Sephiroth

9 Capítulo 8 - Rompimento


Notas iniciais
Bom dia! Pessoal, mais um capítulo para vocês... Com um pequenino atraso. POV do Uruha, para dar uma variada. Espero que gostem!
Boa Leitura e créditos a Nana pela betagem.

Tóquio, 09 de Março de 2008 – 10:25 a.m.


Uruha’s Point of View


–– Uruha, você vai fazer um buraco no chão se não parar de andar agora! – ordenou Ruki, bravo. Não dei ouvidos.

–– Não posso ficar nervoso? Ele está em coma há um mês! – argumentei impaciente.

–– E daí? Quanto se está em coma não há muita coisa a se fazer. Temos que esperar.

Encarei os orbes castanhos que me fitavam piedosos. Passei a mão nos cabelos, irritado, e sentei-me na cadeira ao seu lado.

–– Desculpa Ruki. Estou muito... Ansioso. – Confessei. De fato, eu esperava com o coração na mão o dia em que Aoi finalmente acordaria. Havia tanto a ser dito...

Ele sorriu e acarinhou meus cabelos: –– Sei que está preocupado. Quando ele acordar, vamos ter uma pequena tempestade por aqui, não é?

–– Sim – concordei. – E, sinceramente, não sei se estou pronto para revelar algumas coisas.

–– Aoi vai querer saber os detalhes, Uru. De tudo. Por mais que ele tivesse tido acesso a relatórios bem descritivos, não é a mesma coisa de que ouvir da sua boca.

–– Eu sei, eu sei! – Agoniado, levantei-me da cadeira e comecei a dar voltas pelo laboratório. O geneticista bufou e rodou os olhos, mas ignorei solenemente.

Voltamos ao silêncio que nos perseguiam esses dias. Eu sempre ficava rodando pelo laboratório, dia e noite, sem poder ver o moreno direito. Ordens de Ruki, e eu costumava seguir suas recomendações.

Mas essa de contar toda a verdade, eu estava lutando para rejeitar.

Faço ideia o que Aoi deve ter passado nas mãos do desgraçado – agora morto – do Akira. Eu não queria encher a cabeça dele com mais acontecimentos perturbadores. Já basta o que ele teve que ver lá na NeoCell.

E o que eu mostrei na cabeça dele.

–– Ruki, Aoi vai me matar quando descobri que fui eu que mandei aquelas lembranças a ele. Senti o quanto aquilo o fazia mal!

–– Eu avisei para não fazer.

–– Ficar falando isso não vai me ajudar em nada! – Segurei os cabelos da nuca com força, como se aquilo pudesse diminuir um pouco meu sofrimento.

Suspirei cansando, encostando-me a parede. Parecia que o pesadelo não acabava nunca. Tudo o que eu mais queria era Yuu de volta.

–– Você realmente gosta dele nee, Uru?

Fechei os olhos, derrotado: –– Eu... Estou confuso, Ruki. Gosto muito dele, de um jeito que nem sei explicar, mas... Olha para mim! Olha o que eu sou! Um monstro, Ruki! Um monstro que pode entrar na mente das pessoas! Um monstro que tem uma espada debaixo da pele! – Foi inevitável a formação de lágrimas em meus olhos. Era a primeira vez que Ruki me via fraquejar numa situação. – Eu matei pessoas! Não sou digno de amar ninguém! Menos ainda de receber o amor de uma pessoa tão pura quanto o Yuu!

Escorreguei pela parede, e enxuguei as lágrimas. Fazia tanto tempo que eu não me sentia assim... Tão indeciso. Afundei meu rosto em minhas mãos, desolado. Escutei os passos de Ruki, e percebi que ele parara na minha frente. Senti um afago em meus cabelos, e gemi dolorido com a demonstração de carinho.

–– Não diga essas coisas Uru. Olhe para você! – ele afastou minhas mãos, mostrando as pequenas gotas que desciam queimando pelo meu rosto. – Você teve força de vontade para resistir àqueles inúmeros ferimentos causados por Kai, invadiu a NeoCell para salvá-lo, e tudo isso porquê?

–– Eu... Ruki...

–– Você não é uma aberração! Eu te conheço e, desde que me salvou e jurou me proteger, é a primeira vez que te vejo demonstrando sentimentos por alguém. E isso é muito bonito de sua parte. – Um pequeno sorriso triste brotou no rosto cansado do geneticista. – Eu sei que não confia plenamente em mim, mas... Gosto de você, Uru-chan, e desejo que consiga se acertar com o Aoi. De coração.

Ouvi, atônito, as palavras do Ruki. Eu... Tive uma visão tão errada dele! Pensei que nossa relação era puramente comercial, entretanto, agora percebia que ele esteve do meu lado quando precisei. E ele me ajudou muito assim que fugi da NeoCell, meu corpo ainda não estava livre dos efeitos colaterais e foi o geneticista que me ajudou esse tempo todo.

Eu não havia valorizado-o da forma que merecia.

–– Desculpa, Ruki.

Ele sorriu e limpou as poucas lágrimas que caiam.

–– Não por isso. Bom, agora vou dar uma olhada no Aoi-kun. – Antes de entrar pela porta do quarto que o moreno estava, Ruki tornou a fitar-me. – Acho que deveria dar uma volta, Uruha. Espairecer e colocar as idéias em ordem.

Abaixei os olhos e ponderei por um momento. Definitivamente essa era a melhor decisão a se tomar.

Logo que Ruki sumiu porta adentro, eu saí do nosso esconderijo e corri sem rumo pela noite fria de Tóquio.

–– X ––

Ainda me pergunto como as coisas chegaram a esse ponto.

Há cinco anos atrás eu era um estudante de Economia, jovem, comum, livre e... normal.

Agora cá estou anos depois, vendo as ruínas do que fui um dia. Nada mais me restou daquela época. Nada...

Eu queria a minha família, meus estudos, a vida – que eu julgava – sem graça... Tudo de volta.

Queria Takashima Kouyou de volta.

Em pensar que tudo isso aconteceu justamente por causa da Universidade...

A família Takashima nunca foi muito rica, então, a perspectiva de fazer uma faculdade era quase nula. Quase, porque o caçula, eu, acabou conseguindo uma bolsa de estudos integral na Universidade de Tóquio.

Todos ficaram orgulhosos de mim.

Porém, foi aí o início da minha desgraça – por assim dizer.

Por ser bolsista minhas notas sempre tinham que ser as maiores, para assim, justificar o não-pagamento da mensalidade. Bom, sempre fui um estudante dedicado, mas, ao entrar na Universidade, notei que essa minha dedicação toda nunca seria o suficiente.

Perdi inúmeras noites de sono lendo livros, fazendo resenhas e trabalhos. Isso tudo no início do semestre. E as coisas só pioraram quando foi chegando à época das provas finais.

Eu, praticamente, vivia de café, cigarros – podem me condenar! – e qualquer besteira que tivesse no armário da cozinha.

Tudo o que eu mais queria era descansar uma noite inteira, mas não podia. A cobrança era muito grande e eu me sentia sobre pressão! Pressão da família, da Universidade e dos próprios colegas!

Quando voltei para Kanagawa nas férias, meus pais nem me reconheceram. Eu estava magro, abatido, pálido e com olheiras profundas.

Mas nada superou a maldita insônia que me acometeu nas férias. Simplesmente não conseguia relaxar em casa, de tão preocupado com os futuros acontecimentos do próximo semestre. Definitivamente, não queria passar pelo mesmo aperto de antes.

E o segundo semestre veio. E tudo piorou.

Falta de concentração, irritabilidade, falta de energia e o cansaço eram evidentes. E acabaram refletindo em minhas médias, que despencaram assustadoramente.

Com isso, a bolsa de estudos estava ameaçada e o orgulho da família também.

Vendo o meu desandar, a Universidade me chamou para uma conversa franca. Eu expus todos meus sentimentos a psicóloga e ela, aparentemente, foi muito compreensiva. Do telefone da própria sala, ligou para a maldita NeoCell e marcou uma consulta para mim.

Por que a NeoCell? Ela tinha convênio com a Universidade.

E lá fui eu, no dia seguinte, para a primeira consulta.

No final das contas, o prognóstico era de insônia crônica. E, como parte do diagnóstico final, eu teria que fazer alguns testes na NeoCell. Como passar algumas noites sendo monitorado, por exemplo.

Foi aí que... Eu nunca mais saí de lá.

Simples assim.

Eles me drogavam a maior parte de tempo e não sabia o que estava para acontecer... Ou o porquê...

Observei, confuso, as luzes de Tóquio a minha frente. No final das contas, não cheguei à conclusão nenhuma!

Meu celular tocou estridente e me assustei, o nome de Ruki piscava no visor.

–– Aconteceu alguma coisa com o Aoi? – perguntei preocupado.

–– Aconteceu, Uruha. Ele acordou.


–– X ––

Fazia, mais ou menos, uma hora que havia voltado ao esconderijo. Cruzei os braços e encostei-me ao lado da porta, à espera de Ruki.

Eu estava muito ansioso: meu pé batia ritmado no chão e as mãos suavam. Estaria prestes a ver Yuu, e não tinha ensaiado nenhum discurso. Nem saberia se conseguiria falar diante dele...

A porta se abriu delicada, e o geneticista passou por ela.

–– Ele quer fala com você, Uruha – informou Ruki, tirando as luvas de látex com um estalo. – Mesmo eu recomendando que deveria descansar, ele insiste. Vai com calma, okay? Aoi acabou de acordar do coma.

O pequeno deixou a porta encostada, e fiquei juntando coragem para transpô-la.

–– Vai enrolar muito tempo aí fora?

A pergunta me pegou desprevenido. Não pelo fato ele estar falando alto assim... Mas pelo tom de voz.

Frio e inflexível.

Empurrei a porta devagar, dando de cara com o par de olhos negros. Eles me fitavam inquisitório, querendo me despir de totalmente, revelando tudo num simples olhar.

–– Explique-se – ordenou. Por um momento perdi-me observando-o.

Os cabelos negros ligeiramente maiores, a pele pálida como a neve, o corpo magro, as mãos enfaixadas, alguns hematomas visíveis na cútis alva... E os olhos que, apesar da postura austera, demonstravam sentimentos confusos.

Assim como eu.

–– Eu mandei se explicar, Uruha.

Yuu se remexeu na cama, achando uma posição mais confortável. As mãos se fecharam em punho, e supus que aquilo doía.

–– Não faça isso. Vai machucar – pedi, baixinho e me aproximando devagar.

–– Não é nada comparado aos ferimentos daqui – apontou para a cabeça – e daqui. – e a mesma mão escorregou até o coração.

Eu não estava preparado para aquilo.

–– Quero explicações. Você não acha que, uma vez na vida, merece me dá-las?

Fiquei quieto, lembrando-me de quantas vezes havia negado a Aoi o direito à verdade. Agora, mais do que nunca, ele precisava delas.

–– Eu estou com medo, Yuu – falei sem pensar, encarando o lado oposto.

–– Por que isso agora? Você não teve medo quando me arrebentou naquela casa.

Encarei, abismado, o rosto impassível de Aoi. Ele parecia disposto a me fazer pior do que já me sentia.

–– Sinto muito por isso. Eu me... Descontrolei.

–– Sim, eu percebi – comentou indiferente. – E como eu estava a sua frente, sentiu-se no direito de descontar em mim...

––Yuu!

–– Não se preocupe, pode ficar tranqüilo. Mesmo eu estando com raiva, não o culpo – por um instante, os olhos negros desviaram-se dos meus.

Um momento de fraqueza, Yuu?


–– Naquele dia, – iniciei hesitante – eu fiquei... Muito mal. Tanto que não percebi quando Kai me pegou. Tampouco para onde me levou. Ele despejou o mesmo discurso de sempre, mas não escutei. Fiquei inerte o tempo todo. Por isso... Quando ele me atacou... Eu não reagi.

Aoi arregalou os olhos, assustado. Encolhi-me diante dele, aquela havia sido a pior decisão da minha vida.

Ao erguer os olhos, o moreno fez um sinal para que me aproxima-se, e assim o fiz.

Chegando perto o suficiente da cama, ele agarrou a minha camisa, trazendo-me para bem perto dele. Aquele par de olhos negros me encararam com ódio e rancor.

–– Você é louco, por acaso?! Disse que me protegeria e, ao invés disso, me entregou de bandeja para a NeoCell! – gritou em alto e bom tom. Largando-me em seguida, atônito.

–– Eu... Pensei...

–– Pensou em nada, Uruha! Você é um maldito egoísta! Saí daqui! Não quero mais te ver! – esbravejou. As lágrimas logo se formaram em meus olhos, e começaram a cair.

Numa imagem semelhante ao que acontecia com Yuu.

–– Mas, Yuu... Eu te tirei da NeoCell... – sussurrei completamente desolado.

O moreno enxugou as lágrimas, e respondeu:

–– Você não fez isso por mim. Fez para livrar sua mente mesquinha de qualquer preocupação!

–– Não! Graças a um rastreador, Ruki me salvou e aí­– tentei explicar, mas fui interrompido.

–– Aí você notou a merda que tinha feito – completou amargo, virando a cabeça para o lado oposto.

Respirei fundo, tentando recuperar o fôlego e o controle. Estava tudo saindo pior do que eu imaginava. Talvez... Não, com certeza, as coisas jamais ficariam boas entre nós.

–– O idiota nessa história toda fui eu. Cada dia naquela prisão, eu lamentava a sua morte. Cheguei ao ponto de chorar por você, Uruha! Desejei não sair da NeoCell porque você não estaria do lado de fora para me receber!

Fiquei sem palavras na hora. Meu corpo não reagia a mais nada. Yuu, disposto a abdicar a tudo... Por mim?

E o que eu fiz? O torturei com aquelas imagens...

–– As lembranças... Foi você, não é?

Demorei consideravelmente a responder, entretanto, não era hora para hesitação. As coisas já estavam num ponto que não teria mais volta, agora...

–– Sim. Eu senti que você estava se conformando, Yuu. Pensei... Que se pudesse ver como eu lutei, você... Quisesse lutar também.

O moreno deu uma longa risada, triste e sem emoção.

–– Aquilo me matou mais do que qualquer coisa, Uruha.

Assisti Aoi se encolher e abraçar, com dificuldade, os joelhos. E uma vontade insana de aconchegá-lo em meus braços tomou conta de mim, mas eu sabia que qualquer toque meu seria rejeitado. Portanto, de pé, tentei catar os cacos do Uruha.

–– Ainda existem muitas perguntas a serem respondidas... Porém, quero permanecer na ignorância. Toda vez que a resposta é dada, eu só me machuco mais e mais – comentou deprimido.

Ele já havia dito algo semelhante antes e, na época, eu havia ignorado tal pedido. Agora as coisas estavam tão dolorosas que era melhor não saber do restante dos detalhes.

Não queria que Yuu sofresse mais do que necessário.

–– Entendo.

Dei-lhe as costas, disposto a sair do quarto. O moreno, hora nenhuma, mostrou a intenção de me impedir. E mesmo que o fizesse, não ficaria mais ali.

Abria porta, e dei uma última olhada em Aoi: ele permanecia na mesma posição, fitando o vazio a sua frente e com os olhos levemente avermelhados.

–– X ––

O céu estava escurecendo e uma chuva fina caia sobre Tóquio. Pessoas apressadas passavam e, frequentemente, acertavam o guarda-chuva em mim. Porém, eu permanecia inerte. Completamente fora da realidade.

As palavras de Yuu se repetiam como um mantra, me machucando mais do que qualquer ferimento físico que eu tivera.

O que ele disse era nada mais, nada menos, do que o esperado. Só que eu não estava preparado para a loucura que havia sido.

Suspirei, sentindo as lágrimas se misturarem as gotas de chuva que batiam em meu rosto, ensopavam minhas roupas e fazia-me tremer levemente de frio.

Continuei caminhando, até me deparar com um prédio. O letreiro grande dizia Datasign.


Um nó se fez em minha garganta ao ver as pessoas transitando pela calçada, saídas do prédio. Eu havia feito Yuu desistir de tudo isso, à força. Tudo bem que era para salvá-lo de um destino cruel na NeoCell, mas... Ele acabou indo parar lá, de qualquer forma. E foi marcado, do mesmo jeito que eu. Talvez até pior...

Balancei a cabeça, tentando afastar tais pensamentos ruins. Eu precisava compensar Yuu de alguma forma. Tentar, ao menos um pouco, consertar todas as minhas cagadas.

Já que, aparentemente, meus sentimentos não seriam suficientes para isso.

Notas finais
Momentos finais da fic! E, de novo, o Aoi continua sofrendo uahsuahusa Quando será que ele finalmente vai ter paz?
Espero que tenham gostado e até domingo que vem!