Separados Pela Profecia

2 1- Um novo começo


Notas iniciais
Tive que reescreve-lo, perdoem me.

12 anos depois

Hoje acordei me sentindo um pouco mais disposta. As coisas não têm estado fáceis.

Depois de trocar tantas vezes de escola, brigar com tantos professores e bater em tantos alunos, está difícil encontrar uma escola. Escolas municipais e estaduais não querem nem ver o meu nome. As particulares não me dão bolsas. As únicas que me oferecem bolsas são as para alunos com deficiências ou que tem algum problema.

Não por nada, mas o que há de errado ter dislexia, déficit de atenção e hiperatividade. São problemas comuns!

Minha mãe fez a última tentativa numa escola normal ontem. Ou seja, agora vamos para as escolas onde a sociedade me vê como problemática. Muito legal! Estou muito animada com isso!

Que merda...

O lado bom é que, devido ao meu histórico de agressão, os professores mandam os alunos se afastarem de mim, dizendo que eu sou perigosa. Tá bom! Eu confesso. Eu, às vezes, faço-os acreditarem.

Mas, me entendam. Eu nunca fui bem vinda. Em uma escola nova, ninguém me quer por perto. E quando eu consigo ficar numa por muito tempo, algo de estranho sempre me acontece. Estranho no tipo, coisas explodirem, pegarem fogo, sumirem... Coisas assim. E o mais incrível é que não importa o que eu diga, eu é que sempre causo essas coisas, a culpa de tudo sempre é minha.

É como se uma força maior sempre quisesse estragar a minha vida, de pouquinho em pouquinho.

Mas, como eu disse, eu estou um pouco mais disposta! E sim, o motivo é a escola. Pensa que divertido ver as pessoas te tratando como idiota e você consegue surpreender elas?

Não sei o que acontece comigo... Mas, quando as pessoas me subestimam eu faço elas se surpreender. Por exemplo, uma vez fui à casa da minha tia e ela falou que eu nunca me casaria porque eu não sabia nem fritar um ovo. Bom, eu me irritei e fiz o almoço e o café da tarde, tudo sozinha. O problema é que, quando isso acontece, eu não consigo me lembrar de como fiz isso.

Enfim, hoje é o meu primeiro dia de aula nessa escola. Levantei e fui para a cozinha, tomei um café básico. Voltei pro meu quarto, tomei um banho, escovei os dentes, passei um pouco de maquiagem (rímel e delineador, fazendo olho puxadinho), coloquei a minha roupa (básico: camisa preta básica, calça skinny preta e all star preto com pontas) e arrumei o material.

Minha mãe tinha levantado quando eu voltei pra cozinha.

–Bom dia, boneca. – disse ela.

A minha mãe era o tipo de pessoa que você pensa ser um anjo disfarçado. Ela é loira dos olhos castanhos muito escuros. Estatura média e um corpo maravilhoso. Ela é meiga e carinhosa, acho que todo mundo, inclusive eu, merece uma segunda chance, mesmo não fazendo por merecer.

–Bom dia, mamãe. – respondi, depois de me sentar à mesa.

–Pronta para a nova escola?

–Se eu estou pronta pra ser tratada como uma maluca cheia de problemas mentais? – olhei para ela irônica. – Claro que sim.

–Meu anjo, é para o seu próprio bem. – ela olhou pra mim com aqueles olhos grandes e castanhos. – Você sabe que são somente lugares assim que vão te aceitar agora.

–Eu sei mãe. É só que... – pensei em tudo que eu fiz. – Sei que fiz um monte de coisas erradas... Mas, sei lá, aquela escola não é o meu lugar.

–Concordo com você, meu amor.

–Mãe, você sabe que a culpa é minha de tudo que aconteceu de errado até agora...

–Não fale uma besteira dessas, mocinha. Sei muito bem que não é culpa sua, e sim de outra pessoa, que não teve consciência do que estava fazendo e só que destruir as nossas vidas...

Um trovão soou no céu, parecia que ia começar uma tempestade.

–Será que vai chover mãe?

Minha mãe resmungou alguma coisa.

–O que você falou mãe?

–Nada minha querida. – pegou as chaves do carro. – Vamos indo?

–Vamos. Só me deixa pegar a minha mochila lá no quarto.

Voltei para o meu quarto, peguei minha mochila, olhei no espelho pra ver se a maquiagem não estava borrada e desci pra garagem.

Minha mãe já estava no carro, só esperando eu entrar. Entrei no carro, coloquei o cinto e olhei para a minha mãe.

–Pronta? – perguntou ela.

–Não – suspirei – mas eu sou obrigada a estudar né?

Ela sorriu e começou a dirigir. Demoramos cinco minutos. Paramos na frente do portão da escola.

Ela era diferente das escolas normais. Era um pouco clássico. Em vez de ser pintado, ele era com pedras cinzentas e bem clareado. Era enorme! Não estou brincando! Deveria ter uns sete andares, e cada um deles deveria ter uma distância do chão ao teto de uns três metros e meio. O mais incrível era que eu adoro lugares assim.

Olhei para a minha mãe com a boca aberta.

–Que lugar mais... Diferente pra se ter uma escola né? – falei.

–Também acho... Mas fazer o que, né filha? – falou.

–Pois é... Agora eu vou entrar porque você tem que trabalhar. E eu não quero me atrasar logo no primeiro dia.

–Está bem... Mas não se esqueça do que eu sempre te falo. Não converse com pessoas que não pareçam normais, preste bastante atenção nas aulas, tente sair pouco da sala...

–E tente não brigar com os professores. – interrompi. – Mãe, eu não me esqueço disso facilmente não... Você fala isso cada vez que eu entro em uma escola diferente. E são duas por ano! Vinte e uma escolas, contando com essa, vinte e uma vezes que você fala isso...

–Eu sei, só não quero que nada de errado aconteça com você...

–Tudo bem, mãe. Aprendi a me cuidar.

–Tá bem, agora vai, se não vai se atrasar.

–Tchau, mãe... Eu te amo, tá?

–Também te amo, meu bebê. Até depois...

Saí do carro e passei pelo portão enorme que era a entrada. Eu estava acostumada a entrar na escola e ninguém perceber que eu entrei, como se eu fosse invisível. Mas ali, quando eu entrei todos olharam pra mim. Não sei se foi a minha roupa preta, mas estava desconfortável.

Peguei o meu celular, coloquei os fone e comecei a escutar músicas, tentando me distrair. Eu tinha que passar na direção pra pegar a autorização para entrar na sala, afinal, minha mãe fez a minha matricula depois do prazo, sendo assim meu nome não estava na lista de chamada.

Fui andando um pouco mais rápido que o normal, direto pra direção. Nunca agradeci tanto por ter muitas placas indicativas na minha vida!

Cheguei lá, e a porta era de carvalho negro. Quando eu digo negro, não é aquele marrom escuro dos móveis. Negro, tipo, preto mesmo! Essa porta me deu muitos calafrios...

Respirei fundo e entrei, com o pensamento que a direção era mais convidativa do que a porta. Eu estava completamente enganada!

Você já viu a imagem de um calabouço? Pois é, o lugar era um calabouço! Limpo, mas, ainda assim, horripilante...

Respirei mais fundo ainda, dessa vez, imaginando as salas como câmaras de tortura.

Tinha uma mesa e nela tinha uma moça, bonita até, que estava separando uns papeis. Fui até a mesa dela. Quando eu estava bem na frente da mesa, ela levantou a cabeça e olhou pra mim. Ela era mais bonita ainda olhando o rosto. Os olhos eram de um castanho claro, tão brilhante, que pareciam mel.

–Posso ajudar? – disse ela, sorrindo.

–Sou aluna nova, queria saber a minha sala e pegar a autorização para poder assistir as aulas. – disse um pouco tímida.

–Seu sobrenome?

–Loccatelli, dois “c” e dois “l”.

Ela se virou e procurou alguma coisa naqueles guarda–arquivos. Abriu uma gaveta e tirou uma pasta, com o meu nome. Ali dentro tinha uma grade semestral e a autorização para eu entrar na sala.

–Mostre esse papel aos professores – ela me deu a autorização – e esse aqui são as suas aulas. – me deu o outro papel.

–Obrigada.

–De nada.

Saí da sala o mais rápido que pude. Aquilo era muito estranho. Em algum lugar tocou um sinal. Não era um sinal comum, era um sinal melancólico, somente três notas, bem graves.