Seth is a Good Boy

15 Capítulo 15 - Puro ego, pura paixão


— Um suco de morango, por favor.

— Dois. – Seth concluiu, sorridente para o garçom.

Seth, ainda pensando em como começar aquela conversa toda, começou a brincar com o porta guardanapos. Minutos depois, com o dedo já cansado, Seth de maneira alguma desistiu. Partiu para o batuque na quina da mesa. Isso já estava ficando estressante. Ele aderiu um ritmo de samba e a acústica da lanchonete era legal. Mas ele se empolgou demais.

— Pode parar, por favor? – Savannah adiantou-se.

— Desculpa. – respondeu ele, enfiando as mãos no bolso da calça. – Não acha que o suco está demorando?

— Seth, não faz nem sequer três minutos que pedimos. – ela disse, fria como uma lata de refrigerante de praia.

— É verdade. Você tem razão. – silêncio. – Mas não teve razão em mentir pra mim. – ótimo jeito de mergulhar direto no assunto. Quer dizer, não precisava ser tão direto. Ele podia ter “acariciado o terreno” antes. Mais silêncio. O suco chegou à mesa e, de tão largo que o copo de vidro era, acabou cortando o olhar fixo dos dois.

Savannah sugou o suco rosa devagar, provavelmente para prolongar o início de uma conversa que ela, definitivamente, não queria ter. Ela queria sair correndo naquele exato instante. Talvez até premiar a fuga com um dramático pulo de uma ponte qualquer. Parece exagero, mas o coração de Savannah implorava para desacelerar.

— Savannah, me desculpe, mas vou ser direto. Eu tenho certeza que você sabe que nós não estamos aqui para tomar suco.

A garota, agora já sem graça, secou os lábios vermelhos e robustos com o guardanapo à sua esquerda. Endireitou-se na cadeira, encaixou o cabelo atrás da orelha e respirou fundo.

— O que você quer saber, Seth?

— O quê eu quero saber? – respondeu Seth, sorrindo de maneira cínica o suficiente para qualquer ignorante perceber.

— Pare de repetir as minhas perguntas.

— Tudo bem, se você quer assim... Assim será. O que fazia num voo para a China e por que mentiu para mim dizendo que ia para Itália? – uma bomba, ou até mesmo a solução de todos os problemas, acabara de ser lançada pelo garoto descabelado que antes não sabia nem decidir qual sabor de sorvete pedir na sexta-feira depois da aula. Sim, esse mesmo menino era agora mais confiante e forte. Seth, o membro mais velho da segunda geração Obrien, mordeu os lábios e piscou rapidamente para não perder a reação de Savannah.

— Por que duvida de mim? Por quê? Não sei de onde tirou isso. Eu, eu... – gaguejou Savannah, desviando o olhar da varanda da lanchonete para as pessoas correndo no parque. Ah, como ela queria ser uma daquelas pessoas agora.

— Eu duvido simplesmente porque acredito na sua tia, a Gracy. É simples.

— O quê? Você ligou pra minha tia, Seth? Que porcaria é essa? Isso é invasão de privacidade! Quem você pensa que é? – Savannah aumentou o tom de voz e arrastou com força o copo de suco para o lado.

— O seu ex-namorado querendo saber porque foi traído de uma maneira tão... tão baixa. – puxa, Seth estava realmente bom nisso. Media as palavras como um maestro experiente. Ou então como um jogador de futebol experiente, que marcava pontos sem piedade e, nesse caso, infelizmente Savannah era o goleiro.

Os olhos de Savannah se encheram de água. Ela parecia confusa, parecia precisar de ajuda para desfazer o enorme nó em sua garganta que acabara de se formar.

— Ex-namorado? Traição? Você é realmente muito exagerado e besta. Parabéns, Seth Obrien. Parabéns. Sua imaginação tornou-se muito fértil com a minha ausência. – desabafou Savannah com sarcasmo, puxando a bolsa com a mão direita enquanto a outra se apoiava na mesa, prestes a se levantar.

Como um exemplar Obrien, Seth não deixaria essa situação se repetir. Ele queria a verdade, por mais dolorosa que fosse. E se não doesse, melhor ainda. Ele só queria um pingo de sinceridade. Ergueu-se rapidamente da cadeira e agarrou os braços de Savannah. Olhou-a durante alguns segundos e a direcionou para sentar novamente.

— Eu tô desesperado pra saber a verdade, Savan. – ‘Savan’. Ótima tentativa de chamar a atenção da garota, que entregou o seu olhar para Seth no mesmo instante. Chamar pelo apelido, pode anotar. — Vou ser franco contigo. Não durmo direito há um bom tempo, mas já estou me acostumando. Eu não quero te encher mais, e nem vou correr atrás de você de novo, eu prometo. Só me conte a verdade. Só.

— Eu não te traí. Nunca faria isso, você não merece. E que história é essa de que não vai correr atrás de mim? Você me ama, Seth. Sei disso. – Seth encarava Savannah atento, esperando apenas o momento em que ela fosse, finalmente, revelar tudo. O garoto não concordou que a amava após a afirmação modesta de Savannah, o que fez ela se sentir mal e mais nervosa. Savannah esperou Seth dizer algo, pelo menos uma palavra, para ela se sentir pelo menos com uma porcentagem mínima de alívio. Mas o garoto preservou seu silêncio.

Savannah verificou o fundo do copo para ter certeza de que estava vazio e começou a falar.

— Tudo bem! Tudo bem. Eu não viajei para Itália para visitar minha tia e sim, fui à China. E sim, quase morri em um acidente de avião. Mas parece que isso não importa mais para você. – Seth ainda não estava comovido. – Então você quer saber mesmo o que fui fazer lá?

— Sim. Está mais do que óbvio que sim.

— É meu irmão, Seth.

— Não entendi. O que o Leo tem com isso?

— Ele está doente. Muito doente. Pronto, contei. Não era isso que você queria? Posso ir embora agora? – soltou Savannah, mais do que pronta para chorar. Pronta, não. Ela já estava praticamente aos prantos. Seth, confuso, certamente não esperava que essa fosse a verdade. Não, não pode ser.

— Leo, doente? Como assim? Me explica direito! Por que...? O que isso tem a ver com sua viagem pra China?

— Tudo. Olha, Seth, me promete que tudo o que eu te contar fica aqui. Promete? – Seth fez que sim com a cabeça, seguido de um gesto que pedia para Savannah continuar.

Durante alguns segundos, equivalente ao tempo que demorou até Savannah começar a falar, foi o tempo em que Seth derramou-se em um profundo devaneio. “Meu Deus”, pensou aflito. Ele percebeu o quão foi egoísta durante todo esse tempo. Ele acreditava que sua namorada, ou ex-namorada, como preferir, estava o traindo por que foi para outro destino em sua viagem. Desde o início ele estava pensando no pior. No meio de toda essa confusão, ele se fragilizou demais com a suposta mentira e acabou se apaixonando por outra garota, Clair Whitte. Assim, de uma hora para outra, o pobre garoto descobre que na verdade a saúde de seu cunhado, ou ex-cunhado, como preferir, estava em jogo.

Agora, naquele momento, encarando os profundos e tensos olhos de Savannah, ele percebera que o traidor era ele mesmo. Excluindo todos os fatos de que Savannah estava supostamente o traindo, ele não tinha nenhuma desculpa por ter se envolvido com Clair. Se Savannah ao menos estivesse o traindo de verdade, ele poderia alegar que se envolveu com Clair sem ter de se explicar. Mas agora, não. Era só ele o vilão. Vilão. Seth imediatamente substituiu essa palavra por “apaixonado”. Se apaixonar por Clair não foi culpa dele, afinal. De uma coisa Seth Obrien tinha certeza: ele precisava parar de se precipitar. Voltou de seus pensamentos quando percebeu os lábios de Savannah prontos para iniciarem o discurso.

— Meu irmão, Leo, está doente. É um câncer grave, e desde que ele foi transferido para China a trabalho, ele não dava notícias. – quando Seth ouviu isso, se lembrou de que Leo havia se mudado para a China há dois anos. Ele se sentiu um péssimo detetive, já que poderia muito bem ter cogitado que Savannah foi simplesmente visitar o irmão ao invés de ter se enrolado todo com essa história de traição.

— Pode continuar, estou ouvindo. – Seth confortou-a.

— Eu sou a pessoa mais íntima de Leo na família, você sabe. – Seth concordou. – Ele me contava absolutamente tudo, tudo sobre sua jornada na China. Há alguns meses percebi que ele parou de me enviar mensagens e e-mails, como de costume. Foi aí que, conversando com ele, descobri a doença. Eu fiquei desesperada de imediato, queria gritar por ajuda e, claro, contar pra minha mãe.

— E com razão. — concordou o garoto, atento na história.

— Mas Leo me proibiu. – Seth franziu as sobrancelhas. – Ele disse que me contou tudo porque confiava em mim. Ele não queria que minha mãe soubesse. Ninguém da família, na realidade.

— Mas isso é ridículo! – interrompeu Seth, alterado. – Savannah, se a doença é grave, sua família tem de saber. Principalmente a sua mãe.

— Eu sei! – Savannah arregalou os olhos. – Mas meu irmão confiou em mim, Seth. Ele não quer preocupar minha mãe com mais coisas. Você nem imagina como ela ficaria se soubesse que Leo está doente.

— Posso até não imaginar, mas tenho certeza que ela ficaria pior por você ter escondido isso dela. Digo, você e o Leo. – concluiu Seth, passando a mão pelos cabelos claros e sedosos.

— Eu sei. Mas não quero trair a confiança do meu irmão. Vou fazer tudo no tempo dele. Quando eu tiver de contar, contarei. Mas antes de tomar qualquer decisão, eu precisava ver meu irmão em carne e osso. – Seth permaneceu calado. — Bom, então é isso. Eu preciso ir agora. Espero que você tenha entendido essa confusão toda. Me desculpa por ter mentido.

Savannah limpou as lágrimas que escorriam de maneira inevitável de seus olhos, posicionou algumas notas de dinheiro sobre a mesa e se levantou. Seth a observava sair da lanchonete. Sem reação, o garoto lembrou que precisava colocar um verdadeiro ponto final naquela história. Ele não podia deixar de contar a Savan sobre Clair.

— Savannah! Espera! – Seth cambaleou na saída do restaurante e correu alguns metros até Savannah. – Nós ainda não terminamos de conversar. – Seth disse ofegante.

— Não?

— Não. Eu queria dizer que sinto muito pela minha reação.

— Não precisa. É natural de sua parte desconfiar, já que eu menti.

— E sinto também pelo nosso término. – Savannah engoliu seco quando ouviu essas palavras saírem da boca de Seth.

— Achei que você ia pensar sobre isso.

— Já pensei muito. A gente acaba por aqui.

— É por que eu menti? — a menina engoliu seco na tentativa de engolir o choro e a agonia que se formava na garganta.

— Não, não. Fui eu quem mentiu. – Savannah lançou um olhar confuso. – Eu menti pra mim mesmo esse tempo todo, sobre quem eu amo. Tudo isso só serviu pra eu achar a pessoa certa. Me desculpa, Savannah.

Depois de um sorriso penalizado, o novo Obrien, que acabara de nascer, deu as costas a um presente que logo se tornaria passado. Agora ele andava pelo parque com os pés completamente fixos no chão, sem mais dúvidas ou problemas chatos. Ele era... Ele era Seth, claro. Mas era um Seth livre, a caminho de uma página em branco, louca para ser preenchida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.