Sereton Hill
1 Sereton Hill
No passado, poucos eram os factos dignos de nota acerca da pequena aldeia de Sereton Hill. A população era calma e reservada, ainda hoje pouco se fala ou conta deles. Não havia contacto entre eles e o mundo exterior, e muitos preferem que assim o seja. Temem-nos. Temem o desconhecido.
A aldeia localiza-se numa região entre a desértica Worghan e Bedlam, a sudoeste da grande cidade de Nezca. Todos os que por ela passam simplesmente passam. Não entram lá. Não ousariam fazê-lo. Ninguém de lá sai, ninguém lá entra. Não olham para ela. Tentam não pensar nela.
São terras negras as de Sereton Hill. Guerras sanguinárias foram travadas sobre aqueles terrenos. Tanto sangue derramado levou a que a própria terra se tenha tornado infértil. Não se vê vivalma vagueando pelas ruas arenosas entre decrépitos edifícios de madeira. Isto se não prestarmos atenção. Que Deus tenha misericórdia daqueles que prestam. Os que prestam atenção já conseguem vê-los. Os habitantes. Os homens e mulheres que, segundo a lenda, faleceram todos num qualquer acidente biológico, perante uma qualquer praga. Dizem que foi a mão do nosso Senhor que os castigou pela sua intolerância. Odiavam estrangeiros, ao que dizem. Hoje, continuam a odiar. Odeiam-nos a todos enquanto vagueiam pelas ruas da sua morta povoação, tão mortos quanto ela.
Como disse, não é possível um viajante ser estúpido ou inculto o suficiente para lá entrar. Claro que não. Todos já ouviram falar de Sereton Hill. Contam-se histórias sobre ela às crianças. Para as assustar, fala-se do choro incessante dos bebés que lentamente lá pereceram perante a ira divina. Seus minúsculos órgãos cheios de negras pústulas, seus olhos inchados e o seu inocente sorriso naturalmente alterado para se assemelhar ao furioso focinho de um cão. O choro desses bebés ainda se ouve pelas ruas da aldeia onde morreram. Mortos pela peste, pela praga. Suas lamúrias ecoam por todos os recantos iluminados pois nas sombras reside a sua imagem. Eles estão lá. As crianças doentes ou o que restou delas ainda habita aquelas ruas amaldiçoadas. Algumas espreitam pelas janelas e contemplam sorrindo os viajantes. Outras observam atentamente as paredes das casas e só se viram se alguém se aproximar muito delas. E quando se viram, aquele rosto, aquele desgraçado rosto...
Mas elas só querem brincar connosco. Elas não nos odeiam tanto como os pais. Elas só querem apegar-se a nós, querem ficar connosco para sempre, querem que lhes dêmos uma nova vida. Querem que olhemos para elas o tempo todo, para aquela face terrivelmente desfigurada, para todo o sempre. Aquele esgar canino e os olhos quase saltando da cara. Tão vermelhos, tão vermelhos.
Todavia, os adultos conseguem ser mais abomináveis. Os adultos perdidos também sofreram com a doença. A Grande Peste. A sua pele começou a cair nos lugares mais inusitados do corpo. Quando as suas crianças começaram a exibir os sintomas, aqueles traços horrendos da doença, eles próprios se voluntariaram para acabar com as suas jovens vidas. Todos homicidas. Infanticídio em massa. Todas morreram num único dia, os pais morreram dias mais tarde, longos dias de sofrimento. A comida começou a escassear e as suas mentes foram gravemente afetadas. Já não conseguiam pensar racionalmente. Muitos começaram a matar-se uns aos outros para consumir a carne e a gordura. Cozinhavam-na e comiam-na com prazer. Nem notavam a diferença. Era só carne. Outros, os que ficaram piores, mais afetados, começaram a praticar a chamada autofagia. Comiam-se a si mesmos. Devoravam dolorosamente partes de si próprios. Alguns faleciam ao fazê-lo, ao tentá-lo. Uns de ataque cardíaco, outros das hemorragias. Os restantes sobreviviam e, no final do ato, riam às gargalhadas. Afinal, era só carne. Seus corpos começaram a alterar-se também mais e mais, como os corpos dos seus falecidos filhos. Furúnculos enormes e avermelhados cresciam nas suas testas. Por baixo dos olhos, gigantescos tumores cresciam. Os globos oculares ficavam invisíveis, escondidos atrás de uma carapaça de carne indiferenciada e em constante crescimento. Os que ainda possuíam braços e pernas, tiveram os seus membros emagrecidos e os ossos consideravelmente alongados. Não possuíam força para erguer os braços, se ainda os tinham. Uns morreram sufocados pelos próprios tumores, outros famintos sem mais corpo para comer e outros saciados incapazes de digerir mais do seu próprio cadáver. Os que tinham a sorte de conseguir ver, procuravam assassinar os outros, os que viam e os que não viam, tomando-os por monstros. Mas eram eles. Os monstros eram eles. Todos eles.
Estes adultos são violentos. Vagueiam as suas terras temendo ser apanhados pelos "monstros". Atacam-se uns aos outros se for preciso. Atacam tudo o que virem ou sentirem próximo. Para além disso, estão todos esfomeados, o que não é um bom presságio. Eles não sentem, já não. Já nem pensam. Só querem viver em paz toda a eternidade que lhes resta. Estes demónios defendem a sua sombria localidade não por patriotismo ou algo semelhante mas porque Deus não lhes deu outra opção. Lá estão, congelados no tempo, morrendo eternamente dia após dia. O derradeiro sofrimento, a mais pura definição de "inferno".
Esta é a história de Sereton Hill. Nunca lá entres. Nunca a vejas, nunca a ouças, nunca a sintas e, acima de tudo, não penses nela. Esqueci-me de falar a fundo sobre isso. Não pensar nela é importante. Isto porque o mal se sente atraído pelas crenças mais obscuras. Se acreditas muito numa coisa, mesmo que seja falsa, essa coisa pode muito bem acabar por tornar-se real, nem que seja apenas para ti. Sim, não penses no assunto. É mau pensares no assunto. Mas acho que agora é inevitável. Devia ter refletido sobre isso mais cedo. Agora é inevitável pensares no assunto. Agora, Sereton Hill estará para sempre aprisionada nessa tua querida imaginação. E é isso que a torna real, é isso que nos torna reais. E prometo-te, meu caro, prometo-te. Continua a pensar em nós. Em breve, iremos buscar-te. E juntos viveremos em paz na velha Sereton Hill...
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