Sete Chaves
2 I. Efeito Placebo.
Notas iniciais
I. Efeito Placebo.
Nuances de outono faziam-se visíveis na rua ao amanhecer. O cheiro gelado incomodava minhas narinas e eu torcia uma faceta em resposta. Em meu lado, minha irmã tentava pegar minha mão que eu conseguia desviar com maestria. A cada tentativa um muxoxo escapava da garganta da pequena.
— Me deixa segurar sua mão, Tata! — implorava Laenna, tentando novamente alcançar minha mão esquerda.
Levei-a para frente, balançando mais forte, e direcionei um olhar de soslaio.
— Isso de tata é meio cabuloso. Da onde veio mesmo? — meu tom estava tão enfezado como o inicio do ano letivo.
Eu tinha um bom motivo, embora. Fazia uma semana desde o meu último contato de James, quando o conheci três meses atrás. Aparentemente ele havia sumido da face da terra. Ninguém o via online, seu celular caia na caixa postal e o único endereço que ele havia me dado – que era em São Francisco, alias, dificultando ainda mais a minha vida –, parecia sequer existir de acordo com todos os mapas.
Sim, eu tinha levado um fora. Pelo menos ele permutou insistente por um mês após as férias. Deveria ter sido um recorde meu segurar um cara por tanto tempo.
Leanna em meu lado soltou um ruído da garganta que eu sabia que era o primeiro indício de um choro próximo. Tentei ignorar, mas acabou sendo em vão. Tínhamos um histórico verossímil, na realidade. Ela sabia muito bem que pouco eu conseguia manter-me fria quando a vulnerabilidade dela alcançava esse ápice de drama. Diante daquilo não demorou e logo eu mesma buscava sua mão, esquecendo-me de meu choro pessoal. Ao contato quente e protetor da irmã mais velha, eu quase pude ver um sorriso no rosto da pequena quando o ruído silenciou.
Ao meu lado, Laenna apertou minha mão tão forte como fosse possível uma garota de nove anos. Não doeu, mas eu fingi que sim porque sabia que ela se divertia.
— Ai monstrenga. Está ficando muito forte! — esbravejei, embora sem olhá-la. Ainda mantinha minha atenção na rua.
Ouvi uma risada e o aperto relaxou.
— Isso é para você aprender a parar de ser tão chata comigo. Foi só um aviso — ameaçou e eu continuei atuando temerosa.
O caminho até a escola dela me fazia desviar da minha em 10 minutos. Por isso, na maioria das vezes, ela sempre era uma das primeiras a chegar. Claro que Leanna não gostava nem um pouco, sempre esbravejando o quão era vergonhoso ficar sozinha encarando sua professora enquanto suas amiguinhas não chegavam.
Particularmente, eu estava nem ai para isso. Por causa dela (e da preguiça crônica de nosso pai e da mãe dela, veja bem) eu tinha que andar quase um quilometro a mais. Então, ao todo, eu conseguia manter uma visão vitimada sobre eu mesma. Talvez por isso, quando todo o bom humor dela se viu diluído a cada passo próximo da Escola Paroquiana Fundamental até então silenciosa, eu via proporcionalmente meu mantra da paciência elevando.
Não deu outra, aliás. Quando a deixei a porta, ela não quis soltar minha mão.
— Lissa, fica comigo até Bianca ou Anna chegar, por favor? — implorou em um timbre manhoso.
Se eu não tivesse meus próprios compromissos eu até consideraria. Mas eu tinha, e com isso, não havia muito que contestar.
— Não vai rolar pequena. Tenho aula também e meu colégio é quase uma discografia inteira de distância.
Minha argumentação não pareceu funcionar até então, porque ela apertou minha mão de novo o mais forte que conseguia. Dessa vez eu não esbocei a expressão dolorida e tudo que fiz foi ajoelhar na frente dela para nossas alturas tornarem-se compatíveis.
— Lenna — comecei chamando-a pelo apelido. — Sério, a Tata tem que ir. A gente já conversou sobre isso — repeti pela milésima vez nosso discurso enquanto tentava tirar sua mão da minha.
— Mas... Mas porque a gente vem sempre tão cedo? Minha aula sempre começa depois de um tempão!
— Por que sua escola é longe do meu colégio, e para chegar a tempo da minha aula, tenho que deixar você mais cedo. Você sabe disso, não se faça de boba — respondia finalmente conseguindo tirar nossas mãos. Aproveitei da oportunidade para arrumar seu cabelo, ajeitando a franja loira que caia, colocando-a para trás da orelha. — Não se preocupe você conseguiu ontem e vai conseguir hoje. Veja que é uma oportunidade perfeita para pregar uma peça naquela menina chata que me contou. Qual era o nome dela mesmo? Rei... Ray...
— Rayley — tratou de me corrigir rapidamente, e eu pude sentir certo desgosto lampejar sobre as íris verdes puxada de nosso pai.
— Isso, Rayley. Aproveita que ela não chegou e passa cola na cadeira dela. Ela não passou tinta na sua esses dias? Então...
Provavelmente eu não deveria estar ensinando o conceito de vingança para uma garotinha de nove anos, mas diante do contexto, eu realmente estava muito puta com essa tal de Rayley. Se o significado de bullying havia um nome e definição, caberia perfeitamente nesta mesma. Até porque, existe coisa mais fácil que caçoar de alguém que provavelmente é rodeada da aura mais bondosa como Laenna?
Eu tinha minhas certezas que não. E a cada dia naquela escola e a cada história contada, eu acreditava que minha irmã era a reencarnação de um arcanjo e Rayley a personificação de um dos cavaleiros do apocalipse.
Dramas a parte pareceu funcionar, porque subitamente Laenna ficou animada. Eu sabia que ela não faria isso, mas também sabia que minha irmã adorava a ideia de ser uma rebelde, apesar da falta de atitude latente que demandava isso. Eu sabia por que sustentava a mesma personalidade.
Não demorou muito depois daquilo ela se ver animada e me agradecer sobre a ideia dada. Consegui ganhar um tempo calculando que se corresse talvez chegasse a tempo e fiquei com ela ali mastigando a ideia da cola. Até emprestei uma minha, já que a pequena achava que uma não seria o suficiente.
Pouco tempo depois nos despedimos e eu ajeitei minha bolsa sobre o ombro, cruzando sua alça em meu tronco e minha corrida deu-se por breve. Com as brisas geladas chocando ao meu rosto, correr pareceu problemático o suficiente. Por isso, até metade do percurso que de alguma forma eu consegui fazer em tempo recorde, meus passos eram rápidos como se eu tivesse tentando sair em disparada em uma igreja.
Talvez a mente sobre o ócio, ou sentir falta de um calor até dado instante fez minha mente vagar em James. Eu sempre o relacionada com fogo de alguma forma. Talvez não fogo em sua forma física, mas sim o resultado; o calor, o conforto e a segurança.
James era quente. No sentindo metafórico e literal. Corpo magro e definido, que me vi explorando por dois meses inteiros, e uma temperatura corporal que realmente me fizera indagar diversas vezes se era de cunho pessoal andar sempre com febre. De todas às vezes perguntadas, ele apenas ria, me abraçava e dizia que de tão sexy que era quase explodia em chamas.
Eu não sabia por que, mas algo dizia que ele não mentia. O que era ridículo por motivos óbvios.
Palmilhava tão absorta nas lembranças que só vi que alguém andava em minha frente quando senti meu maxilar chocando com um ombro e o gosto de sangue dominou em minha boca quando meus dentes morderam minha língua.
— Cuidado garota! — a voz masculina exclamara, e eu pude ver que alguns papeis estavam espalhados ao chão, provavelmente resultado do impacto.
— Desculpa — aprumei em dizer, agachando para ajuda-lo a recolher.
De tão desastrada que eu era, provavelmente havia feito mais mal do que bem, mas não ouvi reclamações. O senhor, que finalmente pude encarar pela primeira vez, me olhava feio quando eu entreguei os papeis.
Ele era um pouco mais alto do que eu, porém parecia uns 20 anos mais velho fácil, o que o colocava na idade próxima do meu pai. Cabelos castanhos com alguns fios grisalhos, barba amanhecida e um sobretudo marrom por cima da camisa social branca amassada. Quase como um professor de universidade nada contente e bem rígido.
— Desastrada. Essas crianças de hoje em dia só ficam ligada em seus aparelhos celulares e computadores. Olhe por onde anda da próxima vez!
Bem, ele era um cara bem espirituoso, não é? E um pouco exagerado, mas eu preferi me abster de comentários. Estava realmente errada na história, e o gosto de sangue predominante em meu paladar era um lembrete firme.
— Desculpa — de novo apenas murmurei aquilo, o que pareceu pegar o outro de surpresa ou incrédulo.
Seja lá o que passou em sua mente, ele pendurou o olhar acinzentado sobre mim por segundos quando finalmente tirou tempo para me encarar, como se quisesse ler minha alma. Senti-me incomodada, por isso murmurando a terceira e última desculpa do dia, ajeitei minha mochila e já me retirava dali, sentindo seu olhar em mim até eu dobrar a esquina. Meus passos eram igualmente apressados; e talvez agora, substanciados por um incomodo latente.
Não demorou a chegar ao colégio e ver que novamente estava atrasada. Com o portão principal fechado, tive que desviar até o prédio administrativo, que me comeu uns bons cinco minutos tendo de explicar o porquê detrás do meu atraso. Todavia Dorothy, a secretária, já estava acostumada com a minha presença, e apenas revirou os olhos murmurando um “como sempre”.
Chegar à sala com meu professor no meio da aula de química era algo comum. Ainda mais sentir os olhares sobre mim quando me diria em minha mesa onde Grace estava sentada do lado.
Grace era minha amiga desde... Sempre. Pelo menos desde que eu ganhei consciência plena, o que significava uma amizade quase de 10 anos. Conheci-a quando tinha seis anos e foi um encontro quase de alma. Empatia total. Afinal, quando duas garotinhas se juntam para montar o maior castelo de areia da praia inteira naturalmente algo perpétuo se forma dali.
Foi o nosso caso.
Quando eu sentei no banco, já alcançando meu caderno sobre a bolsa, Grace escorregou mais para o meu lado.
— Lenna chorando de novo? — sussurrou oscilando o olhar sobre o professor e eu.
— E um choque que me fez tomar meu próprio sangue.
Aprumou a postura rapidamente, e eu pude notar pelo canto dos olhos o cenho franzir.
— O que? — dessa vez sua voz saiu um tom mais elevado, o que claro não passou despercebido pelo professor.
Fiz menção de fingir que prestava atenção nele. Ela sabia que nessas horas era cada um por si. Mais tarde a recompensaria com um chocolate ou algo parecido e tudo ficaria bem.
— Não entendeu o que, Grace? — indagou sr. Turner em tons céticos.
Comecei rapidamente a anotar as coisas escritas no quadro negro e Grace já ajeitava em seu lugar novamente, se portando como uma dama deveria se importar. Coçou a garganta, e eu podia imaginar que a melhor expressão de confusa começava a decair em seu rosto.
— Hm, eu só não entendi bem a consistência do placebo professor. Quer dizer, porque ele funciona? Não é o medicamente em si...
Grace era assim, naturalmente competente mesmo quando não era. Ou pelo menos atuava perfeitamente. Os cabelos ruivos e seus olhos azuis expressivos também nutriam para suas performances acontecer de forma exímia. De todos os modos, o professor pareceu se enrolar com a indagação falsa.
— É o efeito da sugestão aplicado em determinada pessoa, que acredita estar tomando algo que na realidade é uma vitamina. Efeito espontâneo, por assim dizer. A crença e expectativa sobre algo que responde como se fosse um próprio remédio que havia sido tomado.
Diante do discurso, me via prestando atenção moderadamente. Parecia uma ideia muito triste essa do placebo. Aplicando na realidade, arriscaria dizer que assemelhava a própria religião; ou quem sabe, total compreensão da vida que conhecemos? A crença sobre algo que na realidade não era nada do que esperávamos me incomodava. O simples pensamento de uma atual perspectiva vigente igual a essa conseguia me deixar desamparada.
Eu tinha essas manias existenciais vez ou outra, admitia. Sempre imaginava que tudo aquilo que eu vivia era uma mentira; talvez eu mesma fosse uma mentira tangível. Pensamentos tristes, talvez. Mas eu não era triste, longe disso. Talvez apenas mais dramática do que deveria.
A aula decorreu tranquila e Grace não tentou mais me contatar, o que significava que ela havia se interessado na aula. Não era difícil já que a facilidade de aprendizado que a mesma tinha era quase invejável. O que bem era bom para mim, já que alguém diagnosticada com dislexia e hiperatividade, eu precisava e muito de uma tutora presente para não reprovar.
Cinco minutos antes do sinal bater e todos já estarem com o material na mochila, o professor clamou pela nossa atenção.
— Ei, pessoal, calma ai. Tenho tarefa de casa para passar para vocês — o coro decepcionado foi geral. — Antes de comecem a reclamar, na pagina 65 do livro tem o exercício que vai do um ao tr— antes de conseguir terminar seus dizeres, Dorothy abriu a porta e colocou a cabeleira loira para dentro, chamando o professor me um assovio. — Esperem aí que eu já volto.
Ao sair da sala, a conversa quase explodiu. Grace voltou a me encarar, virando o tronco para o olhar azul se encontrar com o meu.
— Ta, o que rolou? Que parada é aquela de choque?
— Eu trombei com um cara e o ombro dele me fez morder minha língua, nada demais.
Pude ver a decepção passar como um lampejo em seus olhos.
— Você exagerou pra caramba antes, né? Achei que tinha sofrido um acidente pelo “me foz tomar meu próprio sangue”. Que jeitinho ruim de escolher palavras — reclamou deixando de me encarar e tudo que eu fiz foi dar os ombros, ela sabia que eu era dramática.
Eu já me preparava para iniciar outra conversa quando o professor abriu a porta com brutalidade, como se estivesse apressado. Não parecia mais tão sereno como antes, e eu quase podia sentir uma inquietação chacoalhar dentro de si. Meu cenho decaiu e por algum motivo e comecei a ficar tão preocupada como ele.
— Aula encerrada. Vocês estão liberados para ir para casa. Até amanhã — fora seco e bem sucinto, e em resposta, outro coro fora bradado. Dessa vez de pura animação.
Grace ao meu lado sorriu e tocou em meu braço, tirando-me da minha preocupação por um momento. Virei para encará-la e eu já sabia que provavelmente ela me chamaria para ir ao parque junto com a galera. Eles sempre iam para lá em épocas de folga.
— Caleb está com uma garrafa de vinho do pai dele, e a gente já tinha combinado mesmo de ir para o parque depois da aula. Vamos? Tem tempo até a aula da Lenna terminar. Dessa vez não tem desculpa! — argumentou assertiva, praticamente me obrigando a ir.
Suspirei e sem escapatória, gesticulei positiva enquanto guardava de novo meu caderno.
— Eu só tenho que ir ao banheiro antes, da para me esperar?
Grace apenas acenou com a cabeça e sem espera-la, eu tomei rumo em direção à porta. Sr. Turner, que ainda estava na sala, colocou a mão em minha frente, me impedindo. Virei para olhá-la, com uma dúvida quase palpável ao olhar.
— Está indo para casa, McShane?
— Ah, banheiro e depois casa — eu não sabia se ele estava ciente da ida ao parque, mas diante do fato que era errado, eu comecei a ficar quase desesperada com a possibilidade.
O professor assentiu com a cabeça, parecendo convencido, e olhou para os lados.
— Não ande sozinha, certo? Tome cuidado. Está tudo muito perigoso hoje em dia.
Bem, eu não entendi muito aquilo, mas murmurei um “certo” e dei as costas, indo em direção ao banheiro.
Meu professor era naturalmente estranho. Pelo menos tem que ser para lecionar química, que era uma das únicas matérias mais monstruosas que eu me via enfrentando desde que entrei no ensino médio. Porém aquilo tinha passado muito mais da linha aceitável de estranheza; mediante preferi não pensar. Afinal, apenas de ficar perto dele, toda aquela preocupação em seus olhos tinha de novo se apossado em mim, o que tinha me deixado brava.
Nem urinar a gente podia mais sem algo estranho acontecer. Definitivamente aquela não estava sendo uma boa quarta feira.
Quando eu entrei no banheiro, senti que não deveria estar ali. Talvez uma coceira no cerne, uma preocupação no cérebro ou um arrepio na espinha. De todas as formas, o ambiente pareceu ficar mais denso e pesado. Alguma coisa sobre placebo voltou em minha mente e me peguei virando em torno do meu eixo para ter uma visão completa do banheiro.
Ao ver nada, constatei que a loucura só poderia estar evoluindo. Rolei os olhos então, e entrei logo em uma cabine. Antes mesmo de colocar minha bolsa no chão, ouvi os passos dentro do banheiro e sapatos sociais pelo véu que separava a porta da cabine do chão.
— Eu reconheci você. Eu entendi você. Não subestime minha inteligência...
A voz rouca e grave chegava aos meus ouvidos de forma impactante. E lógico, reconheci.
Era o do homem havia trombado mais cedo naquela manhã.
Seus olhos acinzentados analíticos resplandeceram em minha mente e subitamente senti muito mais acanhada do que antes. Tentei ficar em silencio, parando de sovar o ar.
— É igualzinha a mim, porém um pouco diferente... Apolo? Não, você não tem o brilho natural. Hefesto? Muito bonita, devo dizer. Atena? Não tem a sabedoria necessária. Zeus? — seus passos pararam sobre a última fala, como se repensasse. — Falta atitude o suficiente. Quem é você? De quem é você?
Tentei realmente não ficar ofendida com aqueles bombardeios, ainda mais porque o medo parecia o sentimento predominante em mim. Minha respiração se via pesada, meu coração acelerado pela maior adrenalina e sentia minhas pupilas tão dilatadas como pede a encomenda. A loucura do homem parecia diluir ao ar, como uma fumaça branca querendo fazer carinho em meu rosto.
Mas mesmo assim, eu não consegui me segurar muito tempo. Talvez fosse porque eu estava um pouco curiosa além de temerosa, ou, pois o fato de me ver enclausurada devido algum estranho louco não fosse confortável para meu ego. De todas as formas, eu logo abria a cabine, colocando meu corpo para fora, e o vi virar para me encarar.
Os olhos cinzentos pareciam ainda mais calculistas do que antes, e lógico, inquietantes.
— Ai está você! — exclamou, abrindo os braços e moldando um sorriso estranho. — Eu já descobri seu jogo garotinha. Sei que é uma semideusa, mas não consigo descobrir de quem é filha e isso me deixa agoniado. Sabe quando tempo isso não acontece? Desde Diogo de Éris. Quem diria que Éris teria filhos, hm? — dialogava exasperado.
Eu consegui ser inteligente o suficiente para falar:
— Hã?
O homem não pareceu receber muito bem minha confusão e deu um passo para se aproximar de mim. Em resposta, como se fosse instinto, eu dei um para trás e minhas costas encontraram a porta gélida da cabine que antes me escondia.
— Você ainda não sabe de nada, não é? Ah, obrigado. Dificultou ainda mais a minha vida.
Pela expressão desgostosa em seu rosto, eu tentei não me sentir muito culpada. Mas logo lembrava que o louco da questão era ele e aprumei minha postura, ficando ereta e um tanto quanto confiante. De alguma forma todo aquele medo persuasivo esvaia como calor. Algo me cutucava dizendo que ele não almejava me fazer mal algum.
— Desculpa, acho. Mas bem, eu vou indo... Seja lá qual for sua confusão, provavelmente errou de pessoa.
Tentei argumentar, segurando firme na alça da minha bolsa quando iniciei o palmilhar para fora do banheiro. Antes de alcançar a porta, contudo, senti uma mão sobre o colarinho da minha jaqueta jeans me puxando para trás e quando me virar, o olhar cinza nivelará com o meu.
— Negativo, garotinha. Você vem comigo — não parecia ser um pedido ou algo semelhante, talvez fora por isso que torci minha face em uma expressão descrente.
— Não vou mesmo — rebati, tentando desvencilhar sua mão da minha jaqueta com um puxão para frente.
Ele me soltou, mas mesmo assim, não parecia ter mudado de ideia.
— Está me desobedecendo? — indagou quase ofendido quando eu tentei de novo sair do banheiro, mas ele logo prontificou ficar em minha frente.
— Por que motivos eu te obedeceria? Agora da licença. Eu preciso sair — naquela altura da questão era mais do que óbvio que meu medo havia sido totalmente domado por uma irritação.
Era uma coisa engraçada sobre mim, essa instabilidade emocional. Eu já havia notado com o passar do tempo que era correlacionado óbvio com o estado sentimental de quem me via acompanhada. Talvez minha empatia fosse soberba, de fato. Sempre deixando-me influenciar pela psique momentânea de alguém; conseguindo com apenas poucos momento sentir quase que por inteiro a alma da pessoa.
Talvez fosse por isso que eu não estava mais com tanto medo do outro. Minha perspectiva até dado momento sobre ele era de um cão que latia, mas não mordia.
Uma de suas mãos voou até as têmporas e dali, ele começou a massagear, como se estivesse com dor de cabeça. Da mesma forma, minha cabeça começou a doer.
— Talvez eu devesse voltar à ideia de Zeus. Você consegue ser tão irritante como um deles — murmurou um pouco venenoso, e eu me controlei para não rebater.
Minha cabeça doía como se um prego tivesse martelando na parte de dentro.
Tentei sair mais uma vez, todavia ele apenas dera um passo pra o lado, me acompanhando no movimento. Pude até sentir o sangue percorrer o caminho, subindo ainda mais e rodando, piorando a dor incomum que sentia.
— Por favor, me deixa sair... O que você quer de mim? — murmurou quase chorosa, clamando mentalmente por uma aspirina. Em minha frente o homem parecia na mesma situação.
— Conversar... Estudar... Preciso explicar umas coisas, descobrir outras. De todo modo, sua vida vai mudar garotinha, assim que você decidir vir comigo.
Em outros contextos não seria o discurso mais eloquente que teria presenciado. Havia até um toque maldoso no plano de fundo, se eu conseguisse enxergar mesmo uma maldade no homem. Quem tivesse de fora, bem, uma linguagem que poderia ser levado à promiscuidade e logo mais, uma prisão bem justificada.
Mas não era o caso. Pelo menos todo meu instinto dizia.
Eu estava prestes a responder quando sr. Turner entrou no banheiro com uma expressão que poderia ser confundida com desespero. Só não era porque essa logo tomou traços tão sérios quando viu o outro homem como se ele estivesse se preparando para uma guerra.
— Presumo que foi você que entrou sem permissão, correndo como um lunático — o tom severo tão frio que me fez dar um passo para trás, chamando a atenção rapidamente para mim. Fora neste intervalo, que se fazendo ciente de minha presença, a expressão do sr. Turner ficou rapidamente surpresa. — McShane? O que? — de confusão a ira, foi um processo bem rápido quando ele assimilou tudo. — Saia de perto dele.
Eu tentei dizer que era exatamente o que eu estava tentando fazer quando o homem pegou em meu braço, me colocando atrás dele, como se quisesse me defender. Sr. Turner deu um passo para frente, visivelmente agressivo.
— Ela é minha filha, com licença. Estamos conversando — pela primeira vez naquele dia, vi o louco sendo civilizado.
— No banheiro feminino?
— Ele não é meu pai não, professor.
Foi rápido demais e as falas se embolaram. Só sei que no segundo momento, st. Turner já estava quase beijando o homem de tão próximos que se encontravam. Dado o fato o aperto em meu braço suavizou e rapidamente comecei a esgueirar para fora do banheiro.
— Você vai lidar com a policia, graceus.
— Você sabe que eu vou escapar deles, romano.
Aquilo de alguma forma estava soando como uma troca de insultos, e por pouco entender, logo julguei que talvez fosse a uma linguagem mais robusta, que professores usassem. Considerando que talvez o louco fosse um professor. Eu tinha alguma certeza mais que indubitáveis.
Já estava próxima da porta quando ouvi um bradar do louco:
— Ei garotinha, fica parada ai que temos muito o que tratar!
Olhei para trás e vi meu professor o empurrando contra a parede em um movimento muito coordenado para um professor de química. Novamente fui surpreendida.
— Sai daqui McShane — e ao findar da fala, o louco pegou o braço que ia contra seu pescoço e mais habilmente se livrou, fazendo um movimento que de alguma forma colocou sr. Turner com a bochecha virada para a parede e grunhindo de raiva.
Bem, lógico que diante das trocas físicas, eu realmente fui embora. Não olhei para trás e sai apressada, esbarrando contra Grace que parecia caminhar em direção ao banheiro com um olhar nada amigável.
— Caramba Lissa, onde você estava? Caleb quase te deixou para trás — dizia e o olhar azulado parecia nada contente.
— Ai Grace, vamos embora daqui, sim? — apressei pegando-a pelo braço e ouvindo reclamações para andar mais devagar.
Enfim finalmente sai daquele colégio, sentindo que atrás de mim um olhar acinzentado pendurar.
***
Não estava em minhas completas faculdades emocionais naquela tarde, o que deixou meus amigos bastante curiosos com minha apatia efêmera. Eu sempre era animada; clara como Grace gostava de dizer. Iluminada no sentindo piegas de ser dito.
Bem, poderia ser classificada uma morbidez momentânea para mim. Estava tão irritadiça que não pendurei nem a manhã inteira com eles, que deleitavam ao apreciar de um vinho seco em copos de plásticos. Na perspectiva do meu pai, se visse isso, seria algo próximo de um crime.
Na primeira oportunidade que vi já me retirava daquela praça, aprumando meus passos em direção à escola da minha irmã. Consegui cumprir o trajeto em tempo recorde, talvez porque não queria topar novamente com o louco de olhos acinzentados. Ao chegar para buscar Laenna, até a própria estranhou meu porte.
— Você tá’ irritada tata? — perguntava enquanto sua mão se encontrava com a minha.
Eu não respondi de imediato, talvez porque minha mente ainda vagasse sobre os acontecimentos mais cedo. Até dado momento eu realmente não tinha me importado muito com os primeiros dizeres do homem louco, mas quando tive a primeira oportunidade, todas aquelas palavras começaram a vagar sobre minha mente.
Apolo, Zeus, Atena, Hefesto... Eu realmente queria saber o contexto que deuses antigos poderiam empregar o porquê daquela situação. Talvez eu tivesse levando muito a sério alguém claramente transtornado, porém o fato do meu professor parecer ter um conhecimento prévio sobre o cara não fez minhas dúvidas suavizarem.
Lenna apertou minha mão de novo, clamando por atenção e eu pude despertar momentaneamente de meu devaneio.
— Hm, o que?
— Perguntei se você tá’ legal, Lis — provavelmente ela era a única que me chamava pelo apelido do meu apelido.
Lancei um sorriso amarelo, gesticulando positiva com a cabeça.
— Sim, estou. Apenas preocupada com uns deveres de casa... — a frase morria ao fim, com o meu tom decaindo. Via o olhar desconfiado resplandecer naquelas íris esverdeadas e tentei mudar de assunto rapidamente. — Mas e você? Se vingou daquela chata?
Depois disso, Lenna se animou, e como de praxe eu me animei junto. Parecemos, até então, esquecer minha carranca até chegarmos em casa.
Morávamos junto com nosso pai e minha madrasta em um apartamento no limite do luxo no Queens, em Nova Iorque. O que significava que nossa vida até que andava bem, até dado momento. Tínhamos dois carros (e um terceiro estava vindo para mim, tenho certeza) e duas vezes por anos saímos de férias, que não eram nada comuns, diga-se de passagem. Então sim, a vida era boa.
Por hora, pelo menos.
Chegamos em casa na hora do jantar, e o cheiro da comida de Eva, nossa diarista, conseguiu fazer-me esquecer de todos os meus problemas para uma fome colossal aparecer. Percebi que desde o café da manhã eu não havia colocado nada no meu estômago.
Quando fechei a porta da sala e Lenna saiu correndo pela casa, pude ouvir os passos pesados saindo da cozinha em minha direção.
— Ninas, chegaram bem há tempo — Eva era italiana e seu sotaque rústico sempre me fazia animar, já que felicidade parecia ser inquilina no corpo daquela senhora. Lenna correu, passando como um foguete ao lado dala, direto para a cozinha. — Ora senhorita Laenna, não vá fazer bagunça na minha cozinha! — esbravejava humorada, indo atrás dela.
Eva era baixinha e um pouco gordinha, mas eu tinha a certeza que na sua idade de ouro devia ter arrasado corações de todos os partidos com aqueles cabelos encaracolados, apesar de nunca ter se casado, de fato. Mas pelas histórias que ela contava, eu sabia que ela tinha três filhos.
— Dona Elissa, fiz o bolo de limão que você adora. Se não contar ao teu pai, deixo você comer um pedaço. — ouvi a voz italiana bradando e por um momento sorri, jogando as mochilas no sofá.
— Quer me ver gorda? — rebati em tons leves, entrando na cozinha onde um prato com uma fatia me esperava na mesa.
— Você precisa de massa nesses ossos!
— Eu engordei três quilos nas férias, Eva. Se eu ganhar mais massa vou sair rolando pela escada.
Lenna, que até então também apreciava uma fatia de bolo, ao ouvir as palavras férias animou-se brevemente, lançando-me um olhar traquinas.
— Ganhou três quilos e um namoradinho... Foi o que papai contou.
Eu não respondi, mas fiz questão de lançar um falso olhar desafiador para ela, de quem preparava uma vingança próxima.
Eva riu, balançando a cabeça para os lados como se mal acreditasse.
— E parecia ontem que a senhorita corria pela casa dizendo que o único homem da sua vida seria Jesus.
Eu estava perdendo aquela discussão, claramente. Então apenas ri, dando os ombros, tentando evitar relembrar minha fase ultra religiosa que veio após um acampamento de verão onde nossa ocupação era basicamente aumentar nossa espiritualidade.
Foi meio que ruim para mim, que desde sempre me mostrei alguém altamente espirituosa. Então era lógico que eu passei uns bons meses sendo a pregadora da palavra, até minha desilusão diluir com outros interesses acentuando sobre minha mente.
Inevitavelmente, diante da familiaridade avulsa, minha mente conseguiu escorregar novamente para lembranças daquela tarde. Meu apetite morreu, e subitamente o bolo de limão nãos parecia mais tão gostoso no meu paladar. O sorriso desfez gradativo, até virar aquela expressão apática pouco comum.
Levantei abrupta da mesa, e aquela dor de cabeça de antes pareceu voltar em um ímpeto.
— Hm, não vou jantar hoje Eva, tenho umas mil tarefas para fazer... Guarda um pouco da janta para mim, sim? E um pedaço de bolo! — pedia aos berros, já entrando no meu quarto, nem dando tempo de ouvir a resposta.
Quando fechei a porta, não foi surpresa que a primeira coisa que eu fiz foi correr até meu notebook. Era um tanto quanto idiota, porém na primeira oportunidade, eu comecei a procurar sobre lendas gregas.
Como uma estudante com dificuldades de aprendizagem, vamos dizer que eu não sabia muito sobre história, já que meu foco concentrava em cálculo, física, álgebra e química por motivos óbvios. Matérias humanas como essa, colar era uma coisa bastante fácil. O resto... Não tanto, realmente.
A primeira página que abriu fora uma página bem duvidável, todavia me contentei com a mesma. Parecia ter o básico do básico, e era o bastante para saciar essa inquietude implantada através de acontecimentos nada gratificantes.
Consegui ignorar coisas ignoráveis daquela página, focando somente nos deuses que me recordava que o homem citara. Zeus fora o mais óbvio, até porque a figura imponente do soberano dentre todos não era algo fácil de passar despercebido. Diante de uma leitura complicada devido a minha dislexia junto com luminosidade da tela, eu devo ter demorado uma meia hora para conseguir ler perfeitamente dois parágrafos.
Quando findei a leitura, a última frase conseguiu captar minha atenção concedendo-me um vislumbre nostálgico do banheiro.
“Zeus tivera muitos filhos com feitos notáveis; semideuses poderosos, que destacaram perante as lendas como os guerreiros mais exímios de toda Grécia.”
O homem havia falado algo sobre semideuses, sim. E afirmado tão assertivo que eu própria era uma; uma que ainda havia despertado o interesse dele.
Um sorriso estranho formou em minha cara e rapidamente fechei a tela do notebook bruscamente, conseguindo explodir um sentimento de ridículo em meu peito por simplesmente considerar o impossível, possível.
Não era de caráter regular levar tão adiante considerações de um homem louco e principalmente, desconhecido. O cara invadira o colégio em minha procura e praticamente quase me sequestrara no banheiro. Não, realmente, os fatos não favoreciam por mais que todo meu âmago conseguisse levar cada palavra proferida à certeza indubitável.
— Chega Lissa, chega — murmurei para mim, balançando a cabeça para afastar os pensamentos.
Deixei minha visão cair para o despertador em minha escrivaninha, e ele marcava que era 19hrs. Podia ver pela janela o céu já tomado pelas cores violentas comuns do crepúsculo, e com isso, me taquei na cama.
Sovei o ar, atrás de conforto, e cocei meus olhos com as costas das mãos, logo mais levando meus cabelos para trás como se quisesse levar embora toda essa irritação incomum.
— Eu poderia... Eu apenas poderia apagar esse dia.
Eu sabia que não podia por mais que quisesse e talvez fosse por isso, que ali mesmo, eu fechei os olhos. Em resposta, quase que automático, no momento que minhas pálpebras cerraram e minha respiração foi profunda, senti como se uma mão etérea descesse dos céus, arrodeando seus dedos em volta do meu corpo e levando consigo toda a minha essência.
Antes que pudesse fazer qualquer coisa, fui arrastada para um sono negro.
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