Ser Bi

10 Capítulo 10 - Faz De É, A Festa.


Notas iniciais
(...) Soa maravilhosamente. Um admirável novo mundo. Não há nada disso realmente, há?
- Você não acredita nele?
- O senhor acredita?
- Há sempre um admirável novo mundo - disse Poirot - mas, sabe, só para algumas categorias especiais de pessoas. As felizes. Aquelas que trazem dentro de si mesmas a criação desse mundo.

Noite das Bruxas.

Se divertir e esquecer os problemas arranjando outros já tinha data e hora marcada: 29 de Setembro ás 14 horas. A IV Parada de Orgulho Gay seria no jardim novo — não tão novo assim, mas é o apelido da praça desde dois mil e não sei quando quando foi reformado, mas antes tinha sido reformulado em dois mil e pouco. O apelido sempre foi esse, mas a praça revela sua idade pelo verdadeiro nome: Praça da República. Thaís não podia perder "É Claro" — palavras dela. O convite feito por ela já me convocava. Faltava uma semana.

A desculpa de voltar de viagem no prazo do evento era o "trabalho de artes" — feito a semanas, apresentado a dias e que Zé Ninguém e Fulano de Tal ião fazer no domingo á tarde na Casa de César (na labia colega de sala e na realidade o porteiro da escola) e por coincidência no mesmo dia e horário da Parada. O trabalho de artes já tinha entrado na cabeça da minha mãe, era só cortar o queijo com a faca plástica rosa e ser feliz!

Dinheiro no bolso, decote de seis botões, blusa tamanho G, bermuda que a etiqueta rasgou e all star tamanho 40 compunhava meus 1,71 de puro charme.

– Partiu.

– Partiu o que?

(Gargalhada) — Nada, tô indo minha vó!

As vizinhas nas cadeiras no passeio já se olhavam e comentam, os bêbados e quase-bêbados desviavam suas retinas em direção as minhas coxas; até as árvores eu sentia que estavam me olhando. Sem nem mandar, meus pés já voltavam pra casa e eu introduzia outro jeans, no caminho eu dobrava e desdobrava aquela bermuda, mesmo com a rua deserta e o comércio fechado, eu morria e ressuscitava de vergonha.

Não sei pra onde ia, só sei que a colorida já ia arregando, quando me viu:

– Pensei que não vinha! — Exclamou.

Eu ia falar algo, podia ser "pois vim", ou "KKK" ou "E por quê não?", mas não ia acrescentar nada. Esperei Thaís terminar de se arrumar. Enquanto aguardava, o despacho de encruzilhada chamado Binho (primo de Thaís), já vinha de bike entrando no passeio e sem muitos movimentos nos lábios questionou:

– Vão pra onde?

Um falou maquete e o outro seminário, acabou chegando a conclusão que era um seminário sobre a maquete, ou maquete sobre o seminário, nem sei. Só sei que levamos o tal no papo e oferecemos até o número de César pra confirmar. Número que nem se sabe se existe e de que estranho seria, mas ele tava sem celular e o fato de darmos o número (inventado) já nos livrava do primo mala da Thaís.

No evento os olhos da Thaís não sabia para onde olhava, o cérebro dela só sabia procurar a Alice o tempo todo e todo o tempo.

O pequeno show e premiações foi divertido. Quase no final da tarde o trio elétrico já ia saindo e eu sendo levado por Thaís rumo ao buraco do rego.

O momento foi tenso — pra mim claro: O som alto e toda aquela gente em volta já me tirava a respiração, não estava me sentindo muito bem, passei um pouco mal e muito péssimo. A mão de Thaís me levando controlava minha tontura. Não sabia o que estava sentindo, passei mal mais psicologicamente, aquele som infiltrava no meu corpo, minha alma durante 3 segundos pareceu sair pela boca. Eu só sabia que estava no local errado e com meu coração fora dali, perdido. Aquilo não era meu lugar, eu era simplesmente um peixe fora d´água, um peixe prestes a morrer. Correndo, voltei para casa e respirei meu ar.

A foliã da Thaís continuou o percusso, fiquei preocupado por deixá-la sozinha, mas ela soube se virar. Dançou, pulou, cantou e de tanto axé, pagode e arrocha, foi embora descalça como se estivesse na praia rumo ao Caffé Mix.

Sandro.

Notas finais
Talvez

(...)

Se eu não fosse quem soca
Desesperadamente sem parar
Um travesseiro branco

(...)

Quem sabe
Eu não estivesse
Num fundo do poço

Talvez
Se o mundo desfocasse

(...) ♪♫♪

Talvez - Clarice Falcão