Separados Pela Profecia
42 40- Você falhou como líder.
Notas iniciais
POV Sam
O céu azul claro de meio de manhã iluminava o telhado de uma casa em que eu havia subido para ter um momento de paz. Era um dia calmo, mas o Martin estava me infernizando.
No mesmo dia em que desafiei os rebeldes da Quarta Coorte, o Logan veio até mim, falando que alguns os legionários de sua Coorte vieram pedir desculpas para ele e para a Katharina, o que alegrou muito o meu dia. Também disse que somente cinco guerreiros ainda se recusavam a aceitar as suas ordens, entre eles a Eduarda e o Pablo, o que eu já imaginava. Dificilmente eles iriam engolir o orgulho deles rapidamente, mas como agora já era uma minoria, eu esperava que logo eles cedessem.
Naquele mesmo dia, quando eu finalmente entrei no meu quarto, batendo a porta de raiva, porque o Martin havia tido mais um ataque de ciúmes encontrei dois pedaços de pergaminho dobrados, um sobre o outro, em cima da minha cama.
Sentei-me na mesma e peguei um deles, curiosa. No primeiro que eu abri, encontrei uma caligrafia visivelmente masculina em tinta preta. "O motivo foi um erro meu. J." era o que estava escrito. Então me lembrei de que havia pedido para os centuriões da Quinta escreverem o motivo de não se darem bem.
O papel do Jonathan havia sido colocado sobre o da Cinthia com cautela e carinho, era perceptível, pois não havia sinal algum de que o outro fora movido ou de que o ato tenha sido feito com raiva. Peguei o pergaminho de Cinthia com calma e o abri. O que ela escreveu foi muito menos esclarecedor.
"Encontre-me no Coliseu ao cair da noite". É claro, havia escurecido e eu estava exausta, mas eu sou uma Pretora não sou? Levantei-me da cama com relutância e fui até a porta arrastando os pés.
— Que os deuses me ajudem. Não sei se duro muito tempo em uma batalha se continuar dormindo pouco. — reclamei, saindo do quarto sem arrastar os pés.
Tentei fazer o caminho até o Coliseu se tornar mais rápido, entretanto, quanto mais rápido eu andava, mais longo o percurso se tornava. Ao chegar, finalmente, a entrada do Coliseu, a encontrei sentada com a cabeça escondida entre as pernas em um banco onde os legionários sentavam para descansar. Nessa posição ela se tornava menor do que era.
Aproximei-me dela, porém, mesmo ao seu lado, ela não me notou, de tão perdida em pensamentos. Coloquei a mão calmamente sobre seu ombro, me obrigando a ser calma. Ela pulou no banco colocando uma mão sobre a espada em sua cintura e a outra no peito.
— Desculpe, não quis te assustar. — disse, me sentando ao seu lado. — Então, o que você quer conversar?
— Pretora... — ela começou, fez uma pausa, suspirou e escondeu o rosto entre as mãos. — Você queria saber o que aconteceu e eu vim te explicar. Só tenho que lhe avisar que a história é meio longa. — ela diz, terminando a sentença olhando diretamente em meus olhos.
— Tudo bem. — digo. — Porém, antes, quero te avisar que faz muito tempo que eu não tenho uma boa noite de sono, então, me desculpe se começar a bocejar. — sorrio e ela retribui.
— Eu e o Jonathan éramos namorados. Começamos a namorar um tempo depois do Martin surtar. — ela começou. — Sabe, daqui a duas semanas eu completo meus 19 anos. — um sorriso surgiu tão rapidamente quanto desapareceu. — É o mesmo dia em que começamos a namorar e o mesmo em que terminamos. Isso vai fazer três anos, e eu nunca me esqueci de nenhum detalhe daquele dia. Havíamos combinado de nos encontrar aqui, no Coliseu, à noite, dormiríamos aqui, sob as estrelas.
— Isso é proibido, certo? — perguntei com um sorriso.
— Sim, mas nós tínhamos planejado tudo, nada daria errado.
— Mas algo deu errado. — eu concluí. Ela acenou a cabeça concordando.
— Na verdade, foi uma pessoa que estragou tudo. Eu estava me aproximando do Coliseu. Queria dar um susto nele, então vim calmamente para cá, em silêncio. Quando cheguei, quem se assustou foi eu. — ela soltou um soluço baixo, me surpreendendo por estar chorando sem deixar a voz falhar. — o John estava contra a parede beijando uma garota que eu não reconheci porque ela estava de costas para mim.
— Uma garota? — perguntei confusa. — Quem?
— Primeiro eu comecei a bater nele. — ela continuou, me ignorando e com os olhos muito apertados, de onde saiam muitas lágrimas. — Eu o xinguei várias vezes e de muitos nomes diferentes, enquanto ele dizia que queria me explicar o que estava acontecendo. Eu soltei uma risada sarcástica, finalmente olhando para a garota. Eu não tinha acreditado no que estava vendo é claro. Valência dizia que era a minha melhor amiga. Foi um choque, ainda mais que ela estampava um sorriso de vitória no rosto.
Ela se levantou do banco e deu uma volta no perímetro interno do Coliseu, enquanto eu absorvia aquelas palavras. Quando ela chegou até mim, parou ao meu lado, de costas para mim.
— Eu estava consumida pela raiva, pelo ódio, pela traição. Eu quase a matei. Soquei-a até minhas mãos começarem a sangrar. Ainda não estava pensando quando me afastei, peguei uma arma do arsenal e me aproximei dela novamente. Se o John não tivesse me impedido, eu teria a matado.
— Eu estava começando a gostar do Jonathan, mas isso muda muita coisa. — eu declarei, me levantando e segurando a sua mão.
Ela se virou para mim, com um sorriso no rosto, um sorriso calmo em meio às lágrimas, me deixando confusa.
— Eu passei semanas ignorando o John, enquanto era punida por ter batido em uma das nossas guerreiras. A Valência evita se aproximar de mim, porque eu havia retomado a surra que eu tinha começado na primeira vez que a vi. Eu agradecia aos deuses por isso. O problema da Quinta Coorte teve uma grande participação do Martin também.
— Como assim? — perguntei confusa.
— Quando ele soube do que aconteceu me nomeou Centuriã. Quando o Centurião saiu da Legião, ele colocou o John no cargo de Centurião. Nós brigávamos de mais, fizemos a Coorte se dividir, e o Martin parecia gostar. — ela falava e a minha raiva dele aumentava. Não era o Martin que eu conhecia. Isso ou eu não conhecia o verdadeiro Martin.
Quando eu ia começar a falar, alguém entrou no Coliseu, chamando a minha atenção e colocando a Cinthia em defesa na minha frente, o que me espantou. Quando a pessoa se tornou visível, a Cinthia tencionou visivelmente.
O Jonathan estava entrando no Coliseu com as duas mãos para cima, em um gesto de rendimento.
— O problema é que você nunca me deixou explicar o que aconteceu naquela noite. — ele dizia se aproximando devagar, como se temesse que um movimento rápido pudesse motivá-la a atacar.
— E o que eu deveria saber? — ela rosnou, ainda com a espada empunhada.
Estava com medo de que ela fizesse algo, então interferi.
— Calma Cinthia. — falei com a mão em seu ombro, fazendo-a relaxar e guardar a espada. — Por favor, Jonathan, antes de começar, poderia me deixar fazer algo? — perguntei e ele assentiu. Soltei um assovia alto e esperei, quando senti que um dos cães metálicos se aproximava, declarei: — Cinthia, eu chamei os guardiões, assim você saberá se ele mente ou não. — ela sorriu e eu olhei para ele. — Tudo bem para você?
— Sim. Eu só quero esclarecer isso logo. — ele respondeu.
Aurum entrou no Coliseu e se colocou ao meu lado, esperando ordens.
— Aurum, por favor, eu estou cansada. Você poderia vigiar esses dois, fazendo-os dizer somente verdades? — eu indaguei.
Com um leve acenar de cabeça, Aurum, rosnou para o Jonathan, fazendo-o se aproximar mais de Cinthia, que o encarava.
Eu já havia saído do Coliseu quando eles começaram a falar, então não soube exatamente o que estavam conversando. Algumas horas mais tarde, Aurum entrou em meu quarto, apoiando a cabeça no meu colchão. Eu passei minha mão sobre sua estrutura lisa e polida enquanto sussurrava um "obrigada" e voltava a dormir.
No outro dia, me surpreendi ao entrar no refeitório e encontrar uma Quinta Coorte transformada. Eles estavam todos conversando, e não brigando, entre si, igualmente aos Centuriões. Olhei para eles, recebendo um sorriso envergonhado da Cinthia e um olhar agradecido do Jonathan. Apenas acenei e sorri indo para o meu lugar, rindo de cada olhar espantado que era lançado para a Quinta.
Porém, um problema maior começou a me atormentar mais tarde naquele mesmo dia. Fazia exatos três dias que eu não tinha notícias do Lucca ou do Possati, o que estava me assustando. Temia que eles não fossem bons o suficiente para Lupa. É claro que o Martin não tinha me ajudado nada nesses três dias. Todos os dias lembrando de que eles eram gregos e que provavelmente Lupa havia os tornado comida de lobo.
Eu estava com os olhos fechados apenas absorvendo o Sol que não escurecia a minha pele branca, quando o Guto veio correndo e gritando sem uma direção específica.
— Samantha! Sam!
— Aí, pare de gritar, eu estou aqui em cima. — gritei para que ele me escutasse. — O que aconteceu?
— É o Martin... — ele disse respirando fundo da corrida e me fazendo pular do telhado e segurar seus ombros com força. — Os gregos... Eles...
Agora eu chacoalhava seus ombros com força.
— O que têm eles? — perguntei aterrorizada.
Ele segurou minhas mãos com força me obrigando a parar de balançá-lo. Ele me abraçou e eu comecei a chorar, imaginando os seus corpos multilados com os ossos expostos em muitas partes.
— Vem. — ele disse com calma, me guiando até o refeitório, só piorando o meu estado.
Eu o acompanhava em prantos. Ele não ajudava, porque não falava nada. Eu estava preocupada até com o Martin.
Quando entramos no refeitório eu quase pulei de felicidade. O Poss e o Lucca estavam sentados no chão com as mesmas roupas que saíram daqui só que muito mais sujas enquanto o Yuri e o Martin discutiam.
— Se Lupa os aceitou, o que você tem contra eles, Martin? — o Yuri falava exaltado.
— Eles são gregos! Nossa Legião é imaculada, não precisamos de duas pestes para estragar. — o Martin retrucou, mas eu não estava prestando atenção.
Eu andava, cambaleando, para a direção do Lucca, que ainda encarava o chão, mas ao perceber o silêncio total das pessoas que me encaravam, encontrando o meu olhar. Um sorriso leve, cansado se abriu em seu rosto, enquanto eu não conseguia conter o meu sorriso "curinga" em meio às lágrimas.
Ele se levantou e andou mais rápido em minha direção, me dando um abraço muito forte, enquanto eu escondia a minha cabeça em seu peito. Eu não tinha percebido até agora o quanto eu tinha medo. Por mais que eu tentasse não acreditar no Martin, dia após dia, a sensação de que ele não voltaria preenchia cada vez mais o meu peito.
E toda essa melação de reencontro foi interrompida pelo meu caro colega de Pretoria.
— Pelo amor dos deuses, Sam! Larga esse inseto e me ajuda a colocar juízo na cabeça do Yuri! — ele reclamou.
Eu olhei para o Lucca que me lançava um olhar questionador. Mexi os lábios em um silencioso "desculpa" e me virei para o Martin.
— Tem toda a razão, Martin. Há muito tempo eu tenho um inseto me importunando. Muito tempo, mas preciso me livrar dele logo.
Antes que eu terminasse o que eu iria falar, o refeitório foi aberto mais uma vez. Eu já estava cansada daquelas surpresinhas que faziam então nem me espantei com a porta, mas sim com quem estava nela.
Octavian estava ao lado de uma garota ruiva de olhos verdes. Delfos. Atrás deles vinha Meg, Ricardo e mais alguns semideuses com camisas brancas. Octavian marchava ao meu encontro com a ruiva logo atrás.
— Olá, pequena Sam. — o Octavian me saudou, mas eu continuava encarando ele confusa. — Bom, pela sua cara, você não faz ideia do que eu vim fazer aqui. Eu fui acordado no meio da noite pelo seu avô dizendo que eu seria responsável por receber esses caros convidados aqui atrás, — ele fez um gesto indicando os semideuses de camisas brancas. — e uma velha conhecida.
— Eu conheço você. — disse sem pensar, encarando a ruiva. — No dia que eu planejava fazer uma reforma nas Coortes, você veio aqui, me aconselhou sobre os líderes para as minhas Centúrias. — todos a olhavam curiosos, e ela devolvia um olhar mais confuso ainda. — Você se apresentou como Delfos.
Ela soltou uma risadinha nervosa, como se temesse estar ficando maluca.
— Ah, não, não fui eu. — sua voz era muito diferente da qual eu estava acostumada a ouvir no corpo de Bella. — Eu sou somente o porta-voz dele, do espírito de Delfos, eu sou o oráculo. Meu nome, na verdade é... — ela foi interrompida por um Lucca relâmpago que veio rapidamente pegando ela no colo e girando ela no ar.
— Rachel! Meus deuses, ruiva! Que saudade de você! — ele gritava ainda a rodopiando.
— Por Apolo! Coloque-me no chão antes que eu coloque meu café da manhã em cima de você, Lucca! — ela reclamou esperando ele parar com a euforia.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo?! — o Martin gritou.
— Claro. — o Octavian disse sarcástico. — Marte veio até mim, esta noite, pedindo que eu recepcionasse os novos membros da Legião e lembrasse a todos que a iniciação de Lupa não deveria ser comentada.
— Pera, você está dizendo que a Rachel passou pelo mesmo que eu? — o Poss perguntou.
— Não, cada legionário passa por uma iniciação diferente. E elas não devem ser comentadas, jamais. — eu declarei. — Continue a explicar Octavian, por favor? — pedi.
— Foi o que fiz. Ele também pediu para mandar um recado para você, Pretora. — ele falou e eu assenti, indicando que ele falasse. — Ele disse que a você foi concedido o direito da troca e que se não fosse aceito o que foi declarado o posto deve ser retirado.
Ele falou confuso, como se não soubesse o que significava, mas eu e o Martin sabíamos.
— Sam... — o Martin começou, mas eu o interrompi.
— Eu te avisei... — minha voz era magoada. — Martin Alexandre Vittori, a você foi imposto somente a aceitação dos novos legionários. Dias se passaram, mas a sua atitude ainda é a mesma, e o que lhe foi imposto não foi cumprido.
— Samantha, não ouse... — ele disse, mas eu o ignorava sempre.
— Essa Legião precisa de líderes neutros e que saibam superar todas as diferenças. Você não está sendo nenhuma das duas necessidades. A partir de hoje, de agora, você não é mais o Pretor desta Legião, você poderá ir remover seus pertences das acomodações da Pretoria. Tem até o final da noite. — terminei minha fala, enquanto minha Legião me encarava com a boca aberta e o Martin me olhava com um olhar assassino.
— Você me paga. — ele sussurrou ao sair esbarrando por mim. Eu só suspirei feliz por remover um dos fardos que estavam sobre meus ombros.
— Ótimo, estou sem Pretor. — então eu passei os olhos por quem me cercava deixando meus olhos se fixarem no Yuri. — Se bem que...
— Ah, não! — ele reclamou e eu sorri.
— Legião! Seu Pretor agora é Yuri Danielewsk Gould, filho de Marte! Ele irá guiar está Legião com equilíbrio ou seguirá o exemplo de Martin! — sorri encorajando ele.
— Com uma condição. — ele declarou por fim.
— Condição? — o Octavian perguntou, mas sua voz estava estranha, porém eu não me importei de checar.
— Sim, o Cysne será o Centurião no meu lugar. — terminou cruzando os braços sobre o peito definido.
— Claro! O Cysne será ótimo. — eu disse sorrindo, olhando para ele que estufava o peito.
— Ótimo! — três vozes iguais ecoaram pelo refeitório ao mesmo tempo.
Olhei para onde elas vinham e encontrei o Octavian, a Rachel e a Bella com os olhos verdes de névoa que os envolviam.
— Delfos! — eu saudei. — Um não estava bom? — ironizei.
— Eu queria uma entrada triunfal. — a voz saiu das três bocas ao mesmo tempo. — Mas como serão muitos daqui em diante, deixarei para revelar aquele dia somente no final. Agora, vamos a profecia. Lucca querido se aproxime da Samantha, por favor. — ela indicou o espaço ao meu lado, o qual o Lucca ocupou rapidamente. — Poderosos de mais juntos eles são, — Delfos disse, se aproximando de nós com os três corpos. — O supremo, o astuto e o confiante os subestimaram. — Aquelas palavras já eram conhecidas a mim, e pelo que pude perceber, ao Lucca também. — Uma decisão imatura atrapalha tudo, — eles recitaram uma parte nova, que logo foi seguida de outra. — Separados serão, unidos se vingaram.
E a névoa se desintegrou nos deixando encarar três rostos muito próximos, mais confusos que nós mesmos.
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