Sequelas

1 A estranha


O Sol já estava se pondo no horizonte de Jump City e dava um tom mais alaranjado nos céus ao redor. Mesmo que fosse tarde, o lugar mantinha sua agitação costumeira, incluindo alguns casos de roubos ou mesmo vandalismo. Em outras palavras, aquele dia tinha sido bem cheio para cinco jovens heróis conhecidos como Titãs.

Já haviam resolvido ao menos sete casos de assaltos na cidade só naquele dia. Todos feitos por simples bandidos ou até mesmo vilões que não merecem seus nomes na lista de perigosos. Pura perda de tempo e poderes, segundo os próprios heróis.

Mas isso não importava no momento. O que importava era que os alarmes tinham parado há cerca de poucas horas. Isso significava que os Titãs agora tinham um tempo para se recompor e descansar, e que deviam aproveitar o intervalo o máximo possível já que poderia se acabar a qualquer instante.

E como os cinco aproveitam o tempo? Ora, do jeito de sempre! Brigando, discutindo, ou caso queira a explicação mais simples, se matando...!

“Devolve isso, Mutano!!” Ciborgue gritava enquanto segurava o controle remoto da televisão. Este também era puxado insistentemente por um par de mãos acinzentadas.

“Nunca! Eu peguei ele primeiro!!” O mais novo então se tornou um polvo. Quatro de seus tentáculos se encontravam grudados no aparelho enquanto os demais se fixavam no sofá.

“Ah, claro que pegou! Mas da minha mão!!”

Ao mesmo tempo em que o cabo de guerra improvisado persistia, os demais se encontravam espalhados pelo recinto a fim de se ocupar com algo. Ravena lia, ou melhor, tentava ler mais um de seus livros enquanto ficava recostada numa das paredes. Estelar se encontrava num canto da sala, perdida em seus devaneios. Aquela foi uma forma de tentar ignorar a gritaria já que Silkie havia saído de cena. Robin por sua vez estava à beira de um ataque nervoso.

O líder preferia mil vezes encarar assaltos o dia todo a ter seus tímpanos comprometidos daquela maneira. Como Ciborgue e Mutano conseguiam ser tão insuportáveis quando o assunto era televisão ou videogame?!...

“Tire suas patas do MEU controle!!”

“Tire suas engrenagens do MEU controle!!”

Robin agora não agüentava mais. Estava implorando silenciosamente para que o alarme tocasse avisando sobre algum vilão. Do contrário seria preciso muita ajuda para que conseguissem tirar suas mãos dos pescoços de Mutano e Ciborgue...

“Cara, eu só quero assistir os desenhos!” Após essas palavras, Mutano se transformou num crocodilo e segurou o controle entre os dentes. Esses animais possuem uma força inacreditável na mandíbula. As chances de uma pessoa tirar o objeto dele agora eram mínimas.

“E eu quero ver o filme!” Mas Ciborgue não era uma pessoa qualquer. Mais da metade de sua estrutura era de puro aço molibdênio. Não foi um desafio tirar o aparelho da mandíbula do colega... “Desenhos passam o tempo todo, mas filmes não!”

“Ei, me dá isso!”

“Sai pra lá, abacate! É meu!”

“Claro que não! É meu!!”

“Meu!”

“Meu!!”

“Meu!!!”

Foi então que um bumerangue cruzou o lugar e bateu no controle remoto, jogando-o para trás. Quando os dois se viraram para ver o que acontecera com seu “tesouro”, acabaram se deparando com a visão de um rapaz empunhando-o na mão direita. Era Robin, claro. Como suas preces para que alguém fosse idiota o bastante para cometer um assalto ou coisa do tipo não foram atendidas, o menino-prodígio teve que agir para aquela frescura dar-se por encerrado!

“Não. É meu!” Disse, voltando a seu lugar. Por sorte tinha conseguido controlar o desejo de esgana-los...

“Ah, Robin! Por que cê fez isso?! Aquele seu bumerangue acabou me cortando!!” Mutano reclamou enquanto mostrava o dedo ferido.

“Como se você fosse morrer por isso.”

“Bom, é uma pena que milagres não aconteçam...” Ravena murmurou com indiferença na voz. Mutano apenas fingiu não ouvir... “Será que vocês não conseguem ficar um minuto sem discutir sobre tevê ou videogame? Isso é deprimente.”

“Erm... você se esqueceu de mencionar a discussão do café da manhã.” O robô completou.

“Ah, sim. Como poderia me esquecer...”

“Querem parar com isso?? Essa bobagem está até me deixando com dor de cabeça!...”

“Acalme-se, Robin.” A mão direita de Estelar pousou suavemente no ombro dele. “Também não é para tanto...!”

O líder decidiu seguir as palavras dela, afinal, tinha uma ponta de razão. A mistura inusitada da briga insuportável daqueles dois e do dia movimentado que teve acabou estressando-o demais.

“Valeu, Star. Mas eu estou bem.” Disse, encarando-a com uma expressão mais tranqüila. Mas logo esse cenário tenso entre os cinco desmoronou pelo som dos alarmes, e todo o interior da torre agora se encontrava iluminado de vermelho. “*suspiro* Tava demorando... Ciborgue, o que houve dessa vez?”

O mais velho se dirigiu a um dos computadores da sala e começou a digitar.

“Não é nada de mais. Só um cara invadindo um museu...”

“Quem?”

“Sei lá.” Disse, checando uma lista imensa de nomes e fotos pela tela do aparelho. “Não há informação alguma sobre o cara na fixa de arquivo. Ele deve ser novo por aqui.”

“Tanto faz! A gente não precisa de carteira de identidade de um vilão pra darmos um chute nele!”

“Titãs, vamos!!” Robin ordenou após dar uma rápida checada nas coordenadas do local que era assaltado.

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O Sol já não era mais visível naquele momento e as primeiras estrelas já estavam no alto. Para variar, alguém quis quebrar a tranqüilidade que o cenário trazia sobre a cidade e dar ainda mais trabalho aos titãs...

O lugar era um museu. Local cheio de peças raríssimas e extremamente valiosas. Principalmente pelo fato de que a maioria dos artefatos e estátuas era enfeitada por jóias. Em melhores palavras, era um alvo perfeito para um ladrão.

Mas este ladrão não parecia ser do tipo comum. Já tinha cruzado com inúmeros objetos que poderiam acrescentar algo com vários zeros numa conta bancária, porém, ainda não roubara nada. Possuía um objetivo. Procurava algo em particular...

Ele vestia um traje negro com detalhes de cor prata. No peito possuía algo semelhante a um disco iluminado de vermelho, cuja forma era rodeada por fios ligados ao capacete e às luvas. Nunca foi visto na cidade antes e, de alguma forma, não aparentava ser um grande desafio...

“Aqui!” Exclamou para si mesmo enquanto tateava um totem de madeira. No seu centro havia uma pedra rubra circular. “Finalmente encontrei!”

Porém, para sua infelicidade, um falcão mergulhou bem na sua direção e pegou o objeto com as garras afiadas. Inicialmente, o ladrão ficou confuso com o que houve e se perguntou o porquê do animal ser verde. Mas logo teve sua resposta. Bastou olhar para os outros quatro heróis que se posicionavam em frente à porta de entrada.

“Desista!” Robin exclamou. Mas o inimigo apenas cruzou os braços e fez uma expressão de aborrecimento.

“Ora, ora... deixe-me adivinhar. Vocês são os Jovens Titãs, certo?” Foi possível notar que os fios que rodeavam seu corpo rapidamente foram tomados por uma espécie de energia avermelhada. E quando apontou o braço direito na direção de Mutano, a peça valiosa que este segurava foi puxada fortemente como se a mão do inimigo se tratasse de um ímã. Assim, o ladrão retomou o artigo. “Vocês realmente não mudaram nada!”

Nenhum dos heróis entendeu bem o que ele quis dizer com tais palavras. Mas não houve tempo para pensar. O vilão concentrou a energia vermelha do traje em suas mãos e, juntando-as, passou a dar inúmeros disparos na direção dos titãs. Estes conseguiram desviar por pouco.

“Titãs, atacar!” Uma vez ditas, as famosas palavras se transformaram num gemido curto e doloroso da parte de Robin. Um dos raios passara de raspão na região das costelas e acabou provocando uma queimadura.

Por sorte conseguiu desviar dos demais disparos que lhe foram feitos e se ocultar por trás de uma grande estátua de pedra, usando-a como uma espécie de escudo. Os outros titãs também se esforçaram para evitar os raios, mas estava difícil. O inimigo atirava com um ritmo surpreendente.

Ciborgue já tinha aprontado o canhão sônico e estava disparando nele. Mas nem mesmo o moveu. O vilão havia ativado um escudo energético também vermelho, e tudo o que lhe era atirado ricocheteava ou simplesmente acabava numa pequena explosão.

O mesmo ocorria quando Estelar atacava com suas starbolts, e Ravena ao atirar objetos com a telecinese. Enfim, nada impedia as ações dele.

Então, quando se cansou daquelas atitudes inúteis, o ladrão aumentou a força do escudo de uma só veze fez com que uma onda de energia se espalhasse pelo lugar, eletrocutando e jogando os três para longe.

“Patético! Nem sei porque estou lutando aqui com vocês se já tenho o que preciso!...” Disse, passando por entre os titãs desacordados. Mutano até tentou pegá-lo por trás enquanto mantinha a forma de um rinoceronte. Mas o plano logo foi frustrado quando o inimigo jogou-lhe um dispositivo, liberando uma forte descarga elétrica e o derrubando. “Achava que me esqueci de você, idiota??”

De repente, um bumerangue cruzou o campo de batalha a fim de acerta-lo em cheio. Mas ao invés disso, foi dividido ao meio por um dos raios.

“Não tem coragem o suficiente para aparecer, Robin? Esses seus brinquedos não me impedirão!”

“É o que veremos.” Robin apareceu das sombras e jogou três de seus discos explosivos. Mas como era esperado, os objetos foram simplesmente evitados pelo escudo vermelho.

“Sabe, por que você não simplesmente me deixa escapar? Daí eu poupo suas vidas e volto com minha missão cumprida. Viu só? Todos sairiam ganhando!” De alguma forma, era possível detectar uma certa zombaria naquela voz.

“Nem pensar!” Ele sacou o bastão e se posicionou. “Não sou do tipo que desiste fácil...!”

“*suspiro* Era o que eu esperava.”

O vilão moldou a energia que se acumulava numa das mãos até que esta ficasse com formato semelhante a uma foice. Não foi preciso muito para que Robin entendesse o recado.

Em questão de segundos, os dois já se encontravam duelando como se aquelas armas se tratassem de espadas. O titã tentava com todas as forças atingir um ponto com muitas terminações nervosas. Se fizesse isso, o oponente acabaria com dificuldades para se mover. Já este queria mesmo era provocar um corte profundo com a lâmina vermelha.

Houve um momento em que Robin foi atingido e jogado para fora do edifício. Mas por sorte foi pela vara da arma, a não pelo ponto afiado. Então, ao invés de um corte, acabou ganhando um hematoma na região do abdômen.

“Você é mesmo persistente, hein.” O outro provocou. “Que perda de tempo!”

Enraivecido, Robin avançou na direção inimiga e se preparou para atacar. Porém, percebendo a ação do próximo, acabou empunhando o bastão horizontalmente a fim deimpedir o toque afiado da outra arma no seu rosto. Os dois agora não conseguiam sair daquele ponto tamanha a força que descarregavam nos instrumentos.

“Desista disso. Acabou!” O titã disse. Mas recebeu uma risada cínica como resposta.

“Quem disse??” Foi nesse momento que a foice se modificou e virou uma espécie de laço, se enrolando no menino-prodígio e o sufocando aos poucos. “Tem que saber algo sobre mim, Robin: eu nunca jogo limpo!...”

O vilão ergueu o garoto do chão e o atirou fortemente para o alto, imaginando que o herói provavelmente morreria graças ao poder da gravidade. Sabia que, embora tivesse o nome de um pássaro, Robin não voava. E se ele tentasse usar um de seus ganchos numa velocidade como aquela, acabaria perdendo os dois braços. Senão, os dedos.

“Adeus, pirralho!” Ele riu. Em seguida, com uma dose extra da energia que dispunha, formou uma espécie de portal circular e o ultrapassou, desaparecendo sem ao menos deixar vestígios.

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Robin se encontrava numa situação difícil no momento. Ele havia sido atirado para longe e não tinha a mínima idéia do que fazer. Agir com um de seus objetos era algo arriscado (para não dizer suicida), e, se não agisse, acabaria com o destino de se tornar asfalto de uma das avenidas mais movimentadas de Jump City...

Então só fez três coisas:

Fechar os olhos, respirar fundo e...

“Voar?!”

Exatamente. Robin pensou isso quando sentiu seu corpo simplesmente levitar. Na verdade, sentiu duas mãos segurando seus tórax, o erguendo. Alguém o salvou, de alguma forma.

Por curiosidade, ele tentou encarar a pessoa que evitou sua morte. Mas tudo que conseguiu visualizar foi uma capa azul agitando-se ferozmente pelo vôo.

“Valeu, Ravena.” Ele agradeceu, supondo que fosse a colega empata.

Mas sua resposta foi o silêncio.

“Ravena??”

Robin percebeu que tinha algo errado ali. Nem mesmo Ravena o ignoraria daquela maneira. Talvez fizesse isso com o Mutano, mas não ele!

Tentou de todas as formas olhar para o rosto dela, mas não conseguiu ver nada além daquela estranha vestimenta sombria. Suas suspeitas de que o seu salvador não se tratava da titã só se confirmaram quando o mesmo o atirou na cobertura de um prédio próximo, o tratando como se fosse um fardo.

Mas com sua sorte e habilidades, Robin conseguiu cair em segurança no topo do edifício.

“Você não é a Ravena!” Ele mais parecia ter rosnado as palavras do que simplesmente tê-las murmurado. O desconhecido estava bem à frente, se mantendo a apenas uns centímetros do chão, e, por isso, o titã imediatamente se preparou para o combate.

“Não. Não sou...” Respondeu calmamente. Sua voz era feminina e muito suave, deixando aquela imagem sombria de lado por um tempo. Mas como Robin tinha sido treinado a não se deixar levar pela aparência, ou melhor, pela voz das pessoas, ele decidiu avançar logo para evitar mais uma derrota.

O garoto correu na direção do inimigo e preparou o punho fechado para um soco. Quando se viu a uma distância boa, descarregou quase toda a força que possuía no braço direito e o dirigiu ao rosto encapuzado.

Mas foi frustrado quando viu o braço da figura sombria se mantendo firme enquanto barrava o seu próprio.

Tentou atingi-la novamente utilizando o outro braço. Porém, ela acabou desviando facilmente com seu poder de vôo.

E assim foi por alguns minutos. Robin tentou chutes, acrobacias, praticamente toda a lista de movimentos de combate que possuía em mente. Mas a garota não foi atingida nenhuma vez. Ele nem mesmo conseguiu tocar no tecido da sua vestimenta.

Vendo que não tinha muito que fazer, tentou um último recurso. Avançar e imobiliza-la.

Como era previsto, a figura de capuz acabou desviando novamente. E ainda, como o menino-prodígio havia pulado para tentar pegá-la, acabou atravessando o limite da cobertura e caiu uma segunda vez.

Bom, teria morrido dessa vez se uma mão não o tivesse agarrado...

Aquela garota o salvou novamente e o puxou de volta para o topo do prédio, levantando-se logo em seguida.

“Será que agora você pode parar com isso? Estou cansada desse joguinho!...” Ela disse. A voz agora já não era suave, mas firme e com um toque de irritação.

Ainda atordoado, Robin encarou de forma profunda a pessoa à frente a fim de visualizar o rosto que insistia em se ocultar. Porém, nada conseguiu. As trevas persistiram tanto sob o longo capuz que não havia sequer vestígios da pele. Foi possível notar também que deviam faltar-lhe uns cinco centímetros para que atingisse a altura da Estelar. E isso deixava claro que se tratava de uma adolescente com idade próxima...

“Quem... quem é você?” Perguntou enquanto se levantava.

“Uma pessoa que não quer que se fira.” Ela cruzou os braços e deixou à mostra suas luvas sem dedos e de cor prata, cujo comprimento ultrapassava alguns centímetros do limite do antebraço. O restante estava coberto por um tecido azul ainda mais escuro que o da capa. “Escute aqui, vou ter que pedir para que não cruze o caminho de Vox novamente. Aquele rato é MEU problema!”

“Vox?! Então esse é o nome dele??”

“O meu que não é!” Ela zombou com um tom grave. “Aquele homem é capaz de tudo para cumprir seus objetivos, e isso inclui matar! Até mesmo heróis como você e seus amigos!!”

“Não tenho medo dele. Da próxima vez que eu tiver notícias dele--”

“Vai ficar bem quietinho na Torre Titã, que é o seu lugar!...”

“Ei! Quem você acha que é para me impor ordens?!”

“Já disse. Sou uma pessoa que não quer que se fira. Se você se meter com Vox novamente, estará cavando sua própria sepultura. Deixe-o comigo!”

Ela então se virou e passou a caminhar lentamente até a borda do terraço.

“Espere. Eu ainda nem sei qual é o seu nome...” Robin disse, dando alguns passos à frente.

“Não precisa saber.”

“Erm... e como eu saio daqui?”

A garota por sua vez o olhou de volta. Se pudesse encarar sua face, Robin a veria soltando um tímido sorriso.

“Ora, você não é o menino-prodígio? Descubra!” Riu. Em seguida se afastou rapidamente, deslizando pelo ar com um destino desconhecido.

O titã nada fez. Apenas se manteve ali, encarando a figura bizarra que acabara de conhecer. Quem seria? Por quê tamanha preocupação com ele?? Bom, havia coisas que nem mesmo Robin conseguia compreender...