Setevidas
29 Sinceramente...
Estamos assentados no sofá assistindo TV, eu e minha prima Clara. Enquanto Denner prepara a pipoca, minha mãe tagarela alguma coisa no telefone.
Vejo a TV, mas meus pensamentos ainda estão pairando nas cartas que capturei. Até agora tenho cinco, faltam sete. O mesmo número de vidas que Lucas deveria ter. O que me deixa preocupado, pois sete não é nenhum número da sorte meu e nem sei se é de alguém. São sete vidas, sete as cores do arco-íris, sete pecados capitais, sete dias da semana, sete maravilhas do mundo, sete princípios da moral pitagórica e todos outros sete. Isso me deixa preocupado, pois do jeito que essas cartas são, acho que provavelmente a próxima será agressiva. Não sei como explicar, apenas sinto isso. É uma sensação estranha, mas... Tanto faz! É melhor não pensar nisso. Estou contente por ter capturado a carta estrela e isso é o que importa.
Denner disse que minha mãe disse que iriamos assistir filme esta tarde, tive que ficar. Pelo menos, Clarinha também foi obrigada a essa tortura e pela cara dela, não deve estar gostando nadinha.
Denner está brigando com a panela lá na cozinha. Minha mãe desliga o telefone e vem pra sala, onde eu e Clara estamos deitados no sofá.
— Advinha quem vai morar com a gente esse ano?
Ótimo, como se já não bastasse morar com o tapado do Denner, ainda vou ter que aguentar outro pessoa idiota implicando comigo.
— O primo Cristian? — Gritou Denner da cozinha. Cristian é o nosso primo mais atentado. Ele foi expulso duas vezes das duas primeiras escolas que ele estudou. Ele só tem oito anos e sabe como fazer bomba fedorenta, dar curto circuito e ainda te ensina os maiores trotes para se pregar em uma pessoa. Como por exemplo: Quando eu fui a casa dele, ele ensinou a Denner como retirar o meu dente mole. Ele amarrou o meu dente de leite e amarrou a outra ponta do fio dental na porta e... Sem mais detalhes. Naquele dia eu chorei muito.
— Não. — Minha mãe disse animada retirando minhas pernas do sofá e sentando seu traseiro gordo do meu lado.
— Primo David? — Sugeriu Denner novamente. David é o meu primo das piadas sem graças. Ele tem dezessete anos e sabe como estragar uma festa abrindo a boca só pra falar por meio minuto.
— Não. — Minha mãe sorri.
Antes que Denner gritasse mais algum nome, me prontifiquei e disse: — Quem? Quem irá morar conosco?
— A prima Natália.
— Natália? — Denner grita da cozinha. — A prima caipira?
— Ei. — Minha mãe o repreende. — Ela só não conhece muito bem a vida urbana.
— Só como ordenhar vacas. — Digo fazendo minha mãe sorri.
— E quando ela chega? — O mais velho fala saindo da cozinha com uma bacia de pipocas.
— Hoje à noite. Minha irmã ligou e disse que ela já está no avião.
— Já até sei quem vai ter que busca-la no aeroporto. — Resmunga Denner.
— Bem feito. — Digo.
— E você vai junto. — Minha mãe acrescenta.
— Por quê? — Faço cara de incrédulo, Clara sorri.
— E tu também Clarinha. — Minha mãe diz fazendo a garota parar de rir. — Direitos iguais à todos.
Perfeito. Mais uma dentro de casa pra quem terei que aturar e esconder meus segredos de anteposto. Se só com o Denner e a mamãe é difícil, com a Natália junto vai ficar pior.
Denner, Clara e eu saímos antes do final do filme. O garoto dirigiu feito um louco pra chegar logo ao aeroporto pra voltarmos depois para casa. Ao chegarmos me assentei em um banco e Clara encostou sua cabeça no meu ombro para dormir, estava muito cansada.
Após uns cinquenta minutos de pura emoção, (Mentira, se aquela caipira não chegasse aos próximos dez minutos ela teria que encontrar sozinha o caminho pra casa. Denner está inquieto desde que chegamos e pra ele seria lucro voltarmos logo pra casa, mas...) a menina chega. Minha prima Natália é ruiva e tem sardas por toda a cara (Ou será espinhas?), seus cabelos estão divididos em duas tranças que batem no ombro, o aparelho de metal de cor prata brilha com o tamanho do sorriso que ela abre ao nos ver e o pior é seu macacão branco com machas pretas que parecem uma vaca. Ela usa uma bota marrom pra “combinar” (entre aspas). Ela apenas está com uma mala e uma mochila nas costas. Como ela sobreviverá um ano apenas com essas coisas eu não sei, só sei que será engraçado vê-la se adaptar em uma cidade grande.
— Primo Nathanael, Primo Denner! — Ela diz nos abraçando.
Clarinha acorda do meu colo. Ela começa a bocejar.
— E quem é essa doçura de rapadura aqui? — Ela diz segurando o rostinho de Clara.
— Rapadura? — Sussurro pra Denner que começa a circular o dedo indicador perto da orelha, querendo insinuar que nossa prima é louca.
— O nome dela é Clara. — Denner diz depois de abaixar o dedo. — E ela é muda.
— Ah... — Natália faz uma cara estranha e depois sussurra perto de mim. — É por isso que ela não me respondeu? Ela não me entende?
Sorri. — Ela é muda, prima, não surda.
Ela abre um largo sorriso. — Ah ta.
— Podemos ir? — Denner diz com um sorriso nada discreto.
— Simbora. — Ela diz sorrindo.
Denner prende o riso enquanto eu levo Clarinha no meu colo.
Ao chegarmos em casa, minha mãe encheu Natália de mimos. Coloquei Clara na cama, tia Ruth a deixou dormir conosco essa noite e desci novamente para me ajuntar à minha mãe, Denner e Natália que agora estão falando sobre a possível transferência ao meu colégio.
Depois de muito papo furado do qual eu não quis participar, Natália disse que precisava ir ao banheiro e sobe as escadas. Minha mãe continua conversando com Denner, até minha ficha cair de que Natália não sabe que o banheiro é aqui em baixo.
Subo as escadas na esperança de encontra-la no corredor.
Ela sumiu?!
Abro a porta do quarto de hóspedes onde ela vai dormir e... vazio! Vou até o quarto onde Clara está dormindo e... Vazio! (Além da Clara dormindo como um anjo na cama). Corro até o meu quarto e me deparo com uma cena que faz um arrepio percorrer por todo o meu corpo.
Natália está sentada na minha cama segurando as cinco cartas mágicas de Shat que capturei.
— Na...Natália. — Gaguejo chamando sua atenção.
— Nash? — Ela sorri a me ver. — Essas são as cartas que você capturou? Eu pensava que você era mais rápido com essas coisas.
Sinto meu coração dar uma pausa em seus batimentos.
— O... o que?
— Não se faça de bobo, Nash. — Ela diz se levantando da cama e jogando as cinco cartas na minha frente. As cartas flutuam ao meu redor.
— O.. O que você está fazendo?!
Natália sorri e a porta do quarto se fecha rapidamente me dando um baita susto.
Ela retira um colar de seu pescoço e aponta na minha direção.
— Revele-se a mim, oh poderoso anteposto peregrino da Terra dos humanos. — Ela verbaliza fazendo involuntariamente uma luz surgir do meu corpo, me transformando em anteposto na sua frente sem eu ao menos conjugar as minhas palavras mágicas. A menina admira minha auréola.
DROGA! — penso. — Quem é você, Natália?
A menina se aproxima e diz: — Sinceramente, você já foi mais resistente à minha magia.
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