Sete Luas
4 Floco de neve
Notas iniciais
Alice estava encostada em uma parede próxima ao Burger King, mexendo no celular completamente distraída. Seu cabelo estava solto, preso por uma mexa atrás da orelha e eu podia ver seu cenho levemente franzido como se algo a preocupasse. Com passos firmes, caminhei em sua direção e não demorou muito para ela perceber a minha presença. A expressão preocupada se dissipou com um sorriso.
— Então você veio mesmo. – disse enquanto me analisava. — Pensei que eu fosse comer sozinha.
— Tá dizendo que não cumpro minha palavra? – provoquei.
Alice levantou as duas mãos para o alto em sinal de defesa.
— Ei, vai com calma garota! – ela piscou – Estou em missão de paz. Vamos?
Assenti com a cabeça e segui Alice para dentro do restaurante, mais precisamente no lugar que nos sentamos quando viemos aqui a primeira vez. Era inegável como eu me sentia confortável do seu lado. Apesar de toda implicância, seu jeito provocativo e a maneira como ela conseguia me dobrar em duas, eu tinha a sensação de que alguma forma alguém finalmente me entendia. Não que isso não acontecesse com a minha mãe ou com minha melhor amiga Sofia, mas era uma espécie de entender diferente. E que eu não havia sentido antes.
— Vai me matar com colesterol alto novamente?
Alice abriu um sorriso tímido.
— Não, pode ficar tranquila. – ela examinou o ambiente – Como eu disse, estou em missão de paz.
— Alice! – uma das atendentes gritou seu nome.
— Espera um minuto.
Não demorou muito e Alice estava vindo em minha direção, suas duas mãos estavam ocupadas com dois copos e uma delas equilibrava uma embalagem de papel, provavelmente com os lanches. Prontamente me pus de pé e ajudei Alice, pegando um dos copos e a embalagem de suas mãos. Apoiamos a comida na mesa e nos sentamos novamente.
— Custava você pedir ajuda? – bufei.
— Talvez – ela sorriu – Vamos comer?
— Eu te convidei e era pra eu pagar.
Alice pegou um hambúrguer enquanto sorria.
— Você me chamou para vir aqui e não disse que iria pagar, então não deveria. – ela empurrou a sacola com os lanches na minha direção – O seu está na embalagem de isopor.
Revirei os olhos. Meu orgulho era grande demais para permitir essas cortesias. Espera. O Burger King vende algo em embalagem de isopor? Abri e fiquei surpresa com o que vi. Um sanduíche integral?
— Isso aqui é um sanduíche natural.
— Aham – Alice respondeu enquanto devorava seu lanche.
— Por que fez isso?
Alice terminou de mastigar, limpou os lábios e bebeu um longo gole de refrigerante.
— Você é a menina anticolesterol. Pensei que fosse uma boa ideia pra você se sentir mais confortável.
— Muito gentil da sua parte. Obrigada.
— Por nada.
Passamos um bom tempo comendo em silêncio, o que era algo bem atípico vindo da Alice. Eu perdi alguma coisa e não estava sabendo? Assim que acabamos de comer, comecei a arrumar as coisas para jogar no lixo e me pus de pé.
— Aonde você vai? – Alice perguntou enquanto segurava meu braço.
— Jogar as coisas fora pra gente ir embora. – dei de ombros.
Ela me encarava. Seu rosto não me dava pista nenhuma do que passava em seus pensamentos.
— Você podia ficar e andar comigo pelo shopping. – ela fez uma pausa – Conversar numa boa, sabe? – seus olhos desviaram para o ambiente.
— Missão de paz?
— Totalmente.
Assenti e começamos a caminhar lado a lado. Nossos passos eram sincronizados e eu sentia uma energia diferente fluindo entre nós. Era incrível como shopping era um passeio universal. Havia famílias de todos os tipos, pessoas de todas idades e com objetivos completamente distintos. O meu – naquele momento – era entender o que realmente estava acontecendo.
— Posso apostar que sua cor preferida é rosa. – disse Alice rompendo o silêncio.
Sorri.
— Errou. É roxo – respondi dando de ombros – E a sua?
— Azul.
— Combina com você – respondi com um meio sorriso.
Sua expressão era confusa. E eu não sabia se queria entrar nesse assunto.
— Posso saber o motivo?
— Misterioso.
Alice começou a sorrir.
— Me acha misteriosa?
— Às vezes – tentei parecer indiferente. Mas no fundo eu não estava. Alice realmente era uma pessoa misteriosa e eu me sentia cada vez mais motivada a entender o que passava pela sua cabeça no meio de tantas entrelinhas. Nossa convivência havia se tornado uma espécie de jogo e eu estava disposta a vencer.
— É meu charme – respondeu dando um tapinha no meu ombro. – Quem sabe um dia você entenda?
Sorri em resposta.
— Eu posso descobrir se eu quiser.
Alice pareceu congelar por alguns instantes.
— Não diga o que não pode cumprir, garota. – ela olhou ao redor de nós – Acho que você deveria se preocupar nesse momento em qual sabor de sorvete vai escolher.
— Baunilha.
Ela se dirigiu ao quiosque e comprou dois sundaes de baunilha com chocolate. Bom, ela acabou de conhecer um dos meus pontos fracos. Só não precisava saber disso.
— Espero que goste. – ela pegou uma colherada generosa – Vamos continuar. Gosta de qual estilo de música?
— Depende do meu humor.
— Se for assim, me diga o que gosta quando está mau humorada. Só te vejo assim.
Mostrei a língua pra ela e Alice começou a rir.
— Gosto de rock, no geral.
Alice começou a caminhar em direção a um banquinho e fez sinal para que eu me sentasse também.
— Qual tipo?
— Sou de fases, um pouco de tudo. E você?
— Algo semelhante a isso.
— Isso virou um interrogatório? – provoquei.
Alice sorriu.
— Isso se chama conhecer alguém. Não sei se no seu planeta agem assim.
— Mas já nos conhecemos.
Ela refletiu por alguns instantes. Como sempre, seu rosto não me dava pista nenhuma do que passava em sua mente.
— A gente se fala, implica aqui e ali de novo. Mas não nos conhecemos.
Eu tinha que admitir que ela tinha razão. E sinceramente? Apesar de eu concordar, isso me assustava. Não sabia se eu queria estar tão vulnerável assim.
— E você quer me conhecer?
— Claro que sim.
— Por que eu?
Eu podia ver Alice engolindo seco e ligeiramente desconfortável, mas nada que fosse gritante. E nada que ela não pudesse se recompor como se nada tivesse acontecido.
— Porque eu gosto de você, Júlia. Gosto da sua companhia. Foi a primeira pessoa que eu criei um vínculo por aqui. Ainda que não signifique nada. – ela suspirou – E pra eu te manter por perto, acho que a gente precisa se conhecer de verdade. Assim você decide se gosta de mim também.
Eu não sabia o que responder. Não sabia o que pensar.
— E o mau humor? – brinquei tentando camuflar a bagunça que havia se instaurado dentro de mim.
— Eu não me livraria dele – ela reprimiu um riso – Sem seu mau humor eu perco boa parte da diversão.
— Apenas conhecer?
— Apenha conhecer.
Suspirei.
— Eu acho que posso fazer isso.
Alice segurou minha mão e me puxou para ficar de pé.
— Já que pode, que tal começar me mostrando o shopping? Tenho muita coisa conhecer.
Sorri e apenas assenti.
As coisas estavam começando a se tornar mais fáceis.
******
Eu encarava Sofia com um misto de tédio e ceticismo. Qual é! Não era possível que ela podia ser tão infantil assim.
—Você destruiu nossa amizade! – ela esbravejava como se eu tivesse cometido um crime inafiançável.
— Sofia, para de drama... Eu não posso ir no cinema com uma amiga? Você fala como se eu fosse sua propriedade!
Senti seus olhos queimarem de ódio em cima de mim.
— A Júlia de antes não falaria isso pra mim. Eu vou matar a Alice!
Segurei Sofia pelos ombros, quase morrendo de tédio da sua crise de ciúmes.
— Você não vai fazer nada. Eu posso ter outras amigas, você pode ter outras amigas e fim. Sabe que nossa amizade não é substituível e nada muda isso.
Ela enxugou com raiva as lágrimas. Sério mesmo que tinha necessidade disso?
— Ela é sua nova melhor amiga.
— Ela é apenas a minha amiga. Fim. Uma ida no cinema é capaz de produzir isso em você?
Sofia sentou na minha cama com o rosto entre as mãos. Engoliu seco e tentou se recompor. Finalmente!
— O problema não é o cinema. O problema é que ela vive com você.
— Seu namorado vive com você e eu não dou show por isso.
— Mas são coisas diferentes!
Agora quem estava ficando brava era eu.
— Não tem nada de diferente. Você começa a namorar e simplesmente desaparece, só surge quando seu amor não pode te dar atenção. E por isso eu me tornei sua segunda opção? Você não tem o menor direito de decidir com quem eu saio ou não quando você é a primeira a me esquecer quando aparece algo mais interessante. – abri a porta do meu quarto – Vai pra sua casa, Sofia. Esfria essa cabeça e coloca ela no lugar. Eu não vou me desfazer da Alice pra suprir um capricho seu. Cresça e entenda que o mundo gira em torno de você. Ou melhor... – fiz uma pausa – Meu mundo não gira em torno de você.
Sofia limpou as lágrimas do rosto, depositou um beijo no meu rosto e saiu.
— Mesmo você sendo doente, continuo amando você. – soltei.
Ela apenas suspirou e foi embora.
Bati a porta com força e me joguei na minha cama. Não acreditava como minha melhor amiga podia ser tão egoísta. E injusta! Ela era praticamente minha irmã, mas isso não dava o direito dela decidir quem permanece na minha vida ou não.
Peguei meu celular e liguei para Alice.
— Sei que minha companhia é sensacional, mas tão rápido, Júlia? – ela atendeu com seu deboche habitual.
— Preciso que venha aqui.
Seu tom de voz mudou pra sério.
— Aconteceu algo?
— Sim.
— 10 minutos estou aí.
Desliguei o telefone.
Como a vida estava sendo irônica. Briguei com a minha melhor amiga de anos por causa da Alice e a única pessoa que eu conseguia pensar pra conversar era justamente ela. Será que a Sofia tinha razão?
Meneei a cabeça. Ela não podia ter razão. Não quando ela fazia exatamente a mesma coisa há anos e eu nunca fui capaz de reclamar. Porque não é algo que se deva reclamar. Somos amigas! Não propriedade privada uma da outra. É completamente irracional e egocêntrica a atitude de Sofia. Eu sinceramente não sabia se queria conversar com ela tão cedo, não se ela manter esse tipo de pensamento insano.
Como o prometido, dez minutos depois da minha chamada, Alice estava tocando a campainha. Desci as escadas correndo e abri a porta. Meu instinto foi de voar no seu pescoço e abraça-la.
— Quer conversar? – perguntou com a voz abafada.
Não pude conter as lágrimas. Droga. Não estava nos meus planos chorar.
— Quero.
Ela passou a mão pela minhas costas como se tentasse me confortar.
— Vamos entrar e você me conta o que aconteceu.
Alice era uma boa pessoa. Apesar de termos nossos altos e baixos, em algum lugar dentro de mim eu sabia que podia contar com ela. Sabia que ela não me negaria isso e que eu estaria segura. Sentamos no sofá e eu contei tudo o que aconteceu com a Sofia.
— E acabamos assim – soltei tentando segurar o choro.
Alice não disse nada por um tempo. Ela parecia digerir a história toda e seus olhos pareciam perdidos.
— Eu... – ela fez uma pausa – Eu não sei o que falar, Júlia.
Peguei uma almofada e apertei contra meu peito, tentando buscar conforto de algum lugar.
— Tudo bem. Foi um erro te chamar aqui. – murmurei.
— Não – ela respirou fundo – Eu não sabia que estava trazendo problemas pra você.
— Mas você não está.
— Olha... – ela segurou a ponta dos meus dedos – Por mais que eu ache a sua melhor amiga louca, eu entendo. Ela está com medo de te perder. É normal ela agir assim.
— Normal, Alice?
— Você já teve esse problema antes?
— Não.
— Te ver com alguém pra ela é diferente. E isso assusta.
— E por que quando ela age assim soa normal?
— Quantas vezes você reclamou?
— Nenhuma.
— Touché.
Eu tinha que admitir. Mais uma vez ela tinha razão. Só que isso não tornava a situação mais fácil.
— E o que eu faço agora?
Alice parecia relutante.
— Eu não posso te dizer isso – ela colocou uma mexa do meu cabelo atrás da orelha – Olha, eu já causei esse problema indiretamente. Mesmo que eu não ache que seja um problema – seus dedos enxugaram uma lágrima que ainda escorria – Mas quem conhece a Sofia é você. São amigas desde sempre, não? Tenho certeza que vai tomar a melhor decisão pra vocês.
— Acho que fui muito dura com ela.
Alice me puxou pra um abraço e eu apoiei a cabeça no seu ombro. Era estranho como eu me sentia confortável do seu lado e como tudo isso parecia natural.
— Você fez o que tinha que ser feito. Talvez vocês precisassem disso. Sabe, colocar os pratos limpos na mesa.
— Obrigada.
— Não precisa agradecer. Quer fazer algo pra se distrair ou estamos sendo vigiadas?
Sorri.
— Topo qualquer coisa.
— Não fala isso, você não sabe o perigo dessas palavras.
Joguei a almofada nela. Alice se protegeu com as mãos rindo.
— Ok, já está melhor. O que quer fazer?
— Filme?
— Só se for de terror.
Eu podia ver o sorriso de escárnio nos seus lábios.
— Nem pensar!
Alice revirou os olhos.
— Não vai me dizer que quer assistir comédia romântica.
Abri um sorriso largo.
— Sim!
Alice se levantou e jogou a almofada em cima.
— Desisto de você, Júlia. Gay demais.
— Vai abandonar o barco?
— Aham – respondeu enquanto procurava seu tênis
Fingi uma cara triste enquanto tentava reprimir o riso.
— Fica.
Ela revirou os olhos e respirou fundo.
— Ok – respondeu enquanto se sentava – Mas só porque eu quero, ok?
— Pensei que fosse por mim.
— Não tão rápido, floquinho de neve especial.
Sorri.
O tempo passou voando e quando me dei conta já era a hora de Alice ir. Eu me sentia bem e renovada. A sensação depois de passarmos o tempo juntas sempre era incrível. Principalmente depois de um dia louco como esse.
— Se sente melhor?
— Sim.
Alice se pôs de pé e me encarava um pouco relutante.
— Acho que preciso te contar uma coisa – ela respirou fundo – Daqui 20 dias eu volto pra Florianópolis.
Senti minha espinha gelar.
— Mas e a escola? Vai ser bem no meio da semana de provas!
Ela sentou novamente do meu lado, enquanto encarava o chão.
— É, eu sei. Tenho que resolver algumas pendências.
— Não pode esperar?
— Infelizmente não.
Eu estava incrédula. Por que ela tinha que ir justo agora?
— Alice – soltei em um murmúrio.
— É temporário – ela parou por alguns instantes – Não é como se eu fosse morrer, ainda podemos conversar.
— Quem vai me levar pra comer Burger King?
Ela abriu um sorriso.
— Espero que ninguém. O papel de te levar pro mal caminho da gastronomia é meu – seu sorriso se dissipou – Mas falando sério, achei que deveria te contar isso. Agora que somos amigas.
— Não torna fácil – admiti.
— É tão duro pra mim quanto pra você. Pelo menos você pode ter férias de mim – ela olhou para a pilha de livros que estava na estante – Nós duas sabemos que você não tá estudando nada.
— Vou sentir sua falta.
— E eu a sua. Mas... – ela parou – Esquece. Preciso ir, Júlia.
— Tudo bem.
Alice se pôs de pé e caminho até a porta.
— Até mais.
— Até – murmurei
Eu não sabia como reagir a essa notícia. O pior: eu não sabia o que eu sentia. A forma como as coisas ao lado de Alice fazia sentido era tremendamente assustador. O que eu sentia por ela era assustador. As coisas entre nós estavam se tornando cada vez mais intensas, a nossa interação cada vez mais íntima e estar ao seu lado não parecia algo absurdo, mas imaginar que ela não possa estar aqui comigo é no mínimo enlouquecedor.
Principalmente depois da crise com a Sofia. Eu me sentia sozinha e desprotegida. Era como se uma parte de mim simplesmente se esvaísse. Ela tinha se tornado parte do meu dia. Parte de mim.
Droga, Alice.
E eu pensando que o dia seria melhor.
Reuni todas as minhas forças e fui direto pro chuveiro tomar um banho gelado. Seja forte, Júlia. Você vai precisar mais do que nunca.
Peguei meu celular e olhei minhas últimas notificações. Tinha uma mensagem da Alice.
20 dias de despedida? ☹
Respirei fundo. Isso não deveria ser assim.
Não me sentia capaz de dizer qualquer coisa, tão pouco de sentir qualquer coisa. A única coisa que pairava na minha cabeça é o quanto isso ia me afetar. O quão difícil seria passar os dias sem Alice, sem seu sorriso, sem sua essência, sem nós.
É óbvio que existe algo que nos prende. E também é óbvio que isso não pode ser rompido. Mas vinte dias? Isso é tortura. É insano.
Vinte dias de despedida.
Vinte dias para eu entender essa confusão.
Vinte dias de Alice.
Vinte dias de nós.
Mais do que nunca eu precisava entender o que se passava entre nós. Era preciso enxergar com clareza as nossas bases e o que eu sentia por Alice. Entender o motivo de eu me sentir tão conectada e presa a ela. A razão de tudo ser tão fácil, mas tão complexo quando se tratava de Alice.
Será que eu deveria mesmo me aprofundar?
Não é hora de pensar, Júlia. Encontre respostas.
Mas eu estava pronta pra isso?
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