela do motorista, quebrando-o definitivamente.
Seu primeiro pensamento foi
(eu não estou vendo isso)
Até então, a loira não havia prestado atenção exatamente em seu pai – ele era como a cidade, como o corte na testa dela (e como o sangue correndo pelo mesmo) –, lhe parecia que ele era só um detalhe de um cenário que se tornou insignificante dentro de um pequeno mundo formado por ela e aquela mão que tateava freneticamente os ombros do homem. Ela e a criatura, a dona daquela mão.
Seu segundo pensamento foi
(eu estou vendo isso)
Antes que pudesse até mesmo gritar de novo – e Aileen Dawson jamais achou que um dia fosse gritar daquele jeito –, ela já estava tirando o cinto. A mochila caiu de seus ombros e ela sinceramente não se importou. Henry Dawson tinha sangue em seu pescoço e alguma coisa o segurava – não, mais que uma coisa, havia mais que uma mão em seus ombros, mas ela sinceramente não se importou.
Ele gritava para que ela fugisse, e se debatia pela vida que ambos sabiam, em um nível que beirava o instinto, já estar perdida, mas ela sinceramente não se importou – mesmo porque ela o faria de qualquer jeito e não precisava do aviso dele para aquilo. Não houve tempo para se importar ou, diabos, para pensar.
Ela estava correndo.
Estava correndo sem direção alguma.
Estava correndo e não sabia quantos minutos – talvez horas? Talvez dias? – se passaram desde aquele pequeno e eterno momento de terror.
Estava correndo, mas sabia que não seria para sempre.
E também sabia que estava sendo seguida.
“Desculpe.”
Em meio a todos os pensamentos que estava tendo – ou que não estava tendo, pois sinceramente já não estava se entendendo muito –, aquele brotou rápida e calmamente, com uma complacência que não era digna daquele cenário. Fora cuidadosamente pensado e cultivado contra todas as chances, e Aileen sentiu os olhos marejarem.
“Desculpe por sobreviver à sua custa.”
A loira não era a melhor especialista em literatura de terror ou mesmo em filmes do gênero, mas achou que mesmo o medo e o pânico seguiam uma linha lógica de desordem e caos. Não deveria haver nas lágrimas que vertia ou nos pensamentos que se amontoavam espaço para pensar naquele homem que ficou para trás
(e cujos gritos não queria lembrar não queria lembrar não queria lembrar não queria lembrar não queria lembrar)
ou mesmo para sentir pena de si própria. Deveria haver só aquele instinto irracional e certo de sobrevivência, não? Mas ela sentia-se pensando – talvez apenas besteiras, é verdade –, mas pensando mais do que nunca. Como Henry Dawson fizera outrora, ela também estava se debatendo. Sua mente debatia-se com ela. Possivelmente porque – e ela sabia bem, uma ciência tão fria e consciente como aquele pensamento que agora já a abandonara tão rápido quanto chegara – era a única coisa que a restava agora.
Ouvia sons atrás dela, sons humanos e inumanos ao mesmo tempo, e sabia que estava sendo seguida. A despeito daquela parte ainda intocada dentro de si, um grande e duro núcleo de frieza, dizer que ela não foi preparada para correr longas distâncias, suas pernas recusavam-se a aceitar aquela realidade. Elas corriam, impulsionadas pelo medo ululante e primal de estar sendo seguida; de estar sendo ameaçada de morte.
O resto de si foi moldado a partir daquele medo, e todos os pensamentos sobre tudo e sobre nada desapareceram. Ela não pensava mais se aquilo era um sonho, se era realidade, se era o que quer que fosse; como num invólucro de sonho, tudo perdeu-se em escuridão e Aileen só conseguia conceber uma única palavra: correr. Nem mesmo na forma de letras, de pensamentos coerentes, apenas na ação de mover-se incansavelmente e se debater o quanto pudesse.
Flashes difusos e confusos de seu pai, de mãos putrefatas e de criaturas que não deviam existir passavam pela cabeça pesada, e por um segundo perguntou-se se eram coisas do tipo que gemiam atrás dela.
Entendera ali aquela tentação quase irresistível de virar a cabeça, de focar-se em meio à escuridão naquela cena, de observar seus caçadores – e entendeu, ao mesmo tempo, que se fizesse isso, seria o fim.
Mas não precisou, sinceramente, daquela constatação. Pois, quando virou uma rua qualquer – como uma barata entontecida que corre para lugar nenhum. Patético não ter usado sua inteligência até o último instante, quando era a coisa da qual mais tinha orgulho –, ouviu outra vez. O som tétrico. Atrás de si, à sua frente, e as sombras da noite desenhavam silhuetas se aproximando, um fim iminente colorido de vermelho debaixo daquele véu.
O fim de seu pai, há metros dali.
(Não era um sonho.)
Seus joelhos dobraram-se ante o peso da ciência de que aquele pedaço de concreto seria o seu túmulo. Sua mente enevoou. Encarando o nada – recusando-se até o último segundo, até o fim de sua vida, a focar-se naquelas coisas, a aceitar a existência delas –, a loira deixou os braços caírem nas laterais do corpo. Expirou pesada e tremulamente.
(Não era um sonho.)
“Vou desmaiar.”
Aileen sentiu-se até mesmo, por um segundo, agradecida por aquele reflexo. Ao menos, inocentemente acreditou, não estaria consciente para sentir a dor.
“Eu sinto muito, pai...”
Uma última visão patética.
Uma mente em choque e exausta demais para processar qualquer espécie de pensamento consciente, discernível.
O último pensamento de que iria bater sua cabeça no chão, e de que esperava que aquilo a matasse antes que aquelas coisas.
Um rastro de azul.
E então, apenas a escuridão.
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