Separados Pela Profecia
31 30- A decepção de Plutão e as Revelações de Marte
Notas iniciais
Eu estava me sentindo eufórica. Estava com o Martin de novo. Estava com o meu primeiro amor ao meu lado rindo comigo, de volta a minha casa, ao meu lar. No fundo dos meus pensamentos se encontrava a culpa. Eu estava sendo falsa e sabia disso. Eu tinha estado com o Lucca e agora estava com o Martin sem nem ter terminado com o Lucca. A culpa não era minha! Dizia a parte irracional do meu cérebro. A parte racional dizia: você tem que terminar com isso logo, isso é temporário, você só está frágil. Você só quer a sensação de aceitação. Você está usando-o! Eu não ligava pra essa voz.
Quando entramos no templo de meu pai o Martin ficou na entrada e eu segui para o altar. Na minha frente se encontrava uma grande estátua do meu pai com roupa de batalha e na frente um altar de ônix entralhado de todos os tipos de pedras preciosas que se encontram em seu território, com as bordas em ouro e os cálices, as bandejas de oferenda e todas as outras decorações em prata. Peguei a minha cesta e coloquei sobre um das bandejas e olhei para a estátua.
–Oh, meu pai, aceite as minhas desculpas por não vir aqui com frequência e aceita essa cesta como oferenda. – abaixei a cabeça e suspirei. Não era isso que eu queria dizer. – Olha pai, eu... Eu... Eu estou confusa. Estou com medo. Eu deveria estar feliz por estar na minha casa de volta, mas isso não acontece. Eu sei que tem algo maior pra mim pela frente e não gosto disso. Eu só... Queria uma ajuda sabe? De alguém que soubesse de tudo.
As pedras sobre o altar começaram a entrar em movimento. Depois de um tempo ela formou uma frase. Uma frase que me magoou.
Você não se ajuda. Esqueceu-se do Lucca?
Olhei incrédula para a mesa. Como ele podia dizer isso? Estava com raiva. O templo era de ônix com ouro e prata. Fui pisando com força até a porta e encontrei o Martin sentado em um degrau de prata e com os pés em um de ônix.
–Martin? – ele olhou pra mim. – Eu vou ter um surto agora, não tente entrar, por favor.
Entrei de volta e fechei a porta com raiva e comecei a berrar.
–Eu não me esqueci do Lucca! Eu sei que eu prometi que ia voltar! Mas eu nunca falei que amava ele! – gritei e comecei a socar as paredes. – A culpa não é minha se vocês resolveram me tirar daqui e apagar a minha memória. Eu sempre amei o Martin!
De repente, uma cratera se abriu no chão. De dentro dela, saiu um Plutão muito enfurecido, com uma fumaça negra que desencorajava qualquer um.
Menos a mim.
–Ah! Então agora veio me ver? Só porque eu comecei a socar as suas lindas paredes? – gritei para ele. – Eu fui afastada do meu lar por um ano! Tive todas as minhas lembranças apagadas! Isso é culpa sua!
A fumaça que estava envolta dele tomou forma de uma teia e me prendeu na parede, me elevando para que eu olhasse diretamente nos olhos do meu pai que se aproximava lentamente e com muito ódio na sua face.
–Você ainda não se lembrou de tudo! Não desafie a mim como se eu fosse um de seus amigos. Não fui eu quem quis te tirar daqui! Não fui eu que quis que suas memórias sumissem! E quando você foi embora, você mesma falou que abandonaria o Martin pra conhecer a pessoa que a aguardava! – ele falava baixo, mas cada palavra era como chicote no meu corpo.
No fundo, cada palavra que ele falava, era reconhecida como verdade dentro do meu ser. Mas eu não me lembrava.
–Você quis isso. Se não aguenta as consequências, não merece o cargo que tem. – ele terminou com a voz mais baixa.
Ele voltou para a fenda e ficou sobre ela. A teia de fumaça me soltou e voltou para ele, enquanto eu caia no chão. Logo, ele já não estava mais e não havia vestígio de sua presença.
Sentei e encostei-me à parede. Ali eu fiquei chorando de frustação por não me lembrar de tudo que tinha me acontecido antes de eu ter saído daqui, principalmente quando se tornava mais próximo do dia em que eu parti. E isso me irritava. Depois de um tempo, eu levantei e as portas se abriram, revelando uma Samantha destruída e um Martin preocupado.
Ele perguntou o que aconteceu, mas eu não disse nada, apenas o abracei e chorei. Ultimamente era só isso que eu fazia chorar. Eu estava cansada de chorar. Sentia-me extremamente vulnerável. Eu tinha que mudar isso.
Respirei fundo, sequei as lágrimas restantes com a minha mão e dei um sorriso de lado para o Martin. Ele pegou minha mão, segurou com força e me guiou até o templo do meu avô.
Não demorava muito pra chegar, principalmente depois que já se conhecia um caminho mais curto. Quando eu coloquei o pé na soleira do templo, fiquei com receio. Será que meu avô tinha me chamado e não queria que o Martin estivesse ali?
Porém, no fundo do templo, um vulto grande se dirigiu em nossa direção. Antes mesmo de ele sair das sombras, sabia que era meu avô. Quando ele se aproximou bastante, eu senti o Martin se tencionar ao meu lado. Ele se ajoelhou, colocando o peso sobre um joelho e um pé, abaixando a cabeça.
–Pai. – ele disse, usando a palavra como reconhecimento e saudação.
–Ora, ora. Meu filho levante-se, por favor. – o Martin se levantou e Marte olhou para mim. – Pedi para você vir aqui, Samantha, mas não esperava que meu filho viesse junto. Que seja. O assunto do qual vim tratar, meu filho, daqui não pode sair tudo bem? – ele simplesmente assentiu. Ele não poderia dizer não. – Vocês estão juntos?
O Martin olhou pra mim, esperando que eu desse a resposta, mas eu não olhei pra ele. Continuava a encarar o meu avô. Marte somente fez um breve sorriso e se dirigiu para o interior do templo e eu o segui com um Martin confuso atrás.
–Samantha, eu vim aqui, porque conclui a primeira parte do nosso acordo. – olhei para ele confusa. Ele não sabia que eu ainda não lembrava? – Ah, verdade, você ainda não se lembra. – ele soltou um suspiro. Ele ia voltar a falar, mas o interrompi.
–Vô... Marte, – me corrigi a tempo. – será que eu posso concluir algo primeiro? – ele assentiu e eu peguei a cesta da mão do Martin e segui para o altar do templo. Lá coloquei a cesta e falei em voz calma. – Grande Marte... Avô, me ajude, esclareça esse mistério que ronda o meu passado, que enevoa a minha mente.
–Tudo tem seu tempo, Sam. – Marte colocou a mão em meu ombro, me virando para ele. – Alguns dias antes de você sair daqui, você foi informada daquele garoto, o Lucca. – eu fiquei tensa e o Martin me olhou curioso. – Relaxe, ele não vai falar isso fora daqui. – suspirei e tentei me acalmar. – Quando você soube, Lupa veio correndo em nosso encontro aqui mesmo no meu templo, nos avisar de que seu conhecimento sobre isso atrairia a ira dos que a temem para a Legião. Então nós três fizemos um acordo. Sua parte era sair do acampamento e esquecer-se de tudo. A de Lupa era de te levar para longe, protege-la e trazê-la de volta quando fosse seguro. A minha era te devolver esse conhecimento, dar a vocês dois mais revelações sobre esse assunto aos poucos e treinar ele para cumprir o seu papel.
Ele fez uma pausa para eu absorver todas as informações.
–Bom você esqueceu-se de tudo, e só vai recuperar as suas memórias quando for seguro. Lupa te levou e te protegeu, te trouxe de volta em segurança. E a minha parte está sendo cumprida aos poucos. – ele começou a andar de um lado para o outro. – Ele está sendo treinado, por mim. E ele já tem um pequeno conhecimento sobre o assunto.
O Martin, que estava ao meu lado em silêncio, soltou um suspiro, sobre o qual eu não entendia ao que se referia. Marte se voltou ao filho.
–Estas palavras, meu filho, não devem ser repetidas. Eu me orgulho muito de você, mas não duvide de mim agora: Se alguma palavra dessa conversa sair dessa sua boca, não te considerarei um filho. Eu o matarei. – ele encarou o filho com um olhar duro e então se voltou para mim novamente. – Esta noite, após os jogos de guerra, seu leitor de augúrios vai receber um verso. Ele deve recitá-lo para a legião. Esse vai ser o primeiro de muitos. Não se sinta confusa.
E assim, ele desapareceu.
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