Sephiroth
3 Capítulo 2 - Sensações De Um Seqüestro Diferente
Notas iniciais
Betado por Becca e Giles.
Boa Leitura!
Tóquio, 18 de Janeiro de 2008 – 03:00 a.m
Aoi Point of View
–– Acorda – ordenou uma voz grossa e rouca, seguido de um chacoalho no meu corpo.
A principio pensei que fosse um sonho, mas ao abrir devagar os olhos, e ver a imagem embaçada de uma pessoa desconhecida, fiquei completamente sem ação.
–– Anda logo! Levanta essa bunda magra daí e vamos embora! – disse o homem em tom imperativo.
Uma figura tão intimidadora fez-me arregalar os olhos e encolher-me na cama; sua voz irritada fomentou-me o desespero.
–– É-é um assalto? Pode levar o que quiser! Menos a minha Lamborghini!
O homem loiro – só tem me aparecido loiros estranhos! – cruzou os braços na altura do peito e rodou os olhos impaciente.
–– Não sou um assaltante e pouco me interessa a sua Lamborghini. Mas encare isso como um seqüestro, caso te faça mais feliz.
Respirei fundo. Seqüestro? Caramba! Ele não parecia um seqüestrador... Era bonito demais para ser um seqüestrador...
Os fios loiro-escuros caiam repicados até os ombros, emoldurando o rosto com traços andrógenos e suaves. Os lábios eram rosados e cheinhos, os olhos castanhos brilhavam à luz da lua que entrava pela janela aberta. E a sua altura – pouco mais alto do que eu – lhe conferia um ar altivo e imponente.
Fiquei intrigado por perceber tantos detalhes dele, mesmo que uma penumbra permeasse o quarto.
–– Vai se levantar daí, ou quer ajuda? – devo acrescentar que o tom ríspido não condizia em nada com seu aspecto delicado?
–– O que vai fazer comigo?
Ele estreitou os olhos e, pela sua expressão impaciente, pensei que me bateria. Mas, tudo o que fez foi sentar-se ao meu lado, capturando meus olhos negros com os seus castanhos.
–– Eu salvo a sua vida. Você salva a minha e ficamos quites. Sei que está cheio de perguntas, e irei responder à todas assim que chegarmos a um lugar seguro. Entendeu?
Anuí positivamente, afirmando que eu havia assimilado suas palavras. Meu coração batia com força e minhas mãos tremiam. Estava com medo de sair com aquele loiro bonito e desconhecido.
Minha intuição decidiu por mim, apesar de eu comumente ignorá-la. E, agora, dizia que eu poderia confiar no meu raptor.
–– Preciso levar bagagem?
Ele sorriu ante a pergunta. Foi o sorriso mais lindo que eu já havia visto na vida.
E o mais indescritível também.
–– Arrumei uma mochila para poupar tempo. Só se vista adequadamente.
Olhei surpreso para a mochila em cima da poltrona. Isso já era de caso pensado?
Okay... Tem algo muito estranho por aqui...
Tentei ignorar e fui me trocar, seguido atentamente pelo olhar crítico do loiro.
Retirei a calça de moletom e vesti uma jeans. Substituí a regata por uma camisa de mangas longas com capuz e calcei os tênis.
Assim que encarei para o loiro, ele riu baixinho.
–– Retiro o que eu disse.
Pisquei duas vezes, sem entender e ele prosseguiu:
–– Sobre a sua bunda. Ela não é tão magra quanto eu supunha.
Ah! Fala sério, o cara ‘tava olhando a minha bunda? Apenas me troquei perto dele por causa da gravidade da situação.
–– Será que dá para deixar a minha bunda de lado e sairmos daqui? – pedi, um pouco corado. – Ficou me apressando esse tempo todo, mas é você quem está atrasando tudo.
Sim, eu corei. Sou tímido, e daí?
Ele riu alto e estendeu-me a mochila.
–– Põe nas costa e siga-me.
Saímos do meu quarto em direção a sala e, só aí, reparei nas roupas dele.
Todas as peças eram pretas. Jeans preto, camiseta preta, jaqueta preta e coturnos pretos.
Pensei que era eu o fissurado em roupas escuras...
–– Roubou as roupas do Neo? Cuidado, ele pode vir te pegar – provoquei ao pararmos de frente para porta.
Ele não se abalou com a provocação e rebateu: –– Isso seria ótimo. Ele faz meu tipo.
Okay, primeira constatação.
Ele era gay. E não fazia questão nenhuma de esconder isso.
–– Onde estão as chaves?
Pela segunda vez eu o fitei sem entender.
–– Cadê as chaves da porta? – repetiu devagar, como se falasse a uma criança pequena.
–– Chaves? Você arrombou a porta! – acusei. O loiro colocou uma mão na cintura e a outra apontou para mim.
–– Eu não arrombei porra nenhuma!
–– Se você não arrombou, então como entrou aqui? – perguntei desconfiado. – E para de apontar esse dedo para mim.
Abaixei bruscamente o braço dele e o silêncio reinou no recinto.
Os olhos castanhos fitavam-me neutros. Ele não iria responder, tinha certeza, e, no momento que isso virou uma verdade, outra questão surgiu na minha mente.
Por que não me dizer?
Não é como se eu fosse contar para todo mundo, mesmo porque estava sendo seqüestrado.
Pensando bem, aquilo não era um seqüestro normal. Quer dizer, em momento algum ele usou de violência comigo e até estava sendo educado – a grosso modo, é claro.
E porque as possibilidades “gritar” e “fugir” sequer foram levantadas pelo meu cérebro?
Acho que é por que... Sei lá, bem no fundo do meu ser eu sabia que ele não iria me fazer mal, que salvaria minha vida de alguma coisa ou alguém.
Depois dessa, eu me pergunto: quem iria querer acabar comigo?
Eu sempre fui tão gentil e educado com todo mundo, independente do status, cor, raça ou religião. Será que, por eu ser uma pessoa boa demais, acabei criando inimigos?
–– Vamos logo, estamos ficando sem tempo! – resmungou o loiro impaciente, já do lado de fora do apartamento.
–– Qual é o seu nome?
O loiro rodou os olhos, raivoso. O quê?! Eu tinha o direito de saber o nome dele! Não que seqüestradores dissessem seus nomes às vitimas, mas, como disse, “isso não era um seqüestro normal”.
–– Depois você pergunta qualquer coisa sobre mim, até se eu sou o ativo ou o passivo da relação, okay? A gente...
Ele não concluiu a frase, logo abaixou a cabeça e fitou algum ponto no chão com ligeiro interesse. Parecia estar... Lendo ou sentindo alguma coisa...
Assim que levantou os olhos, vi uma expressão de fúria e eu sabia.
Droga. Estava ferrado!
–– Viu? Isso tudo é culpa sua! Se não ficasse aí, cheio de perguntinhas a gente teria dado o fora da maneira mais simples – esbravejou.
Fui agarrado com força pelo cotovelo, largando a porta do apartamento aberta e sendo conduzido até a escada de incêndio. Pensei que sairíamos pela escada de incêndio na lateral do prédio, ao invés de ir pela que descia pelo interior.
Eu ia abrir a boca para argumentar, mas sua expressão era tão assustadora que desisti imediatamente. Por isso nem lutei contra o aperto no cotovelo, deixando-me ser conduzido.
Senti-me mal por ter despertado a raiva naquele homem... Não foi minha intenção, eu só queria saber o nome dele... Mas, convenhamos: essa era a primeira coisa que devia ter sido feita!
Seu rosto parecia muito contrariado, e pensei:
Ele é ativo ou passivo?
Ri pelo pensamento idiota. Tudo isso porque estamos em uma situação tensa...
Se eu tivesse o visto de longe eu diria que ele era... Passivo. Porém, esse jeito estressado e mandão sugere um... Ativo.
É ativo seria meu veredicto final.
–– O que foi agora? Tem alguma coisa no meu rosto? – perguntou daquela forma “carinhosa”.
O seu tom “delicado” me fez despertar para uma nova realidade: Porque estávamos subindo as escadas ao invés de descê-las?
Sabia que ele ia me matar, mas...
–– Por que estamos subindo?
Por incrível que pareça ele foi até calmo em responder:
–– Eles já estão chegando, não ia dar tempo de nós sairmos tranqüilos pela porta da frente.
–– Quem são “eles”?
Não houve resposta, sua atenção voltou-se à porta que dava ao terraço. No girar da maçaneta, percebeu que a porta de metal estava trancada.
Desci um degrau, atônito.
Estávamos sem saída!
–– Ótimo! – exclamei exasperado e passando as mãos pelos cabelos. – Como se não bastasse um bando de pessoas que “supostamente” querem a minha cabeça, a porta que deveria... Ah, meu Deus!
Encolhi-me sob o estrondo que a porta havia feito ao ser arrancada pelas dobradiças, por um chute do loiro a la Dean Winchester.
Fiquei alternando os olhares entre a porta jogada no chão e o homem parado ao lado dela, sem acreditar.
O cara tinha arrancado uma porta de metal com... Um chute.
Okay...
–– Ca-ra-lho! – foi à única coisa que eu consegui dizer. O loiro riu da minha reação.
–– Eu malho.
Ainda fiquei uns segundos olhando-o incrédulo. Até parece que malhação deixaria uma pessoa capaz de arrancar portas de metal com um chute!
Posso ser idiota, mas nem tanto. E minha intuição diz que aí tem coisa.
O vento gelado acordou-me dos devaneios. Abracei-me na tentativa de me aquecer. De longe, vi o loiro debruçar-se sobre a proteção e espiando a rua embaixo.
Andei devagar até ele, sem atrever meus olhos em direção à rua. Não que eu tivesse medo de altura, era só um receio de ver.
–– Mais tardar, em cinco minutos, estarão aqui – comentou sem tirar os olhos dos carros na avenida movimentada.
–– O que nós vamos fazer?
O loiro olhou para o prédio ao lado. Parecendo perdido em pensamentos; com certeza avaliava as possibilidades de sair do terraço. Ele já devia ter um plano, caso contrário não teria me arrastado – literalmente – até lá.
–– Bom, o meu plano inicial – começou o loiro, ainda sem encarar-me – não era para terminar desse jeito. Tudo o que você tem que fazer é me obedecer sem questionar, promete?
Seu rosto voltou-se para mim e busquei os olhos amendoados. Neles, vi impresso uma coragem e determinação sem tamanho. Ele ia nos tirar dali e, tudo o que eu tinha que fazer era ficar de bico calado.
–– Sim, prometo – ele abriu um novo sorriso, enquanto a brisa gélida balançava seus fios dourados.
Lindo. Definitivamente.
–– Então, suba nas minhas costas.
Arqueei a sobrancelha ante aquele pedido. Ele ia fugir comigo de cavalinho? Por muito pouco não verbalizei esse pensamento, já que na hora lembrei-me da promessa.
O loiro se abaixou um pouquinho e eu pulei em suas costas, cruzando as pernas na cintura esguia e os braços em seu pescoço. Ele riu baixo e apertou mais meus braços, fazendo com eu deitasse a cabeça em seu ombro direito, a seguir passou as mãos pelos joelhos, fixando-as ali.
Fiquei um pouco... Constrangido.
Na posição que estava qualquer um ficaria. O meu corpo estava bem colado ao seu – que transmitia um calor aconchegante –, a respiração batendo em sua nuca – senti até um arrepio percorrer o corpo magro dá primeira vez que isso aconteceu – e juntando a isso, uma vontade avassaladora de tocar a pele – que cheirava a cerejas – do pescoço com os lábios.
–– Controla esse coração. Do contrário vai enfartar – ele virou um pouco a cabeça e viu o exato momento que corei. Acho que foi isso que o fez sorrir, mostrando – parcialmente – os dentes pequenos que eu não havia reparado.
Estávamos tão perto um do outro. As respirações se misturavam e meu nariz roçava – sem intenção – bem devagar em sua bochecha fria. Fitei os lábios cheinhos e rosados, tinham um aspecto doce e macio.
–– Preciso que feche os olhos. Será melhor para você – o sussurro tirou-me do torpor causado por seus lábios. Prontamente atendi e voltei a acomodar minha cabeça em sua nuca – cuja pele exalava um cheiro tão embriagante que, com certeza, ficaria marcado pelo resto da minha vida.
De olhos fechados, ele apertou meus joelhos e subiu na mureta de proteção. Meu coração começou a bater descontrolado. O que ele pretendia? Se jogar do décimo andar?
Um vento fraco passou por nós, bagunçando nossos cabelos, e aquilo foi uma espécie de sinal, pois o loiro flexionou as pernas – tomando impulso talvez – e pulou.
Não contive o grito de medo que escapou pela minha garganta à medida que o vento ficava mais forte, e a sensação da gravidade nos puxando para baixo aumentava. Pensei que estávamos voando, mas segundos depois senti os pés do loiro pousar numa superfície e logo deslizarem, correndo por ela.
–– O que...? – balbuciei tentando fazer a minha voz ser ouvida, já que o vento assoviava de tal modo deixando-me surdo. Movíamos numa velocidade sobre-humana!
–– Mais tarde. Agora, vai ter que se apertar mais contra mim, vamos passar para uma fachada.
Fiquei pensando no que, exatamente, aquela frase significava. Mesmo não chegando a uma conclusão, fiz o que ele pediu.
Sinceramente... Preferia nunca ter uma experiência daquela na vida.
Ele novamente tomou um impulso – eu apertei os olhos mais fortemente – e saltou até o prédio a seguir. Só que... Ele voltou a correr, mas notei o quanto a gravidade fazia força, puxando-me de volta à terra. Não entendi o que estava acontecendo e arrisquei-me a abrir os olhos.
Vi direitinho os vidros das janelas passarem por nós como um vulto. Os pés deles se moviam rapidamente, enquanto corríamos na vertical! Arfei forte, e me segurei mais, nem ligando para o fato de que eu devia estar machucando o loiro.
Aquilo era a maior doideira que já tinha visto. Ele corria à noventa graus na fachada de um prédio. E tinha pessoas lá!
Não me arrisquei a olhar para cima ou para baixo. Só queria que a pressão parasse de me fazer mal. Minha cabeça doía e a respiração estava pesada.
Se eu perdesse a consciência iria morrer, pois me soltaria do loiro.
–– Não demora. Eu vou desmaiar!
No segundo seguinte a minha súplica, o loiro diminuiu a velocidade, mas não parou de correr.
–– Respire fundo e segure-se. Já estamos chegando.
Outro pulo e, novamente aquela sensação horrível de estar sendo comprimido contra algo tomou conta de mim. Minha cabeça latejava muito – mais do que em qualquer ressaca que eu já tivesse tido – e o ar não parecia querer vir até os pulmões. Meu estômago estava péssimo, com certeza vomitaria até as tripas quando parássemos.
Resolvi desviar os pensamentos da dor que aquele seqüestro inusitado estava afligindo e, concentrei-me na mais nova dúvida:
O que é esse cara?
Humano é que não é.
Ele entrou na minha casa sem arrombar a porta – pode até ser um argumento fraco, mas visto que eu não tenho chaves reserva esse é um item digno da lista de bizarrices –, arrancou uma porta de aço com um chute – e que chute! –, pula mais alto do que qualquer um, corre a uma velocidade acima da média e, como se não bastasse, anda pelas paredes.
Ele anda pelas paredes! Tipo o Príncipe da Pérsia!
Aonde fui estacionar a minha Lamborghini?
Okay, o ditado não é assim... Melhor Lamborghini do que burro nee...
Finalmente a corrida do loiro cessou, e tornou-se um mero caminhar, até parar.
–– Ei, você ‘tá legal?
Não consegui responder. Mesmo de olhos fechados, eu sentia tudo rodando... Rodando...
Ele tirou-me de suas costas e sentou-me no chão, e apoiou-me na parede.
–– A primeira vez é sempre ruim – pelo tom de voz, acho que ele tentava me consolar.
Argh! Nem imagino o meu estado deplorável.
Levantei as mãos na tentativa de massagear as têmporas suadas, mas só um simples mover de cabeça foi o suficiente para meu cérebro pulsar de dor e o estômago dar uma cambalhota.
–– Você quer vomitar? – perguntou bem baixinho, senti seus dedos percorrerem meu rosto para tirar uma mecha de cabelo úmida da testa.
–– S-sim... – confesso que o tom de voz sofrido surpreendeu até a mim.
–– Okay. Agüenta um pouquinho – tapei a boca imediatamente temendo que saísse tudo.
Fui posto de joelhos – pelo que entendi entre as pernas do loiro, que estava de pé – um dos braços rodeou-me os ombros e o outro segurou meus cabelos para trás.
Tirei a mão da boca e apoiei ambas no braço dele, como se isso pudesse fazer o ambiente parar de girar.
Um carinho discreto foi feito em meu ombro, e aquilo me comoveu.
Ele estava sendo gentil comigo.
–– A propósito, meu nome é Uruha.
Não tive tempo para divagar sobre isso, logo uma queimação bem característica subiu pelo estômago, passando pelo esôfago e, finalmente, encontrando o chão daquele lugar desconhecido.
– x –
Uruha era o nome dele.
Tudo bem que eu não acreditei que esse era realmente o nome dele. Está mais para um apelido.
Daqueles que caem como uma luva.
Enfim, depois daquela ceninha protagonizada por mim, caminhávamos tranquilamente por uma rua quase deserta. Eu estava agarrado ao braço de Uruha – ele não parecia se incomodar com isso –, já que ainda não me sentia bem. O estômago dava umas reviravoltas vez ou outra, mas nada preocupante.
Desde que saímos daquele beco não trocamos uma palavra sequer. Havia uma espécie de consenso mudo entre nós, de que aquela não era a melhor hora para palavras. Por isso, usei esse momento para pensar...
Minha vida estava uma bagunça.
E a ida a NeoCell parecia um passado bem distante.
Como que em questão de minutos as coisas haviam chegado a esse ponto?
O que diabo estava acontecendo? Quem estava atrás de mim? E quem era Uruha, de verdade?
E eu tinha o estranho pressentimento de que aquilo era só a ponta do ice berg; O loiro era só o inicio dessa loucura toda.
–– Você precisa comer – pronunciou depois de um tempo em silêncio.
–– Não tenho dinheiro – essa foi a frase mais contraditória que já havia dito em toda a minha vida. Dinheiro eu tinha... No banco.
–– Relaxa, tenho uns trocados – nós paramos subitamente. – Coloque o capuz. Não sei se a notícia do seqüestro já se espalhou, então use o capuz e evite encarar as pessoas por muito tempo – Uruha se desvencilhou de mim e segurou-me pelos ombros, olhando-me nos olhos. – Você não pode ser reconhecido. Em hipótese alguma.
A seriedade de suas palavras me surpreendeu. Portanto logo atendi seu desejo colocando o capuz sobre a cabeça, como ele.
Avistamos uma loja de conveniência a alguns metros e entramos nela. Havia uma garota no balcão, olhando receosa para nós. Também pudera: Uruha parecia um criminoso, com aqueles ombros retraídos, corpo tencionado, vestido só com peças pretas e a cabeça coberta por um capuz que, de alguma forma, parecia realçar os olhos ferinos.
Fiquei sentado ao lado dos mangás, revistas e jornais, vendo Uruha se embrenhar pelas estantes atrás de comida.
Tentei tranqüilizar a jovem do caixa com um sorriso. Acho que funcionou, pois ela parou de segurar o balcão com força.
Cinco minutos foram necessários para que Uruha voltasse e pagasse, para então sairmos dali.
Eu tomava o isotônico – tudo que o dinheiro dele podia comprar – em pequenos goles, imaginando aonde o loiro pretendia me levar. Com certeza era para o tal lugar seguro. Só me perguntava o quanto mais teríamos que andar, pois o frio começava a incomodar-me, contudo, Uruha não parecia sentir a temperatura diminuindo.
No fim da rua vi um prédio abandonado. Não era o tipo de lugar que eu entraria para me esconder, mas foi justamente ali que paramos.
–– A gente vai entrar aí? – perguntei ansioso. A ansiedade não era para entrar ali... Era para sair!
–– ‘Tá com medo? – zombou, o loiro então abriu o portão enferrujado e fez sinal para que eu passasse. – Não se preocupe donzela, não vou deixar que nada aconteça a você – disse com sarcasmo.
Rodei os olhos ante o sorriso de escárnio que ele exibia. Uruha até podia ser legal, mas agia como perfeito idiota na maioria das vezes.
Adentrei pelo portão e dei uma checada no lugar: não havia fonte nenhuma de luz na construção. O único som, que quebrava o silêncio opressor, eram os nossos passos sobre o mato seco.
O prédio em si estava completamente depredado – pelo de dava para enxergar. Janelas arrancadas, vidros quebrados, paredes pichadas e escombros espalhados pelo chão. Só as plantas tinham vida naquele lugar, visto que elas ocupavam grande parte do terreno.
Um tremor passou pelo meu corpo só de imaginar entrar ali. Se era difícil enxergar do lado de fora, lá dentro ia ser impossível.
–– Não vamos entrar – informou Uruha. Até parece que ele estava lendo meu pensamento... Bem que estranhei o fato de estarmos contornado o edifício, indo para os fundos.
–– Então para onde vamos? – arqueei a sobrancelha, curioso. Não havia nada ali. Nada visível, pelo menos.
Andamos mais um pouco até pararmos em frente a uma moita alta, que foi retirada por Uruha, revelando uma porta dupla de ferro – de aspecto duvidoso – incrustada no chão.
–– É aí o seu grande esconderijo secreto? – observei que porta nem cadeado tinha. – Que decepção!
–– As aparências enganam, meu chapa.
O loiro deu três batidas na porta e, com um “click”, ela destrancou.
–– Primeiro as damas.
Ignorei o comentário e olhei para além da porta. Estava um breu total. Fitei Uruha, desconfiado, e recebi em troca um sorriso aberto e encorajador.
Pisei no primeiro degrau de metal, suspirei e comecei a descer. Quando cheguei ao último, as luzes se acenderam num rompante – deixando-me cego momentaneamente –, e revelando um extenso corredor.
Lá no final, uma figura mínima aparecia acenando.
Arregalei os olhos ao notar a tonalidade de seus cabelos: loiros, quase brancos.
Ah não!
Notas finais
E lá vem aquela perguntinha que sempre aparece nas notas finais: Reviews?
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