Seu Chapéu Torto
5 V
Agora é estranho pensar em como os eventos haviam se encaixado tão perfeitamente – como se tudo o que houvesse ocorrido até aquele presente momento havia sido manipulado por uma força maior a fim de se jungir com mais precisão no panorama que se seguiria. Não acredito em destino ou fatalidades, mas é necessário dar crédito à coincidência e ao universo quando estes o merecem.
Mas espere; explicarei tudo.
Se na véspera eu havia sido isolado da casa, no natal propriamente dito, em vinte e cinco de dezembro de 1808, fui totalmente ostracizado. Contava os segundos que demorariam até que alguém me arrastasse até um canto qualquer e me desferisse alguns tapas e xingamentos bem direcionados, mas essa hora não chegou; primeiramente pelo fato que permaneci afastado em meu quarto pela maior parte do tempo e apenas saí quando a governanta começou a bater na porta com tamanho desespero que achei que a madeira fosse rachar.
— Acho melhor que se destranque daí ou será ainda mais mal visto do que já é, garoto – foi a única fala que me dirigiu antes de voltar às escadas de onde havia subido.
Talvez ela estivesse preocupada comigo; nunca havia compreendido aquela mulher.
Segui-a. Na sala de recepção, onde os degraus desembarcavam, havia uma comoção do tipo que nunca havia presenciado em North Grove antes. Um aglomerado de pessoas circulava o recinto: minhas tias agarravam seus leques com uma agressividade ansiosa, meus tios afrouxavam o colarinho exaustivamente, pálidos, e minhas primas haviam se recolhido em uma roda de cochichos e olhares discretos.
De repente, senti uma mão em meu ombro.
— Você desceu – era Philippe.
— O que está acontecendo? – indaguei.
Antes que ele pudesse responder, ouvi alguém tossir – virando-me na direção do som, percebi meu pai ao lado de um homem desconhecido, espalhado pelo sofá e segurando um copo com um líquido avermelhado; sua face estava ironicamente pálida e vermelha ao mesmo tempo. Atrás do sofá, um homem de aspecto severo dava voltas, impaciente, e uma mulher, posta ao lado do desconhecido, lhe apertava a mão.
— Traga-me outro pano – Arthur disse, e a governanta saiu em disparada para atender-lhe a ordem.
— Ele chegou hoje de manhã – Philippe continuou. – Ao que sei, estava viajando com a esposa e com o filho quando começou a passar mal. Os familiares o trouxeram até a casa mais próxima, que era a nossa; imagine o quão sortudo este homem é. Justamente a casa de um médico. Talvez o Natal seja mesmo uma data abençoada.
— Realmente – respondi, ainda um tanto aturdido. Havia tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo que minha mente achava difícil a tarefa de focar em um único evento.
Pelo canto do olho percebi meu pai limpar o suor de sua própria testa com um lenço; então, ele se volveu a todos os presentes na sala, parando especificamente em mim e Philippe. Senti meu sangue gelar.
— Voltem aos seus aposentos agora, por favor; este homem precisa de espaço para respirar.
Os cochichos da sala pararam por um momento. Todos se viraram na direção de Arthur.
— Por favor – ele repetiu, severo.
— Venha para o meu quarto – Philippe sussurrou logo depois, e subiu as escadas nem um pouco tão preocupado quanto o restante da família. Às vezes eu invejava o quão tranquilo ele conseguia ser.
Aos poucos, a sala foi esvaziando-se; percebi que Evie não se encontrava ali.
O homem tossiu mais uma vez, e a mulher que se encontrava ao seu lado lhe apartou a mão enquanto rezava. Meu pai me fitou pela última vez, pedindo-me com os olhos que fosse embora. Pela primeira vez em dias, obedeci-o e atravessei as escadas até Philippe.
Quando entrei no quarto, meu primo estava organizando uma estante de livros. Poucas vezes eu havia visitado seu aposento – o mesmo não era lá muito diferente do meu, apenas mais organizado e com menos concentração de poeira graças aos objetos inúteis que insistia em acumular em qualquer canto que fosse. Philippe se contentava com a simplicidade.
— Esse natal está parecendo uma piada – comentei, sentando-me na cama.
— Por que diz isto?
— Preciso explicar? As confusões, os desentendimentos... a chegada daquele homem do nada. Deus sabe o que está acontecendo aqui.
Philippe assentiu de leve, sussurrando alguma música em uma língua que deduzi ser francês enquanto continuava seu trabalho de tirar e recolocar livros na estante.
— E você, acha que isto tudo é culpa minha?
A pergunta me pegou de surpresa.
— Sua? – pisquei. – Claro que não!
— Então você é ingênuo – Philippe riu. – Sejamos sinceros; caso eu não tivesse aparecido, não teria motivos para brigar com a sua prima, e igualmente eu não teria discutido com sua tia.
— O que está querendo dizer? O homem na sala de recepção não possui nada a ver com você – retruquei.
— Tem razão – ele deu de ombros, encaixando os livros em seus respectivos lugares novamente e virando-se para mim. – Mas não há como desmentir o que eu disse.
— Não entendo o que está sugerindo com isto – suspirei. Philippe sentou-se ao meu lado.
— Você é o único que parece não se afetar pela minha presença.
Pisquei algumas vezes; não conseguia compreender o rumo da conversa. Philippe pareceu perceber minha confusão, ou talvez já possuísse aquele monólogo gravado em sua memória, pois continuou:
— Na França, não possuía muitos amigos. É claro, jamais me considerei demasiadamente social, mas o fato é que as crianças da rua e pobres como eu me achavam esnobe; os mais ricos me olhavam como uma aberração, o que já era de se esperar. Meus pais eram uma das únicas figuras que me proporcionavam algum conforto; mas então aconteceu o incêndio. Eu fiquei arrasado – ele pausou. – Agora me é estranho como parece que meus sentimentos se ensurdeceram e eu não sinto nada além de um vazio duvidoso quando os menciono.
— Desculpe – respondi, sem saber muito bem o que dizer.
— Fui acolhido por uma paróquia, e lá permaneci até a chegada da carta de seu pai. Dias antes de embarcar, o abade adoeceu e foi levado a um hospital; não recebi mais notícias dele. Quando eu vim para cá, não possuía expectativa qualquer, mas ainda assim acabei fazendo amizade com Evie e depois com você. Seus pais acabaram, de certa forma, gostando de mim, também – ele riu. – Mas agora, depois de todo esse embrulhamento... O único que ficou foi você. É engraçado.
— Engraçado? – franzi o cenho.
— Você é engraçado. Estranho, até.
Não soube interpretar se aquilo havia sido uma crítica ou um elogio pois Philippe não se preocupou em desenvolver a ideia. Se havia alguém engraçado ou estranho naquele quarto, aquele alguém era meu primo, e não eu.
— O que você fez com a Evie aquela noite? – perguntei um tanto sem querer; o assunto me veio à boca antes que eu percebesse.
— Como? O que eu fiz? – ele ecoou. – Que maneira de frasear.
— Você... saiu do quarto dela aquela noite e me fez um gesto para ficar calado. Estou apenas curioso, é tudo.
Não olhei para ele, mas senti o seu próprio olhar sobre mim. Philippe, em certas ocasiões, conseguia ser ainda mais sinistro que meu pai.
— Evie tem andando estranha ultimamente – continuei para apaziguar o clima que de repente havia se tornado mais tenso. – Ela realmente gostava de você; não sei o que houve ao certo para que ela começasse a agir dessa maneira.
— Acreditei que achasse garotas insuportáveis, Leo – ele retornou.
— Mas ela é minha irmã – suspirei.
— Certo – assentiu. – Quanto a mim, asseguro-te que não fiz nada.
— Nada? Mesmo?
— Sim. Talvez seja por isso que ela esteja tão cabisbaixa.
Philippe abafou uma risada cínica, mas não encontrei a graça em suas palavras; ainda que com treze anos e com uma visão limitada do mundo, isento do conhecimento que ele provavelmente estava se referindo, achei necessário defender a integridade de minha irmã.
— Não fale desta maneira. Por mais eu possa desgostar dela, Evie ainda é família.
— Família? Como eu?
Vacilei; Philippe ficou sério novamente.
— É disto que eu estava me referindo; você é um paradoxo, e eu não consigo te entender mesmo quando tento. É o que me é engraçado; não acha sua irmã agradável, mas ainda assim não admite que lhe insultem. Conheceu-me há apenas alguns meses e ainda acha necessário defender seja lá qualquer tipo de dignidade que eu possa ter. O que aconteceu antes ainda não saiu de minha cabeça, Leo.
O tom da voz de Philippe me soava inquieto, e eu não conseguia compreender o que eu havia feito nem dito para merecê-lo.
— Ao que está se referindo? – engoli em seco.
— À briga sua e de sua prima, é claro.
— Eu não estou te entendendo, Philippe.
— E tenho que admitir que também não te entendo, Leo. Você se mete em assuntos que não lhe dizem respeito, paga por eles e depois diz não se arrepender. Por quê?
— Ah – levantei-me. – Em meu lugar não faria o mesmo?
— Não – respondeu prontamente. – Quero dizer...
Travei por um momento.
— Não me considera parte da sua família...?
— Leo – ele se levantou também, como se de repente houvesse se tocado de que havia dito algo que não deveria. – Não foi isso o que eu quis dizer. Eu só genuinamente quero entender a razão de...
— Ah... é por isso que Evie te odeia agora. Você é frio, Philippe.
Voltei ao meu quarto com passos pesados, e embora parte de mim desejasse que ele me parasse, Philippe não moveu um músculo sequer.
Eu já estava enjoado de chorar. Meus olhos arderam e arderam, mas não deixei uma lágrima sequer escorrer. Por que faria?
Os sentimentos que havia sentido na primeira vez que vi Philippe voltaram à tona, então. Quando parecia que eu estava conseguindo definitivamente me aproximar dele, algo acontecia e todo o progresso voltava à estaca zero; talvez meu primo, afinal, não fosse tudo o que eu acreditava ser. Por bem ou por mal, talvez eu o houvesse julgado errado, mais uma vez.
Philippe não fazia sentido. Não. Ele era o mais engraçado de nós dois. Ridículo.
Fiquei neste dilema, neste antagonismo, até que a governanta se apresentou mais uma vez na porta de meu quarto, pedindo-me me descesse para o almoço. Estava com fome, mas sem nem um pouco de vontade de interagir com quem quer que fosse. Principalmente com Philippe.
Por ironia do destino, quando desci, a primeira pessoa com que deparei foi ele. Pelo menos não estava fingindo que nada havia ocorrido; seus olhos se desviavam dos meus todas as vezes que o peguei me observando, e desta vez Philippe fez questão de sentar o mais longe de mim que conseguiu.
À mesa, ao invés de avistar um de meus tios em uma das cadeiras à direita, o mesmo homem que antes havia encontrado sem ar no sofá da sala ali havia se despejado, sua complexão muito melhor do que antes. Àquele ponto eu já havia me esquecido dele. Ao seu lado, a mesma mulher que deduzi ser sua esposa conseguia agora formar um sorriso sincero com os lábios, mais serena; o rapaz de aspecto áspero não se sentou conosco, mas o avistei, depois de instintivamente procurá-lo com o olhar, pela janela do outro lado, fumando próximo da entrada.
Minha mãe rezou como de costume, ainda mais fervorosamente pois a data lhe exigia isto; antes que comêssemos, porém, meu pai ergueu a voz:
— Sinta-se à vontade conosco, sr. Oxley; afinal, é Natal. Acredito que não terás mais crises como a de antes, pelo menos não enquanto estiveres aqui; mas repito, aconselho-lhe a descansar e não mais se deixar levar pelo estresse.
— Somos eternamente gratos ao senhor, doutor Venner – a mulher respondeu. – Oh! Se não pelo sua generosidade, quem sabe o que poderia ter acontecido a meu velho marido...
— Oras esta, Lilian, não diga mais coisas tão absurdas – o velho protestou. – Estou muito bem agora; irei, pois, comer. Se morrerei ainda hoje, não sei, mas não desejo morrer de estômago vazio!
A mulher lançou um olhar comicamente incrédulo ao marido, que por sua vez pôs-se a cortar um pedaço do pernil posto a sua frente. Lá fora, seu filho acendia outro charuto, olhando impacientemente para o horizonte.
— Tens toda a razão, sr. Oxley – meu pai riu.
Mastiguei algumas batatas e pedaços de carne – maldita culinária inglesa, lhes digo, nada supera sua falta de criatividade ou tempero – o mais devagar que pude; não estava com vontade de voltar ao meu quarto nem de retornar à minha miséria, e a maneira com que o tal sr. Oxley devorava tudo o que via estava me entretendo. O homem era claramente rico, mais do que a minha própria família, dado ao seu traje e físico corpulento, mas ainda assim tinha modos tão rústicos que poderia vestir um saco de batatas e auto nomear-se Willy que qualquer um facilmente acreditaria ser esta sua real identidade.
Segurei um riso. O sr. Oxley conversava com meu pai, indagando sobre os demais da mesa e apresentando-se a cada um deles; acredito que para não os deixar desconfortáveis demais diante de sua gula.
Antes que eu percebesse, ele voltou-se a mim.
— E este rapaz, quem seria?
— Ah – meu pai suspirou. – Este é meu filho mais novo, Leo.
Pus os talheres ao prato, e assenti com a cabeça em um gesto cortês, dizendo-lhe que era um prazer conhecê-lo. O homem gargalhou.
— Oras, mas que coincidência! Pois eu tenho um Leo também – ajustando a calça que deveria estar lhe apertando a barriga já, sr. Oxley deu-se a gritar tão alto que Evie derrubou seu garfo de susto. – Leonard! Venha aqui!
O rapaz que antes estava lá fora jogou o charuto no chão e adentrou a sala com tanta prontidão que parecia estar esperando que o pai tivesse outro ataque a qualquer instante.
— Está tudo bem, meu pai? – questionou, confirmando meus pensamentos.
— Ora, garoto tolo, claro que está. O doutor Venner tem as mãos do próprio Senhor lhe manipulando! Sou um homem curado.
— O senhor me elogia demais – meu pai tossiu.
— Não; apenas sou um homem honesto. Este, aliás, é meu filho mais novo, também, Leonard Samuel Oxley.
— Prazer em conhecê-los – ele reverenciou-se, o que fez com que uma de minhas primas se inclinasse para ter uma melhor visão do rapaz. Ele possuía um aspecto agradável, ainda que rigoroso; parecia o tipo de pessoa que se encontraria no gabinete do rei lhe servindo de procurador da justiça, por isso não se encaixava muito bem no meio de nós.
— Leonard está um pouco atordoado no momento; o Royal Opera House recentemente sofreu um incêndio. Ah! Tudo foi perdido. Saímos de Londres para esquecer a tragédia e voltar quando tudo estivesse mais calmo, mas tivemos um pequeno empecilho.
Talvez fosse impressão minha, mas vi, de soslaio, Philippe estremecer ao pronunciamento da palavra incêndio.
— Royal Opera House? – minha tia perguntou. – Que horror! Deus guarde as vítimas.
— Vítimas? Oh não, senhora, as únicas vítimas foram os rios de dinheiro jogados naquela construção! Teremos que começar do início novamente. Leonard está arruinado.
— Não diga isto, pai – Leonard pigarreou.
— Como não! Muitos dos artistas se recusaram a retornar, mesmo se a casa for reconstruída. A ruína, meu filho, alcançou-lhe; é este o preço que paga sendo tão bem-sucedido em tão tenra idade.
A sra. Oxley deu uma cotovelada de leve no marido, ao passo que tudo o que filho fez foi suspirar profundamente como se estivesse a dar outra tragada em seu charuto.
— Trabalha lá, sr. Oxley? – Eleanor questionou, limpando os lábios com um pequeno lenço.
— De fato, sim – Leonard respondeu, ajustando seu colarinho. – Desde o ano passado sou um dos três gerentes legais do Opera House. No momento estamos tentando consertar o estrago, mas...
— Mas...? – minha mãe continuou.
— Não sabemos ao certo quando a tarefa será concluída. Como meu pai disse, muitos dos artistas estão aterrorizados; embora grande parte da casa seja financiada pelo próprio rei, é difícil corrigir o estrago que o fogo causou. Teremos, realmente, que começar tudo outra vez.
— É 1734 mais uma vez – sr. Oxley concordou.
— Ah – minha tia Nancy, com quem Philippe havia discutido anteriormente, intrometeu-se na conversa. – Não precisa procurar longe por artistas! Nesta casa mesmo possuímos um pianista. Um espécime trazido do próprio leito de Napoleão, de fato.
Todos os olhares se voltaram a Philippe, que por sua vez estava a observar a conversa. Ele surpreendeu-se ao ter a atenção da sala sobre si; Leonard, ao perceber a comoção, voltou-se a Philippe também.
— Toca piano? – perguntou, genuinamente curioso.
— Gosto de acreditar que sim – Philippe respondeu.
O sr. Oxley coçou a barba, os olhos fixos em meu primo.
— Não é inglês, não é? Oh, claro que não. Viajei o bastante fora deste país para compreender isto; um inglês jamais responderia assim. É francês?
— Sim, senhor.
— Oh! Magnífico! – exclamou. – Vamos, devemos levar o garoto conosco, Leonard. Um francês legítimo no Ópera, que grande fama isto nos daria.
— Na época da guerra, é claro que sim.
— Não me refiro a isto – o velho retrucou. – Você sabe que as melhores óperas são sempre as francesas.
— Não vamos nos adiantar – Leonard interrompeu. – Temos, ou melhor, tínhamos artistas de variadas nacionalidades antes. Um francês a menos ou a mais, que diferença nos fará? O que o ópera precisa é de pessoas talentosas.
— Philippe tem talento – intrometi-me.
Os olhares voltaram-se a mim, então, e pude sentir a tensão que minha voz causava no ambiente. Onde eu estrava, a desordem seguia; mas não dessa vez.
— Posso testemunhar. De fato, todos nós aqui podemos. Se assim desejar, tenho certeza de que ele tocará algo para o senhor agora mesmo.
Como de costume, a contorção no rosto de Philippe me dizia que ele estava insultando-me mentalmente. Não ligava; eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, ele iria me agradecer. Nós podíamos ter discutido antes, mas isto não queria dizer que de repente eu iria desistir de minha palavra ou de meu plano; eu ia mostrar a Philippe que tudo aquilo possuía um significado.
Família.
— Estou curioso agora; por favor, mostre-me, se lhe prouver – disse Leonard, a expressão suavizando-se ao volver-se a Philippe.
Meu primo engoliu em seco. Ele estava visivelmente desconfortável, mas ainda assim não protestou. Como na noite anterior, dirigiu-se à sala e ao piano e teclou os dedos nas peças do instrumento suavemente. Ele pareceu começar a tocar o mesmo arranjo das vezes anteriores, mas deteve-se e, após pedir desculpas, contou até três e pôs-se a manejar o dominó do piano com outro ritmo, mais rápido e pungente, e o tom – ah, o tom. As notas graves contrastavam com as médias que logo davam espaço às mais agudas e breves, o balanço angustiante da melodia ecoando livremente pelas quatro paredes da sala. Por minutos, era como se não houvesse mais nada lá além de Philippe e do instrumento.
A música transcorria tal como uma corrida; Philippe tocou com uma agilidade e destreza que eu nunca havia presenciado antes, e logo me vi surpreendido pelo fato de que meu primo era ainda mais talentoso do que eu já acreditava. Um sentimento de orgulho apossou-se de mim.
O restante da sala parecia compartilhar de meu espanto, salvo por Leonard, que mantinha a expressão pesada nas feições, analisando tudo; era difícil lê-lo. Ao final do concerto, até mesmo Nancy parecia ter se encabulado.
— Bach, G menor... sem uma pauta. Erros mínimos. Deve dizer que estou surpreso que saiba tocar isto – Leonard elogiou, o mais vago traço de um sorriso estampado em seus lábios. – Posso perguntar onde aprendeu a tocar assim?
— Por que não? – Philippe, retrucou. – Mas infelizmente não sei se poderia lhe responder.
Leonard balançou a cabeça em descrença, parecendo estar estancando um riso. Meu pai, que havia permanecido quieto durante todo o diálogo anterior, por sua vez, observava meu primo com uma certa curiosidade que me parecia isenta de qualquer rancor dos eventos passados. Ele estava pensando.
— Senhores Oxley – meu pai disse, finalmente. – Venham comigo até o jardim, desejo conversar convosco. Se lhe for de interesse, compareça também, Philippe.
Os convidados se entreolharam, tentando compreender o porquê daquela solicitação tão repentina, mas não obtiverem resposta. Os quatro dirigiram-se efetivamente à porta de saída, e o grupo ao meu redor rendeu-se as suas habituais teorias sobrea a vida alheia, cochichando entre si palavras que não prestei atenção e por isso não posso tentar reproduzir.
Ainda próxima ao piano, avistei Evie. Ela estava a fitar as notas com uma ansiedade no olhar que era difícil de compreender, porém fácil de entender; Philippe. Ao aproximar-me mais dela, minha irmã, em um sobressalto, acordou de seus devaneios.
— Leo!
— Você anda muito estranha ultimamente – comentei.
— Ora, não é nada. Desde quando você se interessa pelo meu humor, afinal?
Virei os olhos.
— Às vezes; talvez se você fosse menos rude poderia fazê-lo sempre.
— Desculpe – ela suspirou, apoiando-se no instrumento. – Eu apenas me sinto... esgotada. E frustrada sem ao certo saber porquê. Você não está abalado com a notícia?
— Notícia? Do que está falando?
— Você não sabe? – ela piscou várias vezes, incrédula. – Bem, faz sentido. Papai e mamãe apenas entraram em um consenso ontem à noite.
Ontem à noite. Um calafrio desceu por mim, de repente. Provavelmente não era nada de bom.
— O que aconteceu...?
Evie olhou para os lados, verificando se ninguém mais estava a nos escutar. Vendo que este não era o caso, aproximou-se mais de mim, o pesar em sua expressão.
— Você sabe como papai sempre foi contra você ser educado em casa; mamãe era a única que conseguia fazer mudar, ainda que levemente, sua ideia quanto a isso; ela dizia que o seu gênio seria melhor desenvolvido caso convivesse cotidianamente em North Grove. Mas, depois dos desentendimentos...
Engoli em seco. Já sabia o que viria depois.
— Depois que você se trancou em seu quarto, eles brigaram. No fim, mamãe concordou em matriculá-lo em um internato a partir do ano que vem. Ela ficou arrasada. Papai afirma inclusive em já conhecer um.
— Ah – suspirei. Ouvir o relato da voz de Evie pareceu diminuir o meu choque inicial, mas seria mentir dizer que não me senti agastado.
Então esta era a minha sentença final. Exílio.
Meus pais possuíam toda a razão do mundo para chegar àquela conclusão, é claro, mas sentimentos são sentimentos, e mesmo quando estamos do lado errado da história, acreditamos ser os vitimados; ainda mais em circunstâncias que cremos ter agido com boas intenções em mente.
— Obrigado por me contar – respondi.
— Leo... – Evie continuou, mas deteve-se. Ela não sabia mais o que dizer. De qualquer forma, eu não necessitava de que ela dissesse mais nada.
— Uma hora ou outra eles iriam querer se dispor de mim, eu entendo.
— Eles decidiram isto para o seu bem.
— Meu bem... claro – ri. – De fato, eu concordo. Não posso esperar para sair do núcleo deste ninho de cobras que chamamos de família.
É claro, eu não me referia a Evie nem a Philippe. Família, para mim, sempre havia tido um significado intimamente definido.
Ainda assim, embora entender que eu estava errado fosse um lado da moeda que eu já tinha virado, concordar com aquilo ainda estava ainda longe da minha concepção de moral de um bedelho de treze anos. Evie suspirou, provavelmente não acreditando no quão difícil eu conseguia ser até mesmo em situações como aquela.
Eu sinceramente, também não acredito.
Passados alguns minutos, meu pai retornou com Philippe e os senhores Oxley. A maioria do pessoal havia saído ou se dirigido aos seus quartos, mas os que ali restaram imediatamente se volveram às figuras. Arthur demonstrava um sorriso de gratidão nos lábios e o sr. Oxley mais velho, um de satisfação; nenhuma das outras duas figuras parecia demasiadamente afetada aos meus olhos.
— É agora com prazer que lhes apresento o mais novo pianista aprendiz da Royal Opera House de Londres, Philippe Venner! – exclamou o velho Oxley.
Houve um instante de abalo entre os presentes, mas logo todos começaram a aplaudir e congratular meu primo. Até mesmo Evie se comoveu, indo de encontro a Philippe para parabenizá-lo e me empurrando de leve no processo.
Não fui até Philippe; não achei necessário fazê-lo. Mas eu estava contente. O meu plano havia funcionado, no fim.
Por entre os abraços não requisitados e os elogios de meus parentes, Philippe volveu o olhar mim. Ele franziu as sobrancelhas a princípio, mas depois sorriu. Como em nosso encontro no jardim, aquele dia.
Ele estava me agradecendo.
Depois de tudo isto, o dia passou como um borrão de eventos sucessivos dos quais eu me sentia emocionalmente drenado demais para prestar atenção. Meus pais me chamaram até o escritório e me contaram o que eu já sabia, e parecem assustados com o fato de que não protestei nem tive um surto histérico no meio da sala. À noite, na missa, não me lembro de uma fala ou ocorrência sequer, embora a data fosse singular.
No fim, tudo estava decidido; ao começo de janeiro, eu faria minhas malas para York ao passo que meus pais e Evie continuariam no solar.
Philippe, no fim, teve um destino semelhante ao meu: dois dias após o natal, quando o velho Oxley já havia se recuperado em sua totalidade e recebido as instruções e medicação correta por parte de meu pai, ele foi embora junto da família para Londres. Minhas tias partiram no dia seguinte, e então tudo voltou a ser como sempre havia sido em North Grove.
No tempo que ainda permaneci no solar, Philippe me escreveu. Disse que Londres era um local que ele jamais teria imaginado viver, e agora que estava ali tudo parecia um sonho febril. O ópera estava em reforma, mas ele se dizia confiante de que logo a construção estaria de pé e mais triunfante do que ela já havia sido em tempos atrás.
Ao fim da carta, do qual não li a meus pais, ele havia escrito um simples ‘desculpa’, a caligrafia visivelmente trêmula e outras palavras que foram rabiscadas logo ao lado, de maneira que, mesmo tentando ao máximo, não consegui decifrá-las.
Fale com o autor