Sete Luas
6 O que há por trás?
Notas iniciais
Eu não tinha certeza do que mais me assustava: a possibilidade de Alice ter alguém ou de eu estar sentindo algo por ela. Meu Deus, o que eu estava fazendo? Como eu pude deixar isso acontecer? Deve ser coisa da sua cabeça, Júlia. A carência da minha melhor amiga estava me deixando louca.
Mas e se eu não tivesse? E se eu realmente sentisse algo além de amizade por Alice?
Como eu poderia resolver isso?
O resto da manhã passou se arrastando e cada guinada do relógio parecia uma faca rasgando as minhas vísceras. Mal podia ver a hora de ficar com Alice e tirar essa dúvida cruel. O sinal tocou e eu sentia meu coração bater sem compasso algum. Não era possível que eu pudesse ser tão burra em não perceber isso. Tão idiota ao ponto de ignorar todos os sinais.
Precisava limpar a minha mente.
Voltei para casa, organizei as coisas e aguardei Alice chegar. Espera-la nunca foi tão complicado e agonizante. Em pouco mais de trinta minutos, escutei a campainha tocar. Aja naturalmente.
— Hey – tentei parecer o mais normal possível.
Alice me encarava com dúvida.
— Certo. Eu só queria deixar claro que não apoio o uso de drogas – ela sorriu – Que diabos está acontecendo com você hoje?
Droga.
— Nada – apontei pra dentro de casa – Vamos?
Alice entrou em silêncio e eu podia sentir seus olhos me examinando com um misto de dúvida com inquietação. Nos sentamos no sofá e um silêncio enlouquecedor se instaurou entre nós. Hora de quebrar o gelo.
— Qual é o plano? – perguntei tentando parecer indiferente.
— Exorcismo.
Meus olhos arregalaram.
— Como assim?
Alice começou a gargalhar.
— Só isso pra te deixar normal de novo – ela encostou no sofá – O que tá pegando?
Pegando? Nada...
— Não sei.
— Que tal começar me contando do começo?
Reuni toda coragem dentro de mim.
— Quem é aquela menina que estava com você hoje?
Eu estava me odiando nesse exato momento. Maldita boca!
— Depende – ela deu de ombros – Qual delas? Estive com muitas garotas hoje, inclusive você.
— A ruiva.
Eu pude ver um sorriso no canto do lábio da Alice.
— Sara. Por que o interesse?
— Ela estava flertando com você.
Alice começou a gargalhar como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.
— Céus, só minha avó usaria o termo flertando. Continue. Por que tirou essa conclusão?
Senti meu rosto queimar. Talvez tenha sido uma péssima ideia entrar nesse assunto.
— Ela estava se jogando em cima de você.
Alice tornou a se encostar no sofá, dessa vez com um sorriso mais proeminente nos lábios.
— Eu sei.
— Sabe?
Ela parecia indiferente.
— Aham. Ela me disse com todas as letras que gostaria de fazer coisas obscenas comigo – ela fez aspas com os dedos – Acha que sou lésbica.
Senti meu corpo inteiro se petrificar.
— M-mas você é?
— Talvez. Não gosto me apegar em rótulos.
— Então vocês estão ficando?
— Me respeita, Júlia – ela jogou uma almofada em mim – Acha que é fácil alguém tirar casquinha dessa beldade chamada eu? – mostrei a língua e ela sorriu – Brincadeiras a parte, eu não sinto um pingo de atração por ela. Apenas ignoro.
— Entendi.
Alice segurou minha mão e olhou nos meus olhos. As definições de vergonha extrema foram atualizadas com sucesso.
— Pode ficar tranquila que eu sou toda sua.
— Toda minha?
— Prometi que ia ficar com você esses 18 dias. Pode não parecer, mas cumpro o que digo – ela sorriu – Foi isso o que você pensou, não é? – eu pude sentir uma ponta de malícia nas suas palavras, mas preferi ignorar. Foco.
— Claro.
— Dúvidas sanadas? – assenti – Eu preparei algo pra você. Quer ver?
— Quero.
Alice se pôs de pé, começou a revirar a sua mochila e tirou uma sacola plástica com algumas coisas que não consegui identificar.
— Posso usar sua cozinha?
— Mi casa es su casa.
Alice esticou as mãos e me puxou para ficar de pé. Confesso que a proximidade me deixou desconfortável.
— Vamos, senhorita emburrada. Tome um banho, tira esse uniforme horroroso e fique à vontade. Eu cuido do resto.
— Por que eu devo confiar nos seus cuidados?
— Porque sou incrível e alguém usufruir disso é raro. Aproveite a sua chance.
— Aceita devolução dos serviços? Em caso de não ficar satisfeita – provoquei.
— Eu me garanto. Tenho certeza que ficará satisfeita – ela apontou pra escada – Agora some da minha frente, tenho muita coisa pra fazer.
Resolvi dar um voto de confiança, afinal, eu não tinha nada a perder. Como o solicitado, tomei um banho demorado e relaxante, coloquei uma roupa confortável e retornei para a sala. Eu podia sentir um cheiro agradável vindo da cozinha. O que será que ela estava aprontando? Caminhei na ponta dos pés para ver o que ela fazia. Alice esbravejava por algum motivo, até perceber a minha presença.
— Espertinha. Meia volta. – disse apontando pra sala – Já falo contigo.
— Ok! – respondi enquanto voltava para o sofá. Grande ideia, Júlia. Obedecendo ordens dentro da sua própria casa.
Alguns minutos depois, Alice surgiu no batente da porta da cozinha com uma expressão cansada.
— Venha, floquinho.
Voltei para a cozinha e me surpreendi com o que vi. Alice havia posto a mesa e feito uma refeição que pelo cheiro parecia deliciosa. Ela apontou para a cadeira vazia a minha frente e, acatando sua indicação, me sentei.
— Fez tudo isso pra mim?
— Oui mademoiselle— respondeu forçando um sotaque francês extremamente fofo – O plano é te deixar bem. Fiz uma sopa, sei que você não gosta de coisas gordurosas e aposto que vai se sentir pelo menos um pouco melhor.
Ela colocou uma concha de sopa no prato que estava na minha frente e gesticulou para que eu comesse.
— Desde quando você sabe cozinhar? – perguntei enquanto pegava a primeira colherada da sopa – Uau. Está uma delícia!
Alice esboçou um sorriso como se sentisse orgulhosa do seu feito.
— Já te disse, sou nômade e eu moro sozinha, então, tenho que aprender a me virar.
— Por que você mora sozinha? Isso é legal?
— Teoricamente, sim. Já tenho dezoito anos – ela puxou uma cadeira e se sentou do meu lado – Sei que essa carinha de bebê engana.
— Não é solitário viver sozinha?
— Na maioria das vezes – ela suspirou – É chato chegar em casa e não ter ninguém te esperando. Talvez por isso eu te sugue tanto – ela deu um sorriso amarelo – Meu cachorro nessas horas faz falta.
— Você fala tão pouco sobre você.
Eu pude ver seu corpo se enrijecer, como se o assunto incomodasse.
— É, eu sei. Mas como te falei, minha vida não é tão interessante.
— A minha também não é e você faz parte dela agora.
Alice se pôs de pé e começou a limpar a louça. Era nítido que ela buscava qualquer meio de escape.
— Meu pai é um general do exército e minha mãe é médica – começou a falar enquanto lavava os pratos – Então você deve imaginar como eu era rodeada de amigos. Só que ao inverso. Sempre que eu me adaptava a um lugar, meu pai era transferido de estado e lá íamos minha mãe e eu refazer as nossas vidas – ela suspirou – Eu amo meus pais e amo tudo o que fizeram por mim, mas, como você deve imaginar, eu tive uma vida muito solitária. Eles não tinham tempo – Alice nunca tinha se aberto dessa maneira, então optei por deixar ela contar. Eu realmente queria entender – Quando eu tinha uns dez anos, uma bomba estourou na nossa casa – eu arregalei os olhos e ela reprimiu um riso – Relaxa, uma bomba de cocô. Pessoas normais chamam de irmã.
— Você tem uma irmã? – questionei.
— Aham. Uma gracinha, inclusive. O ponto é – ela fez uma pausa – minha irmãzinha, Duda, tinha uma doença rara e sua expectativa de vida não era das maiores. Não existe nada nesse mundo que eu ame mais do que ela e não existe nada nesse mundo que eu não faria para vê-la bem – eu pude ver seus olhos ficarem marejados – Mas eu sou uma covarde, Júlia. Uma vadia covarde – ela puxou uma cadeira e se sentou na minha frente – Há uns dois anos ela teve uma complicação e isso gerou uma parada cardíaca. Eu gosto de pensar que ela foi escolhida pra ser uma estrela.
— Ela faleceu? – eu estava horrorizada com a dor que Alice sentia.
— Sim.
— E por que isso te faz covarde? Você está sofrendo!
Alice enxugou os olhos e tentou manter a pose de durona.
— A vida na minha casa virou um caos. Ninguém soube lidar com a perda dela. Ninguém nos ensinou a simplesmente não se importar. Ela era nosso anjinho e simplesmente nos deixou para viver no céu. Gosto de pensar que ela está em algum lugar torcendo por mim – Alice começou a chorar de um jeito tão frágil que eu pude sentir meu coração explodindo por vê-la tão vulnerável daquele jeito. Meu instinto foi puxá-la para um abraço, mas logo ela se desvencilhou e continuou com seu monólogo – Eu não soube lidar com a ausência dela. Meu pai passou a ser um babaca comigo e com a minha mãe, brigamos diversas vezes e eu entendi que ele, assim como todos nós, precisávamos de um tempo para lidar com esse sofrimento. Ele não estava sendo um babaca, apenas estava com dor.
— Eu sinto muito.
— Sei que sim – ela suspirou – No primeiro ano após ela ter nos deixado, eu fiz muitas escolhas erradas. Me tornei uma pessoa fria e abri espaços que deveriam ser mantidos fechados. Mas eu era inocente e estava sofrendo. Era difícil me manter centrada – ela começou a guardar as coisas e terminar de organizar a cozinha – Depois de um ano eu fiquei bem, na medida do possível. As coisas entraram nos eixos, minha família voltou a ser estável e eu voltei a me dar bem com meus pais. Mas toda escolha tem uma consequência e eu jurava que paguei caro por isso – ela abriu um meio sorriso – Mas isso tudo me levou até aqui, então de certa forma não foi tão ruim.
— Por isso você se afasta? – perguntei com medo da sua resposta. E com mais medo ainda se ser indelicada.
— Na maioria das vezes, sim – ela se pôs de pé – Mas minha vida e esses problemas todos não são o foco. Pelo menos agora você conhece algo de mim, coisas que ninguém nunca conheceu – ela piscou – Vamos voltar pra o plano de te fazer melhorar. Pode ser? Prefiro que seja desse jeito.
— Pode.
— Está com frio?
— Um pouco.
— Vai no seu quarto buscar um cobertor, te espero na sala.
Alice se sentou no sofá, parecia cansada física e emocionalmente. Eu me sentia um pouco culpada por vê-la desse jeito. No fundo, ela só queria me ajudar e acabou entrando em assuntos difíceis. Vê-la tão frágil me fez entender que muitas vezes eu fui uma imbecil. O tempo todo ela só quis me ver bem e, de certa forma, cuidar de mim. Como eu já imaginava, a amizade que tínhamos era genuína e Alice era verdadeira em suas ações.
Isso não facilitava em nada o meu lado. Ficava cada vez mais difícil ignorar essa sensação crescente em mim. Principalmente após vê-la no seu estado mais íntimo.
Peguei uma manta e retornei para a sala. Alice já parecia ter se recomposto e sua expressão voltou a ser a que eu conhecia.
— Eu poderia te propor uma massagem, mas não é nem 15h00 ainda, então, escolha um filme!
Senti meu rosto corar.
— Alice!
— Ok, desculpa! Brincadeirinha. Escolhe um filme – ela tentou forjar uma expressão ameaçadora – Mas só hoje, tem carta branca. Viu?
— Frozen!
— Mais de mil opções no catálogo da Netflix e você escolhe Frozen? – perguntou incrédula.
— O Olaf é fofo.
Sua expressão era divertida.
— Quer isso mesmo?
— Quero!
Alice apontou para a perna.
— Deita aí – ela examinou minha expressão relutante – Relaxa que eu não vou te morder e nem nada.
— Vou confiar – respondi com um meio sorriso. Não que eu nunca tivesse ficado assim com Sofia ou qualquer outra amiga. O lance era estar assim com ela. Isso não ajudava em nada.
Me deitei no colo de Alice e apoiei meus pés no braço do sofá. Ela prontamente me cobriu com a manta e sussurrou.
— Apenas relaxe.
Apenas assenti.
Alice passou as duas horas seguintes fazendo cafuné na minha cabeça e brincando com as mechas do meu cabelo. A sensação era como flutuar nas nuvens. Há muito tempo eu não me sentia tão confortável e relaxada ao lado de alguém. Principalmente depois do momento que tivemos.
Quando acabou o filme, gentilmente Alice me levantou e checou o seu celular. Aproveitei para fazer o mesmo e me dei conta de que passamos quase seis horas juntas.
— Se sente melhor? – perguntou. Fingi estar passando um zíper na boca – Pobre garota, não sabe o que faz – de súbito ela começou a me fazer cócegas e eu sabia que essa batalha eu não podia vencer.
— Tudo bem! – gritei em meio a uma gargalhada – Me sinto muito melhor.
Ela sorriu.
— Gosto assim – ela se pôs de pé – Agora eu preciso ir, floquinho. Apesar de morar sozinha, tenho algumas coisas para resolver antes da viagem. Consegue ficar bem?
— Consigo.
— Ótimo – Alice juntou as suas coisas, colocou a mochila nas costas e depositou um beijo no meu rosto – Te vejo amanhã?
— Provavelmente.
Ela abriu a maçaneta da porta e parou por alguns instantes.
— Na próxima vez, vê se não fica dando na cara que está me vigiando. Você é péssima nisso.
E saiu. Nunca senti tanta vergonha na minha vida. Como ela sabia que eu a observava? Eu jurava que passava despercebida!
Era incrível a sensação que Alice conseguia provocar em mim. Tão incrível que eu nem me lembrava porque estava tão mau humorada mais cedo. Muito menos tenho qualquer resquício de dor. Talvez eu só precisasse relaxar e encontrar conforto de alguma forma, já que o sonho de vê-la partindo foi o fator desencadeador do resto.
O problema é que agora eu tinha certeza; existia algo. Existia um sentimento por Alice e eu não sabia como ignorar isso. Ela sendo gentil e carinhosa não ajudava em absolutamente em nada. Agora eu entendia as palavras de mais cedo: existem sentimentos impossíveis.
Esse provavelmente seria assim, para a minha infelicidade.
Afinal, ela tinha a sua vida, suas preocupações e problemas demais. Não parecia certo esperar algo desse gênero. Eu não me sentiria bem. Em contrapartida, parecia impossível ignorar o sentimento crescente dentro de mim. Se isso realmente fosse verdade, eu precisava colocar o bem-estar dela em primeiro lugar. Ao menos nesse momento. Até porque a gente nem tem algo, também não tem garantia nenhuma de que esse sentimento seja recíproco.
Dobrei meu cobertor e organizei a sala. Esquentei um pouco da sopa que Alice fez para minha mãe que já estava chegando. Como esperado, não demorou muito para ela cruzar a porta, fazendo uma verdadeira balbúrdia.
Meu sonho é que ela fosse menos escandalosa.
— Júlia? Cheguei, meu amor. Onde você está?
— Na cozinha – gritei.
Minha mãe depositou um beijo no meu rosto e colocou a sua bolsa sobre a mesa.
— Você fez comida? Acho que hoje vai ter uma tempestade – disse enquanto colocava um pouco no prato.
— Mãe! – bufei – Não foi eu quem fez.
— E posso saber quem foi?
— Alice – Minha mãe me encarou por alguns instantes, examinando meu rosto – O que? – perguntei tentando entender o que ela pensava.
— Senta aqui, minha filha.
Puxei uma cadeira e sentei do seu lado.
— Que tal a gente conversar sobre a Alice?
— Por que?
— Acho que estamos precisando – ela suspirou – Vocês têm alguma coisa?
Um arrepio percorreu minha espinha inteira.
— N-não.
Ela abriu um sorriso confortante.
— Certo, vou melhorar a pergunta. Você sente algo por esse menina?
Eu estava relutante. Não sabia se queria responder ou se podia responder.
— Por que você tá perguntando isso? – tentei desviar do assunto.
Suas mãos se pousaram sobre as minhas. Eu podia sentir sua pele fria e áspera.
— Júlia, meu amor, sua mãe é promotora. Eu lido com pessoas mentindo e dizendo a verdade todos os dias. Não acha que eu sou capaz de perceber as coisas?
— Talvez – dei de ombros.
— Eu posso ver como essa menina mexe com você. Também pude perceber o cuidado que ela tem com você.
— Como assim? Vocês só se viram uma vez.
Ela sorriu.
— Você é amiga da Sofia há quantos anos?
— Não sei, quem deve saber é você.
Ela colocou uma mexa de cabelo atrás da minha orelha.
— Eu conheço a mãe da Sofia desde os meus quinze anos e eu já sou quase uma senhora de cinquenta! Vocês são amigas desde o berço, nós ficamos grávidas quase na mesma época – ela fez uma pausa – E nesses anos todos, eu jamais vi a Sofia vir atrás de você do jeito que a Alice veio – suas palavras estavam dissipando qualquer resquício de medo – Lembra quando você quebrou o vaso que a vovó nos deu e sumiu um dia inteiro?
— Lembro.
— Eu liguei para a Sofia e ela disse que era normal você fazer isso. Que logo estaria em casa. Sabe por quê? Porque ela te ama e é sua melhor amiga, mas você não é a prioridade na vida dela. Então, por te conhecer, sabia que estaria tudo bem.
— Pode ser. Mas o que tem a ver?
— Você conheceu a Alice semana passada?
— Não. Acho que tem uns dois ou três meses, não sei bem.
— Ela conhece seu temperamento?
Tive que rir.
— Até demais.
Minha mãe sorriu e começou a acariciar as costas da minha mão com a ponta dos dedos.
— Pude perceber pelo modo que você tratou ela naquele dia. E sabe o que ela fez? Vir aqui saber se você estava bem, porque havia sumido depois da escola – seus olhos passaram pelo ambiente – Eu pude perceber que tinha algo a mais. Tanto que eu mesma disse que você era de lua e logo estaria em casa, mas ela muito educada pediu pra ficar até você chegar, só pra se certificar de que estaria realmente bem.
— Onde você quer chegar com isso? – eu estava confusa. Extremamente confusa com essa conversa.
Eu jurava que minha mãe fosse me matar.
— Faça o que tem que ser feito.
— Como assim?
— Se essa garota te faz bem e você quer viver algo do tipo, apenas faça. Nada nesse mundo vai me fazer te amar menos. Prometemos ser uma equipe, lembra?
— Mas mãe... – eu senti minha voz embargar.
— O que, meu amor?
— Eu não sei o que sinto, é tudo tão confuso...
Minha mãe começou a sorrir e me puxou para um abraço. Não existia lugar que fosse melhor que o abraço dela.
— Isso é normal. Você é muito nova e acho que nunca viveu algo do tipo. Apenas faça a escolha certa e que vá te fazer feliz. Sabe que pode contar comigo pra qualquer coisa.
— Preciso te confessar uma coisa.
Ela parecia confusa.
— O que?
— Aquele dia, que conversei sobre os estudos, lembra?
— Sim.
— Foi a Alice que me aconselhou.
— Sério? – ela sorriu – Podemos ver que ela é uma garota excelente, basta saber se é a pessoa certa pra você.
— E se não for? E se eu estiver confundindo as coisas?
— Júlia, você só tem dezessete anos! Tem uma vida inteira de escolhas certas e erradas para fazer. O importante, nesse momento, é você tentar. O que quer que seja que escolha tentar – ela fez uma pausa – Se não for a escolha certa dessa vez, continue tentando e uma hora você achará o que é perfeito pra você.
— Foi assim com o papai? Você acha que ele foi a escolha certa?
Eu pude sentir a expressão da minha mãe mudar. Ela parecia sentir um misto de tristeza e alegria.
— Com certeza. Ele era e ainda é o amor da minha vida – ela me abraçou – Também me deu o melhor presente de todos para lembrar desse amor: você.
— Sinto falta dele.
— Eu também – ela se pôs de pé – Mas ele não ia gostar nada de você se privando desse jeito, Seja jovem e viva a sua juventude, não tem problema errar agora. Sabe que sempre estarei aqui.
— Eu sei, mãe.
Ela depositou um beijo na minha testa.
— Pensa no que conversamos, ok? Agora tenho uma pilha de processos pra examinar – ela sorriu – Ah, diga para a Alice te ensinar cozinhar. Vai poupar um esforço e tanto pra mim!
— Mãe! – esbravejei.
Ela jogou beijos no ar e foi pro seu quarto.
Depois da tarde que passei com Alice e da conversa que tive com a minha mãe, senti que eu precisava tomar uma atitude.
Que mal tinha em tentar? Eu não acho que Alice fosse capaz de me afastar se eu for sincera sobre meus sentimentos. Quem sabe ela me dê as respostas que eu preciso e, finalmente, posso decidir por qual caminho seguir?
Mas era isso que eu queria?
Bom, era inegável que existia algo dentro de mim que clamava por Alice, de alguma forma na minha vida.
Restava saber se ela seria capaz de sentir o mesmo.
Ou se tudo não passava de uma ilusão.
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