Notas iniciais
Pode até ter demorado, mas veio pra fazer a diferença!

As paredes negras se estendiam por mais alguns metros a nossa frente. Sentimos a tensão no ar, o mundo parecia ter parado de girar naquele momento. Queria ter um pouco mais de tempo, só um pouco. Isso faria para mim toda a diferença, mas talvez não para ela...

Estava soluçando constantemente desde a queda, seus olhos lagrimejavam sem cessar, a voz já estava rouca de tanto ter gritado momentos antes de estarmos aqui. A pior sensação de todas, ter escolhido aquela porta foi mais do que um erro. Este sentimento de culpa está corroendo o meu peito.

Sentia um grito se formar em minha garganta, queria clamar por socorro, mas o meu orgulho era maior. Orgulho? De que eu estava tentando me orgulhar finalmente? Meu orgulho sobre o lado mais forte... Sobre a minha personalidade abrasante... Ninguém gostaria de mostrar o seu lado mais fraco na frente de uma garota, mordi o lábio receoso, eu também estava com medo.

O orgulho naquele momento não iria servir de nada, estava tão transparente quanto à água.

Olhei para ela com ternura, querendo acalma-la e foi isso que eu consegui, mesmo que tenha se passados longos minutos para tal ato. As lágrimas agora cessavam lentamente, o soluço morria pouco a pouco, com quase um sussurro a chamei para perto de mim.

Segurei em sua mão e disse:

– Está tudo bem princesa. – Princesa, sério mesmo que estou chamando uma garota que eu mal conheço assim? Ela vai achar que estou dando uma cantada, embora em um momento assim, não seja esse o pensamento. – Nada de ruim acontecerá enquanto estiver comigo.

Ela ergueu os olhos na minha direção. Apertou fortemente a minha mão. Elevei um pouco a voz para que ela percebesse a confiança que eu tinha, e ela notou esse olhar.

– Absolutamente nada.

Com um simples gesto pude perceber que as lágrimas já se formavam novamente em seu olhar. Mas ela as impedia, com toda a força que tinha não demonstrava fragilidade naquele momento. Ela enxugou as lágrimas que ousaram escapar com as costas da mão e me disse quase suplicando:

– Obrigado... Realmente muito...

A frase nunca chegou a ser completada, ela caiu no chão, seus olhos perderam a cor, em seu peito agora era retirada uma lâmina negra, e com um sorriso sombrio, só conseguia pensar em uma coisa.

– Não me agradeça princesa, eu que deveria estar agradecendo por ser um alvo tão fácil.

Escutei pingos leves e constantes que se afastavam cada vez mais em direções diversas, não sabia o que tinha acabado de ocorrer, minhas mãos estavam molhadas, pensei que era de sangue, levantei-me assustado, ela segurou em meu ombro.

– Calma. – Pediu-me com uma voz macia. – Algo nos fez ter pensamentos estranhos assim que chegamos aqui.

– Clara... Você está bem?

– Um pouco machucada por causa da queda, um pouco desnorteada por causa da fumaça e bem cansada por ter que te arrastar alguns metros pra te tirar dali. – Ela apontou para um canto escuro.

Olhei para o lado onde ela apontava, forcei a vista e pude notar, havia fumaça em grande quantidade ali, ela preenchia toda aquela área.

– Er... Obrigado.

– Levante-se, ainda temos muito que andar.

Aquele jeito controlador dela é detestável, mas vendo tudo isso pelo lado positivo, ela não está sendo irônica e isso é bom.

Seguimos calados, receosos, tensos, nervosos. Ela verificava cada entrada naquelas paredes quase destruídas. Algo passava por ali, sempre renovando as marcas, sempre distanciando cada corte...

Ela suspirou.

– Diga-me novato. O que você vê?

Fiz um gesto de desdém, não me importava como eu era tratado, mas ser tratado assim por ela era irritante.

– Eu tenho um nome, só pra ficar avisada.

– Eu sei. Agora o que você vê?

O que eu vejo? Uma delinquente que se faz de santa na frente dos outros e de capitã da tropa de perseguição quando está sozinha com algumas pessoas.

– Não vejo nada...

– Por favor... Apenas tente, não é tão difícil se você se esforçar.

Eu parei, olhei para ela, não sabia com quem estava falando no final de tudo. A personalidade dela é estranha, é... Algo misterioso.

Coloquei a mão na parede, deslizei a mesma, tentei sentir a minha volta. Coisa de louco, retardado, idiota, sonhador. Mas a estranheza de tudo isso seria normal diante de todos que estudavam ali. Meu próprio professor não parecia normal, agia normalmente, mas em suas respostas era totalmente distante, diferente.

Minha mão pairou no ar e logo senti, logo deixei tudo para trás e consegui notar coisas distantes, próximas, vagantes, vivas... Mortas...

– Eu vejo um antigo caminho iluminado. Pessoas caminham sem precisar se escorar nas paredes para enxergar, o caminho é reto, este corredor é limpo, uma luz prateada o cobre. Elas estão rindo, brincando, sem nenhuma preocupação com o que está ao redor. O caminho se divide mais a frente, ninguém segue pelo outro, pois ele está bloqueado. Existe algo ali, deitado, respirando friamente. Um som... Agudo e distante. Talvez seja um grito, não consigo ouvir direito...

Eu perdi aquela conexão, olhei abismado para ela, em troca ela desviou o olhar.

– Tente Diego. Por favor, é necessário saber para onde estamos indo agora.

Comecei a ficar distante de novo, tive a sensação de queda, voltei aquele lugar na antiguidade.

– Não escuto mais nada. Não estou mais naquela divisão, eu segui pelo mesmo caminho que eles, a única diferença é que o segundo caminho está aberto, as paredes manchadas de sangue, alguns sobreviventes estão deitados tentando fingir de morto, deixando que aquilo não os veja, outros estão escorados. Com a mão cobrindo seus cortes.

Minha respiração tornou-se pesada, era diferente estar naquele lugar daquela vez, mesmo sendo com uma pequena variação de tempo, alguns segundos pra ser exato. Algo estava muito errado.

– Eu não vejo mais nada...

Momento errado de falar.

Ao longe conseguia ver algo se movendo, tinha a forma humanoide, mas com certeza não era um humano, tinha os membros superiores e inferiores desenvolvidos. O olhar penetrante, em uma de suas mãos um pedaço de corpo humano, na outra a parede servindo de apoio, o que ele era?

Pensei em correr e isso eu consegui, me distanciei cada vez mais daquela criatura, mas uma voz rouca me chamava, temia olhar para trás, mas era impossível não olhar.

– Venha. – Falava a estranha criatura.

O olhar tardio, a voz rouca, o movimento inesperado, moveu-se na minha direção, chegou perto o suficiente, tocou o meu peito. Uma dor estridente, algo me puxou pra fora. Algo me tirou daquele lugar maldito.

– O que você viu dessa vez?! – Perguntou nervosamente, a mecha loira estava na frente do seu rosto, demonstrava medo no olhar.

– Eu disse tudo o que eu estava vendo não foi?

– Não, continuamos a caminhar e você permaneceu calado. Não conseguia falar, não conseguia ver, vim te guiando até aqui.

– Eu vi algo grande, semelhante a um humano, desfigurado, canibal, destrutivo, ele tocou-me no peito. A dor era muito real. Ele era rápido, era...

Um grito estridente ecoou no ar.

– Alguém me ajude!

Paramos gélidos, haveria mais alguém ali?!

– Alguém mais desceu?

– Ou haveria mais alguém aqui antes de descermos?

Perguntas sem respostas. Corremos em direção à voz. O ar ficava mais pesado, entramos em uma área aberta, algo se movia ao longe, e algo estava debaixo de um pano.

Erguemos o mesmo rapidamente.

E lá estava sobre a mesa, duas taças com um liquido vermelho, pensei que poderia ser um mero suco, talvez até mesmo vinho. Mas por coisa do acaso, acabei me enganando. Era tão vermelho que entrava em contraste com o negro pelo simples balançar das mesmas. Enquanto analisava, Clara simplesmente vagava em volta daquela minúscula sala procurando algum meio de sair, algum modo de podermos sobreviver. Estávamos apenas encontrando salas e mais salas secretas, mas até onde isso poderia chegar?

Coloquei a taça sobre a mesa novamente. Não sabia exatamente o que fazer, ela me olhou pedindo ajuda. E eu o fiz. Comecei a procurar nas estantes ao redor daquele novo lugar, me pergunto agora como foi possível que de todas as pessoas que foram designadas para a primeira tarefa apenas nós dois estamos enrascados nessa situação.

– Espere um pouco Diego!

– O que foi Clara?

– Você disse que tinha a forma de um humano certo?

– Sim... O que você sabe?

– Ele se parecia com aquilo?

Gelei ao ver o mesmo ser na minha frente, ao saber que ele estava ali e que era real.

– O que é isso?!

– É um Wihtikow!

A voz saiu morta e surda, a criatura ergueu as mãos e soltou outro grito.

– Minha refeição chegou.

Sua voz era humana, seu som estridente, seu olhar penetrante. Não haveria saída.

Embora todos achem que isso só aconteceu conosco, devo dizer que estamos todos enganados, nós fomos os primeiros a cair nisso, ainda resta saber o que ocorreu com os outros...

Notas finais
Espero que tenham gostado e estejam ansioso pro que vem por ai!