Sete Vidas
1 Olhos, encontros e o apagão
Notas iniciais
Eu havia acabado de sair de casa e, definitivamente, não estava a fim de ir para a escola, já estava na ultima semana de aulas e minha mãe ainda assim não me deixava faltar — mesmo eu já tendo passado em todas as matérias com nota máxima, na maioria.
Então essa semana tenho... Digamos que... Feito um caminho diferente.
Caminhei pelas ruas cinzentas e cobertas por prédios de Amsterdã até chegar a uma bifurcação e seguir na direção contrária à da escola. Andei por aproximadamente 20 minutos até chegar ao meu paraíso particular da ultima semana.
Era uma praça calma cheia de cerejeiras cobertas de flores. Em um canto mais distante havia um enorme amontoado de folhas que, para quem não conhecesse, pareceria somente um arbusto enorme, mas para quem já conhecia... Abri caminho em meio às folhas e cheguei ao meu tão adorado banco de madeira escura coberto por flores de cerejeira — de uma árvore enorme que cobria a parte de cima do arbusto.
Me sentei, abri a mochila e peguei o livro que estava lendo atualmente — o qual pretendia terminar hoje.
Não estava conseguindo me concentrar direito no livro, já havia lido cinco vezes o mesmo parágrafo sem assimilar absolutamente nada, então acabei desistindo de ler e como ainda tinha três horas e nada para fazer, me acomodei no banco encostada na mochila e cochilei...
Acordei de repente com um grito de espanto.
–Quem é você? — me perguntou um rapaz alto de cabelos negros perto dos ombros e olhos verdes hipnotizantes.
–Eu quem deveria estar perguntando isso ao idiota que me acordou berrando — eu disse me sentando, já irritada.
–Meu nome é Roger... E eu gritei porque não é muito normal encontrar alguém no meio dos arbustos.
–Você está aqui, não é?
–Vai me dizer o seu nome?
–Ramona.
–Prazer... — ele disse segurando uma risadinha... Que graça tem isso?
–É todo seu
Ele riu
–Então... Ramona... O que está fazendo aqui?
Fiz uma careta entediada para ele.
–Tudo bem, já entendi... — ele diz se sentando ao meu lado — Então eu falo... Estou fugindo de uns caras que irritei ontem à noite.
–Matando aula — eu disse seca, não estava nada a fim de conversar... Quem ele pensa que é para interromper o meu sono e acabar com o meu paraíso particular?
–Que menina má — ele diz desviando os olhos para o livro que estou segurando — O que está lendo?
–Por que insiste tanto em puxar assunto?
–Porque a aula só acaba em duas horas e eu tenho certeza de que você prefere ficar aqui comigo a ir para a aula do Alberto.
–Hã? — então olhei melhor para aquele garoto... Estranho... Cara de problemático... Excepcionalmente bonito... — Você é o garoto que nunca vai para a aula!
–Achei que ia demorar a lembrar, amor — ele disse presunçoso com um sorriso de canto de boca que mostrava uma de suas covinhas.
–Não me chama de amor.
–Tudo bem, amor — ele parecia se divertir.
Desisto.
–Como irritou os caras? — não pode com eles, junte-se a eles... Não é isso o que dizem?
Puxar assunto com ele é, provavelmente, melhor do que ficar duas horas sentada tentando ignora-lo.
–Bom... Eu estava precisando de uns maços de cigarro e esses caras sempre tem e cobram barato. Então ontem à noite cheguei lá e disse o meu nome para eles pegarem a encomenda, mas ao que parece tinha mais um cara chamado Roger que fez uma encomenda e era bem cara, por sinal... Eu tentei explicar que não tinha a porcaria do dinheiro porque aquela não era a minha encomenda e que eu só fumava cigarro, mas eles não foram muito compreensivos e ficaram bem estressados... Estavam atrás de mim até eu conseguir entrar aqui.
Eu devo ter feito alguma cara muito estranha porque ele começou a rir descontroladamente.
Que cara queria que eu fizesse enquanto ele fala tão aberta e despreocupadamente sobre isso?
–Para de rir!
–Mas sua cara está hilária!
–Que cara queria que eu fizesse?
–Uma mais normal! Não é como se eu tivesse dito que matei alguém.
–Nem duvido.
–Já entendi... Você é o tipo de pessoa moralista que passa o dia todo estudando, faz tudo o que seus pais mandam e não sai nunca.
–Claro que não! Só não estou acostumada com pessoas que falam sobre isso desse jeito.
–Eu tinha me esquecido que estava falando com a garota sem amigos.
Peguei minhas coisas e fui embora.
Sobre a história da garota sem amigos... É assim que me chamam na escola... Eu nunca me dei muito bem com as pessoas da minha idade, muito menos com as da minha sala... Estudo numa escola particular e lá todos são esnobes, mesquinhos e vazios. Não são o tipo de pessoa com os quais eu gosto de me relacionar, sabe... Gente que nunca leu um livro na vida.
Cheguei em casa mais cedo e dei qualquer desculpa pra minha mãe.
Decidi que essa noite iria sair. Liguei para Luna, uma das minhas únicas amigas e única pessoa da escola com a qual eu consigo conversar.
–Alo?
–Oi... Luna?
–Ramona! Você nunca me liga, o que aconteceu?
–Nada demais... Hoje é sexta-feira, eu queria sair e sei que você sempre sabe onde são as festas.
–Como assim nada demais? Você querendo sair já é um acontecimento épico! Tem uma festa hoje, sim... Estou indo ai!
E desligou na minha cara... Ela é um pouco histérica.
Enquanto ela não chegava resolvi tomar um banho e começar a me arrumar.
Prendi meus cabelos castanhos até a cintura num coque alto, coloquei um all star de cano longo preto, um shorts curto rasgado e uma regata preta qualquer.
–Chegueeeei! – e entra no meu quarto um furacão correndo pra me abraçar.
–Luna! Como você entrou?
–Sua mãe abriu, mas isso não vem ao caso... Você está linda!
–Obrigada... Aonde vamos?
–Vamos ao Club Up*!
–Não sei onde é isso...
–Não tem problema – ela disse saltitando – peguei o carro da minha mãe e é óbvio que eu sei onde é, vamos logo antes que lote!
Peguei meu celular e algum dinheiro, me despedi da minha mãe e fomos.
Chegando lá Luna foi falar com os outros amigos e eu fui ao bar pegar alguma coisa bem forte.
Virei três copos de vodka e fui dançar. Como é ótima a bebida... Só três copos e cadê a garota tímida? Sumiu! Olá Ramona extrovertida e sociável.
Fui passando no meio das pessoas e esbarrei com um cara com o qual comecei a dançar... Eu ainda não tinha visto direito o rosto dele e imagino que nem ele o meu já que eu já estava dançando há algum tempo e meu cabelo estava todo na cara.
–Você! Achei que não vinha a festas, garota solitária... Alias, gostou? “Garota sem amigos” era muito grande...
Não acreditando que me encontrei com esse cara de novo, ensaio pra ir embora de lá, mas tropeço – provavelmente por causa da bebida – e ele me segura.
Já estava preparada pra dizer alguma coisa, mas aqueles olhos me hipnotizam e não estou pensando direito... Como fiquei assim com três copos de vodka? É, nunca fui muito forte pra bebida... Ouço ele dizer qualquer coisa a ver com eu ser muito desastrada e de repente tudo se apaga e já não sei mais de nada.
A última coisa que vejo são aqueles olhos...
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