Separados Pela Profecia

5 4- A aula "diferente"


Quando eu acordei, me senti cansada na mesma hora. Já estava imaginando o quanto de energia eu iria gastar só pra ir à aula hoje.

Levantei da minha cama, tomei um banho, comi um pouco e escovei os dentes. Comecei a preparar as coisas para levar a Sasha pra escola, pegando um pouco de comida, sua coleira e um lacinho que era muito fofo. Chamei a Sasha porque ela ainda estava dormindo. Ela levantou, saiu para o quintal pra fazer suas necessidades, comeu e tomou água e voltou para a cara colocando a cabeça em cima das minhas pernas.

Esperta como ela, já estava sabendo que iria sair. Peguei a escova de pelos que fica em cima da minha cama e penteei o pelo, coloquei o lacinho nela e a coleira. Quando acabei, fui para a cozinha, com a mochila nas costas e a Sasha me seguindo. Lá, minha mãe tinha acabado de desligar o telefone.

–Quem era? – perguntei.

–Sua diretora. – olhei para ela confusa. – Como a aula de vocês vai ser diferente, vocês serão dispensados mais cedo.

–Eba!

Minha mãe ri, mas eu continuo animada. Ela termina de comer e ajudo-a a arrumar a cozinha. Prendemos a Sasha no banco de trás e vamos para a escola. Chegamos rapidamente lá. É como se fala, a primeira vez que se faz um percurso ele se torna grande, depois vai diminuindo. Quando paramos na frente do colégio minha mãe perguntou:

–Como você vem pra casa?

–Vou a pé, mãe... – sorrio e olho para a Sasha. – Assim a Sasha já dá um passeio.

Ela abana o rabo e lambe a bochecha da minha mãe, que ri. Ela me ajuda a tirar a Sasha do carro e a colocar a guia. Dou um beijo nela e combino de fazer o jantar.

Entro na escola e vou direto pra sala. Dessa vez ninguém esbarra em mim. A Sasha está toda calminha, muito fofa. Chego à sala e vejo que todos têm animais pequenos, ou seja, a Sasha é a maior. Pouco me importa, afinal, continua sendo o meu bebe.

O professor de história, o que pediu pra nós trazermos os animais, entrou na sala e comunicou que a aula seria somente com ele hoje e seriam somente três turnos. Pediu para nós nos dirigíssemos ao pátio aberto. Eu não sabia onde era então só fui atrás do fluxo de alunos da minha sala.

Chegamos lá e todos se sentaram na grama e eu fiz o mesmo. Comecei a ver os animais enquanto o professor fazia a chamada. Tinha pássaros, peixes, tartarugas e até... EU NÃO ACREDITO! Tinha um menino com um monte de formigas!

–Samantha? – chamou o professor.

–Aqui! – levantei a minha mão.

Naquele instante pude jurar que o vi acenar pra Sasha, mas quando olhei para a minha cadela ela havia encostado a cabeça no minha coxa. Deve ter sido coisa da minha cabeça.

O professor terminou a chamada e começou a explicar o que nós teríamos de fazer.

–Como não posso fazer uma aula desse tipo a não ser que tenha algum trabalho, vocês terão que me entregar na próxima aula um trabalho com a descrição do seu animal, explicar a origem dele e qual são ou se tem algum papel histórico, fazer a classificação cientifica e o porquê escolheu o nome que deram. – anotei o que ele falou no meu caderninho de anotações. – Isso para fazer em casa, valendo 50% da nota do trabalho. A outra metade será feita oralmente, aqui, na frente de seus colegas, porque em seu trabalho escrito, deverá escolher um aluno e fazer o mesmo com o animal do seu colega, explicando o porquê de tê-lo escolhido. Ou seja, todos vão vir aqui na frente, em ordem aleatória e apresentar o seu animal com os quesitos que deveram ter no trabalho escrito. – ele pegou a sua lista de chamada e sorteou um nome. – Cleber, faça as honras. – era o menino das formigas.

Não prestei muita atenção nele, eu queria escolher uma pessoa devido ao seu animal, mas formigas, definitivamente, não são atrativas. Passaram umas sete pessoas até ele sortear o meu nome.

Levantei e levei a Sasha até na frente dos meus “colegas”.

–Meu nome é Samantha e essa é a Sasha. – ela que estava sentada ao meu lado, levantou a pata e abaixou de novo. Aí como é bom ter um cão treinado. – Bom, a Sasha é um Husky Siberiano de pelagem caramelo, bem dócil. A Sasha não é um cão de pet shop. Um dia eu estava na casa da minha tia, passeando pela orla da floresta e eu vi um filhote de cachorro saindo, mancando, da floresta. Na hora eu corri e peguei o cachorro no colo e corri berrando pela minha mãe. Ela levou o cão para um veterinário que disse que o cão estava mal alimentado, desidratado e que tinha machucado a pata, mas não quebrado. Precisava de cuidados especiais. Minha mãe sempre ri de mim quando diz que eu olhei pra cadela com tanta pena, que ela foi obrigada a adotar ela. E eu não escolhi o nome. Quando a cadela saiu do consultório, eu percebi que ela tinha uma coleira com o nome, somente o nome, de Sasha. Como eu gostei do nome, deixei de Sasha mesmo. Fiz uma pesquisa do nome dela há algum tempo. O nome dela vem do russo Sacha e significa guerreira. – olhei para o professor. – Algo mais?

–Não, está ótimo!

E me mandou sentar chamando o próximo. O menino que esbarrou em mim.

–Lucca?

Ele levantou, com um peixe na mão.

–Bom dia, meu povo! – disse sorrindo. Deus! Como não reparei que ele era lindo? Pera! Eu reparei sim. Mas sorrindo fica mais lindo! – Bom esse é Chama. Ele é um peixe! E eu o comprei num pet shop, mas não sei que espécie que é. Eu fui num pet shop o achei bonito e comprei! Essa é a história dele. – o pessoal começou a rir. – Calma! Vocês nem querem saber o porquê que escolhi esse nome pra ele? – se fez silencio mortal. – Escolhi esse nome... – fez uma pausa. – Oras, porque ele parece uma chama!

Todos riem, mas eu não consigo me controlar.

–Ele é um flame Angel.

–Como? – pergunta o professor. Todos olham pra mim naquele instante.

–O peixe. A espécie se chama flame Angel, ou anjo do fogo. São peixes com a pigmentação similar as Chama.

–E como você sabe? – pergunta o Lucca.

–É... – paro pra pensar. – Eu não gosto de peixes, eles são do mar no geral. E eu tenho pavor de água, mas ele é um peixe muito lindo, é o único que eu admiro a única salvação da reputação do mar, em minha opinião.

–Que bom! – Lucca olha para o peixe. – Agora sabemos que você é um flame Angel!

Todos começam a rir, mas o professor continua me encarando. A Sasha, vendo que eu estava nervosa, lambeu minha bochecha e deitou na minha coxa, pedindo carinho.

Depois que o menino sentou e o professor chamou o próximo, as coisas voltaram a ficar calmas. Depois que todos terminaram o professor nos dispensou.

Peguei as minhas coisas que eu havia espalhado no chão, a água da Sasha e a comida também. Guardei tudo e percebi que todos já tinham ido, menos o professor e o Lucca.

–Samantha, certo? – perguntou o professor.

–Sim? – respondi.

–Gostei da sua cadela, linda ela.

–Obrigada, professor. – sorri.

–Ei! – chamou o Lucca. – Como você sabia a espécie dele?

–Quando eu era pequena, eu quase morri afogada numa praia perto da minha casa na praia. – expliquei. – Minha mãe me levou ao um hospital e os médicos disseram que os danos psicológicos seriam permanentes, ou seja, fobia de água. No meu aniversário de sete anos, os irmãos do meu pai, que eu nunca conheci, quiseram fazer eu me apavorar com peixes. Encheram um colchão de água com esses peixinhos e água. Os parentes do meu pai não gostam de mim. – falei. – O efeito foi contrário. Comecei a amar esses peixes...

–Você sabe o nome do seu pai? – perguntou o professor.

Não sei qual o motivo de tanto me perguntarem, mas eu não conseguia ficar sem responder.

–Não, meu pai sumiu quando eu nasci. Minha mãe diz que ele não podia ficar, mas eu não acredito nisso. Ele me abandonou, ele nunca me quis.

Comecei a chorar ali mesmo, ninguém se importou. A Sasha veio e se encostou a mim como sempre. Meu único consolo em momentos como esse.

O Lucca se abaixou, colocou a mãe no meu queixo e me fez olhar bem nos olhos dele.

–Já passei pelo mesmo que você, mas acredite ou não, eu superei.

–Não consigo. – falei baixo. – O passado sempre volta. Você não pode ignorá-lo, faz parte de você.

Soltei-me dele, peguei a guia da Sasha e saí de lá. Andei até alguém me chamar. Virei para trás e vi o Lucca correndo.

–O que foi? – perguntei quando ele me alcançou.

–Desculpa se eu falei alguma coisa que te magoou. Eu só queria ajudar. – respondeu.

–Olha... É Lucca certo? – ele faz que sim com a cabeça. – Então, acho que você não tem a mínima do que eu passei, ou seja, não tem como me ajudar. O máximo que pode fazer é olhar. Se nem médicos conseguiram, como você vai me ajudar?

–Eu já passei pelo mesmo que você... – falou ele, baixinho.

–Ah, passou? – A Sasha já estava ficando nervosa, assim como eu. – Você já foi expulso de 21 escolas? Foi abandonado pelo pai? Tem uma família que te odeia porque você só traz problemas? – ela faz que não com a cabeça. – Foi o que eu imaginei.

Voltei a andar, com a Sasha olhando para trás direto, como que se estivesse certificando que o menino não ia voltar a seguir a gente. Quando cheguei, larguei tudo na porta e fui correndo pro meu quarto, me jogando na cama e chorando... Chorando por tudo que tinha me acontecido desde o dia que fui abandonada pelo meu pai.

Depois de muito tempo chorando, eu levantei da cama e fui fazer a janta. Quando terminei sentei no sofá e fiquei mexendo no facebook. A Sasha tinha ficado quietinha desde a hora que eu cheguei em casa.

Quando a minha mãe chegou, me cumprimentou e foi tomar um banho. Enquanto ela tomava o banho, guardei o note e o material que eu tinha jogado na entrada, e coloquei as coisas na mesa.

Quando minha mãe veio pra cozinha, nós comemos. Ela me perguntou sobre a aula e eu só falei dela, nada sobre o menino nem sobre o professor, mas, mesmo eu tendo escondido tudo, ela sabia que tinha algo de errado. Porém ela nada perguntou, o que, para mim, foi um alivio.

Demos boa noite uma para outra e fomos dormir. A Sasha já estava na minha cama deitada.

“O que eu preciso é de uma noite de sono” pensei. Pena que essa noite não foi uma das melhores.

Notas finais
Sugestões? Mande um e-mail para: flame.angel@outlook.comEssa é a Sasha, ou pelo menos como eu a imagino: http://1-ps.googleusercontent.com/h/www.ondepetshop.com/wp-content/uploads/2012/08/347x269xHusky-Siberiano-Marrom.jpg.pagespeed.ic.yFCqpEC6dS.webp