Serendipity
1 Prólogo
Notas iniciais
“A vida não é meramente uma série de acidentes ou coincidências. Na verdade, é uma tapeçaria de eventos que culminam em um estranho, porém sublime plano. Se nós desejamos levar a vida com harmonia com o universo, nós todos devemos possuir uma poderosa fé naquilo que os nossos ancestrais chamavam de fatum, aquilo que constantemente nos referimos como destino.”
Guirlandas na porta de entrada? Feito.
Trem de ferro montado na sala de estar? Feito.
Ceia preparada? Mais do que feito.
Rachel Berry estava ansiosa para a tradicional comemoração de Natal no clã dos Hudson-Hummel-Berry-Anderson.
Todo ano era ela que abria às portas de sua casa para a famosa ceia nova yorkina, com todo o charme e circunstância que a celebração dos feriados de fim de ano pedia.
Era certo que nos últimos anos, Rachel não enxergava grandes motivos pra celebração. A mulher não entendia se era crise da meia idade, estresse após duas gravidezes e brigas matrimoniais, o certo era que seu conto de fadas já não funcionava como ela esperava. O tempo passou e Rachel já não era a menina verborrágica e talentosa que perseguia o capitão do time de futebol pelos corredores do McKinley, estava também longe de ser a adolescente perdida e deslumbrada que se deixou enganar por um veterano da faculdade do qual ela mal lembrava as feições.
Rachel Barbra Berry havia se tornado uma mulher, na ênfase da palavra e em todos os significados que ela carrega. Primeiro sua carreira havia se edificado. Galgou os degraus do sucesso, um a um. Começando por pequenas produções alternativas em porões obscuros na grande maçã, passando por montagens suspeitas na Off Broadway e finalmente chegando aos grandes palcos do Gershwin e do Eugene O'Neill. Depois do estrelato, veio sua vida pessoal. Casou-se com o capitão do time de futebol, o que foi a concretização do sonho da maioria das meninas excluídas pelo mundo, mas o menino de ouro do clube do coral e do futebol agora era um homem, o seu homem.
Finn mudou-se para Nova York um ano após Rachel. Ele costumava afirmar que foi quase ameaçado de morte para vir junto com Santana, mas Rachel sabia que essa era a vontade dele em primeiro lugar, não demorou muito para que reatassem e cinco anos depois, eles casaram-se numa cerimônia comovente, com todos os seus amigos do colégio presentes. Foram necessários apenas mais três anos para que Rachel recebesse a notícia de que ela seria mãe pela primeira vez, de um menino que ela e Finn resolveram chamar de Christopher em homenagem ao avô.
Dois anos depois chegava a vez de Nina, uma doce peralta que veio para abrilhantar ainda mais a vida do jovem casal.
Durantes as duas gestações a atriz da Broadway teve problemas emocionais. Ela achava que não estava apta a ser mãe e que estragaria tudo como sua própria mãe, Shelby, havia feito. Depois de longas noites mal dormidas, muitos leites mornos no meio da madrugada e abraços protetores do maridão, ela conseguiu livrar-se desses fantasmas do passado que insistiam em persegui-la.
Ela tinha tudo para se dar por satisfeita e feliz. O problema é que a vida tem estranhos caminhos de ensinar lições que são necessárias, mas que por algum motivo insistimos em se negar a aprender.
Talvez a crise que enfrentava fosse uma lição que a vida queria lhe dar, porém ela não estava sabendo interpretá-la.
Seu relacionamento com Finn sempre tivera altos e baixos e ela entendia que era isso que fazia com que eles se amassem tanto, mas ultimamente o máximo de atrito que eles tinham era quanto ao canal da televisão ou qual caminho ou atalho tomar para levar os filhos à escola.
Ela nunca pensou que fosse dizer isso, mas sua vida tornara-se “monótona”.
Eles não brigavam, mas ela sentia o marido distante, mais sério do que de costume, frio.
Nos primeiros anos de casamento, ele voltaria do seu trabalho (dirigindo alguma peça ou no como professor de teoria musical na Julliard) tomaria um banho e a levaria para jantar num lugar novo e boêmio ou eles simplesmente ficariam em seu apartamento fazendo amor como loucos, enquanto chovia pelas ruas de Nova York.
Haviam vezes em que ele lhe dava um mapa, pedindo para que ela escolhesse qualquer cidade, eles entravam no carro e seguiam pelas estradas ouvindo Fleetwood Mac e REO speedwagon, vendo o sol se pôr e dormindo sobre a luz da lua ou numa barraca que ele mantinha sempre na porta malas da caminhonete desgastada que os dois conseguiram comprar com suas economias.
Ela sentia falta das flores estregues em horas inapropriadas, das valsas que eles ensaiavam pelas ruas após se embriagarem com Santana e Kurt, dos beijos roubados na cozinha, quando ela cozinhava e ele a distraia, puxando a pela cintura e fazendo sua refeição queimar.
Ela sentia falta dele sentado na primeira fileira de suas apresentações, da época na qual ele não perdia uma sequer, ela sentia falta das rapidinhas na sala particular dele na faculdade e até mesmo das brigas que acabavam em gritos frustrados e eram interrompidas por bocas se procurando e corpos dançando juntos nas penumbra do quarto.
Mas Finn parecia não se importar. Rachel colocara todos os seus esforços em fazer o Natal perfeito por toda a família, mas principalmente para ele.
Ela sabia o quanto essa data representava para seu marido e de alguma forma ela esperava que ele se recordasse o quanto ela, Rachel, sua eterna namorada, sua esposa e mãe dos seus dois filhos representava na vida dele.
A atriz porém viu suas expectativas ruírem como um castelo de cartas diante dos seus olhos, quando após terminar de arrumar sua casa para receber seus convidados, ela encontrou na parte do closet do marido, dentro de um de seus paletós menos usados, um belo colar de diamantes, com um bilhete no mínimo revelador.
Ainda com as mãos trêmulas e os joelhos fracos, ela encarou exasperada o pedaço de papel a sua frente que parecia querer queimar sua mão. Apesar das lágrimas dificultando sua visão, ela pode ler nitidamente:
“Para: A. R.
Eu procurei por várias palavras no meu dicionário. Algumas palavras que me chamaram atenção foram: Serendipity, fraqueza e destino. Um filme de memórias de nós dois começou a passar pela minha cabeça.
Eu não tenho certeza do que isso significa, tanto quanto eu não tenho certeza do que eu represento pra você, mas eu posso assegurar que você significa tudo pra mim.
Ps: Eu não quero nunca te dar um beijo de adeus, apenas um beijo de boa noite.
Feliz Natal, com todo o amor do mundo e que cabe nos dicionários...
Pra sempre seu, Finn Hudson.”
Rachel sabia que aquele presente não era para ela. Primeiro pelas iniciais contidas no destinatário. Quem diabos seria A.R? Por que Finn escrevia um bilhete a ela dizendo que não sabia o que representava em sua vida? Simplesmente irônico uma vez que seu marido sabia exatamente qual era o seu papel em sua vida desde quando ela tinha quinze anos de idade.
Por fim “beijo de adeus”, “beijo de boa noite”. Ele não tinha que se despedir de sua própria esposa. Todo o bilhete e o fato do presente estar escondido embora já fosse véspera de Natal fazia a espinha de Rachel gelar diante da constatação cruel de que Finn Hudson tinha uma amante.
Quem acompanhou a fantástica ceia e jornada musical na residência Hudson-Berry não podia supor que Rachel estivesse uma bagunça por dentro. A atriz foi a anfitriã mais elegante que houve em todo o Brooklin, em seu channel de coloração marrom e cabelos presos num arranjado coque, moderno, porém clássico e sofisticado. Atrás de seu amplo sorriso ninguém podia contar os demônios que se escondiam.
Apenas quando a festa terminou e Finn já havia colocado as crianças na cama, Rachel resolveu se manifestar sobre os sentimentos que estavam batalhando e dilacerando-a de dentro pra fora.
Finn estava tocando piano quando avistou a esposa com um copo de vinho a mão, parada na porta da cozinha.
– Quando pretendia me contar? – Ela o encarou, o olhar vazio.
– Contar o quê? – Ele perguntou sem se dar ao trabalho de levantar os olhos.
– Que eu não sou mais o suficiente e que você agora precisa procurar outras mulheres. – Ele levantou-se do piano, aproximando-se dela.
– Qual o motivo disso, Rachel? – Ele questionou, tentando decifrá-la.
– Eu achei a sua joia estúpida. – Ela cuspiu as palavras. – E o seu bilhete igualmente estúpido. Quem você pensa que sou, Hudson? Você acha que eu não mereço um pingo de respeito?? Eu sou a mãe dos seus filhos!!! Eu sou a mulher que você jurou amar e respeitar diante de um Rabino e de um Padre!! Você entende a dimensão dos seus votos, huh? Ou você acha que se casou comigo porque eu seria idiota o suficiente pra te apoiar em tudo enquanto você deixa sua casa e sua família pra ir pra cama com uma menina mais nova ou várias meninas mais novas? Eu sou um idiota em pensar que isso um dia ia mudar. Eu continuo esperando pelas migalhas do seu amor enquanto você joga a minha dedicação ao vento.
– Você não acha que está sendo precipitada, Rachel? – Ele aumentou uma oitava sua voz. — Porque me parece que alguém aqui está tomando conclusões ao seu bel prazer apenas porque quer comprovar sua própria hipótese a todo custo.
Vê-lo tão seguro e calmo, fez Rachel mandar seus escrúpulos às favas e antes que pudesse acionar sua razão, ela se viu arremessando o copo de vinho contra a parede atrás de Finn. O rapaz olhava alarmado o líquido rubro escorrer sobre a pintura.
– Está vendo... você sequer consegue ter uma conversa civilizada. – Ele replicou em tom sarcástico.
Foi a vez de Rachel responder com amargura:
– Qual é a hipótese que eu quero comprovar aqui, querido esposo? – Ela abriu os braços em um gesto dramático. — Faça o favor de me esclarecer isso, já que aparentemente eu estou fora do meu normal.
– Você quer que diga que não te amo mais. – Finn respondeu pausadamente. – Isso facilitaria você se afundar em auto piedade de novo, como fez quando perdeu um personagem. Um, Rachel, em meio as inúmeras peças que fez. Foi necessário um personagem pra que você não saísse da cama por mais de seis meses e eu tivesse que justificar a imprensa que você estava de férias com seus pais. Você mal conseguia amamentar nosso filho naquela época.
– Você não pode me culpar quanto a isso! – Ela gritou, as lágrimas salpicando-lhe os olhos. – Não foi minha culpa.
– Foi minha culpa então? – Ele arqueou uma sobrancelha. – Você sabe quantas rejeições eu já sofri? Você acha que por causa dos nãos que eu ouvi eu deixei de estar presente na minha família, de assisti-la quanto a tudo que ela necessitava? Eu me recusei a ser mais um perdedor de Lima, mas não pra viver sobre o mesmo teto que uma Diva que ignora as obrigações que tem com a própria família por puro capricho.
– Obrigações, Finn? Você está escutando você mesmo? — Ela gritou as palavras. – Desde quando eu sou uma obrigação? Desde quando sua família e esse lar são obrigações? Eu entrei em depressão, sim, eu entrei. Você mais do que ninguém sabe o quanto meu trabalho é importante pra mim, mas não venha dizer que você foi obrigado a estar presente.
Finn apenas olhou para seus pés, procurando as palavras certas (que não eram bem o seu forte) para dizer a mulher irada a sua frente.
– Foi você que começou a conversa em primeiro lugar.
Ele fez menção de sair, mas sua esposa o segurou.
– Minha hipótese estava certa, não? – Ela fitou-o insegura e temerosa. – Você não me ama mais.
As palavras que saíram da boca dele logo em seguida foram as mais duras que Rachel já ouvira.
– Eu nunca vou deixar de te amar. – Seu olhar era o retrato vívido da tristeza. – Mas nós não deveríamos ter nos casado.
Naquela noite de véspera de Natal, a atriz chorou silenciosamente no travesseiro como há muito não fazia. Seu marido estava dormindo ao seu lado, mas era como se ele estivesse á milhas dela.
Ela então se recordou na ocasião em que ele soubera que por um ridículo passo em falso ela havia beijado Brody e ambos dormiram na mesma cama, porém brigados. Quando se reconciliaram ambos estabeleceram a regra de nunca irem dormir brigados e parecia que hoje a regra tinha sido quebrada. Quebrada. Era exatamente como Rachel sentia-se por dentro. E em meio as lágrimas ela desejou, assim como Finn, que eles nunca tivessem se casado, mal sabia ela que pedidos realizados à meia noite na véspera de Natal tem uma forte e mágica chance de se tornarem realidade.
GLEE
Os primeiros raios da manhã entravam pelas janelas e muitas pessoas já circulavam pelas ruas da maior Metópole do Ocidente.
Kurt havia ido buscar algumas coisas na padaria para preparar o café da manhã para Rachel.
O jovem estagiário da Vogue sabia que sua amiga havia ensaiado uma rotina passada por sua Professora e arqui-inimiga até altas horas da noite e por isso acordaria tarde.
Após preparar a mesa, ele tomou suas coisas e saiu para mais um dia de trabalho na cidade que nunca para.
Rachel acordou massageando as têmporas, uma leve dor de cabeça a incomodava. Ela exagerara no vinho, falara umas verdades para o marido por conta do maldito colar e bilhete, mas ele nem negara, nem confirmara nada. Ela esperava que pudesse conversar com mais calma e serenidade à luz do dia.
Qual não foi a sua surpresa porém ao tatear a cama e não encontrar o corpo de Finn e sim almofadas? E qual não foi a surpresa maior quando abriu os olhos devagar e percebeu-se em seu quarto no antigo apartamento alugado por ela e Kurt quando tinham acabado de se mudar para Nova York?
Levantando da cama num impulso, ela olhou-se no espelho, continuava a mesma. Não tinha rejuvenescido ou coisa parecida, olhando no calendário, entretanto, entrou em choque e arregalou os olhos. A folha marcava 18/09/2012 e se ela não estivesse muito esquecida e enganada esse era o mesmo dia em que Finn havia voltado da Georgia há 16 anos atrás.
– Ah, Meu Deus! Se eu continuo tendo 34 anos... só pode ter uma Rachel Berry por aí que ainda tem 18. – Rachel passava as mãos pelo cabelo nervosamente. – Eu achei que isso só acontecia em filmes, se eu me beliscar isso passa?
Uma coisa era certa: Rachel Berry estava oficialmente ferrada.
Fale com o autor