Serei Eu
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Você não sabe o que passei, o que tive de suportar por sua causa, não sabe. Não aguentarei ser o segundo desta vez não. Não suportarei sequer a ideia de vê-lo partir, de esperar por mais uma vez, de ser o protegido. Desejava-te antes mesmo de vir a me conhecer, imaginava-nos juntos, rindo, amando, e terei de esperá-lo? Não nesta vida. Fomos obrigados a sermos separados naquele dia, arcamos com nossas escolhas, fomos levados ao extremo, eu sei. Não se preocupe. Não ponho a culpa sobre ti, nunca coloquei. Mas também não pedi para que escolhesse em nenhum momento, seu imbecil. Tive que continuar, sobreviver, mas não farei tudo novamente. Segurarei em sua mão. Manterei-o seguro. Pularei na frente do que for. Lutarei por você. Desculpo-me, meu amor, por ser egoísta, em sempre optar pelo seu melhor, porém sou assim, e não mudarei. Lembrarei, e enquanto alma tiver que o amo, que sempre o amarei eternamente. E este é meu ultimato: Serei eu.
Não quero ver seu sofrimento, não quero ter que assistir seus lindos olhos fecharem. Você sentiu-se impotente tantas vezes, mas não como eu. Lutei, eu lutei!, por dias e noites, busquei nos confins da terra, amaldiçoei os deus, fiz de suas lágrimas, espada, você sabe que fiz, e tudo foi em vão. Não pude te trazer de volta. Não desisti. Vendi-me, sentir na pele o verdadeiro significado da palavra dor, e mesmo assim não alcancei você, pelo contrário, fui distanciado. Enforquei-me. Afoguei-me. Queimei-me. E nada. O destino não permitiu minha partida – Tolo – mal sabia que havia morrido desdo dia em que você partiu. Passaram-se duas décadas e alguns anos quando meu último suspiro foi dado. Estava indo ao seu túmulo, iria ser nosso aniversário, bodas de prata. Meu peito começou a queimar na proporção que a minha alma vibrava. O ar já não era mais o mesmo. Eu poderia te ver novamente, poderia senti-lo. Agarrei-me a morte como agarrasse a teu corpo, fiz dela um companheiro, um amigo, e de bom grado recebeu-me.
Cá estou mais uma vez. Talvez não fostes o momento a manter um sorriso de orelha à orelha. Temos uma arma apontada a nossos rostos, devo chorar? Não. Espero que me perdoe, mas sei o que fará se não o fizer primeiro, seus olhos dizem tudo. E assim faço. Puxo-o para trás de mim, primeiro passado dado. O assaltante explode de nervosismo em saber que reagir conforme não me foi dito. Você cai no chão, desculpe, mas era de grande importância, segunda passo dado. Escuto o estralar da trava de segurança da arma, é essa a hora. Não estás mais a minha frente, sou seu escudo, sua defesa, agora é a sua vez de ser o segundo, certo? O disparo é dado. Em um coral de dor meu estômago grita, pelo menos tenho alguns minutos, penso. Errado. Outro disparo rompe meu pensamento. Peito direito, desta vez não penso, ajo. Vou para cima do estranho, por essa não esperava, e o medo faz que a arma escape de seus dedos, dando-me a oportunidade. Você não tem como se defender, digo, em silêncio. Ponho a mão atrás da minha costa e puxo minha arma. Além de bombeiro, sou policial federal. Sem hesitar, disparo um único tiro na cabeça do assaltante, último passo dado. Ele despenca sem vida e só então a adrenalina esvai-se de mim. Perdoe-me por te visto isso, meu amor. Mas não quero correr o risco de vê-lo fazer mal a você em algum momento. Minhas pernas falham e não consigo me manter em pé. Ouço-o rugir meu nome. E antes que eu pudesse tocar o chão, suas mãos cruzam meu corpo, segurando-me. Seus olhos não cessam. Sinto seu calor, seu cheiro. Sou invadido por lembranças repentinas. Vago entre os tempos, nos momentos que estávamos juntos, das juras que fizemos, das três palavras que resumiam nosso amor. Queria que dessa vez tudo fosse diferente do escrito. Queria ter a oportunidade de apagar e escrever uma nova história, mas não tenho sensibilidade nas mãos. Você tenta estancar o sangramento de todas as maneiras possíveis, dispenso. Você odeia quando sou realista. Por que não tentas ser nesse momento? Não há o que fazer, não tem cirurgião que dê jeito, e nós sabemos disso. Continuasse a persistir até que o impedi definitivamente. Suas lágrimas escorrem pelo meu rosto, e isso dói. Não a minha, mas a sua dor. Eu sei, eu sei, fui um grande idiota em agir dessa maneira. Talvez não lembre quem era ele e o que nos fez. Iria, de uma maneira ou outra, nos machucar. E jamais entregaria o anel de noivado.
Agora dou conta que estamos numa praia. É lua cheia, e que lua, droga. Esse era meu momento perfeito, esse era o começo do meu final feliz, merda! Tudo estragado, jogado ao mar. As lágrimas que guardei saem livres. Tenho poucos minutos, e já não sinto muita coisa. Reúno o pouco que me resta, e digo:
– Você aceitaria casar-se comigo?
Pela primeira vez em todos esses anos, ficaste sem reação.
– Sério que fará isso comigo? Sorrindo, indago.
Pressionando seus lábios contra os meus, decretasse:
– Aceito, eu aceito.
O som da sirene ecoa a noite. Vejo a ambulância chegar, e fecho meus olhos. Ouço seus gritos, pedidos, desespero, mas não resta-me tempo. As coisas, meu amor, estão ficando distantes. Peço a Deus um pouco mais de força, e projetando minha mão, toco seu rosto. Branco e macio, de invejar qualquer um. E tudo acaba por aqui.
Dizem que uma região do cérebro responsável pela memória funciona por alguns minutos logo após a morte. Usarei esses minutos para terminar a minha história. Há séculos estamos presos nesse incansável ciclo vicioso. E apenas nesta vida consegui recordar a passada. Estávamos viajando quando um saqueador tentou nos roubar. De valor, você mantinha o anel de ouro forjado por ti em lembranças de um nós. Corremos floresta adentro, e quando pensamos estar livres, chegamos a uma praia. Não a uma, mas a mesma praia há poucos minutos. Cai no chão de exausto. Acreditei que sairíamos livres desse caos quando ele surgiu atrás de você. Levantei-me e fui desesperadamente em sua direção. Você manteve um sorriso no rosto como soubesse o fim dessa ocasião, e me impediu dizendo não. Uma espada irrompeu seu estômago. Caísse no chão. Mas não acabou por aí. Erguendo-se em um último movimento, cravou uma adaga na cabeça do saqueador. Era o fim tanto para ele como para você. Segurei seu corpo em meus braços. Tentei estancar o sangramento, em vão. Você estava morto. Cruzei os meus braços em seu peito quase igual fizeste no meu, e o aproximei de mim. Beijei tua boca em prantos. Não tivesse o tempo que tive, não ouvir nada de sua boca, nada. Esperei que acordasse, que tudo não passasse de um pesadelo, que nada disso estivesse acontecendo. Mas você não acordou. Enterrei seu corpo na floresta, e partir. Naquele tempo ouviam-se sussurros que os mortos poderiam voltar a vida. Não pensei, perseguir as vozes. Passei o resto da minha vida sofrendo sua perda. Culpei-me por sua morte; quem não faria? Se não tivesse o conhecido nada disso teria acontecido. Você estaria vivo. Não estou triste. Eu sei que em alum momento nossas vidas se cruzarão mais uma vez, peço desculpa por te ido primeiro, mas o aviso estava dado. Sempre deixei claro que seria eu o primeiro a dar minha por você. Sempre.
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