Seu Chapéu Torto
3 III
Depois de um mês, chegou-se efetivamente o dezembro e todas as celebrações que sempre acompanham este mês singular. Ao contrário da maioria das crianças, eu nunca havia sido grande fã das festas natalinas; estas festas me eram sempre sinônimo de visitas à North Grove, e visitas eram sinônimo de minhas tias e primas.
Naquele ano, porém, eu estava ansioso; seria o meu primeiro natal com Philippe, e pelos relatos que ele às vezes deixava escapar, nunca havia celebrado a ocasião com muita regalia. Seus pais eram pobres, e, por conseguinte, o máximo que conseguia tirar da celebração era um abraço ou as lágrimas de sua mãe, que se sentia culpada por não poder propiciar nada ao filho.
Eu estava, então, determinado em fazer com que aquele Natal fosse um dia para ser relembrado.
Philippe, por outro lado, parecia não ligar muito para a data que se aproximava. Ao mesmo passo, ele também não deixava transparecer qualquer pensamento religioso em que acreditava, o que me deixava com a impressão de estar tentando perseguir a luz em um túnel sem saída. Eu apenas precisava de uma dica.
Certo dia, enquanto passava pelo corredor principal da mansão, avistei a porta da biblioteca aberta. Esta raramente se encontrava assim, já que meu pai tinha um zelo enorme por seus livros, logo deixá-la escancarada quando não havia ninguém no recinto era quase que uma afronta pessoal contra o patriarca da casa. Fui fechá-la, mas no momento em que pisei no local, avistei Philippe e minha irmã ao fundo da sala.
Ouvi um risinho dissimulado; era obviamente Evie.
Ah, sim. Enquanto eu e Philippe conseguimos estreitar nossa amizade, minha irmã também o havia feito, infelizmente. Não compreendia como ele e Evie conseguiam se dar tão bem; aos meus olhos, minha irmã e uma harpia eram quase que a mesma criatura, afinal.
Aproximei-me sorrateiramente da cena, e vi que Philippe estava desenhando, enquanto Evie se encontrava sentada em uma cadeira a sua frente. Esta era outra habilidade dele que eu havia descoberto apenas depois de pegá-lo rabiscando um papel e lhe indicado o velho cavalete da biblioteca; desenhar. Às vezes Philippe me surpreendia com seus talentos; o abade claramente não havia mentido em sua carta, e aquilo, de certa forma, invejava-me.
— Posso olhar agora? – minha irmã perguntou, erguendo a cabeça levemente.
— Ainda não. Estou quase acabando – respondeu Philippe.
Curioso, cheguei mais perto, tentando ver o que Philippe desenhava, mas ele estava debruçado em cima da folha de maneira que não consegui ver nada. Ao avistar-me, tipicamente, minha irmã bufou.
— Você não deveria estar estudando, Leo?
— Eu posso perguntar a mesma coisa a você – mostrei-lhe a língua.
— Certo, certo, parem de se comportar feito crianças – repreendeu-nos Philippe. Era incrível como que embora ele e Evie tivessem a mesma idade, ele sempre conseguia ser mais maduro do que ela. – Vocês não conseguem passar por um dia sem se estranharem?
— É tudo culpa dele – respondeu Evie – sempre vindo aqui e nos importunando! Oras, já é tempo de você descobrir o que a palavra privacidade significa, Leo.
— E para que você deseja privacidade com Philippe, Evie? – retornei.
Minha irmã corou no mesmo momento, mas Philippe não reparou nem deu bolas ao assunto; ele apenas continuou a desenhar.
— Pois bem, saiba que também moro aqui e tenho todo direito do mundo de ir e vir aonde bem entender – estufei o peito, esperando que ela me respondesse, como sempre, mas Evie permaneceu quieta.
Um silêncio estranho tomou conta da biblioteca, então, o som do lápis de Philippe sendo a única coisa a ecoar pelo recinto.
— Sua presença está longe de nos incomodar, Leo – ele disse, finalmente.
Senti uma espécie de orgulho tomar conta de mim, e virei o rosto para Evie com um sorriso vitorioso. Ela estava com a cabeça baixa, as maçãs do rosto ainda mais vermelhas do que antes, mas não sei dizer se de raiva ou vergonha.
Passados alguns segundos, Philippe colocou o lápis de lado.
— Pronto! Terminado.
— Mostre-me, mostre-me – minha irmã levantou-se, as energias de repente voltando-lhe ao corpo, e pegou a folha da mão de Philippe. Não pude ver o desenho pois ela o agarrou muito rapidamente; fitou a folha rabiscada a sua frente por alguns instantes e depois começou a rir, o rosto tingindo-se de vermelho mais uma vez. – Oh, é tão lindo! As linhas, o contorno, o esboço... Philippe, você é um tesouro!
— Você me elogia demais, senhorita – respondeu.
— Não, claro que não! És um verdadeiro artista. Diga-me, pretendes fazer desta sua profissão?
— Eu...? Uma profissão? Não pense coisas bobas, senhorita – Philippe riu. – Como isto seria possível? Não possuo treinamento formal e tampouco a influência ou o dinheiro para tal.
— Meus pais podem ajudar-lhe – Evie disse, colocando a folha em cima da mesinha e segurando as mãos de seu primo com firmeza – oh! Tenho certeza de que o farão. Você apenas precisa mostrar seu interesse, Philippe.
— Acha mesmo...? – ele duvidou, suspirando.
— Sim – respondi, entrando no meio da conversa. Não havia visto o desenho, é claro, mas não duvidava nem um pouco da habilidade de Philippe. – Mamãe gosta de você, e meu pai também, apesar de tudo. Agora que você foi legalmente adotado por eles, com toda certeza irão querer te ajudar em tudo que precisar, assim como nós.
Evie concordou com a cabeça em uma de suas raras instâncias em que ela parecia considerar minhas palavras ao invés de ignorá-las. Philippe, por sua vez, não me pareceu entusiasmado nem tristonho; ele apenas deu de ombros.
— É um assunto a ser considerado, talvez.
No fim, eu acabei não vendo o desenho.
Mesmo assim, não liguei muito para o mesmo após aquela conversa; minha criatividade juvenil, esta habilidade que geralmente perdemos ao decorrer dos anos, rodou e rodou, e de repente eu já tinha o meu presente a Philippe em mente: na ceia de Natal, quando todos à mesa estivessem recheando-se de passas e peru, levantar-me-ia e em boa e alta voz pediria a Philippe tocar o piano; todos os olhares então se voltariam a ele, e como o bom cavalheiro que meu primo demonstrava ser, não recusaria meu pedido; pelo contrário, acatá-lo-ia com o maior prazer. Meus pais, surpresos pela habilidade até então oculta de seu sobrinho, iriam encarregar-se de sua educação a partir dali, e Philippe, efetivamente, seguiria sua devida vocação.
É claro que Philippe desejava ser um artista. Ele era apenas humilde demais para admitir isso em voz alta.
O que se seguiu a seguir foi o sempre se seguia na época natalina. A carta da chegada de minhas três tias, todas irmãs de minha mãe, foi-nos entregue pela governanta. Era incrível como embora todas as três fossem bem casadas, até mais do que minha mãe, de certa forma, achavam proveitoso migrar todas para o mesmo local, no fim no mapa, apenas para passar, no máximo, um mês. De certo a ideia de morar no interior lhes era agradável já que todas residiam em Londres, mas eu, com toda minha honestidade e estupidez alienada, não via graça alguma em North Grove, ou sequer na vizinhança.
Não falei com Philippe sobre meu plano por medo de não o estragar, é claro. Passei os quinze dias subsequentes em silêncio, e nem mesmo as conversas paralelas de minha irmã com Philippe me tiravam o foco. Eu apenas esperava que ela não tivesse uma carta por baixo na manga, também.
Chegando no dia vinte e dois de dezembro, minhas tias chegaram, e, é claro, suas filhas e maridos as acompanharam. Minha mãe obrigou-nos a fazer a fila para cumprimentá-las, e após muitos elogios de como eu havia crescido, havia me tornado mais homem ou educado, a atenção delas voltou-se para Philippe. Nenhuma ousou dizer nada além das típicas saudações, mas era óbvio o olhar de julgamento que lançavam para meu primo. Não esperava que elas gostassem dele, de qualquer forma – ingleses e franceses possuem esta inimizade natural, quase que genética, imbuída dentro de si mesmos, quando os laços de sangue não a anula. Elas não possuíam conexão alguma a Philippe, e era mais do que natural que sua presença não lhes fosse exatamente bem-vinda.
Era um preconceito bobo.
Nestes dias, percebi que Philippe havia ficado mais calado e apático. Quando eu o chamava para sairmos para o jardim, ele me recusava e voltava ao seu quarto; não entendi muito bem o que estava fazendo, mas resolvi não o importunar. Talvez a presença várias pessoas estranhas na casa o houvesse intimidado, eu acreditava, mas após ter pego minha irmã entrando e saindo continuamente de seus aposentos e indo aos de Philippe, eu pressenti que talvez este não fosse o caso.
Por mais que eu negasse, confesso que estava com ciúmes. Um ciúme confuso, que não entendia o porquê de minha irmã, uma garota, poder passar todo o tempo que quisesse com seu primo, mas eu não, sendo que ele mesmo havia dito que eu não os importunava. Eu não o importunava. Com raiva, pensei até mesmo em desistir do plano, mas ao lembrar que talvez ele abrisse outra porta em meu relacionamento com Philippe, resolvi não remoer muito sobre o assunto.
No dia vinte e três, minhas tias e mãe haviam decidido conversar e caminhar por entre o pátio e contemplar a neve, aproveitando que milagrosamente não se fazia tanto frio como antes. Eu não havia sido arrastado para o passeio, mas também não possuía a mínima vontade de estar ali; apenas o fiz pois não via motivos em permanecer naquela mansão sendo completamente ignorado.
Não me juntei a elas; fui para um pilar ali perto, encarando o horizonte branco e esperando o tempo passar. De repente, uma de minhas primas se aproximou, colocando-se ao meu lado. Era Eleanor; loira, alta, pele porcelana e as infames presilhas de prata penduradas no cabelo ondulado.
— Algum problema, caro primo?
Simplesmente fiz que não com a cabeça.
— Você parece um tanto... abatido – insistiu.
— Não é nada, lhe asseguro.
— Oh, não parece nada para mim – ela respondeu, e eu franzi o nariz em resposta. Ser intrometida não era lá a atitude correta de uma dama, pelo que eu entendia. – Pode me contar tudo, se assim quiser. Eu sei que deseja desabafar.
Não respondi nada; apenas suspirei, vendo minha respiração se tornar fumaça branca. Eleanor permanecia.
— Ah, entendo. É o seu primo, não é? Philip... Era este o seu nome? Ele deve estar lhe causando problemas; é mais do que natural, vocês dois são garotos.
— Não há nada com ele, Eleanor – resmunguei, não gostando do rumo que aquela conversa tomava.
— Oh, você parece alterado de repente! Acertei na mosca. Diga-me, Leo, o seu primo é mesmo o que minha mãe o diz ser?
— Não sei; diga-me você – retornei.
— Philip é filho de uma meretriz! Além disso, o garoto é francês e pobre. Estas combinações raramente criam um caráter digno, eu sei; nós dois sabemos muito bem disso. Especificidades a parte, talvez sua atitude rudimentar o tenha assustado, priminho; ou talvez...
— Por favor, Eleanor, cale-se – respondi por entres os dentes; aquela conversa estava me deixando mais irritado do que eu já estava.
Ela calou-se, parecendo assustada, e embora parecesse querer continuar seu monólogo, Eleanor se deteve.
Ou pelo menos eu achei que ela o tivesse feito, pois passados alguns instantes, ela voltou com o seu ensaio de escárnio:
— Entenda, Leo, não se é possível interagir com certas pessoas; elas carecem do senso e da sensitividade que se é agradável em uma dama, ou em um cavalheiro, e tal falta muitas vezes nos atinge de tal maneira, que, embora óbvia e dolorosa para nós, é normal para os que nos feriram. A natureza primitiva de alguns ofende a nossa mais polida.
Neste ponto, eu já estava sentindo meu sangue ferver.
— Há algum motivo pelo qual a senhorita insiste em descrever seu próprio caráter a mim? – perguntei.
Eleanor me encarou surpresa.
— Desculpe-me, Leo?
— Pare de dizer maldades acerca de pessoas de você ao menos conhece, Eleanor; pare de se sentir tão grandiosa quando você não passa de uma hipócrita que não sabe medir nem as próprias palavras ou a própria pessoa!
Eleanor endireitou-se, seus olhos ligeiramente marejados, mas antes que ela pudesse dizer algo mais, pus-me a sua frente, agarrando-lhe os ombros.
— Então, cale-se. Não ache que só porque você é mais velha que pode se dirigir a mim e a meu primo dessa maneira. A única rudimentar que vejo aqui é a senhorita, e se não melhorar este caráter mesquinho, vai acabar debutando na sociedade como uma sem educação, ou melhor! – pausei, inspirando o ar seco e frio. – Uma víbora!
Eleanor deu um gritinho, levando ambas as mãos até sua boca e efetivamente começando a soluçar em prantos. Soltei-a, e ela correu em direção da mãe; escutei a minha própria gritar meu nome logo depois, mas eu já não estava mais perto do local para atender-lhe; fui embora de volta a mansão.
Omito descrever os eventos que se sucederam. Limitarei a contar que, depois, levei uma bronca de minha mãe e uma surra da parte de meu pai, quando ele voltou, à noite. Todos da casa passaram a me ignorar, então, e aos cantos ouvia os cochichos mudos de como eu já estava grande demais para demonstrar aquele comportamento irrequieto e pequeno demais para ter tanta ruindade do coração. Como poderia alguém dizer tantas maldades a um anjo como Eleanor! Não me defendi, e não o farei, da mesma forma como não me arrependi nem me arrependo.
Passei o que restava da data encolhido no canto da sala, passando os olhos pelas palavras de um livro qualquer e esperando que o sono me encontrasse. Este não o fez, e então, mais frustrado do que antes, subi as escadas de volta ao meu quarto, a garganta doída do choro que eu guardava em meu âmago. Quando me aproximei do quarto de Evie, porém, a porta rangeu de leve e abriu-se.
Philippe saiu de lá de dentro.
Com um sobressalto, dei alguns passos para trás, a luz de minha lamparina vacilando por um momento. Philippe olhou para mim, sem esbanjar nenhuma reação que pudesse ser captada.
Ele levou o dedo indicador em frente aos próprios lábios. “Shh”.
Engoli em seco.
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