Serfon, um colégio nada normal
10 Cemitério
Notas iniciais
– Você pode andar um pouco mais rápido?
Olhei para a porta, porque diabos deixaram que eu entrasse com essa garota aqui?
– Não tenho pressa para chegar ao nada... Não sabemos nem se isso tem fim.
Ela olhou para mim com certo ódio, parecia que ter sugerido que ia comigo não foi sua melhor ideia. Sabia até com quem ela gostaria de ir.
– Se fosse com quem eu gostaria de vir, aposto que a conversa estaria mais divertida... Você é chato José, admita isso.
Passos rápidos, tentei acompanhar da melhor maneira, ela podia ser irritante falando, mas o caminhar dela parecia algo divino. Desviei o olhar para o pequeno foco de luz na parede, com certeza havia sido causado por alguma rachadura no outro extremo.
Não encontrei a fonte da luz... Estranho...
– Ingrid, não acha que deveríamos ir com mais cautela?
Ela parou. Pensou. Chegou a uma conclusão que não valeria nem um pingo de cachaça em qualquer bar de esquina.
– Não, o que pode acontecer de errado em uma rota abandonada há exatamente quinze anos?
– Acho que nada olhando por esse lado...
Eu ainda concordei? Que tipo de retardado eu sou?
As paredes pareciam se estender cada vez mais a frente, pela minha perspectiva já deveríamos ter achado pelo menos alguma abertura. Não tinha nada, e a luz ia ficando para trás. Estávamos perdidos e não existia saída? Apenas um ciclo interminável seguindo sem nunca ter fim e quando tentássemos voltar não acharíamos saída?
Por um breve segundo voltei a observa-la, pele branca, cabelos cor de mel que pendiam em cachos. Ela parecia concentrada em tentar encontrar algo. Não sentia mais como se ela fosse tão irritante...
– Ei, encontrei!
Começamos a correr, havia uma abertura logo à frente. Era redonda, as paredes pareciam acabar bem antes, era um arco apenas.
Existia um muro que separava os dois lados. Precisávamos atravessar para encontrar um novo caminho e explorar esse lugar.
– Tenho uma ideia. Dê-me apoio.
Juntei as duas mãos, ela apoiou um dos pés, o outro no meu ombro. Subiu até o patamar, praticamente ela estava trepada como um macaco sobre o muro, dei um pequeno empurrão para cima. Ela soltou um fraco “obrigada”, e se apoiou completamente nele. Agora ela estava em pé, mas parecia perplexa observando além.
– O que você pode enxergar?
Ela se calou por longos minutos... Era esse o medo que eu sentia: o silêncio dela. Queria pular naquele muro e observar o mesmo que ela. Mas a voz fina e agora não tão irritante dela cortou esse meu pensamento.
– Túmulos...
Mas... O que estava...
– Onde nos estamos?!
– Em um coemeterium!
Era esse mais um dos detalhes irritantes dela, eu odiava falar dessa maneira, e ela, era fluente. Mas algo no meu coração se interessou, mas não era hora de falar isso. Nunca seria a hora certa a partir de agora.
– Seja rápida e direta, nada de latim tardio! Onde nós estamos?!
– Em um maldito cemitério, agora se abaixe.
Um pulo sem aviso, lentamente pousou em meus braços, nos abaixamos e escoramos ao muro.
Silêncio.
– O que?
Pequenos ruídos na distância.
– Não fale ainda.
A pequena juntou as duas mãos, parecia ter começado a fazer uma prece. A quem? Não posso afirmar, os lábios rosados dela se moviam rapidamente, palavras em latim, não havia dúvida... Seria para Deus?
Algo explodindo ressoou por todo o lugar, era difícil parar pra pensar sem saber o que estava acontecendo, pequenos pedaços do muro começavam a despencar, algo estava pegando fogo do outro lado.
Levantei-me, o muro me cobria, não precisava ter medo de ser visto por ninguém... Ou por nenhuma coisa...
O fogo dava um ponto de vista a mais, mas ainda era necessário ser visto por esse lado. Estávamos em uma brincadeira entre a luz e as sombras. Só que dessa vez, as sombras eram aliadas. Continuei caminhando pela lateral do muro, encontrei um buraco. Tentei observar o foco daquele fogo.
O que será aquilo? Algumas eram grandes, outras nem tanto. Seriam criptas? Supostamente levando em consideração de onde estávamos.
Um esquife foi arremessado de dentro do fogo para a minha direção, joguei-me contra o chão.
Ainda não havia conseguido ver a coisa que arremessou, mas sabia que era algo grande... Levantei com cuidado, sem pressa para não ser atingido por outro esquife voador. Encostei-me à parede e olhei para o chão...
Cara, isso não pode estar acontecendo.
Olhei fixamente para o crânio da caveira partido sobre o chão... Seu maxilar do lado esquerdo e os olhos, ou melhor, cavidades oculares completamente vazias, olhavam em minha direção.
Senti minha alma sendo puxada naquele momento, tentei andar deslizando pela parede para o lado que estivesse vazio, fui lentamente para a esquerda, talvez o maxilar não me assustasse tanto. Uma mão ossuda parou meu movimento, meu ombro ficou pesado, minha consciência parecia explodir, não havia mais razão morreria ali. Outra mão caiu sobre meu ombro direito.
É o fim.
Olhei para cima... Um esqueleto sem cabeça.
– Mas que droga!
Tirei aquela coisa nojenta de não sei quantos anos atrás de cima de mim. Fui forçado a virar minha cara em direção ao muro. Uma luz amarelada iluminava ás minhas costas, dessa vez o medo fez meus joelhos tremerem. Respirei fundo, uma mão quente tocou-me.
Voltei o punho fechado, com a maior força que pude. Uma corrente reluzente caiu sobre meu braço o arremessando para a parede. A voz que provinha do ser luminoso era de autoridade.
– Você está louco de atacar uma dama?!
A luz começou a diminuir, podia ver a sua face, os olhos verdes e os cabelos loiros como mel... Era impossível.
– Porque está segurando meu braço assim?
– Acho que você deve ser doido, tentar me atacar quando tento te avisar para não fazer barulho? José para de ser retardado.
– Solte-me Ingrid.
– Se tentar me atingir de novo, com certeza, vou quebrar o seu braço. Além do mais... Você quase usou sua habilidade...
– Eu sei... Apenas em último recurso...
Ela não estava mais tão resplandecente assim, a habilidade dela me completava, o meu oposto, a minha perfeição.
– O que foi?
– Nada. – Disse rindo timidamente.
Ela fez um semicírculo de luz e perfurou a parede. Agora eu podia enxergar o outro lado sem ter medo de ser atingido por algo.
– Não pode ser aquilo é...
Uma criatura envolta em fogo, não fazia nenhum som, não precipitava nenhum movimento. Parecia estar em estado de transe. Sentia um arrepio na espinha ao ver aquela coisa. Institivamente quis buscar no bolso um cigarro. Mas não queria mostrar para a garota esse meu lado fraco. Ou que tentava fugir do mundo pelo menos.
A criatura abriu os olhos, balançou a enorme cabeça para a esquerda e para a direita. Deu um grito que estrondaram todos os alicerces. As paredes tremiam com tamanha confusão, a cacofonia me deixou atordoado. Todas as coisas ressoavam naquele momento juntamente ao grito da morte.
Ele ergueu-se de súbito, abriu as asas. Cuspiu fogo aos céus... Um dragão... Olhei para ela e já sabia o que fazer, pulamos o muro...
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