Separados Pela Profecia
30 29- Eu prometi voltar, não amar
Notas iniciais
Dado o aviso eu fui para o meu cantinho na 3ª Coorte, arrumei o travesseiro sobre a cama e me encostei. Ali eu comecei a pensar.
O que eu tinha feito que havia lhe dado esperanças para uma possível aproximação? Será que ele achava que esse tempo que eu tinha passado fora, eu não tinha me esquecido dele?
Lembrei-me do Lucca e em como ele ficaria chateado. Fiquei pensando em que ele estaria fazendo agora lá. Treinando? Sendo admirado por outras meninas? Estaria dando atenção? Sentia a minha falta?
Eu tinha medo de que ele tivesse se esquecido de mim, que começasse a se interessar por outras meninas e isso me assustava. Não queria que ele se esquecesse de mim. Não queria que acontecesse o mesmo que tinha acontecido comigo e com o Martin.
Sim, o Martin foi um cara especial na minha vida. Ele me ensinou tudo que eu sei, ele me treinou, mesmo tendo apenas dois anos a mais que eu. Ele foi o primeiro amor, e... Fala sério, quem esquece o primeiro amor? Só que eu sumi e ele criou ódio de mim. Quando voltei, ele me humilhou porque não estava pronto pra me rever. Esperava que eu estivesse morta. Quando presumimos que alguém esta morto e ele aparece bem vivo, em carne e osso, nos defendemos como melhor podemos. Ele me humilhou e me desprezou. Uma típica defesa de quem finge não ter sentimentos.
Pera! Como assim? Eu estou defendendo uma pilha de pedras que não tem sentimentos? Ah! Que raiva de mim! Deveria estar com ódio e não arranjando desculpas para o comportamento dele!
“Quero uma segunda chance pra poder te amar de novo”. Foi isso que ele disse. E eu daria essa segunda chance? Ele foi, na verdade é o meu primeiro amor. Eu daria essa segunda chance?
Acabei me perdendo nesses pensamentos e passando uma boa hora pensando nisso. Foi depois dessa hora que eu me repreendi. Como você ousa? Você não disse que voltaria para o Lucca? Comecei a colocar esses pensamentos de lado e a sentar na cama, quando me lembrei do pergaminho em meu cinto.
Suspirei, retirei-o e abri. No pergaminho estava escrito em latim só uma frase.
“Seu avô te espera no seu templo.”
Ótimo! Agora eu tinha que encontrar o deus da guerra, antes dos jogos de guerra e estava completamente descontrolada e agitada! Eu tenho uma sorte que chega a me assustar.
Levantei da cama, me armei e segui para o templo do meu avô. No caminho lembrei que fazia muito tempo que eu não passava no templo do meu pai. Como no pergaminho não havia horário e não expressava urgência, eu segui para o templo do meu pai. No caminho encontrei umas árvores frutíferas, para ser específica era um pé de maçã, um de laranja e um de pitanga. Pensei em fazer uma cesta, então voltei ao meu cantinho na 3ª e peguei duas cestas que estavam debaixo da minha cama.
No caminho peguei várias folhas e coloquei no fundo das duas cestas. Ao ir colher flores para enfeitar me lembrei de quando eu era menor, talvez uns sete anos, e vim colher flores.
Não conhecia nada e pedi ajuda para Reyna. Era aniversário da minha mãe. Ela fez um arranjo tão bonito que minha mãe chorou ao vê-lo. E também chorou um pouco mais ao ver o cartão que eu havia escrito com a ajuda de uma amiga de Reyna, filha de Apolo. Eu sentia muita falta da Reyna.
Quando dei por mim, estava sentada, encostada numa pedra, chorando. Ter sentimentos não era fraqueza, todos sabiam disso, mas eu me sentia impotente sem poder vingar meus amigos e isso, para mim, era fraqueza.
Levantei-me e sequei as lágrimas ao ouvir passos logo atrás de mim. Era o Martin. Meu coração começou a bater mais rápido e eu me repreendi por ele fazer isso. Tinha começado a repetir três palavras quando isso acontecia. Eu amo Lucca. Por enquanto tinha funcionado, mas até agora ele não estava na minha frente pra isso não dar certo. E não estava dando certo.
–Quer ajuda? – ele perguntou e apontou para as cestas.
Lembrei que ainda não era boa com plantas e não entendia nada disso e desabei no chão. Eu só queria a Reyna aqui para me ajudar.
–Você sente falta deles? – perguntei sem hesitar, colocando toda a minha saudade na voz. – Quero dizer, da companhia deles?
Ele olhou para os lados, como se estivesse checando que ninguém ia o ver sentindo saudade de alguém. Soltou um suspiro e sentou-se ao meu lado.
–Desde que os dois saíram em missão eu sinto a falta deles. Não tenho mais alguém que me treine, que me corrija e que me diga que vou fazer algo errado. – ele olhou para mim e deu um sorriso fraco. – Por exemplo, Jason teria me dito antes de eu fazer que o que eu fiz era uma péssima ideia. – olhei para ele confusa. – Quando você chegou, eu não deveria ter falado o que eu falei e não ter feito o que eu fiz. E quando eu fui me desculpar e... – era impressão minha ou ele estava corando. – Pedir uma segunda chance, devia ter sido mais...
–Carinhoso? – dei uma risadinha e ele riu comigo.
Eu sentia falta disso. Não podia dizer que não. Sempre gostei da companhia do Martin. Ele me fazia rir.
Depois de algum tempo já não sentia mais a falta da Reyna ou do Jason.
–O que vai fazer com essas cestas? – ele olhou de soslaio para elas aos meus pés.
–Faz muito tempo que eu não visito o templo de meu pai e nem de meu avô. Queria fazer uma visita aos seus templos e lhes deixar essas cestas. – dei uma risadinha. – Mas eu ainda não me entendo com plantas.
Ele riu da minha cara e se levantou. Quando estava firme em pé, ele falou:
–Vem cá, eu te ajudo. – e estendeu a mão para me levantar. – O que você está pensando pra cada um? Acho que eu posso tentar algo.
Começamos a colher as flores e por várias vezes ele descartou as minhas escolhas de flores e por fim eu acabava concordando come ele.
–Pode deixar assim, Martin. Ainda tenho que colocar mais coisas ai. – disse quando ele foi procurar mais flores. – Vem, eu achei umas frutas ali na frente.
Peguei uma cesta e fui andando em direção ao lugar em que eu tinha achado as frutas. O Martin estava logo atrás de mim. Quando chegamos, coloquei a minha cesta no chão e comecei a subir na árvore que tinha maçãs.
–Martin! – chamei de cima da árvore. – Fica embaixo de mim e segura as que eu jogar, pode ser?
Ele assentiu e começou a me seguir do chão. Eu estava procurando as maçãs mais vermelhas que eu conseguia encontrar e sempre que eu as jogava pro Martin, ele pegava e colocava cuidadosamente dentro de uma das cestas. Tudo bem que ele deixou cair umas três no chão, mas a maioria ele conseguiu pegar. Depois de descer da árvore de maçãs, comecei a colher algumas pitangas, já que essas estavam mais próximas, sempre as mais vermelhas.
Quando chegamos à árvore de laranja, comecei a colher as mais bonitas. De vez em quando eu dava uma escorregada e o Martin ria da minha cara. Comecei a jogar as laranjas nele por causa disso.
Era a última laranja que eu queria pegar, era a mais bonita e eu queria colocar no topo da cesta do meu pai. Eu dei um pulo, de cima de uma pedra, talvez sem prestar atenção e, com a laranja a mão, percebi enquanto descia que não ia conseguir fazer uma bela “aterrissagem”. O Martin percebeu antes de mim e foi me ajudar logo em seguida.
Quando passou na minha cabeça “uma semana de cama!” o Martin já tinha me pagado e me colocado no chão.
–Onde você estava com a cabeça, Samantha? – ele disse ofegante, com muita preocupação transparecendo na voz.
–A laranja era muito bonita. – eu disse olhando nos olhos dele.
Eu me perdi naqueles olhos pretos. Voltei ao passado. Lembrei-me dos momentos que partilhei com ele. Lembrei-me dos beijos e das fugas do nosso treinamento. Das broncas que Reyna nos dava e que acabavam em brincadeira devido aos flertes que o Jason dava nela, causando um rubor. Era uma época boa, não havia problemas e nem segredos.
Ele se aproximou de mim e dessa vez eu não recuei. Seus lábios encostaram-se ao meu e pediram passagem, a qual eu não neguei. O beijo era calmo e estava repleto de saudade. Uma saudade que era completamente correspondida. Eu me perdi no seu beijo, no gostinho de lar que ali estava escondido. Senti uma de suas mãos subir da minha cintura ao meu pescoço, fazendo um carinho por todo o caminho. A outra me puxou mais perto, intensificando o beijo cada vez mais. E eu não neguei em nenhum momento.
Comecei a abraça-lo aos poucos. Primeiro envolvi as duas mãos em sua cintura, em seguida fiz o caminho das costas a sua barriga e ao seu pescoço fazendo carinho e enroscando a minha mão ao seu cabelo. Em determinado momento eu comecei a dar atenção à voz na minha cabeça. E a promessa do Lucca? Você prometeu que ia voltar! Comecei a me sentir culpada e ia começar a me afastar quando pensei: “Eu prometi voltar, não amar”.
Foi com esse pensamento que passei a ignorar o Lucca e me aprofundar cada vez mais no beijo.
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