Sete Dias

3 Terceiro dia


Eram exatamente onze horas da manhã quando o pai de Mary entra no quarto e a acorda para se arrumar para a escola.

“Maldita segunda-feira.” Pensou Mary arrumando-se após um banho de água fria com a carranca emburrada. “A minha sorte é que eu estudo no período da tarde.”

Olhou-se no espelho para arrumar seu cabelo.

Tudo pronto. Pegou sua mochila e enfiou seu material dentro, botando-a no ombro esquerdo logo em seguida e indo até a cozinha.

– Bom dia mãe! – Desejou ela sentando-se à mesa, enquanto que sua mãe fazia seu café.

– Bom dia Anne.

– Cadê papai? – Mary mordeu seu pão e deu um gole em seu café com leite quentinho e doce, do jeito que ela gostava.

– Já foi para o serviço. Eu que te levarei hoje.

– Tudo bem. – Mary deu de ombros e mordeu mais uma vez seu pão.

– O que está havendo com você? – Sua mãe perguntou após algum tempo em de silêncio, para espanto e surpresa de Mary.

– Como assim?

– O que está havendo com você? É o segundo dia que você acorda feliz, fala comigo.

Mary deu de ombros.

– Sei lá. – Respondeu. – Estou me sentindo assim ultimamente, então decidi aproveitar. – Sorriu.

Dessa vez sua mãe que deu de ombros.

– Tem certeza de que você é mesmo você? – Ela perguntou com tom de brincadeira e riu.

– Engraçadinha. – Mary fez uma careta e se juntou a ela rindo.

Elas acabaram de tomar café juntas e foram terminar de se arrumar.

Quando ambas estavam prontas, entraram no carro e foram, em silêncio, até a escola de Mary. Sua mãe encostou o carro no acostamento perto do portão e depositou um beijo carinhoso no rosto de sua filha, antes de ela sair com pressa e entrar no prédio.

O sinal bateu assim que Mary pisou no pátio e ela riu.

“Que pontualidade a minha.” Gabou-se e seguiu o fluxo de alunos até o terceiro andar, onde sua sala ficava e adentrou o amplo espaço branco repleto de cadeiras e de alunos.

Primeiro tempo: Aula de Gramática. A matéria favorita de Mary Anne.

Mas apesar desse fato, tudo o que se passava na cabeça de Mary Anne era Jeff… Jeff… Jeff. Parecia que qualquer outro tipo de assunto era automaticamente afastado, deixando somente esse nome vagar livremente por sua mente.

Apenas algumas palavras ditas por sua professora eram captadas, mas não tão nitidamente, logo ela se aprofundava mais ainda em seus pensamentos.

– Uma antítese…

“Seria dizer

Que eu odeio

O modo como amo você.”

– Seria uma hipérbole…

“Admitir

Que morro de amores

Apenas por ti.”

– A prosopopeia ocorre quando…

“Meu coração opta por estar ao seu lado,

Meus dedos suplicam por tocar sua pele,

Meu corpo anseia por você.”

– A catacrese consiste em…

“Pensar apenas em como seria

Se eu fosse uma estrela

E habitasse o céu da sua boca.”

– E enfim, uma metáfora…

“Ao afirmar que sua pele

É tão branca e fascinante

Quanto à superfície da Lua.”

Mary olhou suas anotações em seu caderno e suspirou.

“Eu ainda vou enlouquecer.” Pensou e foi impedida de continuar suas anotações amorosas pelo sinal que acabara de tocar, anunciando o fim da primeira aula.

Ela trocou seus livros, pondo os da aula seguinte em cima da sua carteira, e em seguida apoiando o cotovelo na mesa e sua cabeça na mão. O professor de biologia entrou na sala com seu habitual sorriso de desdém, começando a aula sem hesitação.

Mais uma vez Mary estava com a cabeça em outro mundo, ou melhor, outra pessoa.

[…]

Mary olhou espantada para a maçaneta de sua porta, de onde viera o barulho.

Dessa vez ela estava acordada, pois não conseguira pregar os olhos de tanta ansiedade que sentia. Sentia-se até mais ansiosa que ontem. A todo o momento olhava para o relógio e bufava, pelo fato de a hora parecer não querer passar rapidamente.

Ela pôde ouvir um suspiro aliviado escapar por seus lábios ao ver Jeff entrar em seu quarto e fitá-la.

Ela não saiu da cama, como de costume, e foi Jeff quem trancou a porta para eles terem mais privacidade, e também para que nem o pai, nem a mãe de Mary entrassem no quarto e se deparassem com eles dois.

Ele caminhou lentamente até ela. Chegou perto da cama e estendeu a mão. Mary pegou-a sem hesitar e ele a levantou, até ambos ficarem com o rosto da mesma altura.

– Eu queria fazer uma coisa. – Disse Jeff de modo pausado, fazendo parecer que uma guerra estava acontecendo dentro dele. E estava. Seus dois lados lutavam um contra o outro e quem vencia era o “humano”.

– O que você quiser. – Balbuciou Mary.

Jeff levou suas mãos até o rosto de Mary, segurando-os com delicadeza, enquanto que Mary deslizava suas mãos do antebraço de Jeff até chegar às mãos dele.

– Feche os olhos… Por favor. – Pediu ele ofegante.

Ela fechou-os, sentindo seu coração bater contra seu peito, forte e descompassado.

Ela pôde sentir a respiração de Jeff bater contra seu rosto e automaticamente ficou tão ofegante quanto ele. Seu delicado nariz roçou na bochecha dele quando ele colou seus lábios ao dela, dando-lhe um selinho demorado. Separaram-se, um fitando o outro, sem nada a dizer.

Mary encaixou suas delicadas mãos na nuca de Jeff, por debaixo de seu cabelo negro, e puxou-o para mais perto, iniciando um caloroso beijo. As mãos de Jeff deslizaram lentamente pelo corpo de Mary Anne, como se quisessem gravar cada curva, até chegar à cintura, agarrando-a com força ali e puxando-a para muito mais perto.

Seus pulmões imploravam por mais oxigênio, mas eles não queriam se desgrudar. Eles queriam apenas sentir um ao outro. Seus corpos se encaixavam tão perfeitamente que mais pareciam duas peças de um quebra-cabeça, como se feitos especialmente um para o outro.

Suas línguas dançavam uma suave valsa, perfeitamente sincronizada, acariciando-se e conhecendo-se. Era uma sensação incrível para ambos. Ela já havia tido essa experiência uma vez, mas para ele era a primeira vez. E tudo em que ele conseguia pensar era em quando poderia ter aquela sensação gostosa novamente.

Separaram-se, arfantes. Um sorriso estava estampado nos lábios de Mary Anne, assim como os dentes de Jeff estavam a mostra, como um sorriso sincero além de sua cicatriz.

Mary tirou sua mão da nuca de Jeff, pondo-a logo em seguida em sua cicatriz em forma de sorriso, acariciando a região, estudando a pele que começava a se juntar novamente.

– Está se fechando. – Murmurou ela, olhando para seus dedos percorrendo o local e logo olhando para Jeff.

Ele suspirou. Sentou-se na cama e deitou, olhando o teto. Mary deitou junto, se aninhando entre o braço esticado, que servia de apoio para sua cabeça, e o corpo de Jeff. Seus dedos brincavam distraidamente com a gola do moletom branco dele, enquanto que seus olhos fitavam o rosto de seu amor.

Ficaram assim, em silêncio, como na noite anterior, perdidos em pensamentos e lembranças. Lembrança, melhor dizendo. Uma única linda e perfeita lembrança: O primeiro beijo deles.