Será...?!
23 Pense bem, Vitor Hugo Abreu Vaz
Notas iniciais
Fiz que não com a cabeça, me virando para trás e seguindo os meninos até a escada, ficando todos espiando o que acontecia no corredor lá em cima.
–VITOR ! –tio Pedro falava alto, esmurrando a porta do quarto. Os meninos tinham deixado a porta destrancada, com a chave do lado de dentro, como o normal, já que íamos sair. –VITOR, ABRE ESSA PORTA... –ele falou respirando fundo –ESPERO QUE ESTEJA SE ARRUMANDO PARA IRMOS NO ALMOÇO OU EU... –o Vitor abriu a porta com tudo.
–O QUE É CARALHO ?? –Vitor falou gritando e tio Pedro começou a perder a paciência e ficar vermelho de raiva.
–Olha como fala comigo, muleque, ainda sou seu pai... –ele falou apontando/enfiando o dedo na cara de Vitor –Você tem cinco minutos para se arrumar, ou vai do jeito que estiver mesmo.. –tio Pedro mal terminou e Vitor já estava revirando os olhos, bufando e resmungando.
–Eu não vou –ele falou e apoiou o braço na porta, como se acomodando melhor onde estava –Eu não vou a mais uma dessas babaquices da minha mãe, que só porque aquela garota chegou, já vai fazer uma “festinha pra ela” –ele falou fazendo uma voz melada, como se fosse a tia Cristina. Tio Pedro virou de costas pra ele, cerrou os pulsos, respirou fundo e a cada vez ficava mais nervoso.
–Olha aqui Vitor Hugo, já chega dessa tua infantilidade, já chega dessa birrinha idiota que você tem pela Heloisa, eu já estou farto disso tudo, acho que você não percebeu que vocês dois cresceram, que agora são adultos e não mais criancinhas de 10 anos, ou você cresce e enxerga que ela também cresceu e para com essa bobeira, ou vou intervir e vai se ver comigo... –Tio Pedro falou, cuspindo as palavras na cara de Vitor, que ainda estava encostado no batente da porta, mas se afastava um pouco a cada palavra mais alta do tio. –Espero que tenha entendido e agora vá se arrumar –Tio Pedro falou e deu uma olhada final e quase que, fatal pro Vitor, que fez careta e bateu a porta, entrando pra dentro do quarto. –E SEM BATER AS PORTAS, SEM QUEBRAR NADA... VAI SER PIOR –o tio ainda acrescentou, vindo para a escada, e voltamos correndo para a sala, nos sentando no sofá rápido. Tio Pedro desceu e fingimos estar conversando. –Tudo bem, eu sei que vocês ouviram tudo, e não me importo... -falou se sentando em uma poltrona que estava vazia –Esse garoto está precisando de limites, está extrapolando os limites –falou bufando e encarando a escada, a espera dele descer. Depois de quase meia hora, o Vitor apareceu, descendo as escadas marchando, parecia que ia afundar o chão por onde passava. Ele foi até a cozinha e tio Pedro se levantou, o acompanhando com os olhos. Vitor passou por nós como sempre, como um furacão, chegando a fazer vento. Tio Pedro caminhou com seus passos, até a porta onde Vitor ia, mas parou quando tio Pedro se enfio na frente.
–Sai da frente ! –Vitor falou revirando os olhos.
–Onde pensa que vai ? –o tio perguntou, o encarando sério, sem nenhuma expressão quase. Virou bufou e revirou os olhos de novo.
–Pro meu carro, pra sua casa, para o “almoço especial” da minha mãe... –ele falou fazendo aspas com os dedos em almoço especial –Além de velho, está ficando esclerosado ? –ele falou rindo ironicamente. Tio Pedro tencionou o maxilar, fechou os olhos e respirou fundo. Era nítido que ele estava contando até mil para não bater no Vitor. Ele esticou a palma da mão aberta para o Vitor, voltando a olha pra ele, só que agora mais furioso.
–Dá a chave ! –ele falou olhando bem pra cara do Vitor, que arqueou uma sobrancelha.
–Não ! –falou debochado.
–Dá-a-chave, Vitor Hugo... –ele falou pausadamente, ainda mantendo o tom de voz baixo e firme, só que agora cerrou a outra mão que estava do lado de seu corpo. Vitor colocou com força a chave na mão do tio e o olhou furioso. Tio Pedro respirou fundo, como se estivesse aliviado. –Heloisa querida –ele me chamou, fazendo sinal de “vem” para mim, que obedeci e cheguei mais perto dele. –Tome aqui, será seu pelo tempo que quiser... –ele ia falar mais alguma coisa mas o Vitor surtou do nosso lado.
–Não, não, não, não, nããoo..! – ele falou virando para a parede atrás dele e socando a mesma e olhando pra nós com cara de piedade, mas ainda assim dava pra ver que ele estava a ponto de matar um –Ela vai fuder todo o carro, não faz isso, é uma RAM 1500 7.1 (http://www.equipmentworld.com/files/2013/02/Ram1500.jpg ) ...porra, tira qualquer outra coisa, mas dar o carro na mão dela não, não... puta que pariu, caralho –ele falava andando de um lado para o outro e eu o olhava com minhas sobrancelhas levantadas. Olhei para o tio Pedro que fazia que não com a cabeça e depois me olhou. Pisquei para o tio, em sinal de brincadeira e ele riu.
–Tio, se eu bater, tem algum problema ? –perguntei como quem não queria nada e o tio riu.
–Não querida, desde que você não se machuque, pode fazer dele uma sucata –ele falou e rimos. Os meninos, alguns tentavam conversar com o Vitor, outros riam e cochichavam. –Agora vamos logo, antes que a Cristina surte. –o tio falou e saímos todos, o Vitor arrastado pelo Gui e o Lue. (http://4.bp.blogspot.com/-xclKtv6T9N8/TdgP-RbmKxI/AAAAAAAAABc/c3q3j83dJNM/s1600/frente+da+casa+no+canada.bmp) Na garagem, destravei o alarme da “RAM 1500 7.1” do Vitor e ri para mim mesma. Acenei para o tio, que saiu assim que acionei o portão para eles sairem, e entrei no carro. Olhei em volta no carro, tudo muito bem cuidado e limpo. Realmente aquele carro era o xodozinho do Vitor. Ri mais uma vez. Respirei fundo e senti o perfume dele, que estava impregnado naquele carro. Me desfiz dos meus devaneios e fui fuçar pelo carro. Abri o porta luvas.
–Jesus, o que é isso ? –falei vasculhando todos os pacotinhos e olhando nos bancos do carro –Que nojo Heloisa, ele usa o carro como puteiro... –falei comigo mesma, fazendo cara de nojo e sentindo repugnância por estar ali. Pra que tantas camisinhas ?? (http://2.bp.blogspot.com/-YgtIcGp1ZXg/TWVTtUHRDuI/AAAAAAAACZ8/AkbQcNegjHQ/s1600/Camisinhas.jpg ) Mas não eram cinco ou seis, eram muitas, umas cem, se não mais... Fiquei enojada e dei logo partida no carro. Sai da garagem, à fechando e fui para a casa do tio Pedro, quando cheguei, já estavam todos lá, todas as pessoas que a tia Cristina havia convidado. Logo quando entrei, fui recebida pela tia, que me abraça forte.
–Olá querida, está linda... –ela fala se afastando e me analisando –Venha, todos estão ansiosos para te rever e já devem estar com fome –ela fala, me puxando para a sala de jantar, onde tinha uma baita mesa gigante com um monte de gente sentada a volta e todos me olharam quando entrei pelo arco que dividia a sala, para a sala de jantar. Senti meu rosto queimar diante de tanta gente. Cumprimentei todos rapidamente como pude, e fui me sentar no único lugar que sobrava à mesa, ao lado do tio Pedro à minha esquerda e... com o Vitor a minha direita. Respirei fundo e me sentei, mas ao respirar, acho que respirei fundo de mais, pois senti seu tão bo...quer dizer, ruim perfume. Tio Pedro olhou feio para Vitor e depois para o meu prato. Vitor arqueou uma sobrancelha e fez que não. O tio estreitou os olhos pra ele, como se fosse mata-lo. Apenas sorri para tio Pedro, que assentiu.
–Com licença, querida –diz ele pegando o prato da minha frente.
–Ah, não precisa se incomodar tio, pode deixar que eu mesma me sirvo, não quero que ninguém se incomode comigo... –falei dando aquela indireta bem direta pro Vitor, que escorregou um pouco na cadeira, virando a cara. Tio Pedro que não é bobo nem nada, entendeu e fez questão de piorar (pra mim seria melhorar kkk’) as coisas.
–Magina querida, aqui você não incomoda ninguém, não é mesmo ?!Só quero demonstrar que tenho educação e gosto de agrada-la –ele falou e sorriu, sorri com ele e vi Vitor se servir de outro prato, com brutalidade. Todos se serviram aos poucos e começamos a comer. Não demorou nem meia hora que o almoço tinha começado e Vitor já tinha se levantado da mesa. Tio Pedro que já tinha terminado seu prato, pediu licença e foi atrás de Vitor, que tinha ido para a sala perto da porta de entrada.
POV Pedro
Ok Pedro, está na hora de você entrar em cena. Pedi licença e me levantei da mesa, indo atrás do Vitor. Estava na hora de ter um conversa séria com ele. Uma conversa de homem pra homem.
–Vitor... –o chamei, que virou revirando os olhos e se jogando no sofá. Sorri um pouco amarelo. –Venha um pouco aqui comigo... –falei subindo as escadas, andando em direção ao meu escritório, com ele atrás, fazendo cara de pouco caso. Entrei e esperei ele entrar, fechando a porta atrás dele. Fui até meu carrinho de bebidas, me servindo de uísque. –Quer um ? –falei olhando pra ele, que deu de ombros e assentiu. Entreguei um copo pra ele, que estava sentado no sofá e me sentei ao lado dele. Ele parecia longe, olhando pro nada e pensando em tudo. –Vitor ? –falei olhando em sua cara paralisada, que piscou e me encarou com uma das sobrancelhas levantadas. –Sabe... –falei tomando o resto do meu uísque –Eu queria saber o por que de você agir assim com a Heloisa –falei o encarando, que revirou os olhos e encostou a cabeça para trás no sofá –Pare de revirar os olhos e fale alguma coisa, estou conversando com você –falei me levantando e pegando mais uma dose de uísque –Agora vamos, diga, por que trata ela assim ? –falei e ele bufou.
–Porque ela é uma idiota, uma imbecil, maluca, demente, retardada, burra, canalha,vadia,vaca, puta,filha da put... –o interrompi.
–Ei, ei, ei... Já pode parar de ofende-la sem motivos –falei me sentando de novo e ele levantou –E pode sentar aqui, porque ainda não terminei –disse e ele revirou os olhos e se sentou novamente –Olha, vou lhe falar uma coisa, do meu passado, do meu lado obscuro –disse e ele resmungou.
–Iiih, lá vem... vou até pegar mais uísque –falou se levantando e trazendo a garrafa até nós.
POV Lola
–Querida, vá chamar seu tio e o Vitor, por favor –diz tia Cristina –Diga que vamos servir a sobremesa –disse ela. Assenti e sai da sala de jantar, onde todos conversavam e fui procurar por eles. Subi as escadas e pude ouvir tio Pedro falando, o som não estava muito longe então deduzi que estavam no escritório. Fui chegando perto e antes que batesse, fiquei prestando atenção no que ele dizia.
–Olha, vou lhe falar uma coisa, do meu passado, do meu lado obscuro –tio Pedro falou e o Vitor resmungou.
–Iiih, lá vem... vou até pegar mais uísque –ele falou e ouvi passos, me afaste da porta, mas logo vi que ninguém sairia.
–Quando eu tinha mais ou menos a sua idade, acho que uns dezoito ou dezenove anos, era assim, igual a você, o carinha que comia todas, que não tinha sentimento pelas garotas, que esbanjava vivendo as custas da riqueza do meu pai –tio Pedro fez uma pausa –Vivia pelas, na minha época, danceterias, bebia até não conseguir ver nem mais a um palmo da minha frente, era divertido ser esse”vida loka” como vocês falam hoje em dia, mas seu avô César não era assim tão calmo como eu, ele odiava que eu era assim, ele, um homem de negócios, uma pessoa importante, que vivia sempre na linha... ele vivia aos berros comigo, queria a todo custo, que eu fosse como ele, mas eu estava pouco ligando, até que um dia, meu pai fez um jantar entre amigos e me obrigou a participar, e nesse dia, conheci a filha de um amigo do meu pai –tio Pedro fez outra pausa e pareceu suspirar –Ela era linda, aqueles cabelos negros, encacheados e brilhantes, aquela pele branquinha e aqueles olhos castanhos tão delicados... ela parecia uma boneca de porcelana, daquelas de coleção, raras e caras. Depois que a vi, a imagem daquela garota não saia da minha cabeça. E assim foi indo, tive a oportunidade de ir em outra festa que ela estava, e então tomei coragem e fui conversar com ela. Minhas pernas tremiam, eu estava gelado, não sabia o que dizer, mas queria pelo menos ouvir sua voz dizer meu nome. Quando dirigi a palavra a ela, aquela pele branquinha de seu rosto, ficou vermelhinha como um pimentão. Sorri com a tal imagem que estava diante de meus olhos, mas logo o Sr. Elias veio a tirar de perto de mim. Depois disso, a imagem dela continuava em minha mente, mas eu não me permitia que aquilo fosse verdade, não me permitia que eu estivesse... –tio Pedro fez um pausa, uma longa e silenciosa pausa -...Apaixonado –ele falou e ouvi Vitor endireitar a garganta.
–Ok, e o que o senhor quer que eu faça com essa informação ? –Vitor falou e ouvi tio Pedro bufar.
–Vitor Hugo Abreu Vaz, faça o favor de não se fazer de burro –o tio falou e ouvi ele rir –Quero que você pense bem, somos muito parecidos quanto a isso e sei que o que você está fazendo e quero te impedir de perder tempo com isso e correr logo pro que te espera, você tem apenas um ano, para correr atrás... pense bem –ele fez uma pausa e decidi que já era hora de bater e entrar.
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