Serendipidade
6 Santa Heart
Notas iniciais

As coisas começaram a ter um outro caminhar. Corria pela extensão de Wonderhood a caminho da Toca do Coelho Branco. Frederich ainda não trocara palavra alguma comigo, somente naquela hora onde avisou-me do ocorrido. Estava temerosa com seu comportamento, mas não era para menos. Sua noiva havia sido raptada. Toquei na miniatura de espada em meu pescoço, ela não parava de vibrar. Algo palpitava em mim, meu âmago insistia com minha consciência que algo de ruim estava por vir. Com certeza só iria piorar a situação caso avisasse a Frederich que algo de ruim estava por vir, ou na verdade falar que pelos meus instintos algo de ruim iria acontecer.
— Desça logo. — falou Frederich calmamente, porém as veias de sua testa pareciam está prestes a saltar de nervosismo. — Vai Alice! — ele reclamou quando observava os degraus da Toca do Coelho Branco.
Desci as escadas quase esborrachando-me no chão. O subsolo — onde a toca encontrava-se — era quase surreal, era impossível descrever a beleza no local. Era semelhante as fotografias vitorianas que via nos livros de história. No meio na saleta o teto era abobadado e um grande lustre pendia lá.
— Ora, ora. Alice está de volta. Após sua fuga pensei que pessoa alguma iria lhe encontrar! Enganei-me. — o Senhor Coelho Branco aproximou-se de mim com os olhos rosa brilhando. — Chapeleiro Maluco, minhas sinceras desculpas pelo ocorrido que houve. Carregaram a adorável Senhorita Santa e a Duquesa. — o Coelho suspirou e virou-se, dando de costas para nós. Pegou em um criado mudo uma caixinha azul. — Porém, pretendo partir ainda hoje para a Fortaleza de Copas. — ele tirou da caixinha azul dois frascos de vidro que, em seu interior um pó vermelho jazia. — O pó da invisibilidade. Lembro-me ainda hoje quando a Rainha Branca entregou-me isto como presente! — ele sorriu mostrando seus apenas dois dentes.
— Coelho Branco, são apenas dois frascos! Apenas servirá para duas pessoas! Não é bastante para todos nós! — Frederich replicou não muito feliz.
O Coelho Branco soltou uma rápida gargalhada, até pensei que ele tivesse algum parentesco com a Lebre de Março pela sua conduta estranhíssima.
— Você, Chapeleiro Maluco e Alice serão os únicos que irão partir. Somos poucos e a real batalha não será precisamente agora. Agora o único dever de vocês é resgatar a Duquesa e a Senhoria Santa. Tão-somente isso! — o Coelho Branco findou.
— Eu não tenho nenhuma experiência com isto, senhor Coelho Branco! — rezinguei tomando em minhas mãos um dos frascos com o pó da indivisibilidade.
— Disto eu sei, porém esse cavalheiro ao seu lado é o melhor mestre em estratégias de Wonderland. — quando o Coelho terminou de falar, lancei logo um olhar confuso para Fredrerich, o mesmo apenas respondeu-me com um sorriso zombeteiro na face. — Até agora foi o único habitante de Wonderland que conseguira enganar a Rainha de Copas. Assim não vejo muito perigo ir os dois, isto aliás, irá fazer bem a você, Alice. Conhecerá um pouco melhor as terras do inimigo. — o Coelho falou rapidamente e entregou o frasco que restava para Frederich. — Acompanhem-me. — findou ele.
[...]
Entramos em uma sala escura com uma única cômoda. O Coelho Branco pediu que nós usássemos as roupas que estivessem na determinada cômoda, dizia ele que as roupas lá iriam curtir efeito quando o pó entrasse em trabalho. Optei por um vestido branco e simples, que mais parecia uma camisola. Pela escuridão não consegui prestar muita atenção em como Frederich estava vestido. Lá mesmo troquei minhas vestes. Avisei rapidamente ao Coelho que já estava vestida, não delongou muito para Frederich também está pronto. Ao passo que os minutos passavam escutei uma porta fechar-se. A dimensão ali tornou-se outra... era a Fortaleza de Copas.
— Bem-vinda à Fortaleza de Copas, Alice. — Frederich quebrou o silêncio e despejou o conteúdo do frasco em si mesmo. — Faça o mesmo, Alice. — ele ordenou. Eu o fiz e senti ao diferente ao meu redor. Não conseguia enxergar Frederich, mas então segui o seu perfume de hortênsias, acabei tombando nele.
— Cuidado, Alice. Estamos em terras inimigas, qualquer passo em falso poderá ser fatal. — ele alertou-me e senti o calor de sua respiração em minha bochecha. — Agora vamos. — ele pegou em meu braço e ajudou-me a aprumar-me.
— Frederich, você consegue me ver? — perguntei.
— Não, Alice. Da mesma forma que estou transparente para você, você está para mim! Agora vamos depressa! Parece que a entrada está aberta. — ele disse puxando-me para andar na direção da Fortaleza. — Os guardas estão nos jardins, vamos! Antes que seja tarde! — ele quase ordenou puxando-me.
Se pudesse enxergar seus olhos poderia ter alguma noção do que Frederich estava passando naqueles momentos. Claro, dava para deduzir muito bem, sua noiva estava em alguma masmorra naquela Fortaleza e isso não era uma ideia muito agradável de pensar. Passou por minha cabeça desculpar-me. Em meu interior eu conseguia assumir alguma parte da culpa, mesmo que não fizesse nenhum sentido. Se eu fosse mais corajosa e me mostrar mais como uma guardiã poderia ter evitado o ocorrido.
— Desculpa, Frederich. — eu disse simplesmente e em seguida ele parou de caminhar.
— Te desculpar por quê? — ele indagou com um pouco de culpa na voz.
— Sou a responsável por tudo isso. Se eu fosse uma Alice mais corajosa teria evitado tudo isso. Mas não, passei uma boa parte reclamando ou indagando porque eu era a Marcada. Eu deveria me comportar como uma real guardiã de Wonderland, assim, protegendo todos dos maus que a Rainha que Copas pode nos proporcionar. — eu finalizei inspirando profundamente.
— Uh, não Alice! Eu que fui idiota! Disse simplesmente para Santa ir atrás de algumas ervas sozinha! Nem ao menos a acompanhei! E agora, eu estou descontando toda minha fúria em cima de você, isso não é correto! Quem deve desculpar-se aqui sou eu! Sinto muito, Alice. — surpreendi-me pela ausência de pedras ou galhos em sua voz, naquele pequeno intervalo de tempo Frederich estava tratando-me com desprezo. Sentia um pontada de desapontamento em meu coração, o que havia ocorrido com aquele garoto que tinha conhecido no manicômio? Deixei as feridas de lado e concentrei-me no que deveria.
— Devemos permanecer calados quando adentramos no castelo! Só porque estamos invisíveis não quer dizer que podemos fazer barulho. — eu disse. Frederich apertou minha mão em sinal de aceitação ao meu pedido. — Agora silêncio. — rematei e passamos por uma estrutura de metal que semelhava um portão.
[...]
O interior a Fortaleza deu-me arrepios na pele. Deveria existir lugar mais intimidador que aquele? Concordei que não comigo mesma. E ali postada no final do corredor estava o Trono de Copas.
Ela era muito bela, parecia até uma princesa. Seu cabelo era ruivo como o da Duquesa, suas feições eram bem desenhadas e os seus olhos eram tão verdes quando as florestas de Wonderland. Ao contrário do que pensava, a Rainha de Copas não era uma velha e parecia quão saudável tão a Duquesa de Cheshire. Seu poder irradiava por todo o ambiente e eu senti cheiro de autoconfiança vindo dela.
Apertei com força a mão de Frederich, e felizmente ele compreendeu muito bem o que estava querendo dizer. Eu temia bastante a Rainha de Copas. De consolo ao meu medo, Frederich puxou-me para um desvio naquele extenso corredor, desembocamos em uma saleta escura e com um barulho agonizante. Puxei minha mão esquerda da de Frederich, colocando minhas duas mãos tampando os ouvidos.
— Tudo bem, Alice. Deve está sentindo-se intimidada com todo esse local. Principalmente com essa sala. A sala do Imortal, ou como mais conhecida a sala de Tortura é onde Rainha de Copas armazena os prisioneiros aqui até conseguir todas as informações... — a voz de Frederich falhara no meio do percurso. — Para depois mandar-lhe corta as cabeças. — findou um pouco nervoso.
— Então a Duquesa de Cheshire e a Santa estão aqui? — perguntei.
— Sim, elas estão. — ele disse.
— Frederich, como sabe tanta coisa sobre a Fortaleza? — indaguei com dúvidas na cabeça. Oras, logo de inicio saber em qual saleta está e ainda ter conhecimento das atrocidades cometidas pela Rainha de Copas?
— Alice, todos nós guardamos um esqueleto no armário. Eu tenho segredos que devem manter-se enterrados... — ele disse e por um instante silenciou-se. Parecia que alguém estava adentrando naquela sala também. Frederich puxou-me para o canto da sala e nos fixamos lá.
Havia três pessoas ali, consegui observar as penumbras pelo canto do olho. Virei-me não contendo minha curiosidade. Ela vestia um vestido diferente, ele era todo preto e todo trabalhado com penas de pavão. Ela mais parecia uma princesa do que uma rainha do mal. Sua companhia eram dois guardas de Copas, que trajavam também preto e umas máscaras tetricamente assustadora. Cobri minha boca quando pensei em perguntar por que eles estavam aqui, uma vez que a sala estava vazia. E onde estariam a Duquesa e a Santa?
A Rainha de Copas estava postada com seu Cetro de Copas. Ele era prateado com rubis vermelhos adornando-o, bem parecido com a minha espada. Na parte inferior do Cetro de Copas, ele mostrava-se como uma lança, sua ponta deveria mortalmente afiada. Ela bateu três vezes com o longo Cetro de Copas no chão de mármore.
A magia consumou-se ali mesmo e desapareceu. Como o pó da invisibilidade, a magia tornara a Duquesa e Santa Heart invisíveis, elas estavam aprisionadas em uma cúpula de vidro bastante espessa. As duas estavam caídas no chão como se não tivessem força alguma para empertigar-me. Eureka! Claro que não iriam conseguir levantar-me, a Rainha de Copas estava alimentando-se das vidas delas! Entrei em um desespero interno, segurei bem minhas rédeas para não pular no pescoço da Rainha de Copas.
— Ora, ora. Habitantes de Wonderhood nunca pensei que fossem tão fáceis em cair em armadilhas. Principalmente a feiticeira de Wonderland, isso chega a ser tão inacreditável. — ela falou com a voz carregada de aversão. — Vamos ao ponto, estou com pressa para ver a cerimônia da corta das cabeças! — ela riu animadamente enquanto batia palminhas. — Duquesa de Cheshire, sei que está protegendo a criança Marcada. Já dei muitas chances e tive bastante compaixão com o seu povo, porém escuto murmurinhos por todos os locais. A criança Marcada está aqui em Wonderland mesmo! E ela irá destruir-me. — ela vociferou com a Duquesa, e as minhas feições se contraíram de raiva. — Ou vocês pensam que ela irá, mas eu irei destruí-la primeiramente! — ela adquiriu uma postura assustadora após dizer que iria me destruir.
A Rainha de Copas posicionou o cetro no meio da cúpula, de lá saiu um jato de luz verde e vermelha. Ela sorriu sentindo o poder penetrar em suas veias. Seus cabelos começaram a se desprender do penteado e suas feições tornaram-se mais joviais. Ela estava sugando de uma vez as vidas da Duquesa e de Santa.
— NÃO! NÃO FAÇA ISSO, GEORGIE! — gritou Frederich saindo de meu lado. E com um estalar de dedos, sua invisibilidade correu pelo ralo. — NÃO SE APROXIME DELAS, GEORGIE! — Frederich permaneceu gritando enquanto via Santa Heart perder suas forças.
— Oh, olá Freddie! — a Rainha de Copas falou galantemente. — Não sabia que estava me espionando. Que devo a está honra? Pretendo a juntar-se a nós novamente? — ela indagou e de alguma forma tive o impulso de sair correndo. Não estava conseguindo compreender as coisas ali.
— Quero que você as solte, Georgie! — Frederich pediu um pouco sombrio. Uma interrogação ficou perambulando por minha cabeça. A Rainha de Copas chamava-se Georgie?
— Você quer que eu as solte sem mais nem menos? Estou desconhecendo-o, Frederich. Onde está aquele jovem bastante ambicioso e com más intenções? — sua voz era traiçoeira. — Desde que você envolveu-se com essa mera habitante de Wonderhood você mudou bastante. Que desperdício! — ela crispou a palavra ‘mera’ com muita repulsa, mostrando-se superior a Santa Heart. — Claro que não vou soltá-las sem mais nem menos! Você me conhece tão bem, Fred. Eu lhe proponho uma troca! — ela disse semicerrando os olhos.
— O que, Georgie? — pediu Frederich imediatamente. O desespero era bastante aparente nos orbes castanhos de Frederich. Um silencioso soluço saiu de minha boca. Ao poucos conseguia conectar as coisas e sentir o pesar de Frederich.
A Rainha de Copas bateu cinco vezes com o Cetro de Copas no chão. Seus olhos encheram de fúria ao perceber que eu encontrava-me lá. Meu disfarça de invisibilidade havia sumido como a névoa.
— Ela! Eu a quero! Alice, não é? — ela riu e aproximou-se de mim. — O que os fazem pensar que és melhor que eu? — ela sentou-se na minha frente. A saia de seu vestido se amontoava dando um visual bastante dramático. — Você nunca será melhor que eu! — ela gritou e puxou o colar com a espada de meu pescoço. — Você é somente uma lenda criada por eles. São tão miseráveis que estão raptando Céticos para cá! — ela colocou a mão esquerda em meu queixo. — Você não é nada. — ela apertou meu rosto com suas unhas.
Olhei de soslaio para Frederich. Ele puxava os cabelos vendo a situação de Santa.
— Eu aceito essa troca. Ficará com Alice, mas devolva-me as duas prisioneiras! — ele disse com frieza.
— Esse é o meu garoto. — a Rainha falou radiante e deu uma piscadela para Frederich.
Estava feito, eu havia perdido tudo.
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