Sephiroth
7 Capítulo 6 - Nada é tão ruim que não possa piorar
Notas iniciais
Um agradecimento especial a Nana-chan, que me socorreu no momento em que eu mais precisava de uma beta. Obrigada Nana!
Boa Leitura!
Ps: desculpem os eventuais erros. Ah, o Nyah sempre acaba com minhas formatações, desculpem-me por isso também.
Tóquio, 02 de Fevereiro de 2008 – 12:34 a.m
Aoi’s Point of View
Eu não sabia mais o que pensar ou o que sentir. Minha mente permanecia nublada desde que terminei de ler os arquivos referentes à Uruha.
Todas as coisas ruins que eu sabia de Akira eram apenas fichinhas perto do que ele fez ao loiro, do que ele fez ao Kai e do que ele fará a todas as outras cobaias.
Aquilo era tão... Inescrupuloso! Por falta de palavra melhor.
As descrições eram tão ricas em detalhes, que eu me pegava formando as imagens na cabeça, durante a leitura. Tudo parecia um filme de terror com um roteiro bem grotesco, e completamente improvável.
Eu podia escutar os gritos vindos de Uruha ao ser trancado num quarto semelhante ao meu, só que envolto por uma camisa de força. Podia escutar suas lamúrias ao ter seu sangue retirado dia após dia, tendo em seu lugar, elementos conhecidos como “agentes mutagênicos” injetados em seu corpo, feitos especialmente para ele.
“... a cobaia estava muito alterada. Suas mãos batiam constantemente no tubo de gás mostarda, causando ferimentos, tamanha a força empregada. Os gritos eram ensurdecedores, mesmo que o acrílico reforçado com dobras de titânio abafasse o som, ainda eram perfeitamente audíveis.
Relatório n° 05 – Suzuki Akira”
Encolhi-me e abracei meus joelhos, perdido. Quantas vezes Uruha não havia se sentido assim? Tão sem rumo, e completamente incerto sobre o há de vir? A única certeza era que não seriam coisas boas, nunca mais seriam.
“Mal posso acreditar! Essa cobaia é perfeita! Mesmo exposto a tantos agentes agressivos, ela ainda continua viva! Os testes se intensificaram a partir de agora. Tenho que ter absoluta certeza de suas condições físicas e psicológicas, para poder prosseguir com segurança.
A única coisa que detesto nessa cobaia é o fato de ainda resistir. Ele praticamente vive à custa de tranqüilizantes fortíssimos! É impossível lidar com ele em sã consciência. Ontem mesmo tive outra baixa na equipe médica: a cobaia acordou durante o mapeamento cerebral que fazíamos, além de destruir todo o equipamento, matou a sangue-frio um de meus mais brilhantes geneticistas. Nem o vidro blindado foi o suficiente para pará-lo.
Disso tudo eu posso concluir que ele será a cobaia mais promissora de todas. Os instintos assassinos estão acentuados, da forma que queríamos, mas ainda não conseguimos direcionar sua raiva. É uma questão de tempo até isso ser concretizado.
Relatório n° 25 – Suzuki Akira”
Depois de ler tudo, foi que eu compreendi o porquê daquelas brigas. Uruha me mostrou exatamente como eu iria me sentir, todos os sentimentos de indignação, dor, aflição e angustia estavam presentes em um grau tão elevado, que até podia ouvi-los me corroendo por dentro.
Porém eu, ao contrário de Uruha, iria facilitar as coisas. Não iria lutar contra Akira, ou tentar me opor a qualquer coisa. Por dois motivos básicos: primeiro, eu não conseguiria fugir da NeoCell, segundo, se obtivesse êxito seria caçado até a morte, como Ruki.
Ruki... Ou melhor, Matsumoto Takanori. Outra revelação que me surpreendeu bastante.
Quem diria que aquele baixinho de rosto infantil foi um geneticista da equipe de Suzuki Akira?
Reli a mesma linha duas vezes para acreditar em tal fato. Takanori ficava responsável pelo controle hormonal de Uruha, e não teve participação direta nos testes e experimentos conduzidos.
Creio que o “pé atrás” que o loiro tinha com Ruki, era por causa da lealdade que ele demonstrava a Akira. Nos relatórios ele era sempre descrito como leal e fiel escudeiro da causa. Só que o geneticista mudou de lado, ao descobrir a extensão do projeto Super-Humanos, e sumiu alguns meses depois da grande fuga de Uruha.
Aliás, Uruha fez um estrago e tanto na NeoCell. O arquivo que li não descrevia com exatidão a extensão dos danos, mas dizia que o loiro havia destruído umas quatro alas inteiras e matado mais de uma centena de pessoas. Bem que ele tentou matar o Akira, só não deu certo.
Outra coisa bem intrigante era a história do Killer Chip, ou chip assassino, que cada cobaia tinha inserido em seu cérebro. Esse foi o modo projetado por Akira para manter as cobaias na linha. Caso alguma tentasse se rebelar, o chip era acionado e a cobaia morria instantaneamente. Queria muito saber como Uruha o desativou ao fugir da NeoCell.
Ah... Já ia me esquecendo da informação mais importante de todas...
Uruha, como eu previra, era um apelido dado por ele mesmo – pretensioso, não?
Dentro da NeoCell ele era tratado como cobaia, ao término dos experimentos principais, quando o sucesso já estava garantido, foi chamado de Primogênito. Mas antes disso tudo, ele era apenas Takashima Kouyou: um jovem estudante de Economia.
E agora ele não passava de um corpo sendo consumido pelos vermes... Era isso, ou qualquer outro fim macabro.
Meu estômago roncou alto e voltei à realidade. Tinha algum tempo que eu não comia, e estava ficando fraco fisicamente – já que psicologicamente, me encontrava completamente morto.
–– Sério, cada vez que eu o vejo está pior, Shiroyama! Encare os fatos de cabeça erguida, homem! – brincou Akira ao entrar no meu quarto com uma bandeja. Kai estava logo atrás, como um cão de guarda.
–– Por favor, me poupe da sua companhia desagradável e sua conversa fiada. – pedi com falsa cordialidade. O fato é que não conseguia ficar no mesmo aposento do que ele, agora mais do que nunca.
E Kai... Dava-me pena olhar para ele. Pena de ver o que o destino lhe reservou, e todos os sentimentos canalizados para proteger a pessoa errada.
–– Não, não poupo não. Vim trazer sua comida. – Akira depositou a bandeja que trazia na mesa-de-cabeceira. Havia um bentou fresquinho lá em cima. – Você tem que se alimentar.
Peguei o bentou com cuidado, repousando-o na cama. Murmurei um Itadakimasu quase inaudível, e com o auxílio dos hashis, comecei a comer.
–– Seus testes começam essa semana – avisou o loiro serenamente. Eu apenas afirmei com a cabeça, desinteressado. –– Só não torne tudo mais doloroso do que já está.
Akira se aproximou vagarosamente da cama, sentando-se na ponta. Talvez receoso com a minha reação. Com Kai ali, jamais avançaria contra ele.
–– Você leu sobre Uruha? – perguntou curioso.
–– Li.
–– E?
–– Você é um bastardo filho-da-puta. – Xinguei-o tranquilamente. Não poderia atacá-lo fisicamente, mas com palavras podia nee?
Sua risada ecoou límpida pelo ambiente, fazendo-me crer que meu insulto não o atingira.
–– Agora fala algo que eu não saiba?
Foi uma pergunta retórica, mas, admito que minha língua coçou ao ouvir. Eu sei algo que ele não sabe: a exata localização de Matsumoto Takanori, vulgo Ruki. Porém, larguei isso de mão.
–– Como você pode fazer isso?
–– Lá vem você com esse papo de novo! Vem cá, você não cansa de repetir as mesmas perguntas não? – o loiro cruzou os braços, indignado. Eu voltei à atenção para o bentou, colocando um bolinho de arroz na boca.
Okay, ele estava certo: eu insistia nas mesmas perguntas. Mas sabe por quê? Por mais que eu pensasse, pensasse e pensasse, não chegava a uma conclusão suficientemente plausível para essa desgraça que Akira faz as pessoas!
–– Imagino que ainda não leu tudo o que devia, certo?!
–– Minha cota de eventos macabros estourou por hoje
–– Quem mandou pesquisar sobre outras coisas, hum? O meu intuito era que conhecesse a NeoCell e, principalmente, o conteúdo que está dentro de você. – explicou, gesticulando do computador para mim.
Refleti suas palavras e cheguei a uma conclusão óbvia: eu estava obcecado por Uruha. Pessoas normais pesquisariam tudo a respeito do que possuí. O que não foi meu caso.
Ah, aquele loiro! Chegou na minha vida e bagunça tudo, até depois de morto!
Fiquei incerto de como deveria começar aquela conversa. Não poderia citar Ruki, já que ele não sabia que eu conhecia – e menos ainda onde este se localizava. Então, como faria isso?
–– Uruha me contou. O que tenho é um composto de natureza indefinida, que você chama de Sephiroth. – falei num fôlego só.
Encarei Reita, que cruzou as pernas e ficou olhando Kai. O moreno sorriu e balançou negativamente a cabeça.
–– Está mentindo, Shiroyama – apontou o moreno, calmo.
–– Não, não estou! – defendi um tanto nervoso. Depois me repreendi mentalmente, bom, agora ele sabe que eu estou mentindo mesmo!
–– Ah, não? Tem certeza?
Lancei um olhar descrente a Kai, logo depois cocei a nuca. Além de tudo, ele consegue notar mentiras no ar?
–– Então porque você está coçando a nuca, e evitando olhar em meus olhos? Kai é um mero expectador aqui. Eu sou a atração principal.
–– O projeto de pesquisa Sephiroth – iniciou Kai – começou dois anos antes da captura de Uruha. Não tinha como ele ter acesso a esses dados.
Akira se virou para mim: –– Foi o Matsumoto Takanori que lhe contou, certo? Todos sabem que Takanori está associado a Uruha.
Um leve tremor passou pelo meu corpo. E se ele tenta-se saber a localização de Ruki? Mesmo eu não tendo a intenção de falar, se Kai fosse o torturador... Aquelas garras iriam me fazer abrir a boca em cinco segundos!
–– Algo me faz crer – falou Akira – que ele sintetizará Sephiroth para Uruha.
–– Você está certo. Mas, saiba que jamais revelarei o local onde está escondido, nem sob tortura.
–– Eu tenho uma equipe no Cubo que está à caça dele. – Ele deu os ombros, conformado. – Kai integra o time. Ainda acha que seu amigo resistirá muito tempo?
Empalideci diante da situação. Uruha já havia perecido nas mãos daquele “demônio de covinhas”, e Ruki não merecia o mesmo destino – independente de ele ser quase tão estúpido quanto o loiro alto.
Ponderei uns instantes ao olhar para o moreno. Haviam se passado pouco mais de dez dias desde a morte de Uruha, nesse meio tempo Ruki poderia muito bem ter morrido. Mas, as palavras de Akira levaram-me a crer que não haviam encontrado o baixinho.
Ou, talvez estivesse blefando...
Não... Eu contaria vantagem, se fosse ele... Essa notícia me desestabilizaria bastante!
–– Por acaso, você sabe o que significa “composto de natureza indefinida”?
Dei um sobressalto ao escutar sua voz. Eu estava tão entretido com meus pensamentos, que esqueci da presença deles.
A pergunta me pegou de surpresa, já que não havia pensado nisso desde que escutara. Uruha ocupou todos os mínimos devaneios.
–– Não – respondi simplesmente.
–– Já deveria saber – Akira riu com gosto. – Deveria parar de pensar em Uruha, e focar em você de vez em quando. Até parece que era apaixonado por ele, Yuu!
Eu não respondi. Até porque suas palavras ficaram vagando por minha cabeça, durante um longo tempo.
De certa forma, o que ele disse fazia sentido.
Sempre deixei isso em segundo plano. Nunca parei e avaliei, de verdade, todos os sentimentos que nos envolvia.
No início eu achava estar apaixonado. O episódio na Torre de Tóquio serviu para que esse sentimento criasse raízes. E o fato da morte dele doer tanto, significa que Uruha foi sim muito importante para mim.
Eu chorei por ele! Chorei por sua ausência, e estava conformado em viver por aqui, pois o loiro não estaria lá fora me esperando.
Mesmo Uruha sendo um estúpido, mal-educado, sarcástico e chato – na maioria das vezes –, ainda se conservava um rapaz triste, carente e de belos sorrisos.
O que eu não daria para ouvir uma de suas grosserias agora mesmo?
Irônico, eu sei.
Meus olhos lacrimejaram, diante dessa análise tão remediada por mim. Eu estava apaixonado por ele, de verdade. Independente de ter divagado sobre isso anteriormente, estávamos tão ocupados tentando sobreviver, que não dei conta – seguramente – disso antes.
Eu amava Uruha. Com perturbações genéticas ou não.
Apenas queria ter tido tempo para amar Takashima Kouyou também.
E, visualizando Akira a minha frente, a minha frustração chegava a limites estelares. É difícil ver o homem que destroçou a vida de Uruha – e a minha – ficar impune desse jeito. Eu não podia fazer nada.
–– Acertei de novo? Oh estou bom nisso hein! – gabou-se, sorrindo. – Seus olhinhos até se encheram d’água!
–– Vamos, diga tudo o que pretende – mudei de assunto. Não queria falar mais nisso. Desejava que ele fosse embora, e eu poder remoer meus sentimentos e chorar livremente.
Suzuki Akira me explicou tudo. Todos os detalhes das operações realizadas no Cubo, como o processo de transformação do Uruha aconteceu e como eu vim a desenvolver Sephiroth.
–– x ––
Estado mental: exausto.
Não agüentava mais aquela tortura psicológica. Nenhum procedimento havia sido realizado, e eu já queria morrer da maneira mais rápida e indolor possível.
Até pedi para Akira prescrever um sedativo, mas ele se recusou.
Como eu disse, tortura psicológica.
Agora tudo estava límpido, como água.
Quase tudo, os motivos para aquilo ser feito ainda faziam-me pensar.
O geneticista me explicou como se deu o processo de criação dos Super-Humanos: segundo ele, a NeoCell conduzia – com sucesso – o projeto Genoma Humano, que é um mapeamento de todos os genes existentes no DNA e no que eles influenciam. Mas isso não estava sendo o suficiente.
A conclusão do projeto Genoma foi questão de tempo. Agora, a NeoCell tinha uma arma que a maioria dos países do mundo se matariam para ter. Não sei bem como conseguiram essa proeza – e mantê-la devidamente escondida –, mas não demorou muito até que as justificativas de uso desses dados mudassem.
A uma primeira vista, o mapeamento do Genoma seria útil para o tratamento e prevenção de doenças nas populações, o que é uma causa muito nobre.
Mas os objetivos da NeoCell se distanciaram bastante disso.
Não sei se foi por ganância, poder ou qualquer outra coisa que motivou a mudança dos rumos do projeto, e em um dado momento acabou surgindo o projeto Super-Humanos.
Durante o desenvolvimento desse projeto, Akira – que era filho do sócio majoritário da NeoCell – tomou frente, tornou-o viável e com grande perspectiva de sucesso.
Após o loiro de faixa assumir o posto de chefão da empresa, tudo tomou uma forma mais concreta, com o início da seleção de cobaias.
De acordo com ele, não havia qualquer critério de seleção. Qualquer paciente que aparecia, poderia ser escolhido e acabar virando prisioneiro daquele lugar.
Foi o que aconteceu com Uruha.
Em um dado momento ele veio se tratar e teve a infelicidade de ser selecionado.
E, finalmente, depois de tantos fracassos, o projeto dava certo.
Takashima Kouyou era um bom espécime, mesmo resistindo bravamente a todos os testes. Causava o maior estardalhaço a cada procedimento, e até matava os médicos.
No fim, Kouyou deu lugar ao Primogênito.
Akira deixou bem claro que Uruha sempre se auto-motivou a fugir. E ele dizia descaradamente, a todos que estivessem ou não, dispostos a ouvir.
Quando sua fuga realmente se concretizou, foi um inferno. Todos temiam que ele pudesse vir a público falar sobre as atrocidades cometidas no interior da grande NeoCell. O que não aconteceu. Uruha, simplesmente, sumiu do radar. O KillerChip havia sido desativado, esmagando todas as chances de encontrá-lo.
Então, meses depois, Matsumoto Takanori sumia da NeoCell. Foi como se o pequeno geneticista nunca tivesse existido. Todos os arquivos referentes a ele e sua pesquisa foram destruídos.
Todo e qualquer rastro que ligasse Ruki a NeoCell havia se perdido.
Uma força-tarefa foi organizada, com o intuito de achá-los, mas eles sempre “escorregavam” pelos dedos de Akira. Até a chegada de Kai.
Não houve muitos detalhes sobre o surgimento do moreno. Eu também não te atentei a eles. Só sei que ele veio como Uruha. O segundo a ter sucesso nas mutações.
Com ele integrando a equipe, as investigações avançavam mais rapidamente.
É nessa hora que uma importante peça entrou em cena: Shiroyama Yuu.
Sim, eu mesmo!
Eles descobriram que em meu sangue encontrava-se Sephiroth, um composto de natureza, dita indefinida, por não se parecer com nenhum dos outros compostos sintetizados pelo organismo. Akira me disse que, por acaso – como em todas as outras mutações –, um gene começou a desenvolver esse tipo de composto fantástico.
Finalmente entendi a função de Sephiroth nesse teatro de horrores: ele age como um isolante, não deixando que as mutações – desencadeadas pelos “agentes mutagênicos” nas cobaias – saíssem do controle.
Por exemplo, Akira deseja que a cobaia tenha mais resistência física. Então se consulta o mapa do genoma humano e é visto a posição do gene que propicia isso. Depois são introduzidos os agentes mutagênicos, com a função de “desenvolver” esse gene específico, o que é chamado de mutação pontual. Como isso é muito difícil de acontecer sem que os agentes mutagênicos afetem os demais genes, Sephiroth é usado para “encapsular” o gene, conseqüentemente, não deixando os demais genes serem afetados. Sucesso total, já que ele tem o controle mutação, fazendo com que ela sempre seja para melhor.
Complexo, não?!
Eu me assustei bastante com isso quando escutei.
É como brincar de marionete, manipulando tudo a seu bel-prazer!
E pensar que, nesse exato momento, estão trabalhando para separar Sephiroth do resto do meu sangue e dar início a produção de mais Super-Humanos...
Porém, algo me deixou alegre... Sephiroth não servia só para o mal... Akira também falou que ele poderia reverter significativamente às mutações...
Como, exatamente, eu não sei. Nem o próprio geneticista sabia.
É uma notícia boa, não?!
Encarei o teto, desolado. Foi tanta informação para um dia... Sentia-me tão cansado... Precisava dormir de qualquer forma, mas meu cérebro se recusava a desligar.
As explicações do loiro-de-faixa iam e vinham na minha cabeça. Como se me lembrasse constantemente de todos os fatos macabros que aconteciam por ali.
Eu sabia de tudo agora. E seria conivente com isso, mesmo a contragosto.
Meu sangue amaldiçoado traria mais sofrimento aos infelizes selecionados... Eu seria o responsável por sua destruição... Eu criaria mais um tanto de Uruha's e Kai's...
Culpava-me de algo que sequer era culpado.
Depois de tudo, só uma pergunta pairava no ar...
Por que o acaso me escolheu?
–– X ––
Joguei água fria no rosto, pela quinta vez consecutiva. Alisei os cabelos e fiquei encarando a figura magra e pálida exibida pelo espelho.
Eu não me encontrava muito bem.
O fato era que eu não conseguia dormir. As olheiras estavam ficando cada vez mais evidentes.
Também pudera, toda vez que eu fechava os olhos, as palavras ditas por Akira ganhavam vida. As cenas que me assombravam eram tão realistas que eu distinguia com clareza o ambiente, as pessoas, e principalmente, Uruha e todos os sentimentos que ele sentia na hora.
Como isso funcionava, permanecia um mistério para mim... Não pareciam meras representações construídas pelo meu cérebro. Era tudo tão intenso... Tão desesperador...
Assemelhava-se mais com uma lembrança. Daquelas que, de tão assustadoras que foram, ficam gravadas a ferro e a fogo na cabeça da pessoa.
Bom, mas essa idéia seria absurda! Como eu teria lembranças associadas à Uruha? Eu nem sabia da existência dele na época! Nem estava presente!
A resposta menos estranha seria que essa é outra habilidade de Kai. O que descartaria logo, já que o moreno não era cobaia na época.
Akira... Bem... Acho que não.
Encostei-me ao azulejo frio e escorreguei até ficar sentado, abracei meus joelhos e fechei os olhos.
–– Por favor! Não façam isso comigo! Eu imploro! Me soltem! – os gritos de Takashima Kouyou eram aterrorizantes.
Os médicos prendiam o loiro numa cadeira de metal reforçado, que ficava dentro de uma câmara metálica. Pela janela, podia ver Suzuki Akira parado, com o dedo no botão que iniciaria a sua tortura.
Kouyou respirava forte e balançava a cabeça freneticamente. Trapos vestiam seu corpo magro, que tremia violentamente, e seus olhos castanhos transbordavam lágrimas.
Eu estava, como sempre, ao seu lado. Observando o desenrolar grotesco da situação.
Aos poucos, os geneticistas deixavam à sala – ao som dos pedidos de socorro – e lacravam a imensa porta de metal. Do outro lado do vidro, alguns se acomodavam nas cadeiras e davam os primeiros comandos.
Olhei para Kouyou, e dessa vez não parecia mais o um animalzinho acuado. Ele parecia muito mais com o Uruha que eu conheci. Os olhos frios, a expressão calma e, com a voz carregada de ironia, ditou:
–– Vocês vão me pagar! Estão me ouvindo?! Todos vocês vão sofrer as conseqüências disso! Eu nunca, ouviram bem, NUNCA vou me esquecer! E vou caçar vocês todos! Até no inferno se necessário! – gritou a plenos pulmões.
Arrepiei-me diante das ameaças. Eu teria ficado com medo delas, mas os médicos não me pareceram nem um pouco afetados. Talvez considerassem que jamais Kouyou sairia dali.
Aos poucos, o vidro que nos separava dos geneticistas foi desaparecendo, dando lugar a uma placa de aço. Uruha ainda encarava o metal com ares homicidas.
–– Eu... Vou fugir, um dia – falou baixinho, remexendo-se na cadeira.
Uma sirene soou alta, anunciando que dali para frente, os níveis de radiação Gama aumentariam e que, agora, a sala era uma área de risco. Uruha franziu o cenho, não entendendo o que aquelas palavras significavam.
Aquele era um dos testes. A exposição a Raios Gama, que são altamente mutagênicos.
O loiro, depois de ter-se encerrado o contato visual com os médicos, estava menos agitado. Só a sua respiração que ainda estava alterada.
–– Seja lá o que estão fazendo, eu só espero que acabe logo... Dói, sabe... – ele se virou para onde eu estava de pé, parecia que conversava comigo!
Seus olhos se fecharam, cansados.
–– Faça... Faça essa dor parar...
Levantei a cabeça assustado. Havia acontecido de novo.
Passei a mão pelo rosto, me deparando com umas poucas lágrimas que escorriam. Isso precisava parar, minha sanidade dependia disso!
Não agüentava mais ter pensamentos como esse. Era doloroso saber! Por que minha mente tinha que pregar peças tão realistas?
Ergui-me e fiquei encarando a expressão cansada no espelho... Quando essa tortura terá fim?
Como resposta a indagação, o espelho a minha frente se rachou. Bem no meio do meu rosto. Seguido a isso, um pequeno tremor de terra, sacudiu a lâmpada do banheiro.
Fiquei aturdido, observando o rosto desfigurado e segurando-me na pia. O que, diabos, estaria acontecendo?
O tremor de terra não demorou a passar, mas logo em seguida teve outro, mais forte. Seguido de outro e mais outro.
As lâmpadas balançavam e o espelho despedaçou-se de vez, por pouco não me atingindo. Assustado, corri de volta ao quarto, e comecei a esmurrar a porta.
Outro abalo foi sentido, e depois o que seria o barulho de uma explosão. Dessa vez a estrutura do prédio foi sacudida de vez. Olhei para a porta intacta a minha frente, ela deveria ser aberta por um mecanismo de ativação... Ou do Cubo, ou presente do lado de fora...
Vasculhei o quarto com os olhos, em busca de algo que pudesse me ajudar... Até vê-lo, repousado ma mesa-de-cabeceira.
O computador.
Rapidamente, acessei o banco de dados da NeoCell para saber como funcionava as trancas de segurança.
Como eu havia dito, as ordens deviam partir do Cubo.
Mordi o lábio inferior, pensando nas possibilidades. E cheguei a uma conclusão: os softwares foram desenvolvidos por mim, eu facilmente poderia invadir o servidor principal e desativar a tranca da minha cela!
Bingo!
Entrei com o Executar e digitei uns comandos. A tela preta se abriu, e comecei a tentativa de hackear o servidor principal.
Modéstia a parte eu era bom nisso. Muito bom. Os minutos se arrastavam, o suor escorria pelo meu rosto enquanto sentia outro abalo.
Porém, esse foi seguido de gritos.
Olhei desesperado para tela do computador que exibia 80% Concluído.
–– Droga! Mais rápido! Mais rápido! – resmunguei impaciente. E como se o computador tivesse escutado, logo foi tudo concluído.
Entrar no Cubo era difícil, eu mesmo coloquei muitas barreiras digitais e eles haviam incrementado bastante. Porém, com dificuldade, acessei.
Antes de destrancar a porta, fiz o download da planta do prédio e me localizei. Pedi que o GPS traçasse uma rota de fuga, enquanto eu destrancava a porta. Ouvi um click, e logo o cheiro de queimado entrava no quarto.
Carregando o computador num braço, avancei para fora, dando de cara com o corredor cheio de pessoas correndo e gritando.
Não distingui o que falavam, pois o computador emitiu um bip, anunciando que a rota de fuga havia sido traçada. Olhei para a tela, e comecei a correr.
Notas finais
Espero que tenham gostado e deixem um review se puderam!
A.L
Fale com o autor