Servo da Família Sazawori
13 Descoberta
Era um lindo sábado de inverno com chuva tempestuosa que faria qualquer um tremer de frio ou simplesmente ficar irritado com os fortes ventos. Mas eu não! Afinal, hoje era feriado!
Poderia existir na história da Terra algo melhor do que os feriados? Não, claro que não.
Um dia inteiro para não fazer absolutamente nada, ou fazer tudo. Depende só do seu humor, que hoje o meu era muito bom. A chuva não me atrapalharia, claro, eu não ficaria fazendo nada além de dormir – ou pelo menos era isso o que eu queria.
Parece estranho um servo poder aproveitar o feriado, não? Mas além de eu ser o servo mais paparicado pelo rei, era um feriado religioso, e todos ali do reino eram bem religiosos. Que feriado? Eu sinceramente não faço a menor idéia, só sei que quero dormir a tarde toda.
Mas então ouvi sons ecoando pelo pequeno corredor da humilde casa, eram os passos de Juan.
-Dawari, levanta daí! –merda, meu feriado acabou- É urgente!
-Uhn... –murmurei- Não.
-Vamos, levanta daí. –ele se ajoelhou do lado da minha cama.
-Nhaaa... Não tô afim... –eu disse virando de barriga para cima e colocando a almofada sob meu rosto- É feriado, não me incomoda.
Às vezes eu penso em ser mais educado com o rei... Ás vezes.
-Dawari. –ele se levantou- Eu sei te tirar daí, então levanta...
-Só acredito vendo.
Senti um peso a mais sob a cama, que fez essa ranger baixinho. Logo uma mão fria e molhada de chuva tocava atrevida meu peito por dentro do pijama. Meu rosto queimou de vergonha e eu pulei para fora da cama.
Olhei para Juan, que estava sorrindo cínico sentado na minha cama.
-Viu só?
Rosnei irritado, não gosto quando ele faz isso comigo. Juan se levantou da cama e veio até mim, acariciando meus cabelos.
-Como você é preguiçoso. –ele disse risonho.
-Unf...! –desviei o olhar para a janela molhada- O que é tão urgente?
-Bem, não é nada urgente, eu só queria ver essa sua carinha emburrada. Mas eu fui convidado para uma cerimônia e quero que você vá comigo.
-E se eu disser que não quero por que hoje é feriado?
-Aí eu vou te levar a força. –ele deu um sorrisinho e se aproximou de mim- Não se esqueça que você ainda é meu.
Odeio quando ele me trata como ‘propriedade do rei’. Ele sabe disso, por isso fica me tratando assim, pra me ver irritado. Enfim, eu acabei levando Juan para a porcaria de cerimônia que, como sempre, foi um tédio absoluto.
Juan ficou o tempo todo só sentado em uma grande cadeira que parecia muito confortável, olhando com uma expressão entediada para o homem que falava sem parar. Às vezes, quando ninguém estava olhando, ele me fitava e ria em silêncio da minha expressão entediada.
“Estás com tédio?”, eu lia seus lábios e assenti discretamente, “Seja paciente, quando isso acabar irei divertir-te.”, ele continuou. Meu rosto ficou rubro e ele sorriu, voltando a olhar a cerimônia.
Ele finalizou aquilo com poucas palavras. As pessoas ainda pareciam surpresas pelo novo rei ser tão novo e, creio que para muitos, tão atraente. Eu observava meu rei falar, lembrando-me dos meus primeiros dias com ele. Eu não o suportava.
Ainda não entendo como passei a amá-lo assim, mesmo não sendo de repente. Já passamos por muita coisa, juntos. Mas eu ainda tinha medo que alguém descobrisse sobre nós, não que eu tenha vergonha, mas é que... Será que aceitariam Juan assim?
Sei que do jeito teimoso que era meu rei, ele seria disposto a largar o trono por mim, já havia dito isso uma noite. Mas eu não achava isso certo e... Merda, agora eu me enrolei também.
Quase todos os convidados já tinham saído do local anterior para um salão que teria uma breve comemoração, que até agora eu não entendia do que e nem queria. Eu estava no corredor no maior tédio, apoiado com as costas na parede, esperando Lowei, ele disse que viria com a roupa para Juan se trocar.
Eu estava com os olhos fechados há uns segundos, pensando no nada. Levei um susto quando Juan tocou meu ombro, abri os olhos e vi que ele estava na minha frente, achando o meu susto muito engraçado.
-O que foi? –perguntei com a minha falsa ignorância.
-Ora ora, não precisa bancar o desentendido. –ele acariciou meu rosto- Acha que eu também não morri de tédio lá?
E deu um risinho. Meu rosto estava rubro novamente, pelo mais que eu odeie admitir. Fiquei quieto sem nem olhá-lo nos olhos. Ele me beijou forçando levemente minha cabeça para a parede. Quando nos separou do beijo, não pude evitar de fitar seus olhos vermelhos que me encaravam se divertindo com a minha expressão envergonhada.
Ele tocava meu peito por cima do pano da blusa, rindo baixinho malicioso.
-J-Juan... –eu disse quase num suspiro- Aqui n-não...!
Seu rosto demonstrava que ele estava adorando aquilo, me ver assim tão... Submisso? É ainda sem querer acreditar no que eu mesmo falei. Porra, eu estava agindo feito uma menininha virgem com medo de transar!
Ele me deu um beijo no pescoço e recuou um pouco quando ouvi sons de passos ecoando pelo corredor. Lowei chegava com o embrulho de roupas para que Juan pudesse se trocar.
O dia estava monótono, a única coisa que quebrou a chatice foi ter que ir dar banho em Rotaru, que também não foi lá divertido, pelo menos Lowei me ajudou — também, depois de tanto eu incomodá-lo.
O collie pulava da bacia toda hora e ficava se sacudindo sempre que o molhávamos, deixando-nos encharcados. Quando fui passar o shampoo em seu pelo, ele pegou o frasco das minhas mãos com a boca e esmagou-o, jorrando o líquido azul em mim, cachorro filho da puta.
Mas quando isso aconteceu, Lowei riu. Foi realmente impressionante, eu nunca havia o visto rir, ele tinha uma risada contagiosa que me fez rir também.
Acho que nunca o descrevi exatamente, né? De cabelos negros curtos e brilhantes que quase sempre estavam jogados para trás, os óculos baixos nos olhos que me faziam muito lembrar Atos e os olhos castanhos escuros que mais pareciam verdes.
Quando estávamos a secar o cachorro que havia se acalmado um pouco, Lowei me encarou. Eu secava meu rosto com uma toalha e ele secava as costas do cachorro com a outra.
-O que foi Lowei? –perguntei calmamente.
-Você e o Juan se escondem há quanto tempo? –ele perguntou sério.
-C-como assim?
-Não finja que não entendeu Dawari. –merda, é o que estou pensando?- Você e o Juan, eu sei que estão juntos.
Fiquei parado somente fitando-o espantado. Mas como? Sempre escondemos tão bem, que eu saiba. Não que eu tenha vergonha de transar com o rei, não é isso. Mas fiquei com medo que ele soubesse. E se mais alguém soubesse? E se ele espalhasse?
-Lowei, por que diz isso? –perguntei, talvez fosse só impressão dele e eu poderia tentar enrolá-lo.
-Achei que já fosse meio óbvio. Estão sempre juntos e muitas vezes sozinhos, Juan vive olhando para você e você para ele, mesmo discretamente eu percebo. Uma vez acordei no meio da noite e quando passei perto do quarto de Juan ouvi vocês dois... –ele fez uma pausa sugestiva.
Logo entendi, ele havia nos ouvido gemer. É, o prazer tem seu preço.
-E –ele continuou- quando eu estava indo levar a roupa ontem para Juan, eu vi vocês dois se beijando. Não interrompi, pois não queria confusão com Juan, esperei um pouco e bati os pés no chão imitando passos para vocês dois se separarem antes de eu chegar.
Abaixei ligeiramente a cabeça, Rotaru já não entendia mais nada. A bola de pelos grunhiu para mim como se perguntasse por que estou triste.
-Lowei, não conte a ninguém, por favor, pode causar muito problema a Juan...
-Dawari, o Juan é um rei e logo atingirá a maioridade e terá de se casar com uma moça, e assim também teremos herdeiros. –Lowei disse ainda no tom rígido- Eu prometo não contar, mas você deve entender isso.
-Sim, eu sei, mas...
-Mas o que, Dawari? Vai me dizer que gosta de ser o brinquedinho do rei?
Minha mente está confusa. Certo, eu nunca gostei quando Juan me prendia de repente na parede e me beijava, quando me usava de brinquedo sexual com quem dormia quando queria.
Mas talvez eu goste de ver aquele sorrisinho dele, talvez eu goste de ouvir ele dizer “eu te amo” no meu ouvido, talvez eu... Talvez eu esteja realmente apaixonado pelo rei.
Notas finais
Rsrs, uma pena o Lowei ter interrompido o momento JuanxDawa x3~
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