Sete
3 Luxúria: O ápice da tentação
Notas iniciais
Capítulo 3 – Luxúria: O ápice da tentação
— E se quiserem viver, acho melhor os dois virem comigo. A gula ainda não morreu. — Ele se aproximou do loiro estirado na pia.
— Quem? – Pedro perguntou confuso.
— O belo e magnífico rapaz loiro que agora possui um belo e magnífico rombo na testa. – Ele segurou o rosto de André pelas bochechas. — No caso: Ele.
Pedro se afastou do corpo de André, Amanda deu um longo e indiscreto passo para trás.
— O que foi? — O mais alto perguntou. — Até parece que nunca viram um cara tão gostoso quanto eu carregar seu amigo baleado no ombro. — Ele continuava num tom jovial e vulgar.
Os dois fizeram, simultaneamente, um sinal negativo com a cabeça.
Ele deu uma risada baixa; levemente rouca.
— Relaxem. Seu amigo está vivo. — Ele levantou André, o que permitiu com que os dois vissem a barriga do mesmo mexer...
Ele estava respirando.
— Me sigam. — Ele disse autoritariamente, pondo o corpo do loiro em seu ombro esquerdo.
Amanda e Pedro acataram o pedido sem nenhuma hesitação, afinal, ele acabará de salvar suas vidas.
Saindo da casa, havia um carro preto à porta; um Ford Fusion com vidros bem escuros que incapacitavam a visão de seu interior. As rodas estavam sujas de lama mas o carro parecia recém lavado. O homem abriu o porta-malas do carro e jogou o corpo de André no mesmo, sem mais nem menos, e depois, fechou.
Pedro e Amanda ficaram boquiabertos assistindo aquela cena. Assustados e sem saber o que fazer. Apenas olharam um para o outro pasmos ao ver um estranho jogar o corpo de seu amigo no porta malas.
— Entrem no carro. — O homem disse sério, autoritário. Ele foi em direção à porta do carro e a abriu para que os dois pudessem entrar.
Amanda olhou para Pedro, e ambos assentiram.
Os dois entraram. Era um carro bem comum, três acentos atrás, e dois na frente. Cambio automático, e um rádio bem velho, aparentemente pifado. O homem entrou e sentou-se no banco do motorista, e logo, começou a dirigir.
— Pedro, você viu o que ele fez? — Amanda sussurrou o mais baixo que pode para que o homem de jaqueta não ouvisse. — Ele deu um tiro na cabeça do André! – Ela sussurrava apavorada. — O que impede ele de fazer o mesmo com a gente?
— Olha aqui, Barbie açougueira. — O homem retrucou em indignação. — O André não conseguiu suportar o primeiro estágio, transformando-se em um animal. – Ele pôs ênfase no nome do loiro. — E, a não ser que você vire um animal igual ao seu amiguinho, eu não posso atirar em você.
Amanda calou-se imediatamente.
— Mas... – Pedro disse mais calmo — Qual o seu nome? Quem é você? Como nos achou? — Pedro perguntava sem cessar, até que o homem o interrompeu.
— Ei, ei! Uma pergunta de cada vez! — Ele disse de forma mais descontraída, sem perder o tom de seriedade. Deu uma pausa, respirou fundo e continuou — Olha garoto, eu tenho muitos nomes, mas atualmente, atendo pelo nome "Paulo".
Pedro sentiu seu ombro latejar, fazendo-o, por reflexo, largar a faca de sua mão e acariciar seu ombro.
— Tudo bem? — Amanda perguntou preocupada. – Se machucou lá dentro?
— Não. – Ele deu um leve sorriso de canto tentando convencê-la do contrário – Estou bem.
Paulo fitou o jovem pelo retrovisor.
— Você está sentindo sua marca, não está? — Paulo deu um riso frouxo — Latejar, coçar, arder? – Ele perguntou de forma retórica — Isso depende da pessoa, mas com certeza ela está se manifestando.
— Marca? — Pedro perguntou — Você tá querendo dizer o número que tatuaram em mim e na Amanda?
Paulo riu escandalosamente, mas logo se conteve.
— Você acha que isso é uma tatuagem? — Paulo continuava a rir — Essa foi a maior baboseira que eu já ouvi.
— Se não é uma tatuagem... – Amanda retrucou confusa — O que é essa porcaria então? — Ela perguntou indignada ao não saber.
— Essa porcaria aqui? — Ele mostrou a palma de sua mão numerada.
O número 2 da palma de sua mão era do mesmo tamanho e cor dos de Amanda e Pedro, cobrindo quase toda a parte mais clara da mesma.
— É a Marca dos Sete Pecados.
Ficaram em silêncio.
Amanda, de forma discreta, passou o dedo indicador por cima de seu número; aquilo a assustara.
— Como assim "Marca dos Sete Pecados"? — Amanda perguntou com curiosidade.
Paulo respirou fundo; como quem fica de saco cheio.
— É um saco ter que explicar tudo desde o começo... — Ele abaixou a cabeça e fez movimentos leves com os dedos, como se estivesse massageando o volante.
Ele se virou para trás por um instante.
— Vocês tem um número, certo? — Paulo perguntou retoricamente — Cada número indica um Pecado Capital. – Ele explicou. – Já leram a bíblia?
Os dois permaneceram calados, o que fez Paulo bufar.
— O número "1" é a Gula. Gula é o desejo insaciável, além do necessário, em geral por comida ou bebida.
— André... — Amanda disse para si mesma – "1" estava em seu pescoço...
— O número 2 — Paulo esticou a mão para traz e a abriu, deixando a palma de sua mão exposta. Nela, estava o número "2" marcado em preto. — É a Ganância, ou também chamada de "Avareza". É o apego excessivo e descontrolado pelos bens materiais e pelo dinheiro.
— E o número 3? — Amanda perguntou em tom de preocupação
— É a Luxúria — Paulo respondeu revirando os olhos. — Luxúria é o desejo passional e egoísta por todo o prazer sensual e material. Também pode ser entendido em seu sentido original: "deixar-se dominar pelas paixões". E os outros: A Ira, A Inveja, A Preguiça, e a Arrogância.
Amanda passou a mão em sua coxa e ficou quieta, o que fez Paulo comentar.
— Então, você é a Luxúria? — Paulo perguntou retoricamente – Devia ter imaginado. Por isso é tão atraente.
Ela não sabia como reagir, ficou levemente vermelha e permaneceu quieta.
— E o número 7? — Pedro perguntou assustado, porém, em tom calmo.
Paulo respirou fundo, como se estivesse se contendo.
— É a Arrogância... — Ele respondeu com desgosto – Também conhecido como "Soberba". É associada a orgulho excessivo e a vaidade.
Pedro ficou pensativo. Lembrou-se de sua mãe o repreendendo e dizendo que ele foi muito "Arrogante" com seu irmão mais novo hoje mais cedo.
— Arrogância, Arrogância... — Pedro repetia em forma de mantra.
— Eu, particularmente, detesto esse número. — Paulo disse — Todos os outros pecados passavam em branco, mas esse... Era a "ovelha negra" – Ele satirizou – Se podemos dizer assim.
Pedro colocou a mão em seu ombro.
— Por que isso? — Pedro perguntou — O que tem de errado com esse número?
O carro parou.
Era inicio de noite, a lua ainda estava um pouco amarelada. Ele parou no meio do nada, onde só havia em volta: Árvores, mato alto...
E uma casa antiga, caindo aos pedaços.
— Onde nós estamos? – Pedro perguntou
A casa parecia estar abandonada, feita com madeira que se percebia a presença de cupins e alguns sinais de vandalismo como pichações e algumas tábuas quebradas.
— Chegamos. — Paulo disse com um sorrido no rosto que soou provocante
Amanda ficou mais assustada, deixando aparente seu nervosismo.
— Fica tranquila – Paulo disse calmamente – Se fosse pra fazer algo de ruim com vocês, já teria feito, não acha? – Ele deu um sorriso de canto e abriu a porta do motorista.
Os dois saíram do carro logo em seguida, seguindo Paulo que ia em direção à porta.
O mais alto parou na frente da porta e virou-se para os dois, usando um sorriso provocante e um olhar que combinava com o mesmo.
— Bem vindos à Capital — Paulo estalou os dedos, e a porta da casa se abriu. – Limpem os pés, por favor.
Amanda, desde que era bem criança, sonhava com poder, mesmo sendo muito nova pra entender o que isso significa. Poder para tomar decisões por conta própria, espelhando-se em sua mãe. Poder para ser mais forte, poder para superar problemas, um poder de sangue nobre, um poder da realeza. Algo inquestionável, que outrem não poderia interferir. Ela queria um poder que pudesse ser conquistado por ela mesma, que ela pudesse conquistar sozinha, tornando-se mais forte por si mesma, indo da água para o vinho, indo do lixo para o luxo.
Fortalecendo-se com a força de sua própria vontade.
"Cinderela" era de longe a história que Amanda mais amava, a única que seus pais liam para ela, repetindo o conto todas as noites antes de dormir. Seu pai adotou o costume de chamá-la de "Cinderela", um apelido que foi bem dado, dizia ele.
Dentro da casa abandonada, tudo era incrivelmente luxuoso, limpo e arrumado, completamente diferente de seu exterior. O chão era coberto por carpete vermelho que dava ênfase no espaço, paredes tinham coloração branca, mas o que ressaltava o ambiente eram os pequenos móveis, os quadros, vasos de flor, mesas, todos aparentemente caros. Tudo isto se estendia por um corredor repleto de quartos que seguiam até um grande portão de madeira no final do corredor.
— Que lugar lindo... — Amanda disse boquiaberta enquanto olhava cada canto do lugar.
Os três andaram até o portão de madeira, onde aparentemente existia um sistema eletrônico. O portão tinha tantos detalhes que era difícil de descrever com palavras, detalhes que Pedro julgou coloniais, coisa que a câmera de segurança, com todo seu ar tecnológico, não mudava. Porém, independente de tudo isto, um detalhe maior chamava a atenção de Pedro...
O número "7" no centro da arte no portão, sendo posto em destaque pela própria arte em si.
— Identifiquem-se ou mostrem o número de registro — Uma voz feminina vindo do sistema de segurança requisitou.
Paulo ergueu a mão e a abriu, deixando sua palma exposta.
— Mostrem suas marcas — Paulo pediu.
Pedro fez sem pensar duas vezes, tirando a camisa e deixando exposto o número de seu ombro, atraindo a atenção de Paulo.
— Não era preciso tirar a camisa – Ele disse com um leve tom brincalhão.
Amanda estava imóvel, completamente envergonhada.
— Eu não vou fazer isso – Ela disse com o olhar voltado para o chão.
— Amanda, anda logo – Pedro pediu – Te vejo trocar de roupa desde os cinco anos. Tire as calças.
— Você viu, ele não! – Ela disse, fazendo um movimento rápido com os olhos em direção a Paulo.
— Garanto que não vou olhar – Paulo disse – E se eu fosse você, seria rápida. Se o sistema de segurança for ativado, a única coisa que sobrará de você serão as cinzas.
Amanda arregalou os olhos, baixando as calças o mais rápido que pode.
— Números de Registro aceitos — O sistema respondeu — Número dois, Ganância, confere. Número três, Luxúria, confere. Número sete, Arrogância, confere. Sejam bem-vindos. — O portão se abriu, emitindo um barulho de ar compresso vazando.
— A tecnologia desse século é incrível, não é? — Paulo perguntou retoricamente.
O portão dava em uma sala completamente luxuosa, não muito diferente do que já era esperado. O carpete vermelho dava ênfase no grande espaço da sala. Duas TVs de 48 polegadas não eram suficientes para tomar conta das paredes, uma na parede esquerda, e outra na direita. Uma mulher loira estava sentada no sofá vermelho em forma de "U" que ficava no meio da sala. Ela assistia, na TV da parede esquerda, uma luta de MMA, enquanto um garoto de cabelo castanho bem bagunçado, com expressão de que havia acabado de acordar, estava envolto em um cobertor e jogava Xbox 360 na TV da parede direita. Fora estes móveis, havia outros que ocupavam a sala, mesa de sinuca, um pequeno muro que separava a geladeira, entre outros.
— Paulo! — A mulher loira virou-se para Paulo – Foi rápido! Que bom! – Ela dizia em tom suave, porém, alegre.
Ela era incrivelmente bonita, aparentava ter cerca de 20 anos, 25 no máximo. Olhos verde-claros, pele branca, mas ela não parecia ser americana ou britânica. Bem alegre e sorridente, e bastante sensual. Ela olhou para Pedro e se aproximou bem escancaradamente.
— Paulo! — A loira se jogou em Pedro, colocando a mão em seu peitoral – Trouxe mais um para que eu pudesse brincar? – Ela riu, mas logo, baixou o tom de voz – Sabe que adoro um novinho – Ela disse baixo, quase sussurrando.
Pedro ficou completamente sem jeito, corou e não conseguiu ter reações mais rápidas do que ficar parado.
— Eu me chamo Agatha — Ela se aproximou do ouvido — Qual seu nome, Garotão?
— Pe... Pe... Pedr... — Pedro gaguejava de nervosismo.
Amanda colocou a mão entre os dois e os separou, ficando à frente de Pedro e virando-se para Agatha.
— Pedro — Amanda respondeu — O nome desse idiota é Pedro. Sou Amanda, Amanda Andrade. Muito prazer em te conhecer. – Ela esticou sua mão em forma de cumprimento
— O prazer é todo meu. – Agatha a cumprimentou sarcasticamente, não apertando sua mão.
Agatha olhou fitou-a de cima a baixo, aproximou-se mais ainda de Amanda e pôs o dedo no queixo da mesma, levantando levemente a cabeça da morena.
— Qual é o seu número mesmo? — Agatha perguntou em tom provocante.
Amanda tirou a mão de Agatha de sua frente, colocou-se em postura e passou a mão em seu queixo.
— Três — Paulo respondeu – Luxúria. O mesmo que o seu.
Agatha deu um sorriso debochado, olhando Amanda nos olhos.
— Veremos. — Agatha disse com olhar sério.
— Agatha, não. – Paulo disse em tom sério.
Assim que Paulo deu um passo à frente, Agatha virou seu olhar para Paulo, e de repente, ele foi arremessado para a parede da sala com uma força absurda, fazendo com que a mesma quebrasse e Paulo caísse no chão.
— Mas o que?... — Pedro disse.
Logo, Agatha olhou para Pedro, e aconteceu o mesmo que aconteceu com Paulo, foi arremessado para a mesma direção, caindo em cima de Paulo, fazendo com que o grunhisse de dor.
— Vamos brincar? — Agatha sorriu, voltando seu olhar para Amanda.
Tudo ficou escuro, sucumbindo ao breu. Amanda se viu sozinha em uma escuridão interminável. A sala, Pedro, Paulo e até mesmo Agatha, tudo havia sumido. A única coisa que ela conseguia enxergar eram as próprias mãos.
— Vamos ver o quanto você tem de poder, Coisinha. — A voz de Agatha ecoou por todo o espaço. — Primeiramente, vamos revirar suas lembranças.
— Como assim? — Amanda perguntou sem saber o que estava acontecendo.
Num piscar de olhos, um belo dia ensolarado surgiu.
Um parquinho com gramado, alguns brinquedos, e belas árvores em volta. Crianças brincando por toda parte, descendo no escorrega, pulando amarelinha, entre outras coisas dentro do comum. Amanda olhava ao redor, confusa, sem entender nada. Era muito para sua mente processar. Uma menininha passou correndo ao seu lado, com um vestido branco e laçinho da mesma cor prendendo seu cabelo.
Era ela mesma, anos atrás.
Amanda lembrava-se daquilo, daquele momento, daquele parquinho, infelizmente. Aquilo era algo que ela não queria reviver.
— Não!... — Amanda fechou os olhos e sacudiu sua cabeça, recusando-se a ver aquilo.
— O que foi? — Agatha surgiu atrás dela, falando em sua orelha em tom provocante — Algum problema?
Seus olhos começaram a lacrimejar.
— Parece que achamos um probleminha aqui, não? – Agatha a provocou junto a uma risada.
— Chega... – Ela pôs as duas mãos em sua cabeça – Chega... –
— Ora, ora, vejam só! – Agatha matinha seu tom – Parece que você-...
— Chega! — Amanda gritou em desespero, interrompendo Agatha.
Logo, tudo sumiu, restando apenas Agatha e Amanda naquele espaço vazio e escuro.
— Nossa... — Agatha disse com os olhos arregalados em surpresa – Como você...?
Passos ecoaram por todo espaço.
— Agatha, já chega – Uma segunda voz, masculina, ecoou.
Um garoto, o mesmo que estava envolto em cobertores da sala, estava de pé, como quem acabara de acordar.
Seu cabelo castanho bagunçado era do mesmo tom de castanho de seus olhos fundos e com olheiras. O tom de pele pálido e sua camisa verde amarrotada tornavam inegável a afirmação de que o garoto havia tirado boas horas de sono.
— Durma. — Ele disse.
A palavra ecoou por todo espaço, tornando-se cada vez mais alta e mais repetitiva.
Em poucos segundos, o breu havia se acabado. A sala estava de volta, como se nunca tivessem saído dali.
Agatha caiu no chão, desmaiada, junto com Amanda que fez o mesmo.
— Paulo, Pedro. — O garoto os chamou dentro de um bocejo — Ajudem as duas, por favor. – Com passos lentos, ele voltou ao sofá e jogar videogame.
Pedro estava assustado com a cena, sem poder ter nenhuma reação. O garoto que tinha aparentemente a mesma idade que ele desmaiou as duas sem se quer tocá-las.
Sem se quer demonstrar esforço.
Paulo e Pedro se levantaram com dificuldade, Pedro estava totalmente sem palavras, o que acabou de presenciar não foi humano.
— Garoto... — Paulo chamou — Leve sua amiga até o carro, eu vou levar Agatha até o quarto dela e depois levo vocês de volta. – Ele pegou Agatha e a colocou nos ombros – Me esperem lá dentro e não saiam.
***
Amanda estava deitada no banco de trás, ainda inconsciente. Paulo dirigia o carro sem desviar o olhar da estrada.
Pedro estava no banco da frente, completamente chocado com o que acabou de presenciar nas últimas horas. Era informação demais, coisas demais, coisas demais para perguntar.
Pedro respirou fundo e se acalmou.
— O que aconteceu com as duas? — Pedro perguntou voltando seu olhar para Paulo — Por que elas desmaiaram daquela forma?
— Agatha usou seus poderes contra Amanda — Paulo respondeu sem retribuir o olhar — E Carlos nocauteou Agatha.
Pedro fez uma expressão confusa.
— "Poderes"? — Pedro perguntou
— Sim — Paulo respondeu — Agatha tem poder da Luxúria, igual o de sua amiga.
— Como assim? — Pedro perguntou confuso.
Paulo respirou fundo, como quem tem que explicar algo.
— Agatha gosta de dizer que "O Luxo entorpece a mente humana" — Paulo começou a falar – Com isso em mente, ela pode causar perturbações na mente de alheios, podendo ler pensamentos, vasculhar memórias, e outras coisas mais.
— E o que ela fez conosco? — Pedro perguntou em continuidade — Nos arremessou contra a parede sem ao menos nos tocar! – Ele disse indignado – Isso não foi coisa da minha cabeça, acredito.
— Bem, aquilo é complicado... — Paulo parou um pouco para pensar — Digamos que... – Ele bufou — Agatha é tão poderosa que permite que ela mova objetos, mas isso é muito desgastante, então ela evita ao máximo fazer isso.
Pedro ficou quieto por alguns instantes, mas logo, voltou a perguntar.
— Bem... E você? – Pedro perguntou — Tem algum poder legal?
Paulo deu uma leve risada de canto.
— O meu "poder" é bem sem graça — Ele respondeu dando ênfase em "poder" — Deixa eu te mostrar.
Ele pegou uma moeda de um real do bolso e a segurou por alguns segundos.
— Seu poder é ser rico? — Pedro perguntou retoricamente – Tipo o Tony Stark? Legal.
Paulo olhou nos olhos do mais baixo, em seguida, apontou a moeda em direção à cabeça do mesmo.
A moeda emitiu um flash de luz, uma luz forte e intensa, o que fez Pedro fechar os olhos devido à claridade.
De repente, surge uma pistola, uma Beretta 92 de nove milímetros com detalhes em cobre.
— Uma... Pistola...? — Pedro disse boquiaberto.
— O meu "poder" é a transmutação ilimitada – Paulo explicou – Posso pegar um objeto inanimado qualquer e transformá-lo em qualquer outro que eu queira. — Paulo abaixou a pistola, colocando-a no porta-luvas. – Qualquer objeto que possa saciar minha ganância.
Paulo estacionou o carro na frente da casa de Amanda, o local onde havia os pego. Pedro e ele carregaram Amanda para dentro da casa o mais rápido possível e a colocaram em sua cama, depois voltaram para o carro na mesma velocidade com que entraram.
— Onde você mora? — Paulo perguntou enquanto abria a porta.
— No final da rua — Pedro respondeu passando direto pelo carro – Eu vou andando.
— Não, não vai. – Paulo disse seriamente – Não tenho a menor ideia de onde seu amigo mora.
— Amigo? Que amigo? – Pedro perguntou mas logo, arregalou os olhos – Meu deus! – Ele disse assustado.
— Você ia mesmo esquecer o loiro no porta-malas? – Paulo deu uma leve risada – Que amigo você é!
— Meu deus! – Pedro repetia nervoso – Que horas são?
Pedro pegou seu telefone no bolso da calça, eram exatamente 22h50min
— Que irônico. — Pedro disse para si mesmo – Ao menos, vou chegar no horário em casa. – Ele pôs o telefone no seu bolso – Vamos pra minha casa. Eu vou ligar pra mãe do André e dizer que ele desmaiou de sono lá em casa.
— E essa desculpa vai colar? – Paulo perguntou desconfiado
— Essa não seria a primeira vez que isso acontece. – Pedro respondeu como quem não queira fazê-lo – Vamos logo. – Pedro entrou no carro.
Paulo começou a dirigir em direção ao fim da rua.
— Você tem espaço para duas pessoas passarem a noite na sua casa? — Paulo perguntou.
— Tenho — Pedro respondeu — Por que a pergunta? Quer passar a noite lá?
Paulo ficou um tanto sem graça de afirmar.
— Sim, se possível. — Paulo disse. — Não que eu não tenha lugar para dormir – Ele tentou se explicar — É por proteção, caso algo apareça aqui e faça algum estrago.
Pedro fez uma cara confusa.
— Sim, sim... – Pedro confirmou educadamente – Pode parar o carro.
Paulo estacionou na frente da casa.
— Aqui está bom? — Paulo perguntou.
— Sim, está ótimo. — Pedro respondeu abrindo a porta do carro. — Abra o porta-malas e me ajude a pegar o André sem que os vizinhos percebam. – Ele abriu a porta.
Paulo saiu do carro junto a Pedro, pegou as chaves do carro e abriu o porta-malas. André estava com a aparência normal de sempre, tirando todo sangue. Porém, o tiro que Paulo deu em sua testa havia sumido. Sem sequela ou cicatriz alguma, completamente o oposto de horas atrás.
— Como assim? – Pedro começou a olhá-lo de cima a baixo – Cadê as presas? As garras? – Pedro dizia indignado – Ele estava um completo bicho!
Paulo segurou o loiro pelos ombros, o sentado no porta-malas.
— Aquele era o estágio primário da Gula. — Paulo explicou — Assim que a marca se revela, ele fica naquele estado por um período de tempo, geralmente por algumas horas. Uma fome insaciável, onde nada é suficiente. – Paulo segurou o loiro pela cintura, colocando por cima de seu ombro direito — Mas esse estágio só acontece uma vez, então pode ficar tranquilo. – Ele terminou a explicação – Feche o porta-malas, por favor.
— Consegue levar sozinho? — Pedro fechou o porta-malas.
— Sim — Paulo respondeu — Vamos entrar logo, sua vizinha está nos olhando estranho.
— Vizinha? — Pedro perguntou.
Assim que se virou, viu a vizinha, uma senhora da casa ao lado com aparentemente sessenta e poucos, vestindo uma camisola e chinelos de pantufa. Estava no quintal com uma expressão imutável, assustada ao ver o corpo de André ser tirado do porta-malas. Pedro virou-se, sorriu de orelha a orelha e acenou gesticulando "Boa noite".
— Seu sorriso é tão verdadeiro quanto uma nota de três reais — Paulo disse.
— Cala a boca. — Pedro andou rapidamente até a porta mantendo o sorriso — Entra logo, minha mãe deve estar dormindo.
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